sábado, 19 de abril de 2008

FCP/SLB: Fragmentos


Os jogos entre o FCP e o SLB foram quase sempre muito intensos, mesmo no período em que o SLB tinha uma equipa muito superior à nossa, mas não só: o SLB tinha uma organização muito superior, comandava as instituições que lideravam o futebol (os bastidores, também) e os seus jogadores (nomeadamente o capitão: Coluna) tinham uma clara ascendência sobre os árbitros.

Mas, houve jogos que recordo e que por razões diferentes guardei na memória. As emoções sentidas foram tão fortes que nem os mais recentes sucessos as retiraram do cantinho que lhes destinei nesta caixa de memórias, já um pouco enferrujada.

1. Não tenho certa a época. Mas, lembro-me bem que saí do jogo pior que estragado. Sei que o SLB veio jogar às Antas, já campeão e nas vésperas de um importante jogo para a Taça dos Campeões. Apresentou a sua equipa de reservas, na totalidade. Deu-nos um baile de bola e ganhou três a zero; creio que foi a primeira mão de um jogo para a Taça de Portugal. Que frustração (quase vergonha) senti nesse dia!

2. (1959/60) Perdíamos por 2-0, a poucos minutos do fim. Fizemos 2x1, já sobre o fecho do encontro. O tempo esgueirava-se rapidamente. Tudo se passou em poucos segundos. A bola foi ao centro e o SLB perdeu-a quase de imediato, tendo sobrado para Luís Roberto que dominou o esférico, rodou, olhou para a baliza, enquadrou-se com ela e chutou de imediato, com violência, quase do meio campo. Saiu um (meio) chapéu de aba muito larga : a bola ultrapassou o guarda redes do SLB, deu na trave e entrou. Foi o 2-2. Logo a seguir acabou o jogo, a bola nem foi ao centro. Foi um delírio. Valeu como uma vitória.

3. (1962/3) Num campeonato em que o FCP vinha tendo uma prestação muito interessante e se situava no primeiro lugar do campeonato, ocorreu nas primeiras jornadas da 2ª. Volta, o FCP/SLB. O árbitro escolhido foi o Sr. Reinaldo Silva. O jogo corria algo lento e muito equilibrado. Um passe para a área do FCP, Torres e Rolando disputaram a bola: Torres caiu e o árbitro marcou gp contra o FCP. Uma apitadela estridente que baixou a moral das nossas tropas. Não tivemos força de reacção e perdemos. O SLB controlou o resto do jogo que Reinaldo Silva comandou sempre, com a sabedoria e a imparcialidade próprias dos árbitros da época.

4. (1968/9) Num Domingo de chuva e com o terreno pesado, o nosso treinador resolveu colocar no lugar de avançado centro um jogador angolano que prometia muito, mas nunca confirmou o potencial que realmente tinha. Era rápido, possante e rematava bem. Marcou a mais de trinta metros o golo do FCP, que deu a vitória por 1-0. Um golo fantástico e muito raro no futebol português. Provavelmente, o seu único momento de glória. Seu nome : Naftal. Mais um que não foi capaz de atravessar, com êxito, os sinuosos caminhos da fama. Perdi-lhe o rasto, completamente.

5. (1970/71) Era habitual no passado, algumas marcas fazerem publicidade através da instalação sonora do Estádio das Antas. Era a Belarte a entidade a quem o FCP “vendia” o tempo e o espaço publicitário. Um dos patrocínios (nos jogos mais importantes) consistia na oferta de produtos variados, conforme os jogadores marcassem um, dois, três, ou mais golos. Todos nos rimos quando o speaker habitual informou que qualquer jogador do FCP que marcasse mais de 3 golos, nesse jogo com o SLB, receberia um carro duma marca que não recordo. O FCP fez um grande jogo, nesse dia. Lemos fez uma exibição fantástica e marcou os 4 golos. Ganhou o carro, mas não ganhou uma carreira. Lemos era um jogador baixo, forte e possante. Prometia muito, fez alguns bons jogos, mas acabou precocemente. Foi pena!

