sábado, 27 de fevereiro de 2010

Gallaecia, centralismo e desporto


"Depois do 25 de Abril, era natural ter reuniões no Porto com administradores de bancos e de companhias de seguros. O próprio BPI e BCP, que nasceram na CCDR-Norte, já não têm a administração no Porto. Hoje em dia, um jovem quadro da banca que esteja no Porto está sem perspectivas de evoluir na carreira."

"Há cerca de uma década, o PIB per capita da Galiza e do Norte de Portugal era idêntico e agora a diferença é superior a 40%. A grande diferença entre as duas regiões ibéricas reside na organização do respectivo sistema político."

"Se imaginássemos que os Estados centrais implodiam, a Galiza e o Norte de Portugal formam claramente um país, partilhando características muito próprias."

Estas três frases foram proferidas por José Silva Peneda, ex-ministro de Cavaco Silva, ex-eurodeputado do PSD e presidente do Conselho Económico e Social, numa entrevista publicada pelo JN em 19 de Dezembro passado.

Embora o centralismo do Terreiro do Paço seja cada vez mais descarado, com frequentes atitudes discriminatórias face ao resto do país, não existe (ainda) um sentimento separatista significativo no Norte de Portugal. Contudo, penso que o Porto e o Norte teriam muito a ganhar se aprofundassem a ligação à Galiza, tirando partido do seu passado comum e das características sócio-culturais que os unem. Daí que seja estratégico dar vida à Euro-região Norte de Portugal - Galiza, reforçar o papel do Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular e construir o TGV Porto-Vigo em linha mista (para passageiros e mercadorias), obrigatoriamente prevendo uma estação num aeroporto Sá Carneiro com gestão autónoma. Evidentemente, o poderosíssimo loby centralista tudo fará para boicotar, atrasar ou dificultar todos os projectos ou iniciativas que contribuam para fazer sombra à "capital do Império", mas cabe-nos a nós, portuenses, minhotos, durienses e transmontanos, lutar por aquilo que nos permita, e aos nossos filhos, ter um futuro melhor.

E para além de uma integração económica que se deseja cada vez mais forte, há claramente espaço para iniciativas conjuntas de promoção do turismo de natureza, histórico, religioso e gastronómico, criando rotas que envolvam locais e monumentos das duas regiões nestes domínios.
O governo português e o Turismo de Portugal não estão interessados nisso? Admito que não, mas para que servem a CCDR-N e os deputados eleitos pelos distritos do Porto, Braga, Viana do Castelo, Vila Real e Bragança?

E o desporto?
Na aproximação à Galiza o FC Porto já deu um pequeno passo, quando organizou uma edição do Dragon Force na localidade galega de Redondela, província de Pontevedra, entre os dias 20 e 24 de Julho de 2009. Isto para além do actual treinador da equipa sénior de basquetebol - Moncho López - ser galego (natural de Ferrol), o que pode potenciar algum intercâmbio transfronteiriço ao nível desta modalidade.

Também existe (existiu?) uma Copa Gallaecia de selecções de futebol jovens, cuja 2ª edição foi realizada em 2007 envolvendo selecções das Associações de Braga, Porto, Bragança, Viana do Castelo, Vila Real, Coruña, Ferrol, Lugo, Ourense, Pontevedra, Santiago e Vigo. Contudo, foi uma iniciativa com pouca ou nenhuma visibilidade e, por isso, sem qualquer impacto público.

Ora, como fenómeno de massas, o futebol é um meio privilegiado que poderia ser usado no aprofundamento da integração entre o Norte e a Galiza, mas para isso seria necessário envolver os principais clubes desta Euro-região. Nesse sentido, o Eixo Atlântico seria a entidade ideal para dinamizar a organização de um Torneio de Verão que juntasse clubes como o FC Porto, Braga, Vitória Guimarães, Gil Vicente, Chaves, Deportivo Corunha, Celta Vigo, Santiago Compostela, Pontevedra entre outros, com edições anuais a serem realizadas, alternadamente, no Norte de Portugal e na Galiza. Para além dos municípios dos clubes envolvidos, estou convencido que não seria difícil arranjar patrocinadores dos dois lados da fronteira, bem como descontos da hotelaria (com preços mais favoráveis para os adeptos) e, para uma maior divulgação, contar também com o apoio da comunicação social local e regional (TV Galicia, Porto Canal, Jornal de Notícias, Faro de Vigo, Diário do Minho, etc.).

