domingo, 8 de junho de 2008

Hipocrisias patrioteiras

Pagava para ver os detractores da chamada de Pepe à selecção nacional a dizer alto e bom som, neste momento, que Pepe não devia lá estar e não devia ter marcado aquele golo ontem...

Não tenho a mínima dúvida que se tivesse antes marcado um auto-golo muito iríamos ouvir falar hoje do "brasileiro", essa é que é essa.

A minha opinião é a mesma q sempre foi: para mim Pepe e Deco são portugueses, mais portugueses mesmo do que um Manuel da Costa. É que os primeiros ao menos falam a nossa língua-mãe, e viveram vários anos em Portugal tendo chegado ainda jovens.

5 comentários:

Zé Luís disse...

Também pensei assim quando Pepe marcou.
Olha, o Rui Costa comentava e ele sempre foi contra os naturalizados.

Mas se temos um seleccionador brasileiro, que nem naturalziado é e vive cá por favor e dinheiro de patrocinadores, porque carga de água não podemos ter jogadores nascidos no Brasil mas futebolisticamente feitos em Portugal?

São as idiosincrasias da bola indígena.

Pepe e R. Carvalho formam a dupla de centrais perfeita, como J. Costa e F. Couto em 2000, para fazermos um grandioso Europeu.

José Correia disse...

A esmagadora maioria dos detractores da chamada de Pepe, são os mesmos da chamada do Deco.

O principal defeito destes dois grandes jogadores não é, nem nunca foi, terem uma origem brasileira. O principal problema foi terem atingido o topo da sua carreira com a camisola e o emblema do FC Porto ao peito.

Isso sim, é que fez deles jogadores "pouco recomendáveis" para uma selecção de portugueses de "raça pura" como o Bosingwa, Nani, Jorge Andrade, etc.

João Saraiva disse...

Ok, e quanto é que pagas? :-D

Então vamos lá:

O Pepe não devia estar lá.

O Deco não devia estar lá.

O Manuel da Costa não deveria estar nos sub-21.

O Bosingwa deve estar lá.

O Nélson não devia já ter estado lá.

O Makukula tinha todo o direito de estar nos sub-21, mas depois de ter tentado representar o Zaire nos AA's nunca mais deveria ter voltado a uma selecção Portuguesa.

O Pedro Emanuel tinha lugar no Mundial de 2006 por Portugal, mas quando aceitou o convite de Angola perdeu toda a razão de um dia poder representar Portugal.

O Tchikoulaev e o Bolotskih nunca deveriam ter jogado pela selecção de andebol.

O Nilson Júnior nunca deveria ter jogado pela selação de voleibol.

O Obikwelu não deveria representar a selecção de atletismo.

O Matt Nover nunca deveria ter representado a selecção de basquetebol.

E por aí fora.

A questão não é a cor, nem o local de nascimento, é a questão de que uma selecção deve representar a formação desportiva que proporciona aos seus cidadãos.

Relembro aqui um texto do Luis Freitas Lobo, com o qual me identifico quase na totalidade (http://www.planetadofutebol.com/article.php?id=1396):

O principio de Pepe: futuro e identidade

A questão de Pepe ultrapassa o debate sobre a utilização de mais um brasileiro naturalizado na selecção de Portugal. Em questão está saber se esta é a melhor forma de construir o futuro do futebol português e assegurar a sua identidade.

