terça-feira, 10 de março de 2009

Pinto da Costa, Carolina, Vieira, Pinto Monteiro e o Apito

«Aquilo que passará à história sob o nome de Apito Dourado foi uma operação sabiamente planeada e montada, visando um objectivo principal: quebrar os rins ao FC Porto, pôr um ponto final na sua hegemonia futebolística longamente exercida. Não o conseguindo no terreno de jogo, tentou-se então consegui-lo fora de campo, no terreno da justiça. O Apito Dourado, à revelia de tudo o que o senso comum e a simples boa-fé sabiam, pretendeu e pretende ainda demonstrar que, como dizia há dias o presidente do Benfica, esta longa sequência de sucessos desportivos do FC Porto se deve a «batota» e nada mais. Incluindo os dois títulos de campeão europeu e os dois títulos de campeão mundial de clubes.

Por isso mesmo, desde o início, o Apito Dourado teve apenas dois alvos declarados: o presidente do FC Porto e o presidente da Liga, Valentim Loureiro. O objectivo único era provar que, com o apoio do segundo, o primeiro construíra um sistema de corrupção e tráfico de influências, que era a única justificação para o domínio desportivo exercido — apenas isso, nem sequer a gritante incompetência da gestão desportiva dos rivais. À época, curiosamente, Valentim estava de costas voltadas com Pinto da Costa, tendo-se associado com o presidente do Benfica para dominar a Liga — que Luís Filipe Vieira afirmou ser mais importante do que ter uma boa equipe de futebol. Mas pouco importou: para atingir Pinto da Costa e demonstrar o seu poder «mafioso» era essencial demonstrar que ele dominava a Liga, mesmo que tal não fosse verdade. E uma das coisas eticamente mais eloquentes neste processo foi a forma como Filipe Viera deixou cair e abandonou o seu aliado Valentim Loureiro, assim que percebeu que ele era mais útil no papel ficcionado de cúmplice de Pinto da Costa.

A primeira consequência do Apito Dourado foi, assim, a execução de Valentim Loureiro: ele foi condenado por tráfico de influências em benefício do Gondomar, num processo que aos seus mentores deixou a amarga sensação de estarem apenas a perseguir a arraia miúda como forma de tentar chegar ao «peixe graúdo». E o Boavista viria a comer por tabela, sendo relegado pela Comissão Disciplinar da Liga para a segunda divisão — num caminho inelutável rumo ao desaparecimento, sem que ninguém consiga dizer ao certo porque foi um dos históricos do futebol português condenado à morte.

Quanto a Pinto da Costa e ao FC Porto — o verdadeiro e único alvo do Apito Dourado — a situação não se afigura brilhante para os seus mentores, mas ainda restam algumas esperanças. Recordemos: houve três processos, correspondentes a outros tantos jogos da época 2004/05, em que se ancoraram as acusações: o primeiro, relativo a um Nacional-Benfica, acabou com um despacho de não-pronúncia do Tribunal do Funchal, em que o juiz chegou a escrever que não se entendia como é que o nome de Pinto da Costa tinha sido metido ali a martelo; o segundo, relativo a um FC Porto-Estrela da Amadora, acabou igualmente com um despacho de não-pronúncia do Tribunal do Porto, confirmado por sentença unânime da Relação, e com uma participação por crime de falsas declarações contra a peça-chave de todo o Apito Dourado — a suposta «escritora» Carolina Salgado; resta o terceiro, relativo a um Beira-Mar-FC Porto, que já havia sido também arquivado, mas que a insistência da Dr.ª Morgado conseguiu levar a julgamento. E é esse que agora decorre no Tribunal de Gaia.

Este simples enunciado factual dos resultados judiciais produzidos até agora no âmbito do Apito Dourado (e após milhares ou milhões de euros investidos em «investigação» por parte do Ministério Público) seriam suficientes para que o Procurador-Geral da República tivesse alguma contenção a falar do assunto — pelo menos, até ver o que sucede no tribunal de Gaia e após o depoimento da sua tão acarinhada e protegida testemunha. Mas não: Pinto Monteiro entendeu antecipar-se e debitar a sua sentença, antes que a Justiça reduza a pó o seu voluntarismo justiceiro. Disse o Dr. Pinto Monteiro que, após o Apito Dourado, «mesmo que os arguidos venham a ser absolvidos, nada será como dantes, no futebol português». E isto, porque «a partir deste processo, os agentes do futebol português passaram a saber que podem ser investigados». Falso, Sr. Procurador: o que o Apito Dourado mostrou é que o presidente do FC Porto estará sempre sob suspeita e, eventualmente, sob investigação; quanto aos outros «agentes», não vimos nada… Na tese dos mentores do Apito Dourado, os árbitros vendem-se, sim, mas só ao FC Porto; o tráfico de influências existe, sim, mas só a favor do FC Porto; as batotas fazem-se, sim, mas apenas em benefício do FC Porto. O Sr. Procurador pode-nos indicar alguma diligência de investigação que, nem que fosse por mera rotina ou cautela, tenha incidido sobre os presidentes do Benfica, do Sporting, do Braga, do Guimarães? É sem dúvida uma coincidência infeliz que todos aqueles que intervieram a vários níveis no Apito Dourado para acusar o FC Porto sejam simpatizantes do Benfica. Uma coincidência infeliz mas que, por isso mesmo, deveria ter acautelado a forma como o fizeram.

