sábado, 9 de agosto de 2008

Por que não há no Porto dois grandes clubes? (ou requiem, talvez precipitado, pelo Boavista F.C.)

A pergunta que titula este artigo coloca-se devido à actual lenta agonia do Boavista F.C., cujos dissabores no âmbito do Apito Final apenas disfarçam a crise profunda em que o clube mergulhou no início deste ano civil.

Será que a cidade do Porto e sua área urbana podem alimentar dois clubes de peso?

Digo de peso porque, convém não esquecer, além de F.C. Porto e Boavista, temos também o Desportivo de Portugal, o Ramaldense, o Pasteleira, o Foz e o Progresso, sem esquecer o velho Salgueiral, agora tristemente confinado às provas dos escalões jovens, e os vários clubes de amadores. E se passarmos ao Grande Porto, há ainda o Leixões, o Leça, o Gondomar, o Vilanovense e o Infesta, entre muitos outros.

Para melhor se responder à pergunta deitemos os olhos na direcção de uma cidade inglesa bem parecida com a nossa: Liverpool.
Não está geminada com o Porto - essa honra cabe a Bristol - mas é, como a Invicta, um importante porto (no início do século XIX 40% do comércio mundial passava pelas suas docas!) e um centro industrial com antigas ligações à indústria têxtil.
E se, no campo da música, o Porto deu ao mundo Toni de Matos, Rui Veloso e os GNR, Liverpool deu os Beatles, claro, mas também Gerry & the Pacemakers (intérpretes de uma das mais famosas versões de “You’ll Never Walk Alone”) e Cilla Black. Tal como o Porto, também Liverpool tem uma importante comunidade chinesa, a qual, aliás, é a mais antiga da Europa. Shop-suei e pato Li-Jing são, portanto, mais dois pontos em comum entre as duas cidades!

A população do Porto-cidade é actualmente bastante menor que a de Liverpool (230.000 vs. 430.000 habitantes), mas a área metropolitana do Porto tem cerca de 1,9 milhões de habitantes, enquanto que o burgo metropolitano de Merseyside, no qual Liverpool se insere, tem 1,4 milhões. Não é portanto por causa da população que o Porto, globalmente considerado, estaria em desvantagem.

Liverpool alberga dois dos mais históricos clubes ingleses, Everton e Liverpool (por ordem alfabética, que é mais neutro!), os quais, conjuntamente, fazem com que a cidade seja de longe a que mais títulos de campeão inglês reúne: 27, contra 19 de Manchester e 18 de Londres.

O Everton, aliás, é o clube com mais épocas na divisão principal do futebol inglês, e foi um dos doze fundadores da Football League (Liga Inglesa) em 1888, feito de que nem Liverpool, nem Arsenal, nem Manchester United nem, muito menos, Chelsea se podem gabar.

Aliás, foi do seu “ventre” que saiu o próprio Liverpool, quando um aumento de renda por parte do senhorio de Anfield levou o Everton a deixar aquele recinto em 1892 (onde se sagrara pela primeira vez campeão inglês, em 1891), tendo alguns dissidentes ficado para trás e, juntamente com o senhorio, fundado o Liverpool.
Este último - saído da sombra do seu vizinho na década de 70 do século passado - com os seus 18 títulos de campeão é o clube mais vezes vencedor do campeonato inglês, além de ostentar variadíssimas vitórias em provas europeias, com destaque para os seus 5 triunfos na Taça dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões.

Perante este grandioso palmarés dos clubes de Liverpool e o atrás referido contexto demográfico é legítimo dizer-se que também o Porto poderia ter dois grandes clubes.
A meu ver, não os tem, não simplesmente por um qualquer efeito hegemónico da força do F.C. Porto, mas pela natureza do boavisteiro típico das últimas décadas.

De facto, ao longo dos tempos sempre houve no Porto e arredores um número substancial de pessoas (uma minoria numerosa, digamos) que não eram adeptas do F.C. Porto, mas nem por isso o eram de um dos outros dois principais clubes da cidade. Estamos a falar dos benfiquistas e sportinguistas do Porto (estes últimos em menor número, e actualmente em vias de extinção – embora não conste terem sido declarados espécie protegida pelo WWF). Muitos deles acabaram por aderir ao “boavistismo” quando os nossos vizinhos da Av. da Boavista começaram a dar um ar da sua graça (que é coisa que lhes não encontro, a bem da verdade), mas rapidamente desertaram quando o proverbial coche à meia-noite se transformou de novo em abóbora, e os cocheiros, muito apropriadamente, em ratos.

Este êxodo dos boavisteiros do bom tempo reduziu de novo o Boavista ao seu curto e tradicional núcleo de indefectíveis, personificados pelo popular Manuel do Laço, núcleo esse incapaz de fornecer um presidente ao clube nesta hora trágica por que passa, sendo o actual líder da colectividade, ironicamente, um portista. Se acaso o Boavista chegar mesmo ao fim não faltarão, daqui a uns anos, os revisionistas da história a proclamarem que isso apenas aconteceu porque o presidente era portista!

Conclui-se assim que, se a cidade do Porto nunca teve dois grande clubes mas apenas um, tal ficou a dever-se, não à escassez populacional, mas à adesão provinciana a clubes da capital por parte de um sector da sua população amante do futebol.

