domingo, 19 de agosto de 2018

Como ele hesitou...


Curioso seria perceber se Carlos Xistra marcaria aquele penalty caso não tivesse apitado aquele outro a favor do Belenenses. Trata-se, contudo, de uma pergunta retórica. Todos os portistas saberão a resposta...

E lá foi ele ver o monitor, ao minuto 92. Viu uma, duas, três, quatro, dez, quinze vezes e, muito a custo, lá apitou para a marca dos 11 metros.
Alex Telles - quem mais, para um momento como aquele? - com toda a sua categoria e sangue frio, recolocou justiça no marcador.

E tudo parecia fácil quando, poucos segundos na segunda parte, Otavio fez o 2-0, num lance em que, com um misto de inteligência e rapidez, aproveitou da melhor maneira um arriscado atraso do um jogador contrário.
Na altura, dois golos de vantagem pareciam almofada mais que suficiente para conquistar a segunda vitória em outras tantas partidas, mesmo após um primeiro tempo sem grande brilhantismo da nossa parte, onde apenas duas acções dos nossos mais jovens jogadores em campo, causaram mossa na defensiva lisboeta: um bom cabeceamento de André Pereira com a bola a embater na trave e outro, ainda melhor, de Diogo Leite, a facturar após canto de...nem é preciso dizer quem.

Só que, em Portugal, existe sempre o factor-A. O factor-arbitragem.
Do nada, apareceu um penalty a favor dos de Belém (ou melhor, dos do Jamor). Parece que por "posição natural dos braços", os árbitros entendem "braços junto ao tronco". Só mesmo de quem nunca jogou futebol. Ou melhor, só de quem, no fundo, não gosta assim tanto de futebol e não o entende.
A nossa equipa tremeu, claro. O que já não estava fácil, pior ficou e não mais passaríamos do nosso meio-campo (sim, a relva prendia e estava muito calor, mas não só...).
Ninguém ficou, pois, muito surpreendido quando surgiu aquele 2-2, que parecia final para as nossas aspirações.

Só que, ironia do destino, o que o "dream-team" Xistra/Capela não contaria era com aquele penalty nos descontos e, por uma vez, não dava mesmo para não marcar. Não o fazer, após aquele outro oferecido ao Belenenses, até no país dos "padres", toupeiras e "vouchers" seria por demais.

sábado, 11 de agosto de 2018

De volta à linha de partida

O FC Porto inicia hoje mais uma participação no campeonato nacional. Ao contrário dos últimos anos, parte de uma posição mais confortável que os demais concorrentes: é o campeão em título (e já amealhou mais um troféu). Mas este "conforto" pode não configurar uma vantagem. Há um ano atrás, tínhamos um treinador novo (e sem certezas sobre a sua capacidade); uma equipa sem contratações  de relevo por causa do fair-play financeiro da UEFA - apenas um guarda-redes (inútil) - e um par de pretensos reforços na figura de jogadores regressados de empréstimos. Estavamos longe de ser vistos como favoritos. No entanto, dispondo de uma garra que há muito não se via, e com a felicidade de os "emprestados" se revelarem verdadeiros reforços, conquistamos o título de forma justa e inequívoca.


Alguns meses passados desde essa conquista, encontramo-nos porém, e contra (todas?) as expectativas, numa posição idêntica há de um ano atrás, quiçá ainda mais frágil. Perderam-se dois jogadores titularíssimos e importantes na conquista do título - Marcano e Ricardo - com as suas saídas a serem colmatadas com jogadores novos (e sem garantia de que estarão à altura do desafio, como é natural); perdeu-se também o factor surpresa e como campeões, somos o alvo a abater (mais do que o habitual); não há grande possibilidade de os jogadores regressados de empréstimo, virem a ter semelhante impacto a aquele que tiveram na época passada. Em paralelo com a época passada, perderam-se também jovens promessas, que poderiam trazer sangue novo e aumentar o leque de opções.


Neste aquecimento antes do tiro de partida, Marega está na ordem do dia. Sobre ele, há que dizer que, sem que ninguém o esperasse, se revelou (para mim) o jogador-chave para a vitória no campeonato. Nos últimos anos, é nos jogos contra as equipas "pequenas" mais do que nos jogos contra os "grandes" que se decide o título, e foi precisamente nos primeiros que o Marega brilhou. É um jogador que soube conquistar a admiração dos adeptos, e pessoalmente gostaria que ficasse. No entanto, o valor acima do qual a sua transferência é "obrigatória", é discutível, mas tranferi-lo por 30 milhões, não é um mau negócio... se a sua "rendição" estivesse acautelada. E não foi. Neste momento o Porto, de novo sem contratações de relevo, arrisca-se a ter nas suas fileiras um jogador desmotivado (ou um nada menos empenhado, o que para alguém com conhecidas debilidades, não é coisa pouca), porque não tem quem o substitua.


Ninguém estava à espera de facilidades, mas as adversidades são mais que muitas, e incluem até lesões - Soares está novamente lesionado no início da campanha; Mbemba já tem mais tempo de "estaleiro" do que de treino. Talvez a pressão de ser campeão seja melhor (e menor) do que a de não ganhar há vários anos, mas não há certezas sobre isso. Sérgio Conceição já tem o seu nome inscrito na história do Porto, quanto mais não seja, por ter sido campeão nas condições mais adversas de que há memória. Como "encore", o desafio que se lhe apresenta, é repetir o feito em condições ainda mais difíceis.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Ainda se roubam Igrejas

Enquanto há um clube saudita disposto a comprar um jogador que tem problemas crónicos - seja de costas, seja de injeções - e todos assobiam para o ar, mais interessados num jogador do Porto que não foi convocado - e que não fez falta, bem pelo contrário - em mais um título conqusitado, lá apareceram pela calada os do costume. Como é habitual em quem caminha nas sombras do poder, silenciosamente e de forma matreira, chegam noticias sobre um tal de Varandas Fernandes a exigir, através do clube que representa, que todos deviam caminhar nus e expor a sua cor clubistica, seja o órgão ou o cargo que representem, a bem da paz no futebol e da serenidade. A paz e a serenidade. Conceitos que ditos por alguém que trabalha numa instituição com uma claque ilegal que tem o único histório de assassinatos em Portugal, de quem está envolvida em distintos processos judiciais por uma série de possiveis actos de corrupção activa e que, aproveitando um momento de caos do seu rival local (quem sabe se não sendo igualmente instigador do mesmo) simulou um estatuto de grandeza de que carece para tentar dar uma bicada que nem arranha, não deixa de ter a sua piada.

Está claro que a esta altura, depois de tantos emails, há uma série bastante grande de nomes, sejam dirigentes, jornalistas, comentadores, árbitros, auxiliares, delegados e membros de orgãos sociais que não necessitam de enviar a sua resposta a Varandas Fernandes porque todos já sabemos da sua inclinação. Por muito que, apesar de tudo, se tente processar o FC Porto por divulgar os possiveis crimes cometidos, porque numa semana é tudo falso e na outra é tudo invasão da correspondência privada. Como se Al Capone tivesse processado a polícia de Chicago por ter tido acesso ás conversas em que mandava matar mafiosos rivais, no que eram afinal, conversas entre cidadãos privados. Capone, que até acabou por ser preso e condenado por tudo menos por assassinato, estaria orgulhoso, sem dúvida, de que alguém continua a tradição de disparar e culpar todos aqueles á sua volta. O disparo, esse, nunca existiu da mesma forma que exigir a outros aquilo de que se carece - ou ainda pior, daquilo exactamente que se pratica, negando a realidade - vive a meio caminho da Chicago dos anos 20 e das ideias literárias de George Orwell e Aldous Huxley na década seguinte, uma nova lingua que quer apagar o passado para controlar o futuro. O que não aconteceu não aconteceu por muito que tivesse realmente acontecido e daqui a uns anos ainda teremos personagens a dizer que nem sequer sabem o que é um email ou um padre, palavras banidas do vocabulário por incomodar as orelhas, que não os ouvidos, do grande lider. Aliás, tendo em conta o que aprendemos do dominio do idioma português desse personagem, talvez o melhor é mesmo banir todas as palavras e passar-mos a comunicar-nos directamente por grunhidos. 

