domingo, 3 de agosto de 2008

Desabafos sobre as Colheitas 2006 e 2007 em Vésperas da Vindima

O Zé Freitas é um amigo meu de longa data. Uma meia-dúzia de anos mais velho que eu, os suficientes para ter feito a tropa na zona de Cabora-Bassa e ter estado em Torres Vedras naquela quase fatídica tarde de Março de 1959, factos que, aliás, não cessa de brandir perante a “catraiada” quarentona e cinquentona que o rodeia. Por natureza é um pessimista, ao que junta um elevado grau de cepticismo. “Podes escrever isto que te digo!”, é uma expressão com que vulgarmente termina as suas normalmente quase catastróficas previsões em relação ao desempenho do F.C. Porto ano após ano.

Mas neste defeso tenho tido que aturar a sua indignada prosa mais do que o costume. Ao ver sucessivos jogadores a chegarem ao clube, ei-lo que desata a desbobinar os nomes das contratações das duas últimas épocas, antecedendo isso da pergunta: “Diz-me qual destes gajos pegou de estaca! Diz-me! Olha-me só o desperdício: João Paulo, Diogo Valente, Ezequias, Mareque, Renteria, Lino, Fernando, Stepanov, Edgar, Kazmierczak, Leandro Lima, Luís Aguiar, Bolatti, Farias! Falta algum, carago?!!” E agora, ao ver os nomes de Sapunaru, Benitez, Rolando, Guarín, Tomás Costa e – sobretudo – Hulk – quase que lhe dá uma apoplexia! Vá lá, no meio da sua interminável jeremíada deixa de fora o Cristian Rodriguez – “Esse já o conhecemos, é bom jogador, mas no meio dos cegos onde actuava, até eu me salientava!”

Anteontem assisti com ele pela televisão ao F.C. Porto – Leixões, e à medida que ele ia ouvindo as minhas apreciações favoráveis às actuações de Benitez, Tomás Costa e Hulk, às quais juntava o meu agrado pelo que até agora vi de Sapunaru, o seu proverbial cepticismo ia subindo de tom: “O quê?? Isto é fogo de vista! Viste alguma coisa nesse Benitez? E o Guarín? Nem no Foz tinha lugar! Sabes o que te digo?? Isto é tudo obra desses sanguessugas, os empresários!”

O Freitas, de facto, exagera – e muito – mas tem alguma razão, não tanto, pelo que até agora vi, no que diz respeito aos reforços desta época, mas essencialmente em relação às duas épocas precedentes (a memória dele nestas coisas, não costuma recuar mais que dois anos). Realmente, para um clube com o nosso palmarés em aquisições, as duas últimas épocas estão longe de terem sido um sucesso nesse campo. E se uma das estratégias do FCP passa pela aquisição e subsequente valorização e venda de jogadores, essa estratégia ficou um pouco comprometida com esse pouco fulgor. Claro que com jogadores como Anderson, Lucho e Lisandro – já com selo de garantia – é mais fácil acertar, mas lá vem o reverso da medalha com os exemplos de Diego e Luís Fabiano (o primeiro provavelmente vítima do feitio de Adriaanse mais do que do seu). Mas uns e outros custaram caro, enquanto que “a lista negra do Freitas” é essencialmente constituída por jogadores de custo mediano ou médio/alto, onde as possibilidades de descobrir uma mina são sempre mais reduzidas – ou outros lá poderiam ter chegado antes de nós. Mas não se exigem minas – apenas jogadores que demonstrem categoria suficiente para representarem a equipa, e com estatuto superior ao de bons suplentes.

E continua o Freitas: “Depois vêm-nos com a conversa de que estão em adaptação – ao clube, à cidade, ao clima, aos novos métodos, eu sei lá! Treta, pá, pura treta, conversa de sacha! Olha o Madjer! Chegou cá, poucos dias depois estreou-se em Belém, deu a volta ao resultado, e oito dias mais tarde enterrou os remendados no Bessa! Qual adaptação, qual carago! Se fossem bons já estavam adaptados há muito! Alguns deles têm uma grande desadaptação, sim, mas é à profissão que escolheram! Bolas! Eles e quem os contrata, diga-se! És um anjinho, abre-me esses olhos!” Nisto, distraído, ei-lo que aplaude uma jogada de Tomás Costa: “Belo passe, sim senhor!” Mas, caindo em si, logo emenda: “Isto deve ser fogo de vista! Quem é este gajo, de quem nunca ouvi falar??”