Isto distingue flagrantemente o Porto de Liverpool: em Merseyside não há lugar para adeptos de clubes da capital nem, muito menos, da vizinha Manchester. Torce-se por um clube da terra, nas boas e nas más horas.

10 comentários:

Armindo disse...

"Conclui-se assim que, se a cidade do Porto nunca teve dois grande clubes mas apenas um, tal ficou a dever-se, não à escassez populacional, mas à adesão provinciana a clubes da capital por parte de um sector da sua população amante do futebol."

Excelente!

José Correia disse...

Interessante a semelhança entre as cidades do Porto e de Liverpool, ao nível do seu passado industrial, grupos/interpretes musicais, rivalidade com a capital e até população.

Confesso que não partilho da paixão que o Alexandre tem pelo Everton (embora nada tenha contra os azuis de Liverpool) e, ainda por cima, simpatizo com os reds desde meados dos anos 70 quando, por duas vezes, me deram a alegria de eliminarem as "gaivotas" da antiga Taça dos Campeões Europeus.

José Correia disse...

«foi do seu “ventre” que saiu o próprio Liverpool, quando um aumento de renda por parte do senhorio de Anfield levou o Everton a deixar aquele recinto em 1892 (onde se sagrara pela primeira vez campeão inglês, em 1891), tendo alguns dissidentes ficado para trás e, juntamente com o senhorio, fundado o Liverpool.»

Neste aspecto não há qualquer semelhança com a génese de FC Porto e Boavista.
A situação é sim mais parecida com a génese de Sporting e Benfica.

José Correia disse...

«ao longo dos tempos sempre houve no Porto e arredores um número substancial de pessoas (uma minoria numerosa, digamos) que não eram adeptas do F.C. Porto, mas nem por isso o eram de um dos outros dois principais clubes da cidade. Estamos a falar dos benfiquistas e sportinguistas do Porto»

Os boavisteiros de origem/simpatia benfiquista devem andar um bocado confusos. É que se há clube responsável pela descida de divisão do Boavista e, quiçá, pela sua extinção, é precisamente o clube da Luz, que conduziu toda a campanha e manobrou habilmente nos bastidores dos Apitos Dourado e Final.

HULK ONZE MILHAS disse...

«ao longo dos tempos sempre houve no Porto... (uma minoria numerosa, digamos) que não eram adeptas do F.C. Porto, mas nem por isso o eram de um dos outros dois principais clubes da cidade. Estamos a falar dos benfiquistas e sportinguistas do Porto»
Esta verdade não se aplica apenas ao Porto. Acontece pelo País fora. É uma mentalidade bem diferente do que acontece no Reino Unido, por exemplo.
Fico admirado quando pergunto a um cidadão britânico qual o seu clube e ele me vem com nomes de que nunca ouvi falar! Mas é o clube da terra!!! Mas não és adepto também do MU ou Arsenal.. ou...? pergunto eu... E não é que raramente o são?
E, em meu entender, enquanto esta mentalidade se mantiver, continuará a existir o clube dos "3 grandes" e o resto é paisagem!
E durante muitos anos os verdadeiros "grandes" eram os dois da capital....
Mais um motivo para termos enorme orgulho na nossa região e no nosso FCP!!!

tiago araújo disse...

Eu preferia que a equipa alinhasse com:
Helton
Sapunaru, Rolando, B. Alves, Benitez
Tommy, R. Meireles, Lucho
Quaresma, Lisandro, Rodriguez

Apesar do Fernando ter jogado bem, o Guarin e o Tommy justificaram mais a titularidade.

Mefistófeles disse...

Sineceramente, acho que em Portugal só há espaço para 2 grandes clubes: um a Norte, o FCPorto, claro. E a Sul gostaria que fosse o Sporting porque a nossa luta, não sendo idêntica, é muito parecida.

A luta contra a mediocridade que o sport lisboa representa, apresenta e impõe. Sombras de um passado cinzento. E que se estende a vários campos sociais, não por acaso, mas fruto de uma forma de estar na vida.

Tudo o resto pode merecer ( ou não, como Vg e Braga) a minha simpatia, mas não passa de folclore.

Mefistófeles disse...

José Correia, veio-me à memória uma das melhores cenas de que há memória no futebol: em pleno "galinheiro", 3 ou 4 avançados do Liverpool a " rabiarem" o Bento ! Guarda-redes intocável da Selecção, tal como o "capão-voador" do Montijo como alguém aqui disse e muito bem.

Mefistófeles disse...

Não me levem a mal, mas não tenho qualquer simpatia pelo Boavista.

No entanto, é nojento o que lhe estão a fazer. Mais uma evidência que a Justiça não é cega, é zarolha, e só vê do Lis para cima.

E das Finanças já nem falo. Drácula é um menino ao pé destes "vampiros".

MST recordou recentemente a vergonha do que foi a negociação do sport lisboa com Durão Barroso e a Manela numa dívida bem superior.

Já para não falar do vergonhoso nascimento do cesto do pão pelas mãos do parturiente Santana Lopes.

O castigo ao orelhas é para disfarçar, para inglês ver. E só não dá para rir porque já me doem os maxilares.

Se Eça fosse vivo, queria morrer outra vez porque nada mudou.

Menphis disse...

Excelente artigo, o qual subscrevo inteiramente. Até porque os boavisteiros não estão chateados por descerem de divisão mas porque o FCP não desceu também.