O curioso no meio disto tudo é que Portugal continua a ser um oásis de loucura num mundo aparentemente são onde vemos diariamente milhares de pessoas a denunciarem loucos como Donaldo Trump ou instigadores de fake news como Boris Johnson ou Nigel Farage. Em Portugal não. Em Portugal reina o silêncio e apesar de estar na rua, disponivel para todos em diferentes formatos, o acesso á informação, desde adeptos com voz a jornalistas com carteira, não há quem pegue em declarações como esta - e tantas outras da cartilha propagada - e não a contraponga com factos e evidências para denunciar que o rei vai nu e há muito tempo que não toma sequer banho pelo cheiro fétido que emana dos esgotos do poder. Esse silêncio, parte de uma politica transversal, tem encontrado uma pequena resistência no FC Porto, resistência que tentam minar seja com suspensões de agentes activos na denúncia, no silenciar institucional do clube ou, pura e simplesmente, no lançamento de noticias cá para fora que entretêm o povo com o seu pão e circo e desviam o olhar do que realmente importa. Afinal, que importa que exista um clube investigado activamente por corrupção que exige limpeza a todos aqueles que gravitam no futebol português, quando o Marega não é convocado porque o treinador considera que tem a cabeça noutro lugar (pasmem-se, em plena época de transferências). Imaginem era se não treinasse porque lhe doía as costas e podia haver alguém á espera dele no fim do jogo para levá-lo a uma sala onde convinha que não entrasse.



Mas afinal, quem diabos é ou pensa que é o Sport Lisboa e Benfica?
Dentro de uma estrutura em que compete, como centenas de outras, nos quadros futebolisticos nacionais (e noutros desportos), o Benfica é ou melhor, vale, o mesmo que o Ronfe, o Infesta, o Campomaiorense ou o Passarinhos da Ribeira, para a Federação Portuguesa de Futebol e que o Moreirense, Famalicão ou Olhanense para a Liga. É um entre muitos. Par entre pares. Não é, não foi e por muito que lhe custe, nunca será, um primus inter pares. E esse é o grande problema estrutural do futebol português, a existência de uma instituição que quer ser - através do controlo, a distintos niveis - o primeiro, o supra-sumo e o líder de uma relação horizontal de instituições onde todos deviam partir do mesmo ponto para chegar á reta final de cada ano pelos seus méritos.

A campanha hooliganesca da cartilha encarnada, a mesma que há quase uma década tenta adoutrinar o pensamento geral utilizando como eco os meios de comunicação que se vergam á sua influência - seja através da aceitação de comentadores ditos independentes mas com ligações directas e controladas á casa mãe, seja através da sua vergonhosa linha editorial - tem um objectivo claro. Calar os dissidentes, impor uma nova-lingua de tipo fascista e manipular os eventos que se passam dentro e fora de campo para dar uma sensação de pureza virginal. Em Itália, um país corrupto como poucos em todos os sentidos da sociedade - recomendo a leitura de livros como Forza Italia do irlandês Paddy Agnew para entender até que ponto essa realidade é transversal - mesmo assim nunca houve medo ou uma ditadura de uma instituição sobre as outras e gigantes como a Juventus ou o AC Milan, entre vários, já conheceram o sabor da despromoção por corrupção sem que isso tivesse barrado a justiça de cumprir com o seu cometido. Essa coragem que sobra aos italianos falta aos portugueses e à medida que se vão publicando mais e mais revelações do que, a principio, parecia apenas uma fuga de informação e que teve o primeiro eco no Universo Porto de Bancada - e todos ficarão a dever um pouco a Francisco J. Marques e a sua equipa pelo trabalho desenvolvido no intuito de varrer o lixo que meandra no futebol nacional - vai-se entendendo o porquê.
Uma vez mais a noticia de um cartilheiro, gente sem espinha, disposta a tudo por orbitar à volta de um rei sol com um passado judicial nas mãos, sobre a perseguição quase stasiesca a membros de distintos orgãos desportivos vem apenas recordar que há um Estado dentro do Estado e um Estado com tintes policiais e fascistas que não olha a meios para obter fins.

Se acham que cada vitória em campo dos homens de Conceição é um golpe nas ambições deste Polvo, acham bem. Se acham que é suficiente e que o importante é discutir temas internos (que também devem ser discutidos em todos os sentidos) e relegar para um segundo plano tudo aquilo que mexe, e muito, neste jogo de trontos, acham mal. Ganhar desportivamente ajuda mas não resolve nada se a batalha, que é real, não for travada em todas as frentes e se a atitute dos adeptos portugueses - e aos portistas deveriam somar-se o de todos os outros clubes porque todos saem directamente prejudicados por este Polvo - não for de união.
De bloco e de fazer frente a um monstro e aos seus distintos tentáculos, comunicação social incluida. Os resultados em campo só servirão para tapar o sol com a bananeira porque continuará a haver quem se ache com direito a policiar a vida de outros, a condicionar resultados, análises, criterios disciplinares, promoções e traços que só podemos encontrar em estados ditatoriais. O FC Porto não se fez grande por acaso depois do 25 de Abril. Agora que fica claro que o regime de Abril se converteu numa nova versão hiper-centralizadora entregue aos interesses da capital e de quem gravita à sua volta, com o Benfica como um dos eixos principais, urge lutar por outro 25 de Abril. Nunca, como hoje, as palavras do mestre Pedroto fizeram tanto sentido.

"É hora de acabar com os roubos de igreja"

domingo, 5 de agosto de 2018

A tinta vermelha do polvo

Sérgio Conceição protestou e foi expulso (foto: O JOGO)

«Sérgio Conceição foi expulso e, por isso, não falou no final da partida. O treinador do FC Porto foi a segunda vítima de um critério estranho de Luís Godinho no que toca a expulsões: em janeiro de 2017, o árbitro foi contra Danilo e mostrou o cartão vermelho ao médio português; ontem, Herrera sofreu uma falta, ficou com a cara neste estado (…) e na sequência do lance Sérgio Conceição recebeu ordem de saída. Vá-se lá perceber…»
in ‘Dragões Diário, 05-08-2018


Estranho?
O critério disciplinar do senhor Luís Godinho não teve nada de estranho.
Pelo contrário, foi aquilo que se esperava de um “padre”… perdão, de um árbitro desta estirpe.
E a agressão (impune) a Herrera foi, apenas, mais um lance, no meio de um festival de cacetada, a lembrar os tempos da “canela até ao pescoço”.

Herrera atingido no rosto (fonte: Tribunal de O JOGO)

Aliás, logo aos 28 minutos, um dos melhores jogadores do campeonato português foi cirurgicamente “arrumado”, mais uma vez com a complacência do senhor Godinho.

Amilton "arruma" Brahimi de forma impune (fonte: Tribunal de O JOGO)

Brahimi não perdoa lesão provocada por Amilton (fonte: O JOGO)

Perante a autêntica escandaleira que se viu ontem em Aveiro, aquilo que me surpreendeu foi a contenção do Sérgio Conceição, que aguentou, estoicamente, 57 minutos até explodir.
Mas, perante uma agressão de um defesa do Aves, em que o árbitro nem sequer falta marca, só um manhoso, sem intestino delgado é que não reagiria.

Sangue no rosto de Herrera

O “polvo” continua vivo, dentro e fora das quatro linhas.
Luis Godinho e os seus assistentes demonstraram-no dentro do campo.
O ‘Correio da Manhã’ demonstrou-o, mais uma vez, na sua capa de hoje.