A aproximação à Galiza, por si só, resolve o problema deste centralismo sufocante da capital que está a abafar o país? Não, mas a luta contra o centralismo é uma “guerra” de muitas “batalhas”, que só poderá ser vencida se a população e os principais actores da região se unirem nesta luta. A propósito do vergonhoso caso Red Bull Air Race, um participante galego escreveu o seguinte no Fórum Gallaecia:
"Dende a Crunha quero mandar un conselho... a loita polo proprio comeza nas pequenas victorias que um mesmo pode acadar para o país. Mostrar um descontento a nível social grande pode fazer recuar a Lisboa, e mesmo o político de turno. Forza!"
Haja líderes no Norte, políticos, empresários, académicos, agentes culturais, etc., que tenham visão estratégica e queiram travar esta "guerra", que eu estou convencido que não faltarão "soldados" para engrossar as fileiras.


P.S.1 Gallaecia ou Callaecia era o nome de uma província romana que abrangia o território do noroeste peninsular e que corresponde, aproximadamente, às actuais regiões da Galiza, Asturias (parte Oeste) e Norte de Portugal. Gallaecia vem do nome Kallaico referente a uma tribo que vivia nas margens do rio Douro - os calaicos - que prestavam culto a Cal-Leach. Em 137 a.C., depois de ter derrotado os lusitanos (e da morte de Viriato), Decimus Junius Brutus venceu a batalha do Douro e avançou, de Sul para Norte, para a conquista daquilo que viria a ser designado pelos romanos por Gallaecia (um ano depois o Senado romano concedeu-lhe o título de Callaicus, "o calaico"). Ao contrário do que os manuais escolares nos querem fazer crer, o povo originário de Portugal não é (apenas) os lusitanos e não foi concerteza por acaso que os romanos decidiram separar a Gallaecia das restantes regiões da Hispânia, incluindo da Lusitânia.

P.S.2 Um vídeo sobre a Gallaecia e a herança Celta.

P.S.3 Penso que seria escusado dizê-lo, mas mais uma vez repito que nada me move contra os "alfacinhas". O cancro que suga o país e que é preciso combater não é Lisboa, mas sim o centralismo, em que muitos dos seus protagonistas (Cavaco Silva, Durão Barroso, José Sócrates, João Cravinho, Pacheco Pereira...) nem sequer são lisboetas de origem.

24 comentários:

Gustavo disse...

excelente artigo! gosto de história e o filme recomendado está muito explícito e enriquecedor...
O noroeste da peninsula Ibérica é um poço de história e cultura!

Quanto ao centralismo, é um facto q se tenta ocultar.. Acho que o fcporto podia tomar algumas iniciativas de união com a Galiza, principalmente na pré-epoca e em encontros desportivos! Era engraçado ver um jantar no Dragao Caixa entre Guimarães, Porto, Braga, Corunha, etc!

Continuaçaooo

Anónimo disse...

A Galiza e Portugal inteiro é que deviam constituir um Estado e não apnas a Galiza a o Norte de Portugal. A promoção da ideia da integração de Galiza e Norte de Portugal é uma ideia fomentada pelos iberistas, cujo objectivo é a sujeição total da Península a Madrid (*). Para atingirem esse objectivo a fragmentação de Portugal seria um meio ideal.Claro que há quem tenha tal "pó" a Lisboa que irracionalmente não se importaria de a trocar por Madrid. A esses recomendo um curso intensivo de castelhanismo no País Basco.

