terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Viver o Porto além fronteiras

Por António Silva


Actualmente, um portista da diáspora depara-se com poucas dificuldades no contacto com o clube. A distância física, como é óbvio, impede que se vá ao estádio e o horário dos jogos, particularmente para os emigrantes portistas em terras do Novo Mundo, dificulta o visionamento dos mesmos. Mas louva-se a facilidade de se adquirir o sinal da RTPi, TVI e SportTV que facilita o acompanhamento do clube, tanto para os jogos como para os programas de debate televisivo.

Mas não foi sempre assim. Recordo-me da minha infância, quando o meu pai, emigrante portista em Toronto nos anos 70, se via obrigado a ir à rua Augusta à hora do jogo, para ouvir o relato providenciado pela Portuguese Bookstore. Formava-se uma multidão enorme à porta da livraria (quase tudo benfiquistas, enfim) que tinha uma telefonia de ondas curtas e punham os altifalantes à porta. Depois do jogo o meu pai ia ao bilhar do Tivoli e discutia os jogos com a malta que se entretinha a ler o jornal A Bola da quinta-feira anterior. Tenho vivo na minha memória as tertúlias que se formavam na Barbearia do David (curiosamente mais portistas que outra coisa, mas posso estar a ser vítima de memoria selectiva).

Era assim que um emigrante português no Canadá sofria com o seu clube (qualquer clube diga-se de passagem) nos anos 70 e 80. Jogos televisionados? Nenhuns. Resumos dos jogos? Zero. Jornais? Só passados três ou quatro dias. É bem possível que muitos pudessem ouvir em casa o relato numa rádio de ondas curtas, mas presumo que muitos optavam pelo convívio (mesmo em dias de neve) no passeio em frente à Papelaria.

Embora tivesse um pai portista não me tinha interessado por futebol e só viria a tornar-me portista quando fui viver para a Figueira da Foz, em 1981. Era até bastante incomum haver putos da minha geração que se interessassem por futebol enquanto viviam em terras estranhas. Hoje esse fenómeno é cada vez mais raro. Com a facilidade de acompanhamento dos jogos pela televisão há um interesse cada vez maior. Mas não deixa de ser curioso que me lembre de ver um Benfica – Partizan Belgrado na companhia do meu pai: fomos ver esse jogo porque a chegada de qualquer clube Português era tamanha raridade que isso, só por si, era razão suficiente. Ver o Benfica não teve qualquer efeito sobre mim, não me pegou o bichinho da lampionagem (nem o meu pai iria permitir isso).

Quanto à década de 80 eu não tenho testemunho de como um português radicado no Canadá se desenrascava para acompanhar o seu futebol, mas as dificuldades seriam exactamente as mesmas que havia nos anos 70 (e 60 diga-se de passagem). No entanto, estive cá numas férias de Verão em 1988 e lembro-me do meu irmão me ter mandado uma carta (sim, escrita em papel e endereçada num envelope) a avisar-me que o Porto tinha roubado o Rui Águas ao Benfica!

Os anos 80 e 90 vivi-os em Portugal portanto o meu testemunho é nulo. Cheguei ao Canadá em 1999 e fiquei completamente espantado com a facilidade que tive em ver a final Manchester United – Bayern Munique para a Liga dos Campeões. A minha experiência como adepto portista radicado no Canada em pleno século XXI é, de certa forma, uma experiência positiva. Não me sinto a leste do que se passa, vejo os jogos todos (mais por stream mas isso é por opção própria), saco jogos pela internet se for preciso, leio os diários, os blogs, participo(ava) em fóruns do Porto. A única coisa que realmente me falta é ir ao Dragão. O convívio com outros portistas, ou adeptos portugueses de futebol, é algo que evito embora a cerca de 100 metros de minha casa devo ter pelo menos quatro cafés portugueses. Aliás, os últimos jogos que vi num café foram o FC Porto 3 – Benfica 2 e o FC Porto 1 – Nacional 0 (jogo do tetra), ambos no mesmo café e rodeado de lampiões.

A única porcaria que me chateia é o horário das terças, quartas e quintas-feiras europeias. Aí não vejo quase nenhum, acompanho no trabalho e vou com muita sorte. Nem sequer pude ver o FC Porto 3 – Monaco 0, tinha acabado de começar um trabalho novo, pensei em simular uns sintomas febris mas, quando vi que o meu supervisor (também ele portista) não tirou folga nessa tarde, vi logo que estava com um azar do caneco.

Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao António Silva a elaboração deste artigo.

7 comentários:

Emanuel Júnior disse...

Sou brasileiro, de Recife. Vivi em Espinho entre 1994 e 1999. Fui como um mero simpatizante do FC Porto e retornei um fanático por este clube fantástico.

Em 1999 só a RTPi transmitia um jogo do Campeonato por fim de semana e ainda não havia os streams.

Mas, hoje em dia, temos 3 canais que transmitem o Campeonato, embora, em algumas rodadas, não passem o jogo em direto, então ainda tenho que recorrer aos streams.

Mas, se comparado a 1999 e ao começo dos anos 2000, hoje em dia é um paraíso, afinal só deixo de assistir a um jogo do meu clube se eu não estiver em casa, a trabalho ou outros afazeres.

Além, claro, da facilidade de comunicação e obtenção de informações que existem nos dias atuais.