A "tinta vermelha" do Correio da Manhã

domingo, 29 de julho de 2018

Conceição, Jesus e as previsões de José Eduardo Simões

José Eduardo Simões e Sérgio Conceição (foto: Record)

José Eduardo Simões (ex-presidente da Académica) conhece bem Sérgio Conceição…

«O acórdão do Conselho de Justiça (CJ) que mantém a suspensão de 50 dias a Sérgio Conceição, aplicada na sequência dos insultos dirigidos ao árbitro Bruno Paixão e a José Eduardo Simões durante o Sp. Braga-Académica de março de 2015, revela vários pormenores dos relatórios de árbitro, delegados e polícia que ajudam a perceber o que aconteceu.
Assim, nos "factos provados", é descrito que "aos 22 minutos da primeira parte (...), José Eduardo [Simões], dirigindo-se a Sérgio Conceição, disse 'ò filho da p..., vai trabalhar'". (…)
Já no túnel de acesso aos balneários, Conceição "agarrou José Eduardo Simões, chamou-lhe 'filho da p...' e disse-lhe 'paga o que deves'", pode ler-se ainda nos "factos provados" do acórdão.»


Hoje, no jornal O JOGO, José Eduardo Simões escreve o seguinte:

«Sérgio Conceição é um exemplo de capacidade de trabalho, de talento e de ambição. Sabe treinar qualquer equipa; é um óptimo treinador de jogo; sabe valorizar activos perdidos; e mostrou capacidade para apresentar resultados com meios algo escassos face aos da concorrência. Tem objetivos muito claros. Ele quer conquistar títulos europeus e não apenas nacionais. Pretende ter no currículo pelo menos o que Artur Jorge, Mourinho ou Villas-Boas alcançaram. E quer ter condições para poder alcançar rapidamente esses objectivos. Se as não tiver, sairá do Porto e de Portugal no final da época. Não sei por que razão, mas vejo escrito nas estrelas o regresso de Jesus no final desta temporada, mas o equipamento que virá usar não será vermelho nem verde


Não conhecia os dotes de Zandinga do ex-presidente da Académica.
Pois bem, fica aqui, para memória futura…

domingo, 22 de julho de 2018

Um adeus que tarda

Nota prévia: este texto foi escrito pouco depois da conquista do título; entretanto deu-se o caso de Alcochete e os nossos problemas até nem pareciam assim tão graves. O problema é que depois da poeira assentar, percebe-se que os problemas são inegáveis e não vão desaparecer com o tempo.

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Após quatro longos anos de travessia do deserto, encontramos finalmente o messias que nos guiou de volta à "terra prometida". Aqui chegados, talvez esteja na hora de olhar para trás e pensar no quão fortuita foi essa descoberta, e acima de tudo, como poderemos evitar futuras travessias - uma pista: não adorar falsos deuses.


Para quem já não estiver relembrado, o Sérgio Conceição não foi a primeira escolha para a "dança de cadeiras" em que se transformou o banco do Porto - foram 5 treinadores em 5 anos - mas a 2ª ou 3ª escolha depois do Marco Silva, o inútil que achou não ser possível lutar pelo título com os jogadores que teria à disposição - rapaz, deves estar a sentir-te muito estúpido...! O Sérgio Conceição foi, portanto, um incrível golpe de sorte. O mesmo que avaliar a montra de electrodomésticos do Preço Certo em 10 euros... e mesmo assim acertar. Só que a sorte não dura sempre; e quando ela faltar, outros factores entram em jogo como a dedicação, o profissionalismo...

É por isso que, neste momento de grande alegria e euforia, se impunha que esta direcção, completamente esgotada e sem mais para oferecer, aproveitasse a porta que o Sérgio Conceição lhes entreabriu, e saísse de cena. Com eterna gratidão por tudo o que fez de bom... mas sem esquecer que há 5 anos deixaram sair um treinador campeão - e viu-se como eles são fáceis de encontrar; atolaram o Clube em dívidas a ponto ficar sob vigilância da UEFA, e de forma completamente passiva, deixaram que o tal "polvo" tomasse conta de tudo, comendo e calando. Só um elemento novo, alguém vindo de fora, poderia retirar o Porto do atoleiro; com quem já cá estava, nunca se poderia contar... porque foi quem já cá estava que levou o Porto a esse mesmo atoleiro.


A pergunta que se impõe é: o que é que esta direcção tem para oferecer? E a resposta é simples: nada. Nada do que esta direcção fez nos últimos 5 anos foi extraordinário, excelente ou sequer a um nível compatível com a experiência acumulada. Em desespero, contrataram o primeiro treinador que disse "sim". Contratações não houve porque não há dinheiro. É isto o melhor a que o Porto pode almejar? Eu não acredito. Nem aceito.

Haja consciência de que tudo tem um fim. O desta direcção já chegou (há algum tempo). Aproveite-se a oportunidade para sair (merecidamente) pela porta grande. E para virar a página. O próximo deserto está aí à porta. Se nada mudar, engole-nos.

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Como é óbvio, a janela de oportunidade para o tal virar de página, esgotou-se, mas o pior é perceber que nada mudou. É neste momento mais provável perdermos o treinador, do que assistirmos a um esforço consciente para evitar erros recentes. Ainda há tempo para emendar a mão, mas fica claro que esta Direção não consciência do que fez mal, e como tal não tem qualquer interesse em mudar de rumo. O Porto não precisa de um presidente-adepto, mas seguramente também não precisa do presidente que tem actualmente.

domingo, 1 de julho de 2018

Enterro do futebol de posse

A chegada dos "pseudo intelectuais" ao futebol teve muitas coisas boas. Os métodos, a ciência e a inteligência permitiram trazer para o jogo algumas dimensões menos trabalhadas anteriormente.
Houve, no entanto, um ponto que os intelectuais trouxeram e que foi, a meu ver, muito negativo: a cultura (quase a religião) da posse.
Já sénior, tive um treinador que, com ironia, dizia: "O futebol é uma coisa muito simples. É pegar na bolinha e pô-la dentro da baliza".
Os intelectuais repararam que, na maior parte dos jogos, segundo as estatísticas, ganhava quem tinha mais tempo a bola, ou seja, quem tinha mais posse. Concluíram, então, que a possa originava e era causa da vitória.
Associaram a esta conclusão - absurda, como é evidente - uma recomendação aos jogadores: "Não larguem nunca a bola, mesmo que estejam em situação de risco e próximos da vossa baliza, pois se mantiverem a bola, não sofrem golos".
Este tipo de pensamento foi, como disse, muito negativo: vemos jogos que parecem "meiinhos" e equipas a sofrer golos ridículos, originados por perdas de bola em zonas proibidas (durante a minha formação, jogador que perdesse a bola em zona complicada, saía imediatamente do jogo).
Mas tudo continua, alegremente, a associar posse a vitória.
Ora, a posse não é causa da vitória. O que se passa é que, habitualmente, a melhor equipa tem mais posse; e a melhor equipa, habitualmente, ganha o jogo. Mas não ganha por ter mais posse, antes por ser mais eficaz nos diversos "momentos" do jogo (a defender, a disputar cada lance, a construir e, fundamentalmente, a finalizar).
O absurdo da posse fica mais exposto em provas onde a excelência está mais presente: em campeonatos da Europa e campeonatos do Mundo. Aí, manifestamente, não vai mais longe quem tem mais posse, desde logo porque equipas teoricamente inferiores, conseguindo concretizar nas poucas oportunidades que têm, alcançam o sucesso.
Fiz essa análise no campeonato da Europa de 2016, em que Portugal não teve um futebol de posse e foi feliz.
De resto, muito mais ligada à vitória está a distância percorrida pelos jogadores, por ser um indício de chegada mais rápida à bola e de sucesso na disputa de cada lance.
Neste campeonato do Mundo tivemos menos posse contra Marrocos (mas ganhámos nos duelos) e vencemos. Tivemos mais posse contra o Uruguai e perdemos.
O que fez o Uruguai? Fez o que dizia o meu treinador: pegou na bolinha e colocou-a dentro da baliza.
Também em Portugal, tivemos o exemplo do que sucedia com Lopetegui e do que sucedeu com Sérgio Conceição.
Tudo é importante: defender bem, construir bem e, especialmente, finalizar bem. A posse  pode ser um meio, mas nunca deve ser um fim.
Eu prefiro o futebol da luta, da disputa de cada lance, do correr mais do que o adversário, do risco nas jogadas de ataque e do limpar a zona defensiva (não arriscando aí). 
Espero estar a assistir ao enterro do futebol de posse, o futebol dos que aceitam e se resignam à frase "Jogámos como nunca, perdemos como sempre".
Que esse futebol descanse em paz.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

"Não me incomoda que a PJ venha cá..."