A Galiza está profundamente castelhanizada, incluindo a própria língua galega, que no seu estado puro é uma versão menos evoluída do original galaico-português - língua de D. Afonso Henriques.

Em vez de se promoverem separatismos de ilusória promessa deveria promover-se o direito de todos os povos peninsulares à auto-determinação. Afinal de contas os bascos, os catalães e os galegos não são menos que os montenegrinos e os kosovares (e por alguma razão a Espanha não reconheceu a independência do Kosovo e se opôs ao referendo que no Montenegro conduziu à independência).

E não esqueçamos também a ocupação ilegal pela Espanha de Olivença e seu termo, ao arrepio do Direito Internacional, conforme estabelecido no Tratado de Viena de 1815.

(*) Total? Não! Encaixado nos Pirinéus o Principado de Andorra resistirá a estas novas legiões romanas, bem como o território de Gibraltar, autêntica espinha encravada na garganta da castelhanada, cedido à Grã-Bretanha em perpetuidade pelo Tratado de Utreque de 1713.

Kostadinov o Flecha disse...

Basta ler o livro “A queda de um anjo”, para perceber o porquê do 3º ps do post.

Está lá tudo bem explicadinho.

Quando a mama é macia e o leite é bom e quentinho...sabe tão bem!!!

reine margot disse...

Antevêm-se coisas bonitas: Braga a querer ser a capital, A Corunha a querer ter um aeroporto maior que o sá carneiro... já todos odeiam o Porto que chegue, não necessitamos de ser capital de nada, nem de ter sonhos territoriais; Precisamos sim é de empresários e produtores e animadores culturais e políticos que se juntem para o bem da cidade, e que não andem sempre a chorar... podíamos também, todos nós, por exemplo, deixar de pagar impostos - pelo menos na quota parte que vai para o aeroporto de lisboa e para o tgv para Madrid- e em vez pagar uma taxa para a construção do Metro (para que de uma vez fosse feito segundo o que os peritos locais acham que é melhor em vez de ser construído aquilo que o estado acha que é melhor...) , e outra taxa para financiar as nossas universidades...
Mas, uma coisa de cada vez, primeiro há que ganhar ao Sporting...

Mário Faria disse...

O Alexandre e La Reine escreveram e bem sobre o assunto. Não podia estar mais de acordo.
Da m/lavra deixo que o concelho do Porto votou contra a regionalização e que fiquei com a pior das impressões profissionais dos meus queridos inimigos de Espanha. Foi a partir dessa experiência que compreendi o velho ditado popular.

Américo Preto disse...

Eu sei que isto que a seguir deixo copiado de um jornal do ano passado, nada tem a ver com o artigo em questão, porém, acho importante de vez em quando avivar a memória de todos nós Portistas e de outros adeptos que também gostam de passar por aqui pelo blogue.

" O presidente do Benfica garantiu, esta segunda-feira, ter retirado "qualquer tipo de apoios" à claque "No Name Boys". Mas o Ministério Público, que acaba de acusar de vários crimes 38 membros da claque, põe em causa aquela versão.

Já durante a investigação da Unidade Especial de Combate ao Crime Especialmente Violento, do DIAP de Lisboa, Luís Filipe Vieira havia assegurado que não reconhecia os arguidos como membros de uma claque legalizada. E negou que tivesse pedido ao comandante da PSP de Benfica para "aliviar" a presença policial junto dos "No Name Boys" (NN) e o controlo de artefactos pirotécnicos no Estádio da Luz. Mas aquela unidade do MP, que investigou os NN com o apoio da PSP, não deu crédito à versão de Vieira. Na acusação, emitida a semana passada, diz que "a factualidade [apurada] permite de alguma forma pôr em causa as declarações prestadas anteriormente pelo presidente do Sport Lisboa e Benfica". Ontem, o Correio da Manhã deu notícia da tese do MP, com o título "Cabecilhas dos No Name protegidos por Vieira". E o dirigente benfiquista ameaçou o jornal com uma queixa-crime. Sustentou que, após os NN optarem por não se adaptar à Lei n.º 16/2004, "retirou-lhes qualquer tipo de apoios". O MP, porém, concluiu que "a direcção do Benfica terá apoiado em concreto este grupo de adeptos" e, abstendo-se de acusar Vieira de crime, participou o caso à Comissão Disciplinar da Liga de Clubes.

