sexta-feira, 6 de junho de 2008

No meu panteão de heróis

Por Ernesto Ribeiro


Há muito que o Presidente do FCP reúne em si, quer enquanto personalidade, quer enquanto dirigente, todos os ingredientes para que o posso colocar no rol do meu panteão de heróis. Não é todos os dia, não é todas as eras, que um homem consegue o desiderato desportivo e de crescimento que ele conseguiu "imputar" ao meu amado clube. Se há coisa que eu não consigo ser, por natureza, é ingrato e volúvel na admiração com que presenteio as pessoas. Não seria por uma decisão com este conteúdo, arquitectada desta forma, e de resolução transitória, que eu me escudaria para julgar publicamente um homem como o Presidente. Mas cada um age de acordo com as suas convicções...

Quanto à entrevista do Presidente à SIC tenho a dizer o seguinte:

- Parece-me que globalmente esteve bem; confiante, assertivo, antecipativo, mordaz q.b...

- Mostrou confiança, quer na estratégia quer nos propósitos jurídicos nos quais assenta a razão da defesa do FCP neste processo.

- Atacou, veladamente, os propósitos do processo apito dourado, afirmando, claramente, que o mesmo visava marcadamente o Norte, o FCP e ele próprio.

- Desmascarou, uma vez mais, os meandros de actuação do slb no seio da liga e coligou-os, de algum modo, com a decisão em primeira instância do tal "mestre" aprendiz-de-feiticeiro que preside ao CD da liga de clubes.

- Acusou, o elemento assessor da FPF, de ter fornecido à UEFA, informação errónea, de forma enviesada.

- Prometeu exigir ressarcimento das entidades que determinaram este desenlace, pelos prejuízos causados à entidade FCP.

- Transmitiu confiança relativamente ao futuro do FCP, quer no plano financeiro quer no plano desportivo, independentemente, da resolução última deste processo.

- Assegurou a manutenção do elenco directivo e da estratégia delineada, reafirmando a confiança no vector estratégico.

Desta entrevista, e no que concerne aos aspectos jurídicos deste caso, fiquei bastante mais descansado com os argumentos apresentados:

- Esclareceu que da decisão do CD da Liga, não se esgotaram os recursos para a FCP SAD, porquanto, e porque assentes nos mesmos factos, o recurso do Presidente para o CJ da FPF, vale também para a entidade que ele gere. As entidades, de per si, não praticam crimes ou infracções, e porque os mesmos factos serviram para a condenação das pessoas singulares e colectivas neste processo, o recurso serve o propósito de ambos. A isso se reconduz a notificação do CD ou do CJ que o FCP/Presidente receberam e que foi mostrado ontem perante as cameras.

- A informação transmitida à UEFA pelo assessor da FPF está minada de informação errada, e transcrita de uma forma claramente culpabilizante de um associado que deveria ser protegido por uma Federação da qual faz parte. É bem certo que o FCP NÃO foi condenado por uma decisão, transitada em julgado, no qual é condenado, não por actos de corrupção, mas por mera tentativa.


- Ficou demonstrado que a estratégia jurídica do FCP passava, até porque conjunturalmente isso lhe interessou, que as sanções desportivas inócuas transitassem em julgado (perca dos seis pontos), salvaguardando sempre a hipótese do Clube recorrer das sanções aplicadas em torno da figura do Presidente. Sabendo nós que toda a estratégia do processo apito dourado (no que ao FCP diz respeito) passava pela figura do seu Presidente, pois só dele se extraíram as certidões das escutas para efeitos de acusação, passaria, portanto, pela estratégia do departamento jurídico a defesa conjunta do bom nome do FCP/Presidente, porquanto os mesmos factos se reconduzem às mesmas pessoas (simples e colectivas). Neste sentido se salvaguardaram todas as hipóteses ultimas de recurso (a não ser o caso dos seis pontos, que transitou em julgado), no que concerne às acusações de tentativa de corrupção que recaem sobre o Clube/SAD.

- É sobre este ponto, de natureza processual, que assentará a defesa do FCP nas instâncias internacionais, porque é só sobre esta questão: a informação ERRADA, transmitida pelo assessor da FPF à UEFA, que determinou a não admissibilidade do clube à CL, na medida em que à luz dos regulamentos, o FCP não poderia ser admitido à prova porque tinha sido condenado (por sentença transitada em julgado) por um crime de tentativa de corrupção. Não estando a decisão do recurso tomada em sede do CJ do recurso interposto pelo FCP, é só sobre os elementos clarificadores da comunicação enviesada da FPF que o recurso do FPC na UEFA assentará. E nesse caso, nada obstará que o FCP não possa ser admitido à prova, pois, o Clube NÃO foi condenado, ou antes, NÃO existiu uma admissão de culpa relativamente aos factos de que é condenado em primeira instância!