Entre 1952 e 1974 - retirados da colectânea de autoria de Alfredo Barbosa que saiu com o Comércio do Porto - foram estes os resultados entre FCP/SLB : 1952/3 : 2-1 ; 1953/4 : 5-3 ; 1954/5 : 3-0 ; 1955/6 : 3-0 ; 1956/7 : 3-0 ; 1957/8 : 1-0 ; 1958/9 : 0-0 ; 1959/60 : 2-2 ; 1960/1 : 3-2 ; 1961/2 : 2-1 ; 1962/3 : 1-2 ; 1963/4 : 1-1 ; 1964/5 : 1-0 ; 1965/6 : 2-0 ; 1966/7 : 1-1 ; 1967/8 : 1-1 ; 1968/9 : 1-0 ; 1969/70 : 1-2 ; 1970/1 : 4-0 ; 1971/2 : 1-3 ; 1972/3 : 2-2 ; 1973/4 : 2-1 .

Resumo : 13 V ; 6 E e 3 D, entre a inauguração do Estádio e o 25 de Abril. Nem no período em que o SLB dominava o panorama do futebol no país, o FCP deixava de mostrar os seus pergaminhos. Era uma questão de honra, que ainda se mantém. Em casa, mandamos nós.

No Domingo joga-se mais um FCP/SLB. Uma rivalidade de sempre, que a relação de amizade com Fernando Martins esbateu, quando este foi presidente do SLB. De resto, é um jogo de emoções que os portistas assumem como uma questão de honra. Apesar de já sermos campeões, este ano não vai ser excepção. Pelo contrário, contornos especiais rodeiam o jogo, em função da intromissão e influência do SLB no Apito Dourado, no Apito Final e depois dos dramáticos SOS endereçados ao MP e à PJ para lhes salvarem a época. Muitos querem que este jogo seja uma espécie de ajuste de contas. Eu também, mas apenas no plano desportivo. Espero ganhar, jogar bem, não quero pensar em perder e muito menos que haja violência, seja qual for o resultado. Campeões, nós somos campeões e gostaria que nos comportássemos com tal, dentro e fora do campo.

(1) Fotos do árbitro Reinaldo Silva e dos jogadores Rolando e Lemos

12 comentários:

Anónimo disse...

Caro Mário,

Começo por "parabenizá-lo", como diria o, para nós eternamente saudoso, Paulo Autuori (era o treinador do Benfica no dia dos célebres 5-0 na Luz para a Supertaça em 1996/97);-)

Duas correcçõezinhas, se me permite: o Naftal foi de facto o autor do único golo, mas em 1964/65 (Otto Gloria era o nosso treinador); marcaria também na vitória de 2-0 da época seguinte (com Flávio Costa no banco), sendo o Nóbrega o autor do outro golo. Esse jogo, aliás, marcou a estreia do grande e sempre lamentado Pavão na nossa equipa principal. O Naftal jogaria mais tarde no Tirsense (na 1ª divisão) e, se a memória me não engana, chegou a jogar no Foz ou no Aliados de Lordelo (ou até em ambos). Quem marcou o solitário golo em 1968/69 foi o Custódio Pinto, em recarga a um remate do Nóbrega defendido pelo José Henrique para perto, cerca dos 15 minutos (jogo de que me recordo perfeitamente e que deve ter sido a ocasião da maior assobiadela da vida ao Eusébio, quando foi substituído depois de uma fraquíssima exibição).

Abraço

Nelson Carvalho disse...

É fantástico ler estas pequenas histórias, dentro da grande história que são os FCP/SLB, com a relevância de ser escritas por quem presenciou tudo isto.

É bom constatar que apesar dos largos anos de dominio do benfica no futebol Português, nunca tal designio conseguiu ultrapassar as "muralhas" do estádio das Antas.

Pedro Vale disse...

Umas pequenas estatísticas para reflectir, acerca da superioridade portista.
Segundo O Jogo, para o campeonato, o FC Porto domina já com alguma vantagem nos duelos com o Benfica: 56 vitórias, 52 derrotas e 39 empates.
Na totalidade dos encontros entre as duas equipas, a vantagem do Benfica não deverá durar muito tempo: 76-75 em vitórias.

Jorge Aragão disse...