A conclusão do MP baseia-se em escutas telefónicas, nos depoimentos do ex-comandante da PSP de Benfica e do ex-chefe da segurança da Luz, nas obras feitas pelo Benfica na suposta sede dos NN e nos lugares cativos no estádio da Luz de que beneficiam alguns arguidos. A acusação justifica o apoio de Vieira aos NN pelo poder que eles possuem, enquanto sócios do Benfica, nas assembleias-gerais do clube.

De resto, o MP descreve um quadro de violência e vandalismo em que os suspeitos actuam de forma planeada contra adeptos do F. C. Porto. Assim foi quando, a 21 de Junho de 2008, incendiaram o autocarro que levou os portistas a um jogo de hóquei na Luz. Membros do NN seguiram-nos de automóvel e, orientados à distância por outro arguido, atearam o fogo ao autocarro com gasolina, quando ele estava estacionado.

São ainda descritas agressões em que elementos dos NN, em superioridade numérica, empregam grande violência contra adeptos do F.C. Porto. "

Mas há gente que ainda tem coragem de dizer que o Porto é Palermo e que o Pinto da Costa é um criminoso, mafioso e mais sei lá o quê. Eu é que tinha vergonha de ter um presidente assim à frente do meu clube e tinha vergonha de ter um grupo como este a fazer-se passar por claque de apoio ao meu clube.


FC PORTO SEMPRE E PARA SEMPRE

Miguel Magalhães disse...

O artigo está muito bem escrito e estruturado e muito claro.

Porém, na minha opinião, chegamos a um ponto em que não vamos lá devagar, devagarinho e com falinhas mansas.

Já uma vez aqui disse que, depois de os bancos se terem mudado para Lisboa, também grandes empresas do Norte estão a mudar os seus centros de decisão para Lisboa. É onde estão actualmente sediados os CEO da Unicer, da Efacec, da Mota-Engil e da Soares da Costa. Não está em causa a competência das pessoas (todos eles são muito competentes), nada os move contra o Porto ou o Norte, mas é apenas uma constatação. O que vale é que ao serem empresas industriais, ao contrário dos Bancos, manterão sempre uma forte presença no Norte e serão vistas como empresas do Norte.

Casos como o do aeroporto do Porto, do TGV e outros são uma treta. Ficaremos sempre com as migalhas dos investimentos feitos em Lisboa.

O caso do Metro do Porto é paradigmático. O projecto arrancou com a maioria do capital detido pela Junta Metropolitana do Porto e com uma envergonhada iniciativa de um "metrosinho" de superficie - era até motivo de jacota lá para os lados da capital quando nos perguntavam se já tinhamos comboios. Os apoios do Governo foram inexistentes e este nunca cumpriu com as suas obrigações de manter o equilíbrio financeiro, obrigações essas estipuladas nas bases da concessão.
Entretanto o Metro evoluiu, tornou-se muito mais eficiente do ponto de vista da operação do que o de Lisboa, ganhou prémios internacionais e então o governo "descobriu" que as contas estavam desgovernadas - aquelas mesmas para as quais o Governo nunca meteu o dinheiro que se comprometeu a meter. O Governo esqueceu-se também de dizer que só a borrada das obras da estação do Terreiro do Paço do Metro de Lisboa custou mais ao país do que uns bons kms do Metro do Porto. E então, o Governo fez a vida negra de tal forma ao Metro do Porto que a Junta Metropolitana se viu forçada a abdicar da maioria do capital para o Estado de forma que o projecto pudesse continuar. Ficou a ideia de que o Estado é mais competente a gerir um Metro no Porto do que a própria junta Metropolitana. TAP? Metro de Lisboa? Carris?

