quinta-feira, 20 de março de 2008

1978/2008 - Trinta anos de um Título Histórico (III)


E entrou-se finalmente na época de 1977/78. As coisas não começaram nada bem, diga-se, pois à 2ª jornada o FC Porto perdeu por 2-0 no Estoril, campo tão ou mais aziago para nós naquela altura como agora o é o do Estrela da Amadora. José Maria Pedroto reagiu à derrota dizendo que o FCP não voltaria a perder um jogo assim. E se bem o pensou, melhor o fez, pois na realidade aquela viria a ser a única derrota sofrida pela equipa em todo o campeonato.

Três dias depois do desaire no Estoril "nasceu", em minha opinião, o FC Porto europeu: ao empatar 2-2 em Colónia, para a 1ª eliminatória da Taça das Taças, o FCP deu o primeiro arzinho da sua graça em provas europeias, confirmado 15 dias depois com a vitória (em Coimbra, por interdição das Antas) por 1-0.

Com o decorrer do campeonato, o Zé do Boné, decidiu passar ao ataque. Foi aí que surgiu a sua famosa frase acerca dos "roubos de igreja no Estádio da Luz", a qual, como se calcula, teve o condão de irritar solenemente o "establishment".
Mas a coisa não ficaria por aqui: ia já o campeonato relativamente adiantado quando, numa bela tarde de Domingo, o Zé do Boné, aproveitando o facto de o FCP não jogar nesse dia, se deslocou à Póvoa de Varzim para presenciar um Varzim-Benfica que terminaria com um empate a 1-1. Numa das suas páginas interiores "A Bola" do dia seguinte titulava: "PEDROTO NA PÓVOA: «BENFICA NÃO TEM ESTOFO DE CAMPEÃO»" O jornal noticiava em detalhe as declarações de Pedroto no final do jogo, com mais ou menos este teor: "O Benfica não tem estofo de campeão: demonstrou-o bem aqui, pois empatou tal como poderiam ter empatado o Feirense ou o Espinho, isto é, jogando à defesa. Claro que falhou um penalty, mas penalties todos os guarda-redes defendem, mexendo-se ou não" (uma alusão ao facto de Manuel Bento, o guarda-redes do Benfica, ser "especialista" em defender penalties, mexendo-se frequentemente antes de a bola partir). Foi o bom e o bonito! Desta vez o nossos rivais da Luz entraram definitivamente em parafuso, chegando ao cúmulo de enviarem um telegrama ao Dr. Américo Sá, protestanto contra "interferência vosso técnico assuntos internos nosso clube" (!).

Entretanto, a saga europeia continuara com a histórica eliminação do Manchester United (4-0 nas Antas e 2-5 em Old Trafford), mas a equipa soçobraria nos quartos-de-final perante o - à época - poderoso Anderlecht (1-0 em casa e 0-3 em Bruxelas). Mas a semente ficara.

Benfica e FC Porto estavam separados por 1 ponto, a favor do FCP, quando chegou o dia 27 de Maio de 1978 e o tão aguardado "jogo do título", o Porto-Benfica nas Antas, na antepenúltima jornada. O desafio da Luz na primeira volta terminara com um empate a 0-0, pelo que o empate até nos serviria, mas a vitória arrumaria praticamente a questão. Pelo meio ficara uma famosa vitória por 3-2 em Alvalade, com dois golos de Gomes e um de Duda, a mais exuberante manifestação de que o FCP estava suficientemente maduro para chegar ao título.
Mas o jogo começou da pior maneira: aos 3 minutos, pretendendo aliviar um cruzamento inócuo, o central Simões meteu o joelho à bola e esta, passando por cima do desamparado guarda-redes João Fonseca, acabou no fundo das redes. Caía a consternação numas Antas com cerca de 80.000 espectadores (na altura o "tudo a monte" e o "cabe sempre mais um", ao estilo dos eléctricos dos STCP, eram as mais conhecidas modalidades de acolher o respeitável público). O resto da primeira parte passou-se com o FCP a dominar mas sem criar grandes jogadas de perigo. Pairava no ar um ambiente semi-fúnebre. Na 2ª parte o FCP porfiou, com um pouco mais de perigo, mas haveria de ser o Benfica, com o jogo já adiantado, a falhar escandalosamente o 2-0: Humberto Coelho, isolado, rematou, mas a bola milagrosamente bateu num pé de Fonseca e foi embater na barra. Ufa!