As idas da PJ ao estádio da Luz (SIC Notícias, 26-06-2018)

Vieira e as provas de ilegalidades (Record, 25-06-2018)

"Não é por existirem muitas investigações com base em denúncias anónimas que se prova alguma coisa"
Luís Filipe Vieira, 25-06-2018

Provas? Já argumentam com (a falta de) provas?
Primeiro puseram em causa a autenticidade dos emails.
Depois, quando deixou de ser possível negar o conteúdo dos emails, a estratégia comunicacional foi pôr em causa a forma como os emails foram obtidos.
Agora, perante o acumular das investigações judiciais (validadas por diferentes juízes) e as sucessivas idas da PJ ao estádio da Luz, a estratégia de defesa é falar no DIAP do Porto e dizer que não há provas de ilegalidades.
Opa, a coisa está a ficar cada vez mais negra...

Cartoon de Carlos Laranjeira, no programa 'Tempo Extra', Abril 2018

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A “coerência” e interesses da coligação anti Bruno

Para os mais ofendidos para as declarações do meu homólogo do Sporting, deixem-me dizer-vos: no Sporting os sócios entraram de cara tapada, aqui também. No Sporting acenderam tochas, aqui também. No Sporting agrediram jogadores, aqui também. Querem discutir quem são os melhores? Está tudo mal.


Adeptos do Vitória Guimarães a invadirem o treino (foto: Guimarães Digital)

O que o presidente do Vitória de Guimarães afirmou, vem na linha do que já tinha sido dito pelo ex-treinador do Vitória (Pedro Martins) e confirma que aquilo que se passou em Alcochete foi em tudo idêntico ao que já tinha sucedido em Guimarães, no início deste ano.

Ah, mas o Bruno de Carvalho criticou os jogadores, disse que alguns queriam forçar a sua saída do Sporting e chegou ao ponto de dizer que eram uns meninos mimados.
Pois, não parece bem um presidente do clube dizer isto.
Aliás, nunca se tinha visto um presidente do Sporting dizer coisas destas, pois não?

Moutinho era uma maçã podre que iria contaminar o grupo


Eu, por acaso, acho que é bastante mais ofensivo chamar “maçã podre” a um jogador do que “menino mimado” mas, claro, pode haver quem pense o contrário…

Vieira, 2003
Finalmente, Bruno de Carvalho é também criticado por ser um “presidente-adepto” e que é ridículo vê-lo saltar para dentro do campo, ou dos pavilhões, para festejar aos saltos as vitórias com os jogadores.

Ora, conforme todos sabemos, nunca se tinha visto em Portugal um presidente de um Clube/SAD festejar com os jogadores de uma forma exuberante, pois não?



Em resumo, a comunicação social mostra toda a sua coerência ao atacar ferozmente o Bruno de Carvalho porque, de facto, nunca se tinha visto o presidente de um dos grandes clubes com comportamentos ou declarações semelhantes, certo?


P.S. A coligação anti Bruno, liderada por rostos conhecidos da elite/oposição sportinguista, é engrossada pelos “cartilheiros” do slb, os quais dominam o panorama dos media portugueses. A estes, que não são poucos, juntam-se também jornalistas e comentadores que têm boas relações com conhecidos players (Joaquim Oliveira) ou agentes do futebol (Jorge Mendes e outros). Por isso, se o Bruno de Carvalho conseguir sobreviver à “guerra” que está a travar com este “exército”, prevejo que, depois de um “Verão quente”, a próxima época vai ser escaldante…

Luís Filipe Vieira e o amigo Dias da Cunha

Vieira e os almoços com presidentes do Sporting

P.S.2 Sou adepto e sócio do FC Porto. Não gosto do estilo do Bruno de Carvalho, não simpatizo com a figura e não gostaria de ver alguém parecido na presidência do meu clube. Contudo, em termos de posicionamento nesta “guerra civil” do clube de Alvalade, onde parece valer tudo, não posso deixar de levar em conta a forma encarniçada como jornalistas e “cartilheiros” encarnados se mobilizaram para ajudar a derrubar o atual presidente do Sporting. Ora, se nesta “guerra” leonina os interesses do slb estão de um lado, os do FC Porto seguramente que estarão do outro…

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Ricardo, Dalot e os falsos dramas



No espaço de uma semana o FC Porto ficou sem o seu lateral direito titular e o seu natural sucessor. Pode ainda perder o suplente do primeiro, com contrato por renovar. Três jogadores de uma posição que, sem ser critica, passou de ser de overbooking a uma nova dor de cabeça para Sérgio Conceição e que voltou a levantar questões entre os adeptos sobre a forma de trabalhar da SAD. A mesma que há umas semanas foi aplaudida pela renovação de Iker Casillas – figura fundamental no balneário e que demonstrou um enorme apego ao clube ao aceitar baixar o seu elevadissimo salário – agora está baixo a mira dos adeptos. Por uma vez sem grandes motivos.

Ricardo Pereira foi emprestado há três anos ao Nice. Era um extremo com algum potencial mas que poucos tinham imaginado que se poderia converter numa figura preponderante como titular a lateral direito. Lopetegui utilizou-o algumas vezes mas sem grande sucesso e ninguém, absolutamente ninguém, parecia demasiado preocupado com a duração do seu contrato, por um lado, e o valor da sua cláusula de rescisão, 25 milhões de euros, por outro. Os dois anos em França mudaram completamente o cenário. Ricardo passou de dispensável a cobiçado por meia Europa, converteu-se num lateral de projeção ofensiva tremendo, capaz de jogar em ambas bandas, e quando voltou ao Porto encontrou uma nova realidade. A chegada de Luis Gonçalves, o actual director desportivo, mudou o paradigma de trabalho. Há – e Sérgio Conceição voltou a levantar essa questão numa recente entrevista – muitos vicios antigos. Vicios da mesma direcção – e é preciso lembrar que a mesma direcção dos êxitos dos anos 80, 90 e 2000 foi a mesma do desastre desportivo e financeiro que nos atirou para os braços da UEFA na década em que estamos – mas, sobretudo, de uma cabeça que já não está. Gonçalves tem outra forma de trabalhar, mais profissional, mais enfocada com o clube e menos com o seu portfolio pessoal, e isso tem-se notado. Mas há milagres impossiveis quando o mercado é o que é, os jogadores são quem são e as limitações estão à vista de todos em cada Relatório de Contas e cada aviso da UEFA. Ricardo chegou ao Porto com meia Europa atrás e marcado por uma gestão anterior que o considerou praticamente descartável. É normal que, apesar de tudo, viesse com desconfiança e mais normal ainda que durante todo o ano achasse que não havia necessidade de renovar o contrato para, sobretudo, ampliar essa cláusula de rescisão, que Luis Gonçalves tanto tentou. Sabia que tinha mercado, sabia que tinha provado o seu valor e sabia, também, que no passado o clube o tinha descartado sem problemas. Sob a possibilidade de sair livre, a sua venda – tendo ainda para mais em conta a necessidade de gerar mais valias até ao fim do mês – faz absolutamente todo o sentido. Para o mercado de laterais direitos, Ricardo entra directamente para o top. Sim, o mercado está inflacionado e o britânico mais do que qualquer outro mas se há posição que pouco tem notado isso é a de lateral direito. Por outro lado, a um ano do final do contrato, conseguir 20 milhões de euros por um jogador que até há um ano e meio era quase visto como dispensável, nunca poderá ser um mau negócio. Em 2015 devia ter sido renovado e a cláusula ampliada, sim. Mas em 2015 poucos imaginavam a sua progressão e em 2015 quem geria o futebol do clube tinha pouco interesse em negócios sem consequências paralelas. Ricardo sai sendo um dos jogadores mais importantes de uma época fundamental, um jogador que deu sempre tudo e que merece o nosso aplauso e dentro das circunstâncias em que se move, a direcção desportiva também acaba por gerir a situação bem – é dificil que Ricardo se valorize com o Mundial e as mais valias têm de chegar antes do 30 de Junho – e com rapidez. Agora muitos podem dizer que este negócio tinha lógica pensando em que a posição estava coberta por Dalot...e agora também se perde Dalot. Não é de todo certo.