Temos depois exemplos como o da Red Bull em que o "manso" do Rui Rio se limitou a choramingar na comunicação social. E nessa altura eu disse: "alguém se atreveria a fazer o mesmo se fosse na Madeira?"

Assim, voltando ao início do meu comentário, isto não vai lá com iniciativas e falinhas mansas. As iniciativas são fundamentais, a capacidade empresarial também, os nortenhos não irem a correr para Lisboa e manterem-se por cá também. Mas do que o Norte precisa é de um Alberto João Jardim que fale alto, fale mal do centralismo e exija autonomia e fundos para o Norte. O Norte precisa de uma voz forte.

PS - este modelo de desenvolvimento centralizador foi implementado pelo Cavaco Silva quando foi primeiro ministro. Resultou de um ponto de vista global, de números globais do país, mas acentuou as assimetrias regiogais. Foi um modelo que permitiu ao país atingir as metas de curto prazo pós entrada na União Europeia mas foi um modelo que destruiu o país no longo prazo. Só um corte radical com o estado actual das coisas é que permitirá ao país ter uma perspectiva de desenvolvimento integrado e uniforme.

Antonio Almeida Felizes disse...

Caro Jose Correia,

Dada a temática abordada, tomei a liberdade de publicar (Domingo) parte deste seu "post", com o respectivo link, no
.
Regionalização
.

Cumprimentos

José Correia disse...

Alexandre Burmester disse...
«A promoção da ideia da integração de Galiza e Norte de Portugal é uma ideia fomentada pelos iberistas, cujo objectivo é a sujeição total da Península a Madrid»

Não concordo. O Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular não foi criado por iberistas, com o objectivo da sujeição total da Península a Madrid
Eu não defendo o separatismo do Norte de Portugal. Contudo, a concertação de iniciativas entre o Norte de Portugal e a Galiza é algo que traria beneficios às populações dos dois lados da fronteira. Populações essas que, historicamente, sempre foram muito próximas. Quando vou a Valença farto-me de ver galegos (eles não gostam que digamos que são espanhois) e nas Rías Baixas não faltam portugueses.
Por outro lado, uma estratégia articulada da Euro-região Norte de Portugal – Galiza (que existe mesmo, não fui eu que a inventei) em domínios como as infra-estruturas de transportes ou a promoção turística-cultural, teria um peso muito maior quer em Bruxelas, quer perante o poder instalado nas duas capitais ibéricas.

José Correia disse...

Alexandre Burmester disse...
«A Galiza e Portugal inteiro é que deviam constituir um Estado e não apenas a Galiza a o Norte de Portugal.»

Em 137 a.C., para os romanos era clara a distinção entre os calaicos (tribo que vivia nas margens do rio Douro e que prestavam culto a Cal-Leach) e os lusitanos. Por alguma razão criaram a província romana da Gallaecia (que abrangia o território do noroeste peninsular e que corresponde, aproximadamente, às actuais regiões da Galiza, Asturias (parte Oeste) e Norte de Portugal) separada da Lusitânia (a qual incluía, aproximadamente, todo o território português actual a sul do Douro, a Extremadura espanhola e parte da província de Salamanca).

Afirmar que, no tempo dos romanos, na área correspondente ao actual território de Portugal, os povos que aí viviam eram unicamente os lusitanos é, pois, historicamente errado. Durante o Estado Novo, houve interesse político em propagandear esta falsa ideia de unicidade e de criar uma figura mítica – Viriato – que teria resistido heroicamente aos invasores romanos.

Anónimo disse...

As coisas mudaram um pouco desde 137 a.C., hás-de concordar.;-)

Após a criação do Reino de Portugal, sucessor do Condado Portucalense, decerto não ignoras que o mesmo se expandiu para sul, e com ele a respectiva população. Com certeza não achas que a sul do Mondego é tudo exclusivamente descendentes de berberes e árabes?