- Quanto ao recurso para o CJ, a pertinência da questão técnica. É nestas questões técnicas que assenta toda a estrutura jurídica do nosso ordenamento jurídico. Trata-se da violação de uma norma Constitucional, e não de um qualquer regulamento administrativo. Trata-se de quatro pareceres de verdadeiras sumidades de Direito Constitucional, não de um qualquer aprendiz-de-mestre-de-direito! Há sentenças anuladas por decisões contestadas nos mesmos termos: a ilegalidade / inconstitucionalidade da utilização das escutas telefónicas para efeitos de acusação e condenação em sede de Processos Disciplinares!

Vamos lá ver a coisa, o FCP vai por aí porque foi por aí que o CD da Liga foi! Eles mais nada têm que não sejam as escutas dúbias (cuja decisão em sede de processo penal ainda estará para lavar e durar...) e a palavra de uma dita testemunha, credibilizada em tempo recorde.

É que foi assente em certidões extraídas do processo apito dourado que o senhor costa decidiu o apito final, em sede da Liga. Se é inconstitucional é inconstitucional! Não pode, portanto! Não podendo, e sendo jurista, sendo a sua argumentação falaciosa, há que se lhe assacar responsabilidades!
Por outro lado, foi este senhor mais papista que a Morgado! A Morgado limitou-se a acusar, este senhor acusou e condenou na base daquilo que nenhum Juiz ainda (e tenho sérias duvidas que venha a condenar) teve a veleidade de condenar!

Ernesto Ribeiro

7 comentários:

César disse...

"Ficou demonstrado que a estratégia jurídica do FCP passava, até porque conjunturalmente isso lhe interessou, que as sanções desportivas inócuas transitassem em julgado (perca dos seis pontos), salvaguardando sempre a hipótese do Clube recorrer das sanções aplicadas em torno da figura do Presidente." Nessa nem o MST acreditou...

Mário Faria disse...

A gratidão é um valor forte, mas não é absoluto.
Haveria muito a dizer sobre este texto, porém não é o momento certo.
Os sócios do FCP devem estar gratos a todos os que convergiram para que o FCP tivesse a dimensão que hoje tem. Sendo tantos, não os enumero porque certamente deixaria muitos fora da lista.
Não só tenho uma profunda gratidão pela obra de PdC, como não sou capaz de deixar de gostar do nosso Presidente. Aconteça o que acontecer. Todavia, só tenho um compromisso e, esse, estabeleci-o com o FCP, quando passei a ser sócio do clube, já lá vão 59 anos.
O FCP faz parte do meu quotidiano. Lembro o passado, vivo o presente e preocupo-me com o seu futuro. Com o FCP não tenho só um compromisso de gratidão, tenho deveres e direitos que cumpro da maneira que sei e da forma como penso, mas sempre com total lealdade para com o meu clube. O FCP nada me deve por isso, porque ser do FCP faz parte da minha pele, tomou parte do meu coração e é uma herança que garanto aos meus filhos e netos.
Quando PdC , apesar de termos sido bi-campeões, ao fim de um jejum de 19 anos, rompeu com a Direcção de que fazia parte, com certeza não o fez por ingratidão para com o Dr. Américo Sá, o Presidente de então. Fê-lo porque entendeu que a ruptura se impunha, em nome dos superiores interesses do FCP. Foi um Verão muito quente ! Mas, fez bem ! Fui um dos que, desde a primeira hora, anonimamente o acompanhei. Estive presente na AG que decidiu pelo regresso de JMP, estive nas eleições que o elegeram como Presidente.
PdC é provavelmente o Presidente mais apoiado de sempre da história do futebol contemporâneo. O grito “Pinto da Costa, olé” é a prova disso. É um grito de guerra e de solidariedade. PdC só pode ter motivos para estar grato ao FCP. Ser Presidente do FCP deve ser uma grande honra. Não há que trocar promessas de gratidão, como se isso fosse o mais importante. Há que cumprir zelosamente os deveres que nos competem, e saber honrar o bom nome do FCP em todos os momentos. Cada qual no seu lugar, cada um segundo o seu mérito e a sua convicção.
É isso que tenho tentado fazer, esgrimindo a minha opinião. Definitivamente e aconteça o que acontecer, jamais deixarei de ser do FCP e de cumprir religiosamente todas as minhas obrigações. Mais, e se por absurdo o recurso não nos for favorável, serei ainda mais cuidadoso e próximo que o costume, porque o FCP vai precisar mais de nós.