Em primeiro lugar Dalot não era para Conceição nem nunca foi a alternativa directa a Ricardo.
Desde a época passada passou a ser utilizado por Antonio Folha como lateral esquerdo porque recebeu indicações de Conceição. O técnico principal, que nunca foi muito à bola com Layun, via-o mais como alternativa a Alex do que a Ricardo, mostrando sempre que teve ocasião grande confiança em Maxi Pereira. Dalot portanto nem era o suplente de Ricardo e depois de realizar meia duzia de jogos, uma inesperada lesão cortou o seu contributo na temporada. Nada garantia que era o titular imediato de futuro para o técnico. Podia ser uma alternativa muito sólida, podia ser, sem dúvida, o titular do depois de amanhã mas nada, absolutamente nada, nos impõe a sua titularidade como um facto consumado. Por outro lado Dalot sofre, como outros jogadores da formação, da mesma consequência do mau trabalho realizado na base dos antecessores de Luis Gonçalves que se deparou com uma geração de excelentes talentos formados em casa mas pouco “mimados” pelo clube, jogadores com contratos muito inferiores ao seu valor real de futuro, a ganhar bem menos que outros jogadores que entravam em negócios com mais efeitos colaterais e cujo o futuro esteve abandonado muito tempo. Apesar de portista – e ninguém deve porque, não faz sentido, duvidar do portismo de Dalot – o jogador e a sua família, que têm sempre, nestes casos, muito a dizer, sabiam não só de um interesse de meia Europa como dessa falta de interesse, até Novembro, do clube. Foi a partir dessa altura que Luis Gonçalves começou a trabalhar num pack de renovações em que Dalot era prioridade. E durante esses meses o jogador e a família foram dizendo que sim, que não, que sim, que não, que já vemos. A oferta estava na mesa, era uma boa oferta – dentro das limitações do clube e do valor real presente do jogador – mas Dalot não estava sequer em final de contrato pelo que poucos imaginavam tanta urgência. O problema é que esse mesmo contrato original tinha uma cláusula muito baixa – um reflexo da falta de interesse do clube na formação nos anos anteriores – e que era perfeitamente acessível a meia Europa. Dalot não sai porque não renova ou porque acaba o contrato. Não sai porque quer forçar a saída. Sai porque o contrato original que lhe fizeram era mau para o clube (cláusula) e para o jogador (salário) e porque apareceu outro clube, com um perfil mediático e uma oferta financeira, irrecusável. Deixa 20 milhões de euros em caixa (para um jogador com seis jogos de A e dentro da posiçõa de lateral direito, uma cifra muito considerável), facilita a gestão do clube ao gerar mais valias e não compromete em excesso o presente (o futuro a longo prazo é outra conversa) já que, a todos os titulos, Dalot não era para Conceição o que é, por exemplo Alex Telles.

E aí é importante entender o paradigma.
Doi que Ruben Neves tivesse saído praticamente grátis para o seu real valor, literalmente empurrado pela necessidade de fazer dinheiro. Que André Silva tivesse saído sem completar sequer o seu processo formativo. São simbolos da casa que saem cedo com muito para dar. Dalot podia ter vindo a pertencer a esse clube, sem dúvida, mas a sua decisão – cuja lógica pessoal é real no mercado actual – é também reflexo de outra realidade. É cada vez mais dificil a clubes como o Porto, do seu perfil e com os seus problemas económicos, manter as pérolas da formação mais do que 3 ou 4 anos no plantel principal quando o seu valor é alto. Urge criar uma cultura de potencialização desses activos com contratos que recompensem os jogadores (salário) e protegam o clube (clausula) e esse trabalho está a ser feito...agora. O que foi (mal) feito até ao presente tem e terá ainda as suas consequências e a ida de Marcano para a Roma é só outro exemplo. Mas na definição de prioridades desportivas presentes para Conceição manter elementos chave da estrutura titular como Danilo, Alex Telles, Casillas, Felipe, Brahimi ou Marega é mais importante que pensar a dois ou três anos de distância porque as finanças do clube a isso obrigam e porque a entrada nos milhões da Champions vai exigir, cada vez mais, o título e a competitividade imediata antes de pensar no futuro. Se Dalot hoje sai por 20 milhões de euros e Ricardo, também lateral direito e também para o mesmo mercado, sai  por um valor similar, são reflexo da nossa debilidade negocial mas também de que esse mercado, o de lateral, é o que é e será muito dificil fazer negócios estratosféricos. Portanto na prática, apesar da tristeza de não ver Dalot crescer em casa – por decisão sua – não se pode falar em maus negócios em ambos casos. Fernando Fonseca terá a sua oportunidade (outra boa promessa da casa), Maxi provavelmente renove (a saída de Ricardo, Marcano e eventualmente Reyes vai também aliviar as arcas para gerir a sua renovação, do gosto do treinador) e não há um drama sobre a mesa como poderia existir se fosse Alex Telles – figura fundamental no jogo de Conceição – a sair sem alternativas imediatas. A direcção desportiva do presente está a olhar pelo futuro sem se esquecer que vive no limbo do dia a dia e também está a sobreviver ao passado e à pesada herança que recebeu. O responsável principal continua a ser o mesmo, em ambos os casos, e seguramente estas não serão as últimas consequências negativas, mas a injeção de positividade de Sérgio Conceição, o mais do que merecido titulo e uma forma de trabalhar de portas adentro tem dado sinais positivos de que algo está, realmente, a mudar no nucleo duro do Dragão.

domingo, 6 de maio de 2018

Esta festa é festa de tanta gente

A festa com o principal obreiro deste título

Todos de pé, bandeiras no ar
Todos de azul de pé a gritar
O Porto é o maior e o resto é conversa

A festa dos jogadores no hotel

E todos juntos, todos mão na mão
Todos gritando viva o Campeão
E todos juntos sempre
É sempre uma festa

A festa nos Aliados

E essa festa é festa de tanta gente
Que ser do Porto é nunca estarmos sós
É gritarmos sozinhos e de repente
Ter um milhão de vozes na nossa voz que é voz do

A festa em Lisboa

Porto, Oh Campeão
Invencível dragão
Porto o maior de Portugal
Porto nobre cidade
Terra da liberdade
Donde houve nome Portugal

Porto nobre cidade
Terra da liberdade
Donde houve nome Portugal
Porto, Oh Campeão
Invencível dragão
Porto o maior de Portugal

Todos de pé, bandeiras no ar
Todos de azul de pé a gritar
O Porto é o maior e sempre há-de ser

Nota: Fotos ojogo.pt

sexta-feira, 27 de abril de 2018

O jogo do ano

Depois da brilhante vitória na Luz, da inesperada eliminação em Alvalade e do triunfo sem paliativos frente ao Setúbal o plantel do FC Porto sabe que faltam 270 minutos para acabar a temporada. Não há mais. É ou vai ou racha nestes três jogos que separam a glória da desilusão. Desses três duelos há a obrigatoriedade de conseguir sete pontos de nove possíveis para não depender de tropeções alheios que podem ou não acontecer. Há um Sporting vs Benfica (e sobretudo, dependendo dos resultados de este fim-de-semana pode haver um derby de Lisboa que valha muitos milhões) mas todos aprendemos nestes anos que acreditar que os rivais vão cair num campeonato como este é mais sonho iluso que realidade. Por isso, vamos retirar esse cenário da equação e pensar em nós e como vamos viver estas três semanas. E tudo começa no Funchal onde vamos disputar o jogo mais importante do ano.

