quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Um portista nos Emirates


Resolvi ir a Londres para assistir a um jogo de futebol num ambiente mais “fervoroso” que hiper-valorizamos na base do que vimos na TV e, perder por perder, mais vale quando é contra uma equipa que joga a correr e a atacar, com alegria, com velocidade, muito passe, muita posse de bola, muito movimento, criando sucessivas ocasiões de golo, feita de miúdos e alguns graúdos. Fomos os bombos da festa e saímos pior que estragados, por muito que reconheçamos que o adversário é de outra galáxia.


E, contra uma equipa de outra galáxia, só uma equipa que sabe fazer das fraquezas forças, que entra e é capaz de dar tudo. Deixar a pele no campo. Convenhamos que aos jogadores custa muito deixar a pele no campo, pois lá se vão as tatuagens. Que chatice!

Só que é aqui que começa o problema: o FCP não é uma equipa. É um conjunto de jogadores, sem atitude, pouco solidários e sem comando. Pior: o colectivo é mais fraquinho do que pensava. O Arsenal trouxe à tona todas as nossas debilidades. Como é possível que o Cebola jogasse muito melhor no SLB que no FCP?

Entrosamento? Falta de rotinas? Que se passa? O futebol qualquer dia é uma ciência das mais esotéricas e só ao alcance de uns quantos iluminados. Haja pachorra, já que trabalho parece não haver.


Do jogo há crónica justa e certeira do Nuno, permito-me porém relevar um facto: para nós que estivemos no campo ficamos perplexos pela saída de Meireles. Creio, mesmo, que o melhor momento do FCP – os primeiros 20 minutos – tiveram claramente a sua assinatura. No meio daquela confusão pareceu-me sempre o mais lúcido. Na 2ª. parte só uma vez – na melhor jogada do 2º tempo – fomos capazes de fazer mais de quatro passos seguidos.

Outro factor preocupante é a condição física. O Arsenal andava como se fora um comboio de alta velocidade, o FCP mais parecia uma daqueles automotoras do Tua que anda muito devagarinho e que apesar disso descarrila frequentemente.


Quanto à nossa viagem tudo correcto. Vão os artistas e os técnicos, os dirigentes e assessores, os sponsors, os vips, a Comunicação Social e os sócios acompanhantes (pagantes). Fomos bem tratados e a Cosmos organizou as coisas satisfatoriamente, se bem que pudesse ter programado um ou outro esquema de visitas, pois ainda tivemos bastante tempo livre.

Os jogadores vieram “isolados” (no avião) do resto da comitiva, e apenas dois ou três pormenores que anotei, e que poderão ter sido meramente ocasionais e que devem ser acolhidos com toda a parcimónia.
O rosto super fechado de Reinaldo Teles no regresso e o facto do Presidente me parecer um pouco “afastado” dos restantes membros da SAD. Mas, não havia sinais visíveis de "descrença".

Uma noite que não esqueceremos.


Uma palavra para os sócios que acompanharam a equipa. Apoiaram-na enquanto tiveram alma. Eram bem mais numerosos do que esperava. Frio, vento e chuva: uma noite de Inverno, aquecida pela esperança que sempre anima os indefectíveis do FCP.

A equipa, como sempre, é pouco avessa a mostrar-se e situar-se próxima dos adeptos e não sabe criar empatia juntos dos que os elegeram como as suas vedetas maiores. Entram zangados e saem furiosos. Com os adversários, com os colegas, com os dirigentes, com os sócios que os sufocam de mimos e os assobiam por jogar pouco, com os baixos salários, com a crise petrolífera e financeira, com o mundo. São uns incompreendidos.

Depois desta derrota, bandeiras ao alto, mas nada de paninhos quentes. A equipa precisa de um tratamento de choque. Há umas semanas, o nosso Presidente escrevia o seguinte "... Do outro lado da verdade, um pedaço mais acima, mais a Norte, a formiga trabalha incessantemente, consciente de que só com tarefa árdua aguentará o Inverno e conhecedora de que viver à custa do sucesso sai sempre muito caro. Mantendo inexorável a sua política de que é no terreno que se ganha o pão, a formiga é diferente, é unida, é simultaneamente sensata e lutadora, é forte como o Dragão..."


Esta formiga, infelizmente, ultimamente parece mais uma lesma: trabalha mas não produz, está unida mas anda desencontrada, é sensata apenas no reconhecimento que parece mesmo uma lesma, e de lutadora tem mostrado demasiado pouco, tão pouco que a chama do Dragão há umas semanas não funciona, apesar dos esforços do veterinário do costume.

Depois da tempestade vem a bonança. Vamos acreditar que sim.

Fotos: uefa.com (clique nas imagens do jogo para as ampliar)

9 comentários:

Mefistófeles disse...

Nem consegui comentar o jogo e a nossa humilhação...

Vamos acreditar que há males que vêm por bem. Isto é o que temos e não certamente o que queremos.