A população da Galécia em 137 a.C. era homogénea, tal como agora o é a que ocupa o actual (e bem antigo) território nacional. De facto, do Ferrol a Vila Real de Santo António somos todos galegos em sentido lato.

Não foi o Estado Novo que "inventou" a figura "mítica" de Viriato. Mas a Lusitânia não correspondia de facto ao actual território nacional: ocupava sensivelmente o que é agora Portugal a sul do Mondego e a actual província espanhola da Extremadura.

Quanto ao Eixo Atlântico, ele pode não ter sido criado por iberistas, mas assenta como uma luva na sua estratégia. Também as "euro-regiões" não me comovem, e são desenhadas por burocratas bruxelenses longe do terreno e longe das realidades, e que têm inclusivamente um interesse velado em diluirem as identidades nacionais a fim de melhor levarem avante o seu processo integracionista.

Claro que temos imenso em comum com os galegos, mas todos os portugueses, e não apenas os que vivem a norte do Mondego.

Miguel Teixeira disse...

Independentemente das ideias do "anti-Portugal", que não concordo, mas que por serem "quase" ideológicas terei de democraticamente aceitar, não consigo entender o que é que isto beneficia a causa portista. É que é uma minimização da nossa grandeza com que obviamente não posso concordar. São estas ideias de regionalismo bacoco que dão motivos aos nossos adversários para nos chamar "injustamente" de um clube "regional", tudo num plano depreciativo.

Um portista de Lisboa, Algarve, etc, lê este tipo de ideias e pergunta-se a si próprio, de que raio andam estes portistas a pregar.

É que isto não é portismo, é ser portuense. E como eu entendo que as duas coisas não podem andar ligadas em pleno séc.XXI, sobretudo pela grandeza que o FCP atingiu, que acho que existem portistas que renegam a dimensão do Clube, lembrando invariavelmente os disparates das ideologias do "eternamente sós" dos anos 80. Hoje em dia - para não dizer desde sempre - quando ouço as palermices regionalistas do PdC, só me dá vontade de lhe espetar na cara com a origem do meu local de nascimento, assim devem pensar milhares de outros PORTISTAS de todo o país.

A cidade do Porto é o local de nascimento do FCP, e só por isso merece alguma discussão anti-centralista, outra coisa é apelar a separatismos palermas do Norte em relação ao Sul, de Portugal em relação a Espanha ou Galiza, como foi defendido neste texto.

Chamar à discussão, épocas de 137AC é demagogia e falácia pura. Não tarda estamos a falar do tempo dos dinossauros para justificar regiões e conceitos territoriais.

Em suma, e porque esta discussão obrigaria a muitos parágrafos, digo apenas que este tipo de discurso não é uma divisão entre Norte e Sul, é na verdade uma divisão entre portistas do Norte e portistas do Sul, e isso meus caros "castelhanos", é menorizar a grandeza do FCP .

O resto da opinião fica para outras núpcias...


Viva o FC Porto. Viva PORTUGAL!

José Rodrigues disse...

Diz o Miguel q isto e' dividir os pottistas. Bem, constato q a realidade e' q os portistas tem muitas outras facetas em q o futebol nao e' chamado, e em q invariavelmente ja' estao dividos 'a partida: ha' portistas do norte como ha' portistas do sul, como ha' portistas comunistas e portistas do PP, ou ha' portistas ateus e portistas membros da Opus Dei.

Logo 'divididos' estamos ja' nos 'a partida, mas acho q somos suficientemente adultos para nao deixarmos q uma coisa leve a conflitos em outras vertentes.

José Rodrigues disse...

So' mais uma coisa: e' inegavel q o FCP e' um clube nacional (eu diria ate' mesmo universal) de forte matriz regional.

Quem for portista e nao for da regiao pode nao gostar disso, mas e' a realidade e tem q a respeitar. Alias, nisso o FCP nao e' em nada diferente da esmagadora maioria dos grandes clubes europeus (Man Utd, Barcelona, Inter, Lyon, Liverpool, Bayern, etc etc etc). Sendo assim era so' o q faltava virem agora portistas falar da nossa matriz regional como se fosse um estigma ou uma 'palermice'!

pc disse...