Mas o Dr. Pinto Monteiro vai ainda mais longe quando, sem um estremecimento de pudor, afirma que «pode não se provar que sejam culpados, mas já se provou que houve indícios para terem de responder perante a justiça». Depois de ver que, em dois dos três casos em que o seu Ministério Público quis acusar, a justiça reduziu os seus «indícios» a meras intenções sem fundamento algum e a sua querida testemunha a alguém desprovido de qualquer credibilidade, sentindo que o único processo que conseguiu levar a julgamento nada mais tem a sustentá-lo do que a credibilidade dessa mesma testemunha, o Procurador-Geral dá-se por muito satisfeito por achar que conseguiu recolher «indícios» que não servem para condenar ninguém, mas apenas para o acusar sem fundamento. Ou seja: não conseguindo convencer a Justiça, resta a sentença popular. Se alguém ainda não tinha percebido o estado a que chegou o Ministério Público, leia o retrato da situação nestas extraordinárias declarações de quem manda nele. Entre o raciocínio «jurídico» do Procurador e o do presidente do Benfica, não vejo a mais pequena diferença de substância…E, caramba, se devia havê-la!

Isto posto, mantenho-me coerente com o que sempre disse desde o início desta história. Lamento muito que o presidente do meu clube esteja sentado no banco dos réus (e, com ele, o próprio clube) a responder pela acusação de corrupção desportiva. Não ignoro a forma como se chegou a tal e, obviamente, basta-me saber que tudo depende de querer acreditar no que diz Carolina Salgado, para concluir que só pode haver um desfecho, que é a absolvição. Claro que não acredito que fosse preciso comprar o árbitro de um jogo já sem importância alguma e em que, segundo os relatos da época, o FC Porto até acabou prejudicado pela arbitragem. E claro que, como toda a gente que percebe alguma coisa de futebol e não está de má-fé, sei muito bem que não foi graças a «batota» que o FC Porto ganhou o que ganhou cá dentro e foi duas vezes campeão da Europa e do mundo. Foi, entre outras coisas, porque Pinto da Costa é, de longe, o presidente que mais percebe de futebol e um dos raros que não chegou ao futebol por acaso e para se promover socialmente. Porque enquanto ele era presidente do FC Porto e tratava de reunir os melhores, Vale e Azevedo era presidente do Benfica e os benfiquistas adoravam-no mesmo percebendo que ele roubava e era um absoluto incompetente, mas atacava Pinto da Costa — e, hoje ainda, há quem ache que tal é suficiente para ser campeão. E, por isso, enquanto o Benfica desprezava jogadores como Jardel, Zahovic, Deco, Maniche, ou treinadores como Mourinho e Jesualdo Ferreira, Pinto da Costa aproveitava-os e era com eles que ganhava.

Não é por isso, pois, que Pinto da Costa está sentado no banco dos réus. Ele está sentado no banco dos réus devido à sua fatal tendência para as más companhias. O que eu, como portista, não consigo aceitar é que o presidente do meu clube receba um árbitro em casa para tomar café. Que o receba acompanhado do «empresário» António Araújo e com a Dª Carolina Salgado a fazer de dona-da-casa, Primeira Dama e tudo o resto cujas consequências estão à vista. É inacreditável que, mesmo acossado pela justiça, Pinto da Costa não tenha ninguém minimamente prestigiado para apresentar como testemunha abonatória no tribunal, para além do tristíssimo juiz Conselheiro Mortágua. É lamentável que o homem que conseguiu transformar um clube de província num campeão do mundo e num motivo de orgulho para Portugal, ainda não tenha conseguido, ao fim de tantos anos, despir a capa do provincianismo e transformar-se num homem do mundo. E que tenha preferido, como qualquer cacique de província, viver rodeado de gente pequenina, que lhe satisfaz o culto pessoal e desprestigia o clube.»

Miguel Sousa Tavares
in A BOLA, 10/03/2009


A qualidade e acutilância das crónicas que Miguel Sousa Tavares assina semanalmente no jornal 'A Bola' justifica uma leitura atenta das mesmas. Embora eu não seja leitor e muito menos comprador do jornal "semi-oficial" do SLB, não perco as suas crónicas até porque há vários sites, blogues e fóruns que as reproduzem.
No 'Reflexão Portista' é a primeira vez que o fazemos, não porque esta crónica seja excepcionalmente melhor que as outras, mas porque põe o dedo em várias "feridas", inclusive no último parágrafo, ao tocar numa "ferida" que continua a dividir os portistas.

Nota: O título, a selecção das fotos e os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

Fotos: cartoonices.wordpress.com

8 comentários:

Mefistófeles disse...