Desde que o calendário saiu ficou claro que as últimas três saídas iam ser muito complicadas.
Na Luz o golo de Herrera resolveu uma deslocação não só muito dificil como também determinante por culpa dos pontos perdidos no mês anterior. Mas o campeonato não acabou aí, faltou dois desafios tremendos fora de portas, Guimarães para fechar o ano e o Funchal para marcar um antes e um depois. Partindo do principio que o FC Porto está OBRIGADO a ganhar em casa ao Feirense - do mesmo modo que estava a fazê-lo com o Setúbal e conseguiu-o com um resultado volumoso onde houve mais golos que jogo - então temos de equacionar a possibilidade de que os restantes quatro pontos necessários para o título saiam de dois resultados positivos (vitória+empate) nessas duas saídas. Não há outra. Em Guimarães, com a pressão da última jornada, é importante que o FC Porto chegue com uma pequena margem de erro (o empate) porque nesse dia, se o campeonato estiver aberto, vai valer absolutamente tudo. E há que estar preparado para isso. Pode também dar-se o caso de uma dupla vitória nos próximos jogos e um triunfo do Sporting no derby façam de Guimarães uma festa mas, uma vez mais, convém pensar o pior para não apanhar sustos. Tudo isso transforma o Funchal no jogo do ano. E não podia ser num cenário mais problemático para o FC Porto.

Os Dragões não venceu nos Barreiros há seis temporadas.
A última vitória ocorreu em 2011/12, por 0-2, com Vitor Pereira ao leme e com dois golos de penalty de Hulk, um cenário altamente impensável a estas alturas do campeonato (ter dois penaltys a favor, por um lado, e anotar os dois, por outro).
Depois disso o Porto empatou três vezes a uma bola e perdeu duas por 1-0.
Não é normal, portanto, a história recente do FC Porto, vencer o Maritimo em casa do mesmo modo que, durante os anos noventa e dois mil a visita à ilha da Madeira sempre ficou marcada por pontos perdidos ou vitórias arrancadas a ferros. Que ninguém espere nada mais do que o cenário mais dificil possivel. O Maritimo já fez saber, através de um presidente que até se senta com honras no Dragão, que vão ter o apoio de 6 milhões de portugueses. Sabendo que Carlos Pereira não é bom em matemáticas o certo é que podem ser 6, 5, 4 ou 3 milhões de verdirubros este fim-de-semana mas que, seguramente, na sombra, os que estejam a actuar para que o campeonato dê outra volta, depois do golpe na mesa na Luz, não vão estar tranquilos. As denuncias recentes, tanto da hipotética compra do guarda-redes maritimista como do dinheiro devido pela transferência de Marega só devem provocar a mesma reacção que provocaram argumentos parecidos contra o Estoril: uma resposta de máxima superioridade desportiva em campo para que continuem a falar sozinhos.

O Porto que suba ao relvado do Funchal deve saber que a atitude tem de ser a mesma desses 45 minutos (apesar do desgaste fisico e mental acrescido dos últimos dois meses) porque não há margem de manobra para repetir outro Paços de Ferreira ou Moreira de Cónegos sem levar todos ao limite da sua resistência física e emocional. Exige-se a mesma atitude, a mesma garra e toda a carne no assador desde o primeiro minuto para não dar margem de manobra a erros próprios e alheios, voluntários ou não. Sobretudo porque uma vitória num campo onde o FC Porto tem este historial recente pode revelar-se absolutamente desmoralizador para um rival que está e vai tentar o tudo por tudo para não perder um campeonato de mentira que, só por milagre, ainda pode ter um final feliz. Passar nos Barreiros e voltar com os três pontos é título e meio, não só pela confiança que dá ao grupo mas como pode condicionar, e muito, o ambiente à volta do derby de Lisboa em que o Sporting, vencendo em Portimão, pode chegar em condições de assaltar o segundo lugar. Seria um jogo de vida ou morte sendo ambos conscientes de que uma vitória frente ao Feirense, no dia seguinte, fechava o título de modo (quase) matemático. E depois de tantos meses de luta e sufrimento não há melhor forma que encarar as últimas duas jornadas com esa merecida dose extra de paz. Todos os pontos contam mas há momentos de impacto emocional determinantes. Da mesma forma que o jogo no Estoril ou a vitória na Luz ajudam a definir a temporada 2017/18, o jogo no Funchal tem tudo para ser o jogo do ano. E esse jogo há que ganhá-lo à Porto. Como seja, onde seja, com quem quer que seja. Mas ganhá-lo!

domingo, 15 de abril de 2018

O minuto Herrera

Num ano de merecimentos emocionais, o golo tinha de ser dele. Num ano de mistica recuperada, o golo tinha mesmo de ser dele. Patinho feio desde que chegou, criticado muitas vezes (justamente em muitos momentos, injustamente noutros, por mim o primeiro, em ambos casos), Hector Herrera marcou o que pode ficar para a história do futebol em Portugal como o golo do título de 2018. Além da estética do golo, da importância do mesmo e do minuto em que foi conseguido, no disparo vitorioso de Herrera houve um resumo desta temporada do FC Porto. Patinhos feios, criticados justa e injustamente (por mim o primeiro, em ambos casos), os azuis e brancos deram um golpe na mesa que define bem a viragem de atitude deste projecto. Um projecto que conseguiu repetir a proeza de Vitor Pereira, com uma escassez de meios atrás, sem apoio da instituição, e que está agora mesmo a dez pontos de ser campeão nacional pela primeira vez em meia década.

O FC Porto foi um justo vencedor num jogo equilibrado onde cada equipa foi melhor numa parte mas em que se percebeu claramente que só uma estava disposta a tudo por ela.
A primeira parte do Porto foi fraca. Não foi, ao contrário da excursão de Lopetegui, uma rendição. Foi um reflexo das limitações do modelo, dos jogadores e da pressão do momento aliada á vontade do Benfica, a jogar em casa, de querer fechar as contas cedo. O jogo largo do Porto, apostado na velocidade de um recuperado Marega, falhou quase sempre porque não só o maliano não foi capaz de gerar superioridade como, quase sempre as segundas bolas acabavam nos pés dos encarnados que tinham assim o controlo do esférico e dos momentos do jogo. Não surpreende por isso que nos primeiros 45 minutos as oportunidades e os ritmos de jogo fossem deles. O Porto dedicou-se, sobretudo, a manter-se vivo, a competir, a dar a cara e a esperar melhores momentos. Notou-se algm nervosismo e desacerto mas nunca medo ou pânico perante um rival empurrado pelo estádio.
O segundo tempo foi outra conversa. Despidos os receios, temores e respeitos pelo cenário e pela tensão do momento, os jogadores do Porto foram jogador à Porto e cresceram centimetros. A equipa entrou a querer mais bola - algo que na primeira parte nunca sucedeu - e a marcar os ritmos do jogo, criando muito mais perigo e vulgarizando um Benfica que demonstrou, outra vez - pela enésima vez - que no terreno de jogo não tem argumentos para estar na posição onde outros, fora dele, o colocaram.
Se bem que houve oportunidades para cada lado, ficou claro que o grande perigo do Porto vinha dos seus próprios erros. Sérgio Oliveira continua a demonstrar que a situação o supera. Não só levou um primeiro amarelo a cortar um ataque por culpa de uma perda infantil num lance ofensivo, como depois se dedicou a perder bolas e a fazer faltas, alheado do ritmo à sua volta. Otávio e Soares também passaram pelo mesmo processo, Brahimi continuou a navegar demasiado só e nem Telles nem Ricardo estiveram acertados nas subidas. Ainda assim, o Porto dominava, criava perigo, sobrevoava o ritmo de pausas sucessivas imposto pelo árbitro e crescia, ainda que quase sempre sem criar aquele momento decisivo de perigo à baliza de Varela.

