quarta-feira, 12 de março de 2008

Os gloriosos malucos azuis e brancos


O FCP segue imparável no campeonato, com 14 pontos de avanço. Ser melhor, em Portugal, não é notícia. Os êxitos do FCP são tão indiscutíveis que há alguma tendência para provocar junto de alguns sócios e adeptos uma onda de triunfalismo e euforia, que não “admite” qualquer crítica em presença da enormidade do sucesso, comportamento em tudo semelhante, embora de sinal contrário, relativamente aos consócios que após uma derrota vêem tudo negro e atiram acusações a torto e a direito, como se o mundo tivesse acabado de desabar aos seus pés.

O futebol admite esses extremos e, provavelmente, de ambos os lados veremos a paixão a comandar, mais que a razão. Mas, de vez em quando convém racionalizar. Não há organizações perfeitas, nem acredito nos homens providenciais. Sou contra o unanimismo dominante, mas nem isso impede que seja moderado. Manter-me-ei na trincheira onde se quedam os eternamente sócios, sem cargos e notoriedade, nem outra mordomia que não seja o direito a partilhar as vitórias e a chorar as derrotas.

Junto-me a tanto outros desconhecidos que ajudaram a fazer crescer o FCP, sempre no anonimato. Gloriosos malucos que acompanhavam o FCP a todo o lado, apesar das inúmeras beiças que sobravam desses desatinos. Quando era miúdo, ia frequentemente com os meus Pais ou o meu Padrinho. O meu Pai era muito calado, mas a minha Mãe fazia as honras da casa. O meu Padrinho era pior: num célebre jogo no campo da Amorosa em Guimarães, no tempo de Bella Gutmman, em que ganhámos por seis a zero, com uma exibição deslumbrante, não resistiu a festejar efusivamente os golos, apesar de estarmos no meio de vimaranenses, muito pouco simpáticos. E a cada golo que entrava, mais efusivo era o festejo. Da pouca simpatia, os vimaranenses passaram a ameaçadores e recordo bem o meu Padrinho com o guarda-chuva, em posição de defesa, a espadeirar de tal maneira que se fez um pequeno círculo à nossa volta. Foram momentos de tensão, mas tudo acabou em bem, porque a guarda republicana interveio e um deles ficou junto de nós, até final do jogo.

Noutro jogo – no Estádio do Mar – perdemos põe 3-1, com uma arbitragem miserável. Pavão e Rolando foram expulsos e, porque houve arremessos de objectos para o campo, a GNR investiu a cavalo e foi um pânico tremendo. Fugimos e saímos, sem ser molestados. Tivemos sorte, mas do susto não nos livrámos.

A minha Mãe acompanhava, quase sempre, o meu Pai que se mantinha muito calado, vestido com o fato da sorte. Enganava o nervosismo, fumando cigarros atrás de cigarros. A minha Mãe batia palmas, gritava, exortava os jogadores e “explicava” como devia ser, para a coisa correr melhor. Ninguém ficava sem resposta, quando interpelada ou provocada. Certa vez no Jamor, num jogo com o Belenenses, no tempo de Yustrich, que empatámos 1-1, depois de mais uma arbitragem miserável, fomos vaiados pelos sócios do Belenenses, mas minha Mãe não se ficou e respondeu-lhes furiosa, qualquer coisa como: “Este ano vamos ser campeões. Nem estes roubos nem os vossos insultos o vão impedir”.

Há (raros) momentos na história, em que tudo se conjuga para que a mudança não seja uma mera promessa. A parceria entre PdC e José Maria Pedroto à frente do FCP, fez com que o destino não mais nos virasse as costas. Deixámos de ser os eternos filhos de um deus menor e num instantinho, passámos a ser temidos: vencemos entre muros e conquistámos a Europa.
Devemos estar (eternamente) gratos aos artífices desses êxitos, mas não se pode esquecer a comunidade de portistas que durante anos alimentaram o sonho, sem quebras. Quando se tem gente assim, tinha que aparecer alguém - no momento certo - que havia de levar o clube a patamares nunca antes atingidos.

Lamento que o FCP (os seus dirigentes) não tenham uma política de proximidade junto da massa associativa, que não seja quase exclusivamente ditada por acções de índole comercial.
Por isso, em nome dessa comunidade que tenho a honra de pertencer, homenageio todos esses sócios que são o alicerce do FCP, na pessoa da minha Mãe, sócia nº 20, a mais antiga do FCP, segundo julgo saber.

6 comentários:

José Correia disse...

Ao ler esta crónica do Mário, fiquei sem palavras!
Vou dormir e talvez amanhã consiga alinhavar um comentário.
Para já, limito-me a curvar-me perante a Senhora Alcinda Reis Faria.

João Saraiva disse...

Vais cedo para a cama ;-)

Mas eu sigo o teu gesto, e só me resta curvar-me.

Nicolau d'Almeida disse...

Uma delícia de texto. É admirável a dedicação de pessoas a um clube como a que demonstra a senhora sua mãe. Nutro igualmente um grande respeito por todas essas pessoas anónimas que se manteram sempre fiéis a um ideal e contribuíram para o engrandecimento do nosso clube.

Concordo que o FC Porto devia estar mais próximo dos associados, sem ser unicamente em acções comerciais.

Cumprimentos.

Nuno Nunes disse...

É uma grande honra conhece-lo e é com muito prazer que o ouço e o leio atentamente.
Um bem haja pelo seu apoio, pela sua dedicação e também pela sua escrita.
A família Faria é o exemplo para seguirmos.

Anónimo disse...

Uma fala sentida, caro Mário Faria. Eu também estive no Mar no dia da expulsão do Pavão e do Rolando, e também fugi da G.N.R. E quanto a Guimarães, nem lhe conto, levei lá uma vez com um guarda-chuva nas costas por festejar um golo do Flávio!;-) E só conheço Montijo, Amora e Torres Vedras por causa do FC Porto!:-)

Nelson Carvalho disse...

Absolutamente fantastico ler esta crónica. A dedicação Portista de toda uma vida muito bem explanada nas palavras do nosso amigo Mário.

Um grande bem haja para a Senhora Alcinda Reis Faria.