MST é uma voz que não se pode silenciar. Normalmente assino por baixo, mas desta vez tenho que dizer o seguinte: Pinto da Costa não é Deus. É humano e, como tal, erra. Como todos nós erramos.

Só que feito o balanço erros / méritos, para que lado acham que a balança cai ? Sejamos gratos!

Mefistófeles disse...

Acho mais importante denunciar à boca cheia que o orelhas é traficante e fez fortuna a vender droga.

Sr.Procurador: se tivesse um pingo de decência ( que sei que não tem ), devia mandar investigar o "cartel de Loures" em vez de estar tão preocupado com o FCP e PdC.

O seu recreativo já era, porque Salazar caiu da cadeira, já morreu. Arranje outros fantasmas.

Mande investigar a sério, deixe de ser palhaço. Estamos fartos.

Armindo disse...

Não posso deixar de concordar com o último parágrafo, mas...

1º. Como bem frisa o "Mefistófeles", PINTO DA COSTA é um ser humano, e como tal, torna-se um ser errante!

2º. Não tenho nada a vêr com a sua vida pessoal! Como já o referi, errou claramente ao dar (ou viu-se na contigência de...) protagonismo a uma pessoa que, claramente não o merecia!

3º. Não aceito lições de quem não tem autoridade moral para o fazer; senão vejamos a cumplicidade profissional do Sr. MST; que apesar de o compreender, é pactuante com os poderes instituídos!

4º. Considerá-lo-ei, para todo o sempre; como a pessoa que fez do meu clube, uma instituição de classe Mundial.

5º. Espero e desejo, que o meu clube; nunca perca as suas origens regionais!

6º. Nos meus 45 anos de vida, nunca presenciei alguém que defendesse tão intransigentemente os valores de uma região; como PINTO DA COSTA!

Faço aqui o meu apelo, para que surjam mais PINTO's DA COSTA, MEDINA's CARREIRA, JOÃO's JARDIM...

Temos que alterar o estado lastimável em que se encontra o NOSSO PAÍS!!!

Nightwish disse...

João Jardim? O mesmo que recebe mais dinheiro do que qualquer outra pessoa, usa-o para pagar propaganda política, e ainda diz que o andamos a roubar? Por amor de <entidade divina adequada>.

bLuE bOy disse...

MST, entra mto bem a desmontar a teia da vergonha... e sabe-lá porquê, again!!!, volta a falar (escrever) o que não deve e com isso, dá um valente tiro nos pés (again!!!).

MST, sempre foi e continua a ser o meu opinio-maker d'eleição no geral... mas quando toca a falar em exclusivo no seu/nosso FC Porto, tem alturas que «calado», é que estava bem.

Já não bastam os outros e ainda temos que ouvir estas coisas dos «nossos»...

Adiante...

Metz disse...

Pessoalmente acho que é dos únicos que fala de olhos abertos.. Que tem opinião própria e não se guia pela multidão...

E já agora, a vida pessoal de Pinto da Costa diz respeito a todos nós (associados do clube) quando ele mistura o clube com a vida pessoal dele como aconteceu com essa Sra. (para ser simpático).
Sempre critiquei a forma como o fez, muito antes deste caso, por isso estou á vontade...

Cumpz

Pedro Mota disse...

Pinto da Costa erra e têm as suas falhas,mas se há alguem que marca a história do Porto é ele...O ideal seria que ele pudesse se rodear de companhias mais saudaveis para o seu bom nome,mas isso é a sua vida pessoal e como tal ninguem tem o direito de lhe apontar ou acusar de nada...Eu enquanto portista serei sempre grato a Pinto da Costa pelo que ele fez e que mais nenhum irá igualar...Pinto da Costa e Pedroto são as 2 figuras maiores da história do Porto...E espero que o Porto seja sempre um clube de provincia,pois isso não impede que se seja enorme e digno...Quanto a J.Jardim podemos não gostar dele,mas é dos poucos que bate o pé á capital e só por isso tem a minha admiração...O grande entrave ao desenvolvimento do pais,encontra-se nos poderes do terreiro do Paço enquanto o povo não acordar nunca iremos progredir,e iremos ter uma região com 4M de habitantes completamente abandonados como se fossem filhos de um Deus menor...Força Porto

Anónimo disse...

Já que se fala por aqui tanto em gratidão, que tal mostrar um pouco disso para com o MST pela brilhante e intransigente defesa que tem feito do FCP na comunicação social ao longo de todo o caso Apito Dourado, defesa essa bem melhor e mais brilhante que, por exemplo, a da área de comunicação do próprio clube, mais entretida em fazer-se de engraçada através do seu "Labaredas"?

Por ser uma pessoa tão excepcional é que, precisamente, deve exigir-se a Pinto da Costa um comportamento que nunca prejudique o clube. Porque o que degrande e imorredouro fez pelo FCP não pode desculpar estes inacreditáveis deslizes.

A "gratidão" não pode ser sinónimo de cegueira.

PS E, já agora, seria de bom gosto deixar de fora as incursões de PC pelo campo da agitação política e do caciquismo.