O Zé do Boné abandonara o banco e passeava com ar pesaroso ao longo da pista de cinza. Já lançara todos os trunfos de que dispunha. Provavelmente, se tivesse perdido aquele jogo, teria ido para monge. O seu empenho pessoal na luta por aquele título era demasiado grande... Mas eis que, aos 82 minutos, na ressaca de um livre perto da área do Benfica, o brasileiro Ademir, um dos suplentes utilizados nesse jogo, rematou com violência: a bola passou por meio de uma floresta de pernas, como dizem os jornalistas, e só acabou a sua viagem no fundo das redes do guarda-redes Fidalgo (Bento fora expulso duas jornadas antes e estava suspenso). A angústia e ansiedade acumuladas quase desde o início do jogo explodiram fragorosamente qual paiol de munições. Daí até ao fim, o FC Porto ainda dispôs, inclusive de pelo menos mais uma ocasião de golo, mas a partida terminaria empatada.

No final festejou-se como se o título já estivesse "no papo", mas essencialmente tratava-se de uma enorme sensação de alívio. No dia seguinte "A Bola" sacava de uma manchete irónica: "Em falta de estofo, equivaleram-se um ao outro". Em contraste, "O Comércio do Porto" mostrava o Zé do Boné sentado numa almofada com a etiqueta "Estofo de Campeão" : -)

Oito dias depois, e com alguns sustos pelo meio (e com um estrondoso remate à barra atirado da entrada do meio-campo da Académica pelo central Freitas), o FCP empatava em Coimbra, 0-0. Como o Benfica vencera o seu desafio, as equipas entraram para a última jornada empatadas em pontos - e o Benfica não sofrera ainda qualquer derrota e terminaria o campeonato invicto! A diferença de golos era-nos, contudo, francamente favorável.

Chegou, pois, o grande dia, 10 de junho de 1978. O adversário era o Braga. As sardinhas em lata de novo se deslocaram às Antas (mais 80.000 de assistência) e o FCP venceu categoricamente, por 4-0. Terminara a "grande travessia do deserto". A loucura foi total. Milhares de pessoas desfilaram a pé desde as Antas até à Av. Aliados. E a História, como agora sabemos, não voltaria a ser a mesma...

3 comentários:

José Correia disse...

O que eu sofri nesse FCP-SLB, lá em cima, na arquibancada do estádio das Antas!

João Saraiva disse...

O meu primeiro título, na versão sardinha em lata, seria só no ano seguinte no jogo com o Barreirense.

Em 78 do jogo com o Braga não tenho nenhuma memória de onde o segui, mas do jogo com o ben7ica lembro-me que tive de ficar com as mulheres na Praça Velasquez, e a maior memória é mesmo o balde de água fria que foi aquele auto-golo do Simões aos 3'.

Do jogo intermédio com a Académica, ficou-me o ensinamento do que é um fora de jogo. Foi anulado um golo ao Oliveira por fora de jogo, e na altura ao ver as imagens da TV e estando o Oliveira dentro de campo, aquilo fez-me uma certa impressão, mas a resposta ao "Ó Pai! O que é um fora de jogo?" recordo-a até hoje.

"Capo di tutti capi" disse...

Eu estive nesse jogo, tinha 9 anos e fui com o meu pai. Estava um sol descomunal e eu "vi" o jogo todo junto á casa de banho das senhoras guardado pelas empregadas, suponho eu, cheio de febre e a vomitar, pois apanhei uma tremenda insolação !!! No ano seguinte já consegui ver tudo, e até hoje nao perdi muitos e estive em sevilha e gelsenkirchen