quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O Dragão, 5 anos depois


Quando vejo espectáculos que me agradam e me tocam muito particularmente, sejam filmes, peças de teatro, a música em geral e a ópera em particular, fico com pele de galinha e imensamente feliz.

Em estado de exaltação, achámos o mundo melhor: chegámos a comover-nos perante a presença de tanta beleza. Somos compelidos a ter bons sentimentos. A harmonia paira no ar. O ambiente é invulgarmente sereno e silencioso, para não perturbar: nada se pode perder. O prazer tem de ser total. São momentos raros esses, mas inesquecíveis.

O Estádio do Dragão é na feliz citação de MST um palco próprio para recitais.

Deslumbro-me sempre que lá vou e não me canso de lá ir. É muito belo, por ser muito simples. Sinto-me bem. É um estádio que nos honra. Quando atravesso a alameda e revejo o estádio, não fujo à atracção de o ir espreitar de perto e de segui-lo ao longo do passeio da fama. É que à beleza do estádio junta-se um enquadramento único. O Estádio é o centro daquele pequeno universo. Lindo de ver. Próximo ou longe, de terra ou do ar, é um estádio que merece honras de monumento.

Tenho saudades da Constituição, das Antas dos jogos no estádio do Lima, algumas até de Vidal Pinheiro, com muita pena pelo "desaparecimento" do Salgueiros.

Mas sou um apaixonado pelo Dragão.
Sinto-me bem, aprecio os cânticos, conheço a vizinhança com quem troco impressões e pormenores tácticos.

Quando o estádio irrompe num único berro, gritando “Gooolo”, sinto uma enorme alegria, um paixão enorme, um misto de satisfação e orgulho, felicidade e regozijo, que me deixa rouco, e me põe aos saltos com(o) tantos, num abraço invisível que nos une. O sufoco da vida foge e deixa de ocupar-nos. Esquece-se quase tudo: a enxaqueca, as letras, os desaforos, sei lá que mais. A emoção está no ar e é contagiante. Somos todos irmãos, naquele momento. O Dragão fica ainda mais belo. Já não é só um monumento, é um lugar de encontro onde corre um espasmo brutal de alegria, para mais tarde recordar.
O dragão, esse, estará lá sempre para nos receber, nos bons e maus momentos.

5 anos depois, continuo a gostar muito do Dragão: não foi amor à primeira vista, vai-me acompanhar pelo resta da vida fora. Nesta época de incertezas, tenho a certeza que deve ser preservado como pertença do FCP. Nem pensar em dedicar-lhe outro destino. Um lugar para admirar. Nosso.


Como dizia um articulista do Público: “…vir ao Porto e não visitar o Dragão por dentro e por fora e pelas suas redondezas é um pecado imperdoável…”.
Não deixemos que nos tirem.

7 comentários:

Nuno Nunes disse...

Encontrei nesta descrição do Mário fortes semelhanças na forma como sinto o Estádio, nos dias de jogo ou nos dias calmos, nos golos e nas tristezas. Já faz parte do nosso quotidiano e da nossa vida. Também comigo não foi amor à primeira vista mas hoje adoro-o.

C disse...

Caro Mário Faria, antes de mais permita-me que o felicite pelo seu "grito de coragem" na última assembleia geral da nossa SAD.
Acredite que, mesmo tendo sido olhado de lado pelos restantes accionistas e administradores, foi o porta-voz de muitos portistas genuinamente preocupados.

Agora acerca do estádio do Dragão, é curioso que, não negando a sua beleza em termos meramente arquitectónicos, muita gente se queixa de alguma "falta de alma" do novo anfiteatro. Principalmente quando comparamos com a atmosfera, quase perfeita, que se vivia no Estádio das Antas.

O Mário Faria abordou, há uns tempos atrás e apenas ao de leve, que do mesmo se queixaram os saudosistas do campo da Constituição, nos anos 50.
Pedir-lhe-ia que fizesse um esforço de memória e nos recordasse melhor o que de facto então se passou.
De que se queixavam, ao certo, aqueles a quem as Antas não caíram inteiramente no goto? Terão esses "defeitos" sido atenuados ao longo dos anos seguintes?