Foi então que as mexidas no banco denunciaram as ambições de cada treinador. Vitória recuou no terreno de jogo e com Oliver, Aboubakar e Corona o Porto deu novo passo em frente. Se o espanhol foi importante para libertar Herrera - sempre pendentes dos desacertos de Oliveira - já o mexicano voltou a decepcionar (é um dos piores jogadores na toma de decisão da história recente do clube) e Aboubakar, fiel à sua forma recente, esteve alheado do jogo desde o primeiro momento. O tempo passava, o Porto procurava oportunidades e só os problemas habituais do modelo - a falta de jogo interior, a insistência em procurar o cruzamento - parecia impedir a chegada do golo. Mas como ás vezes o futebol sim sabe ser justo, o esférico encontrou o seu caminho ao sitio certo. Não foi um golo merecido apenas pelo jogo de hoje mas, sobretudo, pelo jogo no Dragão - e a sua penosa arbitragem - e por todo o ano. Uma jogada interior provocou uma falta por assinalar - mais uma - sobre Brahimi e a bola sobrou para o capitão Herrera. Bem longe ainda da baliza de Varela, o mexicano endossou um remate espantoso que adormeceu no canto superior direito da baliza de uma forma autoritária e decisiva. Foi o golo de todos nós. O golo do homem a quem todos, em algum momento, não hesitamos em criticar e que neste modelo de Conceição se sente como peixe na água. Foi o minuto Herrera. Um minuto que, se tudo correr bem até Maio, nunca nenhum de nós vai esquecer.



Não há nada que celebrar ainda, por muito que a lágrima escorra pelo canto do olho pela importância do momento. São quatro finalissimas, quatro jogos de final de Champions e Mundial juntas que ficam por disputar. Sabendo bem quem é o Benfica e como funciona o futebol em Portugal a margem de erro é absolutamente nula. Não se pode repetir a desastrosa sequência de Paços-Belém nas saídas ao Funchal e Guimarães. As duas vitórias em casa são mais do que obrigatórias, frente a Setúbal e Feirense, sem dar nada por garantido, mas esses dois jogos fora têm todos os condimentos de ser determinantes. Graças ao triunfo que deu a liderança e o goal-average particular frente ao Benfica, o Porto pode ceder um empate mas nada mais. Melhor directamente apontar alto, aos doze pontos, e deixar as celebrações para a visita a Guimarães. Até lá aguentemos a respiração e respiremos fogo. De Dragão.

#NosVamosGanhar

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Guia de rota para a Luz



Vencer na Luz tornou-se praticamente uma obrigação. Um empate – como sucedeu em 2015 – dará sempre alguma esperança correndo o risco de prolongar a agonia desnecessariamente. Quem viu o jogo em Setúbal percebe perfeitamente o que nos espera. O Benfica vai somar todos os pontos que necessite, da forma que seja necessária e contra quem seja necessária. Os que pensam que Alvalade pode provocar uma hecatombe é não conhecer nem o Sporting, nem o estado actual quase esquizofrénico naquele balneário e a história recente de ambos duelos. A isso há ainda que somar que viajar ao Funchal e a Guimarães, duas deslocações altamente complicadas onde não vai haver jokers e ajudas extras. Isso faz do jogo da Luz o santo gral da temporada.

Ironicamente este FC Porto está muito mais formatado para vencer na Luz do que propriamente para triunfar nos campos em que tropeçou. O modelo de Conceição necessita de espaço e na Luz haverá bastante espaço. Se o jogo da primeira volta deu pistas (e eram tanto outro Porto, muito mais dinâmico, e outro Benfica, muito menos em forma) é que o Porto de Conceição sabe os pontos a explorar e sabe como lá chegar. O problema, no caso da Luz, não será tanto o modelo de jogo como noutros casos, mas sim de mentalidade e condição física.

O último mês deixou claro que houve um claro abaixamento fisico do plantel. Por um lado as lesões – um record de lesões musculares que há que explorar a fundo à posteriori com quem de direito – quebraram o ritmo competitivo de muitos jogadores que estavam em forma, sobretudo no caso de Soares e Aboubakar. Por outro a sobre-explotação de futebolistas como Brahimi acaba por ter consequências e contar com o melhor jogador do plantel num estado de forma em que está era previsivel desde há vários meses. Brahimi, historicamente, é um jogador que se apaga nos últimos meses do ano mas com este modelo de pressão alta e maior verticalidade o desgaste é superior e o resultado está à vista. Num plantel efectivamente curto houve pouca margem para fazer gestão mas não é menos certo que em muitos jogos resolvidos Brahimi foi um jogador raramente poupado cedo. Partindo ainda para mais do principio que Oliver não conta e Otávio além das lesões é um jogador de altos e baixos, é dificil imaginar que a criatividade venha de outro lado no terreno de jogo. E com Brahimi assim é de esperar, sobretudo, menos criação e mais verticalidade. E essa verticalidade podia ser até uma boa opção não fosse o caso de que o Porto tem provavelmente o avançado que mais oportunidades necessita para anotar (Aboubakar) e um jogador, Soares, que teve dois meses bons de competição em sete. Na ausência previsivel de Marega e o hábito de Conceição de procurar um Marega II, a verticalidade vai procurar explorar o plano de sempre com caras novas.

Ricardo é o candidato principal a extremo direito (a ausência de Corona e o facto de Hernani não ser um futebolista profissional, ajuda) com Maxi a ocupar a posição de lateral. O modelo já foi testado vezes suficientes para entender que é algo que o técnico não vê com mais olhos, procurando um jogo mais interior de Brahimi na associação com Oliveira e Herrera, deixando a Telles todo o corredor. O problema é que neste estado de forma actual, integrar a Herrera e Oliveira a responsabilidade absoluta do meio-campo é um convite ao desastre. Herrera, que tem sido fundamental em 2018, tem perdido influência no jogo porque o estado de forma, físico e animico,  actual de Oliveira o obriga constantemente a realizar correções em campo. Danilo fará mais falta do que nunca e face esse cenário, podia ponderar-se uma mudança de esquema, uma aposta no 4-3-3 com Reyes como pivot defensivo (ou Oliver a reforçar o miolo) que garantisse controlo e menos vertigem. Tendo em conta a mentalidade de Conceição, a dinâmica actual e a necessidade de ganhar sim ou sim é complicado antecipar que o técnico vai mudar agora. Morrer com as botas postas e o esquema preferencial na cabeça do treinador faz todo o sentido e no final será provavelmente o resultado a ditar a razão das escolhas de Conceição.

No entanto, talvez até mais que o físico, o trabalho fundamental desta semana do técnico com o plantel tem de ser a nível mental. Chegamos a um ponto onde ficou claro que o Porto, este Porto, tem um deficit de títulos e vitórias importantes nos últimos quatro anos e os nervos, a tremideira de cruzar a ponte, como diria o mestre Pedroto, faz-se sentir. É um balneário sem referências, com poucos ganhadores com títulos na sua carreira e nenhum deles com a camisola do clube. Do outro lado está uma equipa habituada a ganhar em piloto automático (como nós sabemos) mas em duelos directos isso habitualmente faz toda a diferença. No último mês, depois do golpe na mesa que foi a segunda parte contra o Estoril e a vitória contra o Sporting, aos jogadores (e ao treinador) entrou a vertigem, entrou o medo e entrou a insegurança, resultado da falta dessa cultura de vitória. Dessa cultura à Porto alimentada durante tantas décadas. Mais do que o 443, mais do que o estado fisico, Conceição terá de recordar todos os seus brilhantes triunfos como jogador e injectar essas memórias, esse à vontade e querer, nos jogadores para subirem ao relvado da Luz sem complexos, sem medos e com a atitude desafiante e determinante que separa os “candidatos a” dos “campeões”. Se esse trabalho não for feito será muito dificil que o resultado final seja positivo.

