sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Erro

Por Hugo Mocc


Discordo de todos os que afirmam que a equipa, o plantel, e/ou a época do FC Porto foram mal planeados. O FC Porto tem uma equipa de futebol mais jovem, mais alta e mais forte (fisicamente) do que em anos anteriores. É uma equipa à imagem do treinador Jesualdo Ferreira, planeada por Jesualdo Ferreira e pelos administradores da SAD, mas preparada para jogar o futebol que Jesualdo Ferreira considera ser o adequado para atingir os objectivos a que o FC Porto se propõe, nomeadamente vencer a Liga e ir mais longe na Champions League do que foi no ano anterior.

Para atingir esses objectivos o professor Jesualdo Ferreira propõe um futebol tipicamente português, cauteloso, que tem por base as famosas "transições rápidas", o que, para leigos como eu, significa simplesmente jogar à espera do erro do adversário ou jogar na expectativa do contra-ataque.

Longe vão os tempos do constante "pressing" alto. A circulação de bola e o asfixiar dos adversários é coisa de um passado remoto. Hoje o importante são as transições rápidas. É uma estratégia dentre muitas, onde nenhuma é absolutamente superior às outras todas.

Eu não tenho nada contra esta estratégia quando é usada em sede própria, ou seja, nos cerca de 25% de jogos da época em que enfrentamos adversários com equipas da mesma igualha ou superiores. Nos (esperamos nós) mais de 45 jogos oficiais que irão ser disputados pela equipa azul-e-branca nesta época, a estratégia das "transições rápidas" parece-me perfeita para os 25%, e os jogos desse cariz entretanto já realizados parecem confirmar isso mesmo.


A estratégia de Jesualdo, vulgarmente designada por esperinha ou emboscada, serve essencialmente para uma equipa menos poderosa levar de vencida outra mais poderosa ao aproveitar os erros que essa equipa comete durante o jogo. Consegue isso ao abdicar da obsessão com a posse de bola, passando a defender mais atrás e procurando partir velozmente para jogadas de perigo através da recuperação da bola e passando automaticamente à (já famosa) "transição rápida".

Como disse, isso é excelente para o FC Porto quando joga na Europa contra equipas que têm orçamentos vastamente superiores e das quais sabemos que irão assumir o jogo em ataque declarado continuado. Também serve para os rivais clássicos, nomeadamente em jogos nos seus recintos, e também para todos os clubes inferiores que por algum motivo decidem jogar com o Porto de peito feito.

Para que esta estratégia dê certo é necessário preencher alguns requisitos, como por exemplo:
(1) Ter uma defesa altamente entrosada e rotinada nos processos defensivo e ofensivo, com laterais que ataquem rápido e bem e defendam ainda melhor;
(2) Ter médios que sejam extremamente eficientes a recuperar a bola e imediatamente serem capazes de a passar a um colega que se encontre numa posição que possa iniciar uma jogada de perigo imediato para a baliza adversária;
(3) Ter avançados que sejam capazes de penetrar na defensiva contrária em jogadas muito rápidas de perigo iminente, mas que também se dediquem a ajudar os colegas do centro e da defesa quando a equipa perde a bola.

Não jogando todas as semanas contra um tubarão europeu ou um rival clássico, o FC Porto tem no adversário típico uma equipa que aborda o jogo abdicando quase totalmente do ataque e jogando simplesmente no "contra". É a estratégia do autocarro, dos 11 atrás da bola, dos 5 defesas e 5 trincos. O adversário típico do FC Porto é uma equipa muito relutante em cometer erros.

O FC Porto versão 2008-09, por seu lado, é uma equipa cuja defesa funciona melhor quando Pedro Emanuel, o veterano defesa central, joga a lateral esquerdo porque (1) os outros laterais não convencem ninguém – nem quem os contratou – e (2) porque é a única voz genuinamente de comando que existe no plantel. O "El Comandante", capitão de equipa e melhor "assistente" do plantel parece passar uma grande parte dos jogos alheado do que acontece à sua volta como se não lhe interesse ou diga respeito. Ora, parece-me aqui que os pontos 1 e 2 da estratégia estão seriamente comprometidos.

Quando o típico adversário se mostra pouco cooperativo e não comete erros defensivos de maior, a única arma de que dispomos é marcar cedo. Quando isso não acontece, a equipa do Porto parece ficar refém de si mesma, presa das ideias que lhe dão forma. E como não há plano "B", acabamos muitos destes jogos com adversários típicos a chorar pontos perdidos.

