sábado, 2 de agosto de 2008

A especialidade da casa

Neste últimos anos a venda de jogadores tem nas palavras da SAD “representado uma parte substancial dos proveitos da F.C.Porto – Futebol, SAD e numa perspectiva mais ampla, de muitas sociedades deste sector de actividade que assim equilibram os seus resultados de exploração.”, e pelo andar da carruagem assim continuará a ser.


Teremos pois, todos os anos, de nos vermos livres de uma ou duas jóias da coroa. E bom, bom! é vender o menor número possível pelo maior valor possível, só que para alguém vender é preciso que alguém compre (e que pague), e por vezes há oferta mas não há compradores que paguem o valor pedido – como podemos, ligeiramente, caracterizar a novela Quaresma.



foto Miguel Riopa/AFP


E isto trouxe-me à memória uma questão que já analisei há uns tempos, e que se enquadra naquilo que a SAD refere num dos últimos relatórios e contas: “Apesar da contenção existente no mercado de transferências na Europa, a aposta no apetrechamento da equipa com bons valores, para além de proporcionarem bons resultados desportivos, possibilitou a obtenção de bons resultados nas transferências efectuadas.


Se olharmos para o mercado internacional de transferências sem muito esforço pensamos que as grandes transferências se dão com as vedetas da bola e que normalmente são os médios de ataque e os avançados, e isso é confirmado pela matemática - se pegarmos nas 25 maiores transferências de sempre e nas 25 maiores transferências desta época (até à data de hoje) vemos que dizem respeito a:



Lá está! No mercado internacional as grandes transferências dão-se com médios e avançados, e esporadicamente transfere-se um guarda-redes. Podemos igualmente verificar que os cálculos por n.º de transferências ou pelo valor das mesmas, resultam em %s muito parecidas, o que representa alguma uniformidade no valor por transferência.


Vivendo “uma parte substancial dos proveitos da F.C.Porto – Futebol, SAD“ da mais valia com a venda de jogadores, e estando a mesma constantemente a apostar no “apetrechamento da equipa com bons valores, para além de proporcionarem bons resultados desportivos," possibilitarem "a obtenção de bons resultados nas transferências efectuadas.”, podemos dizer que as nossas vendas estão em sintonia com aquilo que o mercado compra?



Mantendo-se os médios como a principal exportação (em termos de quantidade), substituímos os avançados pelos defesas, existindo ainda um outro aspecto interessante e importante: embora vendendo menos defesas que médios, em termos de valores a venda dos defesas tem um peso maior que a venda dos médios.


Podemos assim dizer que somos especialistas a vender defesas, facto que é "confirmado" por nas 12 principais transferências internacionais de defesas, 4 (33%) terem sido efectuadas por nós.


Serão estes dados circunstanciais, ou deverão ser a nossa base de exploração deste segmento do mercado? Devemos apostar em defesas mais jovens que nos possas gerar mais valias financeiras, apostando em médios e avançados mais experientes que sejam a sustentação desportiva da equipa? A aposta relativamente recente em jogadores jovens, daquelas posições que o grande mercado quer comprar, e que se pode considerar que falhou (Carlos Alberto, Diego, Ibson, Leo Lima, Leandro do Bomfim, Pitbull, Renteria, …) é lição aprendida, ou vai ser para repetir?


Será este o nosso nicho de mercado?


Um Nicho de Mercado corresponde a um segmento de mercado constituído por um reduzido número de consumidores com características e necessidades homogéneas e facilmente identificáveis. Devido à sua pequena dimensão, os nichos de mercado são geralmente desprezados pelas grandes empresas, constituindo, por isso, excelentes oportunidades para as pequenas empresas que aqui podem escapar ao domínio das grandes empresas e conseguir uma posição de liderança através de uma oferta muito específica e adaptada às características e necessidades dos consumidores que constituem o nicho.

(retirado de http://www.knoow.net/cienceconempr/gestao/nichomercado.htm)



Será que no futebol há espaço para nichos? Será esta uma vertente do Visão 611? Enfim muitas questões que se calhar fazem parte do segredo do negócio, e que só terão uma resposta no dia a dia dos próximos anos.


Passando da teoria à prática, e estando o Inter interessado no Quaresma mas achando-o caro, e tendo quase todos os centrais lesionados, será que não vão querer provar a especialidade da casa?



Para este artigo foram utilizados os valores constantes do transfermarkt.de

4 comentários:

Nelson Carvalho disse...

De facto o FC Porto faz-se pagar bem caro pelas vendas que efectua. E dentro destas grandes transferências é notória a apetência para negociar defesas. Só Deco e Anderson fogem desta tendência.

Para o FC Porto é estratégico vender uma jóia por 30 milhões/ano, o valor de "base" para seja possivel fazer cumprir dentro dos limites do aceitavel o equilibrio desportivo e financeiro.

Por isso mesmo é que se verifica este braço de ferro em torno da transferência de Quaresma. O Inter quer pagar bem menos que os 30 milhões, mas a SAD do FCP sabe que se ceder por uma vez que seja, abrirá um precedente para que no futuro outras jóias venham a sair por valores bem mais modestos.

The Turk disse...

O artigo está muito interessante. Porém há um factor importante a considerar: quase todas as maiores vendas foram de jogadores de nacionalidade portuguesa. Isso devido ao limite de jogadores não comunitários nos clubes que são os nossos clientes, por assim dizer. Como quase todas as nossas contratações vêm do mercado nacional ou sul-americano isso significa que os jogadores mais valorizados são os portugueses. É a formação nos clubes portugueses que condiciona o nosso clube. Em Portugal não se fazem bons laterais esquerdos, médios ofensivos e avançados, obrigando-nos a compensar essas posições com jogadores sul-americanos. Estes não podem ter o mesmo peso nas nossas vendas porque, para além do limite de não-comunitários que já referi, o Porto não tem a capacidade financeira nem joga numa liga capaz de atrair os melhores jogadores desse continente. Pelo mesmo motivo só podemos contratar jogadores jovens, já que a partir do momento em que os jogadores atingem alguma notoriedade ficam inacessíveis ao Porto.

João Saraiva disse...

Esse ponto de vista está por aqui no excel e mais dia menos dia vai dar origem a outro artigo.

José Correia disse...

«dentro destas grandes transferências é notória a apetência para negociar defesas. Só Deco e Anderson fogem desta tendência»

É verdade que somos especialistas a negociar defesas - Fernando Couto, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Pepe, Bosingwa - mas também é verdade que, para além do Deco e do Anderson, poderiamos incluir o Futre, o Rui Barros, o Zahovic, o Jardel e o Maniche na lista dos médios ofensivos e avançados que foram objecto de grandes transferências (os valores de cada transferência devem ser vistos atendendo às épocas em que os jogadores foram transferidos).