Pelo que até agora tenho visto, contudo, parece-me que no fim desta época o Freitas é bem capaz de ter de engolir a sua habitual e verrinosa crítica. A colheita de 2008 parece bem superior às duas antecedentes. O tempo o dirá.

Despedi-me do Freitas no fim do jogo e, lembrando-me do seu habitual veraneio na zona de Loulé, prestes a iniciar-se, lancei à laia de despedida: “Vais ver a Supertaça?” E logo veio a ribombante resposta: “O quê? Meu rico dinheirinho!

5 comentários:

Tiago disse...

Parece-me que vamos acertar em algumas contratações mas verdade seja dita, comparado com as duas últimas temporadas, era quase impossível fazer pior.

Nelson Carvalho disse...

Esse Zé Freitas é mesmo daqueles da velha guarda, sempre com a lingua afiada para desdenhar, mas às vezes lá se distrai e ate acaba por elogiar alguma coisita. ;-)

De facto nos ultimos 2 anos o saldo das aquisições foi bastante modesto, para não dizer mesmo fraco. E pior é ver chegar em media uma dezena de jogadores e nenhum deles ter mostrado capacidade para integrar regularmente a equipa principal.

Felizmente este ano a tendência parece dar melhores indicadores. Será pelo facto da equipa estar mais fraca por ter perdido ate ao momento 2 elementos preponderantes? Não creio que seja só isso, pois para alem terem chegado interessantes opções para as vagas de defesa direito e trinco, há outros elementos que podem vir acrescentar valor ao plantel noutras posições do terreno, como Rodriguez, Rolando, ou ate Tomas Costa.

Jorge Aragão disse...

Excelente " estória ", grande Freitas...
Mas tem razão quando fala nas contratações, enumerou uma série incrível de falhanços e o pior, geralmente com contratos longos e caros, basta ver os anos que demoramos a livrarmo-nos deles precisamente por essa duas razões e assim com enorme prejuízo.
Concordo muito mais com a política do "sportem", pelo menos este ano,concisos, cirurgicos, com qualidade e pouco dinheiro mas montaram uma equipa com boas alternativas e competitiva.
Este ano a safra não parece má mas não apaga erros anteriores e que continuam recorrentes...

urtigao disse...

O clube mantendo o mesmo treinador adquire cerca de 12 jogadores por temporada, e aonde poucos são aqueles que se mantém no clube na época seguinte.
Ou os jogadores não prestam e não tem qualidade para jogar no FCP, e assim sendo algo esta mal, porque alguém terá que ser responsabilizado por a escolha dos mesmos, ou o clube não sabe aproveitar e acima de tudo rentabilizar os mesmos.
Não se entende tal politica, e acima de tudo ate quando irá ser possível manter tal, porque os anéis cada vez são menos, e o legado dos bons jogadores do JM está a findar.
Este ano já investimos cerca de 20€M porque terão que ser precavidas as saídas no próxima época de Lucho, Licha e BA, e o plantel ainda não se encontra fechado, porque caso o quaresma saia, o Simão irá entrar.
Bem poderiam aproveitar o dinheiro do Quaresma para amortizar, diminuir o endividamento do clube, e apostar num dos enumeros jogadores que tem contracto connosco.

A rentabilização dos activos deveria ser a prioridade obrigatória, para a tal propagada redução de custos, bem como aposta na formação.
Não acredito que nestes jogadores não exista qualidade, não compreendo como Ibson, Adriano e BM , PMachado, Pitbull não caibam no nosso plantel.

Isto é uma questão de politica, ou do que quer que lhe chamem, para sustentar esta continua obsessão de aquisição de novos activos ( procura galinha ovos ouro ), porque para entrarem X tem que sair Y, tenham estes ou não qualidade...

È uma questão de confiança, como referiu HP, os jogadores tem que se sentir parte integrante de um projecto, no FCP ao contrario que acontecia em décadas anteriores, jogador que é emprestado, raramente entra.

Os títulos conquistados, mesmo que para tal tenhamos que gastar o dobro que o segundo classificado, lançam uma cortina de nevoeiro sobre tudo isto..." febre do mercado" ....veremos ate quando, porque qualquer dia chega o D.Sebastião, porque as contas não enganam...e a sustentabilidade desta politica desportiva também não.

José Correia disse...

Assim de repente, e que me lembre, das muitas contratações (cerca de 20) feitas nas últimas duas épocas, os únicos jogadores que se impuseram (embora sem serem titulares indiscutíveis) foram o Fucile e o Tarik.

Sem dúvida que o balanço das contratações das épocas 2006/07 e 2007/08 é francamente negativo. Esperemos que as contratações desta época sejam muito melhores.