Este é o FC Porto de Jesualdo Ferreira (e Antero Henriques), para o melhor e para o pior.


Pior nesta época porque aparentemente temos um Lucho contrariado e um Lisandro desiludido, e os restantes jogadores a oscilar entre o bom e o muito mau, o que, quanto a mim, não se coaduna com o padrão de exigência de qualidade e entrega contínuas que se querem no FC Porto. Eu reconheço e aplaudo o profissionalismo de todos os jogadores titulares do Porto. É inegável, tal como é inegável a entrega da maioria dos suplentes quando são chamados.

Mas o rendimento de um jogador não passa apenas pela sua entrega. Passa pela leitura do jogo, passa pelo entender daquilo que o treinador pede, passa por concordar ou pelo menos aceitar com o que o treinador pede. Passa pela disponibilidade física e mental para cumprir a função atribuída. E por fim passa pela sua capacidade criativa.

Infelizmente no Porto parece existir actualmente um enorme deficit de criatividade.
Saiu Quaresma que dava magia ao futebol, resolvia alguns jogos e mesmo enquanto contrariado e a jogar "sozinho" era jogador para "amarrar" 2 ou 3 defesas adversários, soltando Lisandro ou Tarik (outro jogador criativo entretanto esquecido) para criar problemas sérios nas áreas adversárias, e não se encontrou um substituto à altura.

Dirão alguns, então e o Rodriguez? Ou o Hulk?
São excelentes jogadores, sem dúvida, mas neste momento ainda não estão à altura de substituir Quaresma.
Rodriguez, por exemplo, ainda não fez esquecer o Tarik da época passada.
Sem criativos na equipa torna-se imensamente mais complicada a tarefa de "abrir latas" nas defesas adversárias.

Depois de uma época onde ganhamos com 20 pontos de diferença, dever-se-ia procurar melhorar e construir sobre esses alicerces. Pelos vistos, ou os alicerces eram uma ilusão ou decidimos construir ao lado, em vez de por cima deles.

No princípio da época acreditava muito nesta equipa e na capacidade de quem a formou. Acreditava em Jesualdo e Antero, acreditava na espinha dorsal formada por Helton, Fucile, Pedro Emanuel, Bruno Alves, Lucho, Raúl Meireles, Cristian Rodriguez e Lisandro. Hoje confirma-se, com todos os resultados acumulados até ao momento, que ao entrar em campo a cada jogo, esta equipa não é planeada para assumir o jogo mas sim para jogar no erro do adversário. E esse erro nem sempre acontece.

Quando enfrenta adversários inferiores que no Dragão jogam deliberadamente à defesa com 11 e recorrendo constantemente ao anti-jogo, o Porto de Jesualdo Ferreira não sabe responder adequadamente, porque não foi pensado para isso. E falhando a entrada de rompante, porque a única maneira que temos para lidar com o problema é um golo madrugador que "abra" a lata, ficamos atados, atacando muito mais com o coração do que com a cabeça.

Este Porto não depende apenas de si próprio para ganhar. Depende essencialmente dos erros dos outros. Será que isso chega para sermos campeões?


Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Hugo a elaboração deste artigo.

9 comentários:

Nuno Nunes disse...

Um grande artigo. Obrigado Hugo.

Acredito que este é um diagnóstico correcto dos problemas da equipa nesta época.

Por ser possível combinar um modelo assente em "transições rápidas" com variantes de pressão alta e ataque continuado, acho que o FC Porto tem muito por onde melhorar, esta época ou no futuro, com ou sem Jesualdo Ferreira.

miguel87 disse...

Excelente analise, com a qual estou (quase) totalmente de acordo.

No final podemos deduzir o que há muito defendo: a filosofia/qualidade deste treinador não se coaduna com a do clube.

O'OliveTree disse...

Artg conceptualmente interessante. Algumas notas: (i) construção do plantel só critico lat.esq; (ii) 1/2 Lisandro do ano passado não falhava 1 golo certo por jogo => não discutíamos pretensa falta de oportunidades; (iii) faz falta Tarik para jogos pequenos: lesionado / má forma, lembram-se?; (iv) pressão alta só em 2003, espectacular 4x3x3.

José Correia disse...

«Quando o típico adversário se mostra pouco cooperativo e não comete erros defensivos de maior, a única arma de que dispomos é marcar cedo. Quando isso não acontece, a equipa do Porto parece ficar refém de si mesma, presa das ideias que lhe dão forma.»