José Correia disse...

«A gratidão é um valor forte, mas não é absoluto.
Haveria muito a dizer sobre este texto, porém não é o momento certo.»

O texto do Ernesto Ribeiro (a quem agradeço publicamente ter autorizado a publicação neste blog), traduz a visão de uma franja significativa (maioritária?) no universo portista.

O comentário do Mário Faria bateu fundo cá dentro e está ao nível daquilo que ele já nos habituou.

É, também, desta diversidade de perspectivas e opiniões, que se faz a força do FC Porto.

João Saraiva disse...

O comentário do Mário merecia deixar de ser comentário e passar a ser um post.

Mefistófeles disse...

Caro Mário Faria,

Quanto mais o leio mais o admiro. É, efectivamente, uma pessoa notável e o seu contributo é inestimável. Gostaria de partilhar algo consigo.

Para mim, a gratidão é um valor absoluto. E a lealdade, sabendo que a sua é inquestionável, também o é.

Já disse aqui que não há uns mais Portistas que outros. Gostamos todos por igual do nosso FCP mas somos todos diferentes na forma como sentimos o clube. E, como disse o José Correia, é a diferença que nos enriquece e fortalece.

Ora, isto decorre apenas do facto de termos vivências diferentes e pertencermos a gerações diferentes.

Falando de vivências: nasci em Angola e cresci em Lisboa ( vivi lá 35 anos ) e quando quebrámos o tal “jejum” de 19 anos, eu era o único míudo Portista em todo o liceu ( que tinha cerca de 500 alunos ). Como deve imaginar, as minhas orelhas fariam o LFV morder-se de inveja…

Muito antes disso, o meu pai ( a quem eu devo o meu Portismo ) levava-me ao estádio da luz e ao de Alvalade ( e a Belém ) para ver o FCP perder por 2 ou por 3. Roubados ou não, já íamos borrados de medo. O desfecho era o esperado, a nação consolava-se, o FCP era um clube típico do Norte ( mas simpático ), e eu e o meu pai voltávamos para casa cabisbaixos, sem trocar sequer uma única palavra.

O dia seguinte era o pior porque era dia de escola. E era tão insuportável aturar lagartos como lampiões, acredite.

Depois do “ Verão Quente “, recordo-me perfeitamente das suas palavras “ Vais ver que, com este ( PdC ), ninguém brinca.”

Em 1983 o meu pai morreu, tinha 55 anos. Não assistiu a nenhuma das estrondosas vitórias que obtivemos a nível internacional e nacional. E não houve uma em que não me tivesse lembrado dele.

Fui um privilegiado, que assistiu ( e continua a assistir ) a vitórias, antes inimagináveis, e ao crescimento de um FCP vencedor, quase esmagador. Ao meu pai, só lhe tocou “o deserto”.

Considero que há um FCP antes de PdC e um FCP depois de PdC. Eu prefiro o segundo. Tenho a certeza que o meu pai também o preferiria.

Se isto é seguidismo, então eu sou seguidista. Sem quaisquer complexos porque o que PdC me deu não tem preço. Por isso eu acho que, quando diz que PdC só pode estar grato ao FCP, eu digo justamente o contrário:o FCP só pode estar grato a PdC.
Vivó Porto !

Sócio2710 disse...

Pela 1a. vez visito este blogue e estou espantado pela riqueza de comentários...
Aliás...só comecei a ler "blogues" à meia dúzia de dias, quando a "angustia-portista" de mim se apoderou...
Comecei pelo "portistas de bancada" e de lá passei a este.... E em boa hora o fiz... Vou continuar a espreitar nos outros "blogues azuis"...
Apreciei todas as opiniões... Comungo das ideias do Mario Faria e também andei nessas guerras do "verão quente", apoiando PdC...
Mas confesso que me emocionei com o texto de Mefistófeles... Eu também vivi as amarguras que seu Pai viveu... Mas a vida é feita de ciclos...
Parabéns a todos... e bibó FCP... SEMPRE... e acima de qualquer pessoa!

José Correia disse...

Caro Sócio2710,

Em nome do 'Reflexão Portista', muito obrigado pelo simpático comentário.

Volte sempre.