domingo, 23 de março de 2008

FCPSAD: Análise das Contas 1º Semestre 2007/08 (II)

A grande diferença relativamente ao 1º semestre do exercício anterior, em termos operacionais, é o valor das transacções com passes de jogadores: é aí que se foi buscar o EBITDA de 18,6M€ e os resultados operacionais positivos. Isto é a assumpção clara de que a compra e venda de jogadores faz parte da actividade operacional da sociedade.

Perante os resultados semestrais parece óbvio que o FC Porto será obrigado a vender jogadores no final da corrente época, se quiser apresentar resultados líquidos positivos ou equilibrados, uma vez que apresenta um défice operacional estrutural, não conseguindo que as suas receitas ‘core’ cubram as suas despesas elevadas, principalmente com a massa salarial – é o preço de ter uma equipa de nível europeu a competir num campeonato nacional com receitas de baixo nível. É a própria administração a admitir (na página 22 do relatório) que as mais-valias decorrentes da alienação de passes de jogadores no 2º semestre serão fundamentais para que se obtenha um bom resultado no exercício.

Fonte: FCP SAD, Relatório e Contas 1º Semestre 2007/08

A estratégia seguida é uma estratégia que comporta risco, com investimentos em jogadores com grande potencial de valorização e posterior obtenção de mais-valias com a sua venda, mas que tem dado resultados. E esses resultados são, precisamente, o facto de o FC Porto arrasar a concorrência a nível interno durante a última década (mesmo expurgando o ‘efeito Mourinho’). Mas esta situação implica que as escolhas de gestão (com ênfase na compra e venda de jogadores) corram quase sempre bem, principalmente nos investimentos mais significativos, ano após ano, bem como a obtenção regular de receitas na Liga dos Campeões, para que se continuem a honrar os compromissos assumidos com a banca e evitar chamadas a aumentos de capital ou ‘operações harmónio’.

De qualquer forma convém salientar a capacidade que a SAD tem demonstrado para gerar receitas extraordinárias (provenientes das mais-valias obtidas com transferências de jogadores) fruto de um bom trabalho de prospecção, o que lhe tem permitido aumentar as receitas globais e, consequentemente, ter equipas mais competitivas que a concorrência interna. É sem dúvida a melhor gestão desportivo-financeira das SAD’s portuguesas.

O mais importante seria conseguir os mesmos resultados mas sem vendas de jogadores nucleares (ou não mais do que um ‘craque’ por ano) e assentar os proveitos nas 5 receitas 'core' que acima referi: Bilheteira, Direitos TV, UEFA, Publicidade e Corporate Hospitality. Como chegar lá? Eis a questão.

3 comentários:

Offshore disse...

Deve-se analisar as contas como de um clube de futebol e não de uma qualquer empresa de outro ramo de actividade.

No que concerne a actividade de investimento apresenta um resultado positivo de 7,8 (resultado de transacções de passes + 17,8, amortizações e perda de imparidades de passes - 9,3, e custos financeiros -1,5) mas não devia ser analisada de um ponto de visto da DR mas sim de balanço, ou seja não interessa (a não ser fiscalmente) as mais ou menos valia, ou apenas os juros pagos, mas sim as verbas gastas na aquisições de activos, as verbas recebidas da alienação de activos, as verbas recebidas de financiamento bancário e as verbas que transitam para o banco em reembolso e pagamento de financiamento bancário. E isto não aparece pela simples análise da DR

João Saraiva disse...

> Perante os resultados semestrais parece óbvio que o FC Porto será obrigado a vender jogadores no final da corrente época


Vê-se logo que não tens lido a cartilha. ;-)

Nuno Nunes disse...

Caro offshore, obrigado pelo seu comentário. Se, como sugere, nos centrarmos um pouco mais na análise ao Balanço, podemos facilmente detectar a degradação do Fundo de Maneio bem como um aumento significativo das Necessidades de Fundo de Maneio (uma vez que as necessidades cíclicas superam - e muito - os recursos cíclicos) resultando numa tesouraria líquida negativa acima dos 30 M€, o que revela um enorme desequilíbrio financeiro a curto prazo.

Como já tinha referido na parte I da análise, a sad não está a receber as verbas decorrentes "da alienação de activos" (caso contrário não teria saldos tão elevados em "clientes") o que, juntamente com o peso do serviço da dívida, está a colocar maior pressão sobre a tesouraria a curto prazo. Isto falando de recebimentos e pagamentos.

No que concerne a actividade de investimento, temos de facto um resultado positivo de 7,8 mas que não é um "inflow" de dinheiro. Se como o próprio offshore acaba por admitir as mais ou menos valias "não interessam", o que interessa é o CASH efectivo, atentemos na demonstração de fluxos de caixa: fluxos operacionais e de investimento negativos, o que implica um cash-flow total negativo em 4 M€ no 1º semestre.
Conclusão: não é só preciso vender bem, é desejável e necessário receber dos clubes a quem vendemos jogadores.
Cumprimentos.