Pergunto-lhe isto para melhor tentarmos entender a actual situação, em que muitos sócios e adeptos afirmam não se sentirem tão bem no Dragão em relação às Antas.

Obrigado, desde já.

nobigdeal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
nobigdeal disse...

gosto do estádio, pela sua beleza arquitectónica, funcionalidade e tudo quanto já melhor foi dito por vcs :)

pessoalmente, há um pormenor de que não gosto muito: estando na bancada inferior não posso ver o público que está na superior por trás de mim, o que me impede de partilhar as minhas emoções com todo o estádio :(

Mas lá que é bonito... :)

Mário Faria disse...

Era muito jovem quando o estádio das Antas foi inaugurado. O sócio pagava as suas quotas e tinha entrada em todos os eventos desportivos organizados e jogados no nosso terreno. Havia sócios de camarote, cativo, bancada, superior e peão.
Era vulgar – as classes mais abastadas – serem sócios de vários clubes. Muitos familiares meus eram sócios do SCS e/ou do BFC. Com as Antas – um estádio com um enquadramento paisagístico único e muito moderno – houve muitos adeptos do FCP que passaram a ser sócios. Mas, não foram só esses. Muitos simpatizantes de outros clubes, aproveitaram a excelência do novo estádio para poderem ver futebol . Acompanhados dos seus rádios, assistiam às peripécias que se passavam noutros campos de emblemas mais próximos do coração e ali viam ao vivo o futebol, com a família à espera no carro pelo fim do jogo. Era a maneira mais tradicional de passar um domingo : missa de manhã, à tarde o futebol.
As Antas vieram preencher esse vazio e a cidade passou a ser dotada de um belo e amplo recinto que permitia seguir a bola, nem que o clube não fosse o do coração. Obviamente que essa nova classe de sócios era diferente “sociológica e “clubisticamente” diferente do povo da Constituição.
O assobio que antes servia apenas (ou quase) para a equipa adversária e para o árbitro, passou a ser uma arma de arremesso para mostrar descontentamento face a o desempenho de determinados jogadores e mais tarde a toda a equipa. Vulgarizou-se. O rasgar cartões à primeira adversidade, também. Eram esses novos portistas que os mais velhos apelidavam de sócios das Antas.

Jorge Aragão disse...

Excelente post e respectivos comentários.
Eu gostei do Dragão logo à primeira mas é verdade, ainda suspiro pelas Antas, embora saiba que " a História não pode parar a vida ".
E por isso também tenho um prazer especial sempre que passo junto ao Dragão embora sempre com o sentimento contraditório de ver e passar pelo " santuário" do velhinho Estádio.

José Correia disse...

Embora tenha vivido grandes momentos no Estádio das Antas, não sinto nostalgia desse nosso anterior palco de jogos.

Sempre gostei do Dragão, o nosso novo Palco das emoções. Aliás, era impossível o Dragão ter tido um melhor baptismo (quem não se lembra do FC Porto - Man Utd de Março de 2004?) e teve a honra de, desde logo, ser pisado por algumas das melhores equipas europeias da época (incluindo a nossa).

Como anfiteatro de jogos, gostaria que os topos do estádio fossem fechados; como edificio/monumento integrado numa nova centralidade do Porto, gosto que sejam abertos, proporcionando uma ligação exterior-interior de uma beleza única.

O nosso Estádio do Dragão tem apenas 5 anos, mas já é a "menina dos olhos" dos sócios e adeptos portistas.

Há, contudo, uma coisa que me preocupa. Ouvi uns zuns-zuns de que um dia, quando o passivo da SAD se tornar incomportável, o nosso estádio do Dragão irá ser incluindo numa "engenharia financeira" para resolver o problema.
Não acredito, não quero acreditar nessa possibilidade monstruosa.
O Dragão é nosso, 100% nosso, não é dos accionistas da SAD.
Ouviram?