O Porto é uma Nação!

Anónimo disse...

Em relação ao ponto de vista do Miguel, que compreendo perfeitamente, uma coisa é certa e inegável: sem os adeptos portuenses o FCP não existia; sem os outros continuaria a existir. Por mais que um clube cresca para fora do seu habitat original não deixa de sr filho desse habitat. Mesmo o Benfica, com adeptos por todos os cantos de Portugal (um inegável sintoma do "atraso cultural do nosso povo", como diria um político já falecido) é no essencial um clube de Lisboa. E quem tiver dúvidas que me aponte um presidente do Benfica que não tivesse nascido em Lisboa ou adoptado a capital como sua terra de residência.

Mas de facto o tipo de debates abordado neste artigo transcende o futebol.

Miguel Teixeira disse...

@José Rodrigues

acabamos por estar de acordo no essencial. É claro que todas as opiniões são válidas. E isto para além do democraticamente exigível, contempla também uma obrigação de saber entender a "FUNDAÇÃO" do FCP. Aquilo que eu critico não são as menções a esse berço que deve ser motivo de orgulho e de discussão social, parte importante da nossa matriz enquanto Clube e dinamizadora de uma eterna forma de sermos mais fortes enquanto "guerreiros" do "contra tudo e contra todos" - só assim parecemos saber ser unidos...

Concordo e discordo com esta última ideia.

Adiante, devemos concordar os dois que pode ser considerada uma palermice, colar ideias separatistas - quase uma distinção racial - entre portuenses, nortenhos de gema e os OUTROS.

Continuo a achar que é uma palermice este tipo de associações, quando ligadas ao meu FC Porto (CLUBE).

Sou portista, não sou portuense - ainda que seja um acérrimo defensor da descentralização do Estado - não renego as raízes do FCP porque isso seria renegar as minhas próprias raízes familiares, contudo, a verdade é que nascido a Sul, custa-me ver este tipo de ideias "extra-futebol", defendidas como se fosse a representação daquilo que o FC Porto (CLUBE) representa para milhares de portistas - não portuenses, nortenhos, entenda-se.

Espero que seja bem interpretado e que - não é o caso do José Rodrigues - venham com as habituais respostas do "portista que é melhor que os outros". Estou farto de levar com esse tipo de respostas de alguns portistas portuenses.

Penso que muito do que escrevi é a forma de pensar de muitos portistas nascidos a sul do Tejo.

Somos muitos porque o FCP é infinitamente maior do que a cidade onde nasceu, essa grandeza dá azo a este tipo de discussões. Concordando ou não, devemos comncordar todos que é uma óbvia forma de vitalidade do CLUBE e dos seus adeptos. Sejam palermices...ou não.

Miguel Teixeira disse...

obrigado Alexandre Burmester.

Porque é equilibrado.

José Rodrigues disse...

"custa-me ver este tipo de ideias "extra-futebol", defendidas como se fosse a representação daquilo que o FC Porto (CLUBE) representa para milhares de portistas - não portuenses, nortenhos, entenda-se"

Concordo que as águas devem ser separadas e que o FCP, como instituição, não se pode arrogar como falando por todos os portistas. Se o problema era esse, estou de acordo.

De resto e fora dessa esfera futebolística eu pessoalmente por acaso até acho q tenho mais em comum (em média) com um galego do q com um português de Lisboa - e conheço as duas regiões/cidade muitíssimo bem. Os portugueses são uma massa relativamente homogénea, mas não tão homogénea como isso.

Isso não quer dizer q defenda uma união política entre o Norte e a Galiza, longe disso, mas tal como o J Correia acho q podíamos cultivar melhor os laços entre as duas regiões tal como concertar estratégias sobre pontos de comum interesse (q até são bastantes).