Assisti a muitos dos jogos mencionados. Lembro perfeitamente o golo do Custódio Pinto referido pelo Alexandre, do jogo dos 4-0 do Lemos, claro, do Naftal lembro-me mal, vi-o jogar, tinha 12 anos na altura, e lembro-me bem de ver o coluna a apitar " imparcialmente " os jogos. Bastava levantar o braço, era logo falta.
Desses jogos com os lampiões destaco também os duelos entre o Américo, grande guarda-redes ostracizado pelo poder de lisboa e que deveria ter sido o titular no Mundial de 66 e o Eusébio, com grandes remates e grandes defesas ( e alguns golos ).

Anónimo disse...

Só mais uma coisa, caro Mário: esse jogo de 1962/63, arbitrado pelo famigerado Reinaldo Silva, teve, salvo erro, uma sequência. Posso estar enganado, mas creio que o sr. árbitro acabou irradiado, a exemplo do seu inefável colega Calabote. Claro que ao SLB nada aconteceu (faz lembrar o famoso caso do "fax de Macau": uns foram condenados por corrupção passiva, mas o acusado de corrupção activa foi ilibado...).

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...
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José Correia disse...

Estes episódios contados pelo Mário são sempre deliciosos (mesmo quando recordam alguns insucessos).

A situação relatada pelo Mário do respeitinho que os árbitros tinham em relação ao capitão do SLB - Mário Coluna - é algo que já tinha ouvido falar. Devia ser interessante de ver...

Fernando disse...

O célebre empate a dois golos, era treinador o Daucik e jogava o seu filho Fernando Daucik, a quem muitos portistas chamavam a D. Laura. De facto, faltavam 3 minutos para acabar e perdíamos por 2-0. Na baliza do TRIBUNAL, à entrada da área o LUIS ROBERTO marcou o 1º golo. Bola no centro e o F.C.PORTO rápidamente ganha a sua posse. Nasce um canto. Lado do TRIBUNAL. Marca o HERNÂNI e junto ao 2ºposte o HUMAITÁ encosta e faz o 2º golo. VIRGÍLIO o LEÃO DE GÉNOVA gesticula e pede o apoio dos milhares de Portistas. Não houve tempo para mais.
Assisti neste domingo de tremenda chuva, na bancada de madeira colocada na maratona. Meus Deus, tinha apenas 15 anos de idade.

Fernando disse...

Essa do Reinaldo Silva, é assim. Há 11 anos que a mourada vermelha de vergonha, não ganhava no Estádio das Antas. Mas neste jogo, o empate não servia os seus interesses, mas sim os do Sporting. Na baliza Norte a cerca de 2 metros da grande área, o Torres atira-se para o chão e o Reinaldo Silva marca penalty. Perdemos 2-1. Mais uma vez escandalosamente um título entregue à equipa do regime salazarista. Tamanho foi o frete, que o Reinaldo Silva foi irradiado.

Nota: Nos anos 40, o Dr. Cesário Bonito, Presidente do nosso Clube por 3 ocasiões, esteve castigado 1 ano. Motivo:
-ENQUANTO NÃO PENDURARMOS UM ÁRBITRO NUMA ÁRVORE, NÃO NOS RESPEITARÃO.

José Correia disse...

Caro Fernando, pode contar-nos mais pormenores sobre o caso da irradiação do árbitro Reinaldo Silva?

Se não o quiser fazer nestes comentários e preferir de forma reservada, por favor envie para o e-mail reflexao.portista@gmail.com

Um abraço e volte sempre

Água e Cultura disse...

A propósito do castigo do Dr. Cesário Bonito: Foi em 1956, ano em que o FCPorto foi campeão treinado pelo Yustrich. Foi na sequência da suspensão de António Teixeira, nas vésperas de um importante Porto - Sporting o Director Geral dos Desportos ratificou uma decisão arbitrária da Federação Portuguesa de Futebol e IRRADIOU o Dr. Cesário Bonito (Presidente) e suspendeu por três anos os Directores Dr. Miguel Pereira, Dr. Correia da Silva, Alberto Ferreira, Alfredo de Sousa Pereira (meu pai), Carlos Nunes e Nuno Ramos dos Santos. No entanto, e devido aos protestos que se levantaram no Norte ( Salazar não gostava nada dessas coisas) o Ministro da Educação Nacional, Leite Pinto, anulou os castigos aos nossos dirigentes.
António Sousa Pereira