Depois da Luz, segundo o resultado, a época fica em suspenso. Portanto nem vale a pena pensar sequer nisso. Há três pontos para ganhar e só três pontos para ganhar. Três pontos a ganhar à Porto. Três pontos mentalizados à Porto. Três pontos. Não há mais. Não há menos. Que venha o apito inicial.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Sete meses ao lixo

Em Agosto ninguém imaginava que o FC Porto podia realmente lutar pelo título. Ninguém imaginava chegar invicto a Março. Chegar com a faca e o queijo na mão ás últimas sete jornadas. Em Belém, depois de uma noite de tempestade em Paços de Ferreira, sete meses de trabalho e ilusão foram deitados ao lixo. O FC Porto entrega de mão beijada a liderança do campeonato com seis pontos perdidos em três jogos, perdidos por culpa própria em multiplos sentidos. Sobretudo perdidos por Sérgio Conceição. O homem responsável por sete meses de sonho foi também o principal responsável por dois tropeções que podem vir a ser decisivos.

Todos sabem que o importante é liderar no último dia.
Não é por casualidade que o último FC Porto campeão nacional, quando já estava o Polvo montado, ainda que não tão bem oleado, chegou à liderança a 90 minutos e meio do final do campeonato. Liderar durante todo o ano um torneio viciado para depois entregar essa liderança por motu próprio no sprint final só aprofunda a decepção. É isso que o FC Porto tem feito. Por um lado era inevitável. Por um lado só há campeonato a estas alturas porque o Polvo o quis, como sempre se soube que ia passar. Houvesse algum tipo de vergonha ou justiça, conceitos alheios ao futebol português, o campeonato estaria decidido há semanas. Mas não há e todos sabem que não haverá. Por muito que se revele, por muito que se investigue nada passa. Nada sucede. Nada. Absolutamente nada. E por isso mesmo a luta segue e nesse contexto aparece o segundo elemento inevitável para esta perda da liderança: a falta de ideias de Sérgio Conceição.

Foi confrangedor ver o FC Porto em Paços. Foi igual de doloroso vê-lo em Belém. E não foi tão diferente de vê-lo em várias saídas. Quando não há espaços, quando o motor já está gripado depois de tantos jogos acumulados, vêm ao de cima as carências, tanto do corpo técnico como dos jogadores. O paradigma Conceição (como o de Jesus) assenta num inicio de época forte, um modelo muito fisico, vertical e reactivo que chega ao final do ano sem folêgo e plano B. Assim perdeu Jesus quatro títulos e assim vai perder Conceição o primeiro. Não existe, nem tem sequer havido sensação de existir, um plano B. Não há Marega, que permitia o modelo funcionar pelas suas caracteristicas, mas continua a procurar-se no plantel o que não existe, um Marega II, com um modelo similar mas sem as ferramentas certas. Entre isso e que os jogadores chave do modelo estão mortos fisicamente (Brahimi) ou estiveram/estão lesionados e sem ritmo (Alex Telles, Danilo, Soares/Aboubakar) e fica fácil entender que um treinador de nivel alto procuraria um plano alternativo que potenciasse o que tinha para potenciar e ao mesmo tempo procurasse surpreender os rivais que já sabem de memória como a sua equipa joga. Conceição não tem esse perfil.
Chegou a Belém com dois laterais direitos porque não havia Marega. Chegou a perder ao intervalo e com péssimas sensações e não alterou nada até dez minutos depois do inicio do segundo tempo e ainda assim as mudanças foram de peças, não de ideias. Bolas pelo ar, bolas paradas e pouco mais. Nada mais. Nem toque e pausa (Oliver), nem um defesa por um jogador de meio-campo para gerar mais espaço (Danilo por um desastre chamado Osorio). Nada. Pura e simplesmente esperar por uma inércia que há um mês que não existe porque não há forças nem rivais dispostos a ceder os espaços que fizeram o modelo funcionar.

No fundo o Porto que cai em Lisboa e que cai na Liga é exemplificado por Sérgio Oliveira.
Num jogo horrivel do médio, com uma absoluta lentidão de movimentos, imprecisões no passe e sem nenhum critério, Oliveira foi em Belém, como tem sido no último mês, o jogador que é na realidade. Ao entrar numa dinâmica ainda positiva, substituindo Danilo mas numa equipa ainda com todos os titulares, Oliveira cresceu com o grupo mas o certo é que foi o grupo perdeu força e peças e Oliveira vulgarizou-se a ponto de voltar a ser o jogador que é e sempre será. E como ele os casos podem ser repetidos em vários outros jogadores que potenciados por uma ideia colectiva parecem muito superiores que o que são individualmente.
Esse foi o mérito de Conceição durante sete meses, o de esconder vergonhas individuais numa grande dinâmica colectiva e o seu demérito é, precisamente, o ser incapaz de emendar e entender que o modelo está gasto, que algumas das peças estão gastas e que é necessário aplicar um plano B com mais critério, lógica, gestão de bola e de esforços para impor uma superioridade sobre os rivais que é real - porque este Porto não é um grande Porto mas não é inferior a nenhum outro clube na liga na realidade. O Porto com Conceição nunca deu esse passo afirmativo, sempre procurou ser reactivo e quando se lhe pediu ser autoritário desde o controlo, perdeu o norte e com ele perdeu tudo o resto.

A derrota mais do que merecida em Belém pelos erros individuais na defesa, na construção de jogo e na execução ofensiva expõem a realidade e deixa um sabor muito amargo. Vencer na Luz torna-se obrigatório mas ao mesmo tempo torna-se fundamental fazer a pontuação máxima nos restantes jogos. Algo que há um mês parecia possível pela dinâmica que existia e que agora, sinceramente, com a forma de trabalhar de Conceição e as limitações fisicas e mentais dos jogadores cada vez mais evidentes, parecia altamente improvável. Depois de uma pausa que parecia ajudar o FC Porto mais do que a nenhum outro clube, pela recuperação de peças importantes, foi possivel entender que Conceição não entendeu nada do que estava a passar no mês anterior. E isso é o pior sinal possível para o mês de competição que falta.

Por fim uma adenda fundamental.
Conceição e os seus fizeram os adeptos sonhar e caindo caimos com eles porque não podemos abandonar no desespero quem deu ilusão. Isso não se aplica no entanto a um dos principais responsáveis pela situação presente a dia de hoje: Jorge Nuno Pinto da Costa.
Um ano mais a direcção do clube faltou ao escudo, aos adeptos e aos profissionais.
Faltou forçando a intervenção da UEFA que manietou e muito a gestão do plantel.
Faltou calando, calando e calando num ano não só gravissimo a nivel de arbitragens, com o VAR ao barulho, como calando, calando e calando, quem de direito, na denuncia mais grave da história do futebol português.
Nunca o FC Porto precisou tanto de um Presidente vivo. Activo, vocal, feroz, preparado a matar e a morrer pelos seus, fazendo tremer os cimentos do futebol português depois de se fazer evidente o estado putrefacto em que se encontra. Nunca o FC Porto teve um Presidente tão mumificado. No final, sem ter tido um só percentil de responsabilidade na ilusão positiva criada, tem muita da responsabilidade neste cataclisma inesperado que se anuncie. O FC Porto é um clube centenário e com memória. E a memória destes anos é tão importante como a dos anteriores. E é uma memória marcada pela estupefação, pela decepção e pela forma como tudo o construido foi destruido pelos mesmos protagonistas. E com o mesmo resultado, uma nova hegemonia do Polvo frente ao Porto que se comporta como quando eramos "bons rapazes".