Alguém terá que ser responsabilizado, mais tarde ou mais cedo mas o que urge é mudar de caminho porque assim não vamos a lado nenhum.

E se calhar ir já às compras em Dezembro a ver se encontramos uns laterais dignos desse nome. Ou então um treinador.

KOSTA DE ALHABAITE disse...

Mário Faria: excelente post, escrito sentimento enorme de Portismo. Gosto da conclusão: positivismo acima de tudo.

Tiago disse...

O que acontecia com o sindrome da ponte D. Luís, está a tornar-se no sindrome além-fronteiras.

É inegável que falta ambição à nossa equipa técnica e a gritante incapacidade em motivar a equipa quando ela mais precisa, é inegável que a qualidade do plantel é inferior a 2007/2008 e contratações como Benítez (suplente no Lanús), Guarín (suplente no St. Ettiene), Mariano (suplente no Palermo...e no FCP), e as dispensas de Ibson, Paulo Machado, Adriano, Pitbull etc. são mais uma prova da má gestão de activos.

Espero que a vergonha de 3ª feira seja o tónico para despertar o brio e o orgulho de todos os jogadores, e sobretudo da equipa técnica. Uma derrota contra o zbordem abriria ainda mais brechas na estrutura desportiva, e criaria ainda mais problemas entre adeptos (sejam fanáticos, pipoqueiros, etc.) e a equipa/treinador.

Blinke disse...

Foi um jogo tão mau mas tão mau que me fez lembrar o FCP da altura do Octávio como treinador... equipa apática (tirando os 1ºs 20m), não conseguiam fazer uma unica jogada, jogadores não falavam entre si etc etc etc.

Eu como portista gostava que o Porto ganha-se em Alvalade para quebrar o enguiço, mas se isso acontecer lá vamos ter de aturar mais algum tempo no nosso medrioque treinador :S

José Correia disse...

«o FCP não é uma equipa. É um conjunto de jogadores, sem atitude, pouco solidários e sem comando.»

Pois é...
Ainda se os jogadores fossem todos de boa qualidade, a coisa notava-se menos.

José Correia disse...

«A equipa, como sempre, é pouco avessa a mostrar-se e situar-se próxima dos adeptos e não sabe criar empatia juntos dos que os elegeram como as suas vedetas maiores. Entram zangados e saem furiosos.»

De facto, é lamentável a atitude dos jogadores relativamente aos adeptos, principalmente nos jogos fora.

Os jogadores actuais não têm qualquer respeito, nem reconhecimento, pelo esforço, tempo e dinheiro que os adeptos gastam para os irem apoiar.
Já não é a primeira vez que, no final dos jogos, tem de ser o Jesualdo a obrigá-los a irem agradecer.

Isto é mais um sintoma da falta de referências na equipa e da completa descaracterização do plantel do FC Porto.

Mefistófeles disse...

Eu acho que o diagnóstico, em todos os comentários, está feito para todos os nossos males.

Há um factor que sobressai: a ausência de liderança e responsabilização. No clube, na SAD, em campo. Afinal de contas, quem manda no FCP ?

É que, se calhar, gostaríamos de pedir contas a alguém.

Jorge Ribeiro disse...

Mais uma vez humilhados...

José Correia disse...

«Três conclusões simples após a derrota do FC Porto no Emirates por 4-0, sendo que o resultado foi quase melhor que a exibição...
Aqui vão essas três ideias:

- Jesualdo Ferreira continua à procura da sua defesa. Já usou três laterais-direitos no campeonato (Sapunaru, Fucile e Tomás Costa) e três do outro lado (Benitez, Fucile, Lino). Nenhum deles tem toda a confiança do técnico, nenhum deles lhe dá toda a confiança. Deve haver novas mexidas em Alvalade, para provar que a defesa continua em "trabalhos na estrada".

- Jesualdo já encontrou um 6 razoável (Fernando) mas por vezes tem recaídas. Na segunda parte voltou para lá Guarin, que já mostrou que não sabe defender. Se soubesse não fazia o penalti que deu o 4-0 ao Arsenal. Mas também convém dizer que Guarin jogou muito pouco no Saint Etienne na época passada.

- Jesualdo ainda não tem ataque. Mariano joga um jogo sim e outro não. Já se invocaram várias lesões para isso, mas essas explicações parece não serem suficientes. Haverá outras?

Terça-feira em Londres, o Arsenal expôs todas as fragilidades do FC Porto, mas não percebi quem marcava Cesc Fabregas na segunda parte. Havia alguém com essa missão? É que o espanhol é uma das grandes fontes de jogo da equipa e os dragões nunca lhe fizeram sombra. Outro problema para o treinador.

São muito problemas, não só porque o FC Porto jogou de início com sete jogadores novos em relação à última época mas, pior, desses sete nenhum era melhor do que os que estavam nos seus lugares há um ano. A verdade é essa e é o problema mais difícil para o treinador.»

Manuel Queiroz
De Trivela, 02/10/2008