Não existe nenhum caso-Pepe. Em causa não está a simples utilização de mais um brasileiro naturalizado por Portugal, mas sim saber como queremos construir o futuro do futebol português. Uma questão de identidade, onde se cruza formação, estilo e critérios emocionais.
Pepe disse que queria jogar na selecção. Como precisamos de um bom central, é bem visto. Também precisamos de um ponta-de-lança e um lateral-esquerdo. Podia-se então acelerar a naturalização de Liedson. Para a esquerda, pode ser que Jorge Luiz volte em breve.
É evidente que as questões não podem ser postas assim. Á luz da lei, o direito de Pepe jogar na selecção é inquestionável. Agora, o que se deve discutir é se é esta a melhor forma de construir o futuro do futebol português, formação, alta competição e selecção. Se esta é a melhor forma de fazer a ligação emocional entre o que deve ser uma representação nacional. É óbvio que não.
Para mim, uma selecção é isto: uma comunidade de emoções e cultura partilhada ao longo do nosso crescimento humano e desportivo. Não faz sentido ser de outra forma. Se essa selecção estiver formada por elementos com outras bases, por mais valor desportivo e humano que tenham, é impossível provocar-me a mesma sensação de identidade colectiva. Uma coisa é o nosso clube jogar com 11 estrangeiros, outra é a selecção. Para a sentirmos como nossa é indispensável essa identificação emocional.
Vejo o futebol de selecção como uma expressão cultural dos países, espelho das suas idiossincrasias. Por isso, é perturbante ver um ganês (Asamoah) na Alemanha, um nigeriano (Olisabede) na Polónia ou um brasileiro na Croácia (Da Silva) ou Espanha (Senna). Desta forma, será impossível no futuro comparar diferentes estilos de futebol.

O local de formação
A França é diferente. Os jogadores, apesar de oriundos de suas antigas colónias ou territórios, já nasceram ou foram formados nos seus clubes. O mesmo sucede com a Holanda e o Suriname. Este é um bom critério para definir um jogador seleccionavel: o seu local de formação futebolística. Durante anos, por exemplo, a Bélgica jogou com Oliveira. Um brasileiro que mal sabia falar português, pois fora para lá muito novo, onde nasceu como jogador. A sua inclusão na selecção belga era, por isso, perfeitamente aceitável.
Pepe teve um crescimento, humano e desportivo, muito diferente do de Nani ou Nelson. Nani, também recentemente naturalizado, já nasceu inclusive em Portugal. Ao contrário de Pepe, que chegou aos 18 anos para o Marítimo, Nelson tem as duas ligações, a formação e a emocional. Nasceu em Cabo Verde mas veio para Portugal ainda para os juniores do Vilanovense. Quando miúdo, tendo João Pinto como ídolo, conta que era treinado pelo pai Bernardino, que o incentivava dizendo que um dia ainda iria jogar para Portugal. Apesar da independência, a ligação emocional desses países com Portugal continua profunda. No Brasil, claramente, tal é diferente. Nenhum pai treina o filho de 12 anos dizendo “um dia vais jogar por Portugal!”
Em vez de pensar apenas no jogo seguinte, um seleccionador deve pensar no futebol nacional em toda a sua dimensão: Presente, futuro, estilo e identidade. O recurso a naturalizados sem qualquer ligação, de sangue, formação ou emocional, à nação que representam, é o primeiro passo para diluir a comunidade de emoções que uma selecção deve transmitir e ser para quem a vê e sente.

José Correia disse...

Percebo a lógica do João Saraiva e do Luís Freitas Lobo, mas não é isso que quero discutir.

Havendo tantos casos, no futebol e não só, de naturalizados a jogarem pelas selecções das respectivas modalidades, porque razão apenas houve um clamor nacional contra os casos do Deco e do Pepe?

José Rodrigues disse...

A forma como o João Saraiva coloca a questão parece-me correcta e ponderada: ligar a utilização de um jogador na selecção à sua FORMAÇÃO, e não ao facto de se ter naturalizado.

No entanto saliento q tanto Pepe como Deco fizeram pelo menos 3 anos da sua formação em Portugal, tendo chegado com 18 anos. Não é por acaso q a FPF, a UEFA e a FIFA consideram os sub21 como um escalão de "formação", havendo mesmo vagas reservadas para a inscrição desse tipo de jogadores na Liga dos Campeões...

Aliás, se Pepe ou Deco jogassem hoje no FCP seriam considerados como jogadores "formados em Portugal" para efeitos de inscrição na Liga dos Campeões, pelas regras actuais da UEFA (3 anos a jogar no país até atingirem os 21 anos, inclusivé).