quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Doping


O Rui Santos (carinhosamente conhecido como Brilhantina Man) trouxe à baila nas últimas edições – ainda sob a cruzada maior da ”verdade desportiva” – o problema do doping. O jornalista apresentou um quadro, que não consegui copiar nem apanhar na Net, mas que demonstrava que o FCP foi a equipa, a anos luz de distância dos outros, mais controlada, no último triénio.

Este facto pode ter diversas leituras, porém é significativo que os clubes de Lisboa – e principais concorrentes do FCP – tenham sido muito menos submetidos a esses controlos. A disparidade é enorme. Deverá ter o CNAD um modelo de funcionamento com critérios objectivos, mas não sendo do conhecimento público, são passíveis de gerar nos mais desconfiados a ideia de favorecimento, até porque essa discrepância não parece estar de acordo com o PNA, nomeadamente quando estatui o seguinte :

“O Plano Nacional Antidopagem (PNA) consiste numa planificação de periodicidade anual, estabelecida e a aplicar pelo CNAD, segundo o seu quadro de competências legais; onde são englobadas as acções de controlo de dopagem em competição e as fora de competição, para todas as modalidades desportivas incluídas no Plano Nacional Antidopagem nesse ano. O objectivo é o de planear e implementar uma distribuição isenta e racional de controlos de dopagem. As acções de controlo de dopagem têm por objecto as modalidades desportivas organizadas na âmbito das federações nacionais titulares do estatuto de utilidade pública desportiva (UPD) ou outras entidades, estas, mediante protocolo estabelecido com o CNAD.”


Nesta época, ainda segundo o mesmo quadro apresentado pelo Rui Santos, terá sido o SCB o mais sujeito a esse controlo, seguido do SLB e FCP.

Procurei mais informação. Fui ao sítio do IDP e encontrei as estatísticas referentes aos controlos de 2006, 2007 e 2008 que não detalham as entidades ou atletas sujeitos ao mesmo. Apesar disso, alguns valores causam imensa perplexidade.

Passo a destacar o que achei de mais significativo nos relatórios estatísticos do CNAD.

No triénio 2006/2008 o maior número de amostras recolhidas foram :

· futebol – 1.123, 1.130 e 979,
· ciclismo – 327, 390 e 458,
· atletismo - 334, 323 e 481.

Os casos positivos, para o mesmo período, foram :

· futebol : 6 (0,53%), 11(0,97) e 3 (0,3%) ,
· ciclismo : 1(0,31%), 5(1,28%) e 8(1,7%),
· atletismo : 2(0,59%), 1(0,31%), e 3 (0,6%).

As modalidades com maior % de casos positivos, para o mesmo período, foram :

· 2006 : Vôo livre 2(33,33%) , Lutas Amadoras 3(13,60%), Damas 1(11,10%) e Bilhar 6(9,09%),
· 2007 : Bridge 1(20,00%), Boxe 5(11,36%), Actividades Subaquáticas 1(11,11%) e Xadrez 1(10,00%),
· 2008 : Motonáutica 1(25,00%), Bridge 2(22,20%), Tiro 5(20,00%), Arqueiros e Besteiros 1(12,5%), Bilhar 5(10,00%).

No futebol as amostras positivas foram para :

· 2006 - II Divisão : 6, Futsal Masculino : 2 e Feminino : 1,
· 2007 – III Divisão : 7 , Taça de Portugal : 3 , Juniores :1,
· 2008 – Não foi dada informação.

O comportamento das equipas e de alguns jogadores de futebol faz-me acreditar que há performances físicas de tal forma exuberantes que deixam imensas suspeitas ; pelas análises do CNAD quase se poderia afirmar que o doping foi totalmente erradicado das principais ligas portuguesas, como os resultados do controlo parecem indiciar.

Seria óptimo que o controlo (e a punição) constituísse elemento suficientemente dissuasor e que as principais competições que movimentam milhões e constroem super estrelas fossem limpinhas de droga, mas quando se verifica que foram apanhados nas malhas praticantes de bridge, xadrez, tiro, damas e bilhar, acredito que só foram apanhados porque o profissionalismo e a ciência ainda não chegaram lá com a mesma apetência.

"O objectivo é o de planear e implementar uma distribuição isenta e racional de controlos de dopagem.", de acordo com o PNA. É isso que tem acontecido no futebol ? Liga, FPF e clubes parecem nada ter a ver com que se passa em matéria tão delicada quanto esta. Porquê tanto silêncio do IPD e do CNAD. Por uma vez estou de acordo com Rui Santos : é preciso incomodar alguns acomodados que controlam aquelas instituições, a seu belo prazer.

7 comentários:

João Saraiva disse...

O que eu acho fantástico é: que o bridge seja uma modalidade desportiva, que tenha controlo e que haja casos positivos.

O chazinho deve ser forte.

Nuno Nunes disse...

O facto do futebol da I e II Liga não ter controlos positivos nos 3 últimos anos é um verdadeiro mistério. Mas a época ainda vai a 1/3 e pode ser que apareçam surpresas até ao fim do ano. Há para aí algumas equipas em que os jogadores não correm, vão de mota.

Capitão Bacalhau disse...

Saudações,

Será que o Rui Santos incluiu nos dados os controlos efectuados pela UEFA?
Desconheço se há controlos na Liga Europa mas é recorrente a notícia de visitas ao Olival para controlo por parte daquele organismo por via da participação do FC Porto na Liga dos Campeões. Tendo em conta que durante os últimos anos nos temos mantido até, pelo menos, Fevereiro em competição, imagino que representaram um número a ter em conta.
(vou passar os olho pelo site da UEFA)

Não devemos esquecer também que há livros e livros. Um gajo não pode dar um peidinho que aparece logo num livro e é tido como credível incluindo pela própria justiça ou outro injecta-se com substancias ilegais, não dá nomes mas dá pistas e, pelo menos que eu conheça e agradeço que alguém mais informado nos actualize, nem uma brisa levantou.

Jorge disse...

Nao estou a par das politicas anti-doping em Portugal, mas sera possivel que alguns dos casos positivos nao tenham a ver com doping propriamente dito mas com outras substancias?
Tambem e possivel que nas modalidades amadoras os atletas possam ser apanhados quando em tratemento medico tomam remedios que contenham substancias associadas com o doping. Enquanto nas modalidades profissionais o departamento medico do clube informa a respectiva federacao, os atletas amadores nao teem esse acompanhamento e podem nao o fazer.

Anónimo disse...

Interessante artigo, Mário, mas o problema do doping nas damas e no bridge parece ser gravíssimo!: -)

Quanto a esses jogos serem considerados desportos, recordo o que dizia um brasileiro acerca do xadrez: "o xadrez só será considerado esporte no dia que for jogado com os jogadores correndo à volta da mesa!" : -)

Voltando ao doping: convém não esquecer que o "doping sanguínio", as transfusões com o próprio sangue, muito usado no ciclismo, não é detectável. Ergo...

Avô do Alentejano disse...

Curioso,mas decerto,irrelevante é ser o director do Cnad,João Horta um antigo atleta e acérrimo adepto (dos de,este ano é que é..)do clube do Alto dos Moinhos!Curioso,mesmo!No lo creo,pero qui las hai,las hai!

António Pista disse...
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