É óbvio que seria muito mais prazeroso estar no Porto, no Estádio do Dragão - como o fiz em 3 jogos no mês de setembro de 2009 - contudo, não posso reclamar muito das facilidades que a tecnologia nos propicia atualmente.

Sempre leio este blog e esta é a primeira vez que deixo um comentário.

Abraço

Hugo disse...

LOL Essa libraria fica na St. Clair, a 100 metros da minha casa.

Abraço,
Hugo

Hugo disse...

E confirmo, ver futebol nesta cidade infestada de açorianos lampiões e lagartoides é do pior que pode existir.

O último jogo que fui ver a um café foi um Benfica-Porto em que o Quaresma partiu os rins ao David Luiz e marcou de trivela.

Eu era o *único*, repito, único, portista naquele tasco com uns outros 50 lamps. Mas na boa... nem pensei duas vezes, dei um salto, gritei golo, bati palmas e sentei-me. Não disse nem mais uma palavra nem provoquei ninguém. Tinha todo o direito de festejar.

Vem um merdas dum velhote qualquer, bate-me no ombro e diz-me: "oh menino (tenho 30 anos), olha que tu aqui estás sozinho".

Ui... em meio segundo passou-me isto pela cabeça: ...posso levar porrada de 50 cabrões, mas o orgulho de ser portista ninguém mo vai tirar.

Pus-me a pé, encostei o meu nariz ao nariz dele e berrei o seguinte e passo a citar palavra por palavra: "Vais-me fazer o quê, velho filho da puta? Despentear-me?! Só se for!"

O gajo nem disse nada... sentou-se de novo caladinho e o resto do tasco também não disse nem fez nada... depois veio o dono (também ele lamp) pedir-me para ter calma. Eu expliquei muito calmamente que ele veio ameaçar-me e eu reagi.

No fim do jogo vieram todos dar-me os parabéns pela vitória, que foi merecida, etc...

Jurei que nunca mais ia ver um jogo aos cafés de portugueses e agora prefiro ver em casa com stream ou quando dá na RTPi. Pôr a SporTv fica caro visto que a minha unica opção passa por comprar um aparelho especial que se liga à Internet e passa o canal assim.

Se apanho uma boa stream HD, ligo na TV por HDMI e até se vê mais ou menos, mas nem se compara a uma verdadeira transmissão de TV.

Abraço,
Hugo

Arlindo disse...

Saudações Azuis e Brancas!

Vi 2 jogos do Porto na ultima quinzena de Agosto em Toronto. Num era o unico Portista mas no outro havia lá um senhor com a "nossa" camisola. O ambiente era de facto um pouco hostil - o que aliviou o ambiente foi um jogo do Fluminense ao qual alguns brasileiros estavam a assistir. Escusado será dizer que vencemos os dois jogos.

No dia em que fui visitar os "Falls" - estava a comentar coma minha querida esposa (lampiona) que o benfiquismo é de facto uma coisa doentia (quase pidesca - agora ainda por cima com a SLBOSTA TV. Quando estavamos quase a chegar aos barcos passa um jovem com uma camisola dos SUPER -e eu tive de explicar que nós graças a deus somos como a areia na praia - estamos em todo o lado!

O meu sogro lampião já simpatiza um pouco com o Porto..... como? >Ele como mouro ( e a maioria é assim) pouco percebe de bola), e eu com a minha lavagem consegui abrir lhe um pouco os olhos e expor a CS tendenciosa deste pais amarrado pelo vicios do benfiquismo.

AMT FCP

Z8

Alexandre Burmester disse...

Parabéns ao António pelo seu excelente e informativo artigo!

Também apreciei o comentário do nosso leitor Hugo.

Vocês estão na América do Norte, mas também eu em Londres nos anos 70 não via jogo algum do Porto, nem resumo, nem nada, conseguia ouvir o relato na Emissora Nacional (não me lembro se já mudara de nome) em ondas curtas, e lia "A Bola" e "O Comércio do Porto" na Casa de Portugal em Regent Street (mesmo edifício da TAP)!

Naquela altura havia poucos portugueses em Inglaterra, e muitos eram madeirenses. E nesses ilhéus preponderavam, claro, os vermelhuscos. Quando os ânimos se exaltavam (na Casa de Portugal ou na Coffee House, ali perto, em Coventry Street) eu fingia que não percebia o sotaque deles! : -))

Armando Pinto disse...

O meu bem-haja a Portistas assim!
Eu, nortenho, do interior norte do país, felizmente não sinto bem isso, embora conheça muitos mouros por aqui, coisa que não entendo bem.
Força, o Portismo é uma benção.
Abraço.
http://longara.blogspot.com/

Frederico disse...

O advento da Internet trouxe-nos algumas coisas boas e uma delas é poder continuar a acompanhar o meu Porto por stream, lendo as últimas notícias e alguns blogs.
Isto torna a minha vida em Londres mais agradável.
Obviamente que gostaria de poder ir ao Dragão ver os jogos, mas este ano só vou a Dublin...

P.S.- Aqui encontram-se camisolas oficiais do novo equipamento do F.C. Porto nas lojas de desporto (metade do preço de Portugal), dos "outros" ainda não vi nenhuma...Será que isto terá algum significado?

Abraço