Compreendo a crítica ao modelo de jogo de Jesualdo Ferreira, baseado nas célebres "transições rápidas".

Contudo, será este o problema, será este o cerne da questão nas dificuldades que estamos a ter esta época nos jogos contra adversários que adoptam a estratégia do autocarro?

Eu penso que não, porque nas duas últimas épocas o modelo de jogo já era baseado nas "transições rápidas" e o balanço contra as equipas do autocarro foi francamente positivo.

Na minha opinião o problema é outro e passa por esta época não termos "abre latas", isto é, jogadores que alarguem o jogo, jogando nas alas e provocando desequilíbrios nas defesas contrárias.

Convém não esquecer que, para além de não termos Quaresma e Tarik, também ficamos sem o Bosingwa que, com as suas arrancadas, era um desequilibrador nato.

Jorge Aragão disse...

Acho o artigo interessante, a realidade é que quanto a mim, não temos um lateral esquerdo capaz, falta um médio criativo, um avançado alto para nas horas más estorvar defesas fechadas...
Falta também Tarik que está a penar por lesões e sobretudo, mais que Quaresma, Bosingwa...

Além disso, há gente em menos boa forma que o ano passado e uma atitude de deixa andar por 45 minutos...
Depois com equipas fechadas e a errar pouco, é o diabo.

JP disse...

FC Porto - Miguel Lopes interessa
A porta de entrada do Dragão não fechou com a chegada de Cissokho.

O interesse do FC Porto em Miguel Lopes é real. O lateral direito do Rio Ave, formado nas escolas do Benfica, sabe Bola Branca, está a ser seguido pelo clube azul e branco, que não fechou a porta ao mercado, com a contratação de Cissokho.

Miguel Lopes completou 22 anos em Dezembro. É um jogador formado nas escolas do Benfica. Fez o primeiro ano de sénior no Benfica B. No ano seguinte jogou no Operário, na 2ª divisão B. Seguiu-se o Rio Ave, ajudando a equipa de Vila do Conde a subir à primeira divisão.

As exibições do lateral, esta época, e a chamada à selecção de sub-21, despertaram o interesse do FC Porto. Mas o jogador também tem sido seguido por emblemas estrangeiros.

Contactado por Bola Branca o presidente do Rio Ave não quis comentar o interesse do FC Porto e a cobiça de outros emblemas. Os próximos 15 dias vão ditar o futuro deste jovem lateral visto no Dragão, como um jogador de grande futuro.

Rádio Renascença

Nuno disse...

Há que lembrar a falta que tem feito o Paulo Assunção na recuperação de bolas perto do meio-campo adversário e na qualidade e velocidade do seu primeiro passe que possibilitava muitas das transições rápidas da época passada

. O Fernando é promissor mas ainca acrescenta uns segundos importantes no início da transição ofensiva. Obriga ao recuo do Lucho e do Raul Meireles dificultando a ligação com os homens da frente. A perda do PA não foi da responsabilidade do treinador. A Jesualdo só se lhe pode apontar o aval à contratação do Bolatti, que mesmo com um ano para aprender é apenas e terceira ou quarta opção para a fundamental posição 6.

Aristodemos disse...

O Luís Freitas Lobo escreveu um artigo muito interessante sobre este assunto no Expresso: FC Porto: O 4x3x3 sem extremos

José Correia disse...

De facto, o artigo do LFLobo é interessante.

Destaco a seguinte parte:
«A entrada de um lateral mais ofensivo para fazer todo o corredor, transformando-se quase num extremo ao chegar perto da área é uma hipótese. É nesse lógica que entra Mariano e vai jogar para lateral-direito com liberdade para subir. A intenção é positiva, mas a sua aplicação táctica um erro de "casting". Porque Mariano não é o "Ferrari" Bosingwa para arrancar desde lá de trás e chegar à área com o mesmo fôlego e centrar. Não, a meio-campo, já Mariano foi mais para "dentro" e perdeu verticalidade, ou perdeu o controlo da bola em velocidade. Ou seja, Mariano é um ala e tudo aquilo que lhe peçam para além dessa posição é um fuga às suas características mais fortes enquanto jogador de equipa. A jogar neste Porto, o seu lugar natural só pode ser numa ala. Todas as outras adaptações apenas expõem mais as carências da equipa e, claro, as do jogador no plano individual.»