E sim, defendo a descentralização em Portugal com unhas e dentes, totalmente convencido q a regionalização é o remédio mais prático para isso (está mais do q visto q outras tácticas simplesmente não são executáveis com o modelo político q temos e os portugueses q temos). Mas sinceramente não vou gastar tempo a expandir-me aqui sobre esse assunto.

Porto1969 disse...

Isto vai 1 pouco longe de +,em caso de independencia juntar-nos a Galizia? Isso nunca,a Croacia/Eslovenia/Bosnia nao se separaram da Jusguslavia para se unirem,foi para cada 1 ir para o seu lado.
O intercambio com a Galiza fica para 1 vez por ano ir la comer 1 mariscada,(em x de ir a terra dos mouros comer caracois, ou as merdas que eles la comem)
Muita gente vem aqui fazer Blabla..., se calhar ate votaram contra a descentralizacao. Em x de Blabla.. a que passar a acao, Por Ex. nunca fazer escala em Lissabon,nao comprar ,investir,em que for antiPorto/Norte (sempre que possivel)
Vejam o Ex. aqui da Alemanha Ou Suica, paises, mas com governos regionais , coisa que funciona lindamente ,onde as + ricas ajudam as + pobres,mas sem darem tiros nos proprios pes.

Rui Farinas disse...

Parabens, muito bom artigo. Gostaria de fazer alguns comentários mas não vou fazê-lo aqui pois talvez ultrapassasse o tamanho adequado. Proponho-me fazê-lo no " Renovar o Porto(Gaia). Cumprimentos.

José Magalhães disse...

Maria Rattazzi, que visitou Portugal nos inícios do último quartel de Oitocentos [1879] , escreveu num livro de recordações que o país se podia dividir em duas regiões distintas, a do Norte, muito produtiva e cultivada, e a do Sul, com alguma analogia com o deserto do Sara, acrescentando que os portuenses não morriam de amores pelos lisbonenses (Sobral, 2004, p. 256)

Em 1903, é referido numa revista etnográfica um grande contraste religioso entre Norte e Sul, e que esta diferença seria atribuída ao contacto das gentes do sul com o Islão. Também entre importantes economistas portugueses do início do séc. XX se denunciou uma clivagem Norte/Sul a respeito da questão agrária, sendo que os do Norte defendiam a pequena exploração agrícola e a necessidade de reformar, e os do Sul pretendiam potencializar as capacidades de grande exploração. Segundo Jorge Dias (cit in Sobral, 2004), estas dimensões teriam dimensões a procedências étnicas com uma inserção territorial diferenciada. Em Portugal fizera-se sentir a norte o maior impacto de celtas e germanos, enquanto a sul predominavam os elementos étnicos do Sul da Europa e do Norte de África (mediterrânicos e berberes) (...) O Norte, de matriz galleciana, de guerreiros e agricultores, é o verdadeiro agente histórico da formação de Portugal e, além disso, teve uma acção decisiva na formação do Brasil. O Sul, com populações arabizadas, é dominado pelo comércio, pela aventura marítima, pelo mercantilismo, à «maneira árabe e berbere». (p. 257)

José Correia disse...

Conforme escreveu o Zé Rodrigues, e eu estou de acordo, o FC Porto é um clube nacional (com adeptos espalhados pelo Mundo), mas de forte matriz regional. Neste aspecto, e embora a uma escala menor, tem muitas parecenças com o Barça.

Ora, aquilo que é uma das suas forças - a identidade e forte matriz regional - pode e vai tornar-se uma das suas fraquezas se a economia da área metropolitana e da região Norte continuar a definhar. Sobre isto, não haja ilusões.

José Correia disse...

Obrigado ao António Almeida Felizes e ao Rui Farinas pelas referências elogiosas nos seus blogues.

Obrigado a todos pela participação e comentários postados. E podem crer que este assunto - centralismo, regionalização, poder económico das regiões, etc. - tem mais a ver com o futebol e com o nosso FC Porto do que muitos pensam.