quarta-feira, 22 de junho de 2011

De Oliveira a AVB

Um dia nos anos 80 vi o meu ídolo de infância, aquele por quem chorei a ida para Sevilha e festejei o seu regresso, aquele que para mim era o símbolo do ser jogador do Porto, jogar nas Antas com uma camisola vermelha, empatar a 2 e no fim do jogo ser aplaudido pelos adeptos do Porto.

Nesse dia percebi que eu gostava mesmo era do Porto, doeu ver os adeptos do Porto vaiarem os nossos jogadores e aplaudirem quem nos tirou um ponto em casa.

Passaram-se uns 30 anos - pelo meio houve mais 2 ou 3 desilusões - e as coisas estão extremadas, não há símbolos do clube. Há profissionais que vestem a camisola do clube e recebem bem por fazê-lo. Há muito que deixei de admirar o homem, admiro o profissional. E como profissionais o que lhes peço é que justifiquem cada tostão daquilo que recebem. Durante anos mentalizei-me disto, até porque o clube também tem esta necessidade: vênde-los e por isso não vale a pena estar a criar muitas afectividades.

É como profissional que estou agradecido a André Villas-Boas, encaixou perfeitamente naquilo que peço aos profissionais do Porto. Não sei se foi a melhor época do Porto, isso é sempre subjectivo, mas foi uma época perfeita.

E esta mensagem devia ter acabado aqui.

Mas (e há sempre um mas) desta época fiquei com a ilusão de algo mais, identifiquei-me a 100% com o profissional, voltei a identificar-me com o homem que está atrás do profissional, voltei a acreditar que era possível que o futebol fosse puro prazer, que os egos e as vontades individuais fossem sobrepostos pelo gozo colectivo.

Acordei.

André, vou-te dizer uma coisa: foda-se esta doeu!

21 comentários:

Costa disse...

doeu e vai continuar durante algum tempo :S

Ricardo disse...

Post perfeito.

Foi uma daquelas desilusões que só os que entram no coração conseguem

Pedro Reis disse...

Eu percebo perfeitamente as suas palavras João, a mim também me custou a saída do AVB!
Mas depois mais friamente realizei que faz parte do jogo e da forma como se organiza hoje em dia o negócio do futebol. E por isso acho que não vale a pena guardar rancor e insultar o AVB, porque no final o que ele "nos deu" foi muito comparado com esta "pequena traição".

Miguel Pereira disse...

João,

Acho que este é mesmo o sentimento colectivo. Gratidão profissional, desilusão pessoal, certeza de que a estrutura do clube é superior a qualquer individuo que por lá passa.

um abraço

Pedro disse...

Como será a reacção do Dragão quando AVB nos visitar? Suspeito que muito dividida entre aplausos e apupos.

Mas o mais importante agora é apoiar a equipa e o novo treinador. Parece que já estamos derrotados à partida... um deja vu.

HULK 11M disse...

Talvez até tenha sido um "negócio" do interesse do FCP e que, por via da afectividade criada, foi necessário mascarar de "traição".
Se foi assim ou não, só o tempo o irá esclarecer.
Lembro-me de jogadores que saíram para o estrangeiro, especialmente para a Rússia,e que, mais tarde, vieram dizer que o fizeram porque deviam muito ao FCP e que este tinha tido interesse na sua transferência.
A única coisa que lamento.... foi ter sido repetido até à exaustão a história da "cadeira de sonho" e de que, por mim, "ficarei por aqui nos próximos 15 anos".
Mas acredito em VB e penso que o FCP teve interesse na sua transferência.
Boa sorte VB e um até breve!

Jorge Aragão disse...

Muito bom post.Parabéns.Do melhor que li sobre o assunto.
E agora é pensar no futuro com o nosso Special Vítor Pereira

Daniel Gonçalves disse...

Ainda era muito novo para ter consciência do caso do Oliveira, mas o meu primeiro choque emocional foi quando, aos meus 12/13 anos, vi um dos meus ídolos de infância, e um dos símbolos do clube - o Fernando Gomes - defrontar, com a camisola do Sporting, o meu FC Porto. O outro choque emocional foi quando o FC Porto de Victor Fernandez defrontou a Chelsea de Mourinho e restante equipa técnica, com Ricardo Carvalho e Paulo Ferreira do outro lado da barricada. Não me doeu muito quando Mourinho saiu, porque era prevísivel, mas "doeu-me" mais quando o FC Porto defrontou o Chelsea de Mourinho, porque para mim era defrontar alguém que pertencia à nossa família e agora estava noutro lado a defender outras cores.
E já agora uma pergunta para os portistas deste blog que possuem idade mais alta: foi doloroso ver Pedroto, ao serviço do Vitória de Guimarães, defrontar o FC Porto de Herman Stessl?

c. silva disse...

doeu de c..
a ferida ainda está aberta.

com o tempo, talvez se conclua que tinha mesmo de ser, e se possa perdoar.
por agora só lhe desejo muitas derrotas!

PedroL disse...

Doeu mesmo. Concordo em absoluto com o post. É exactamente isso. O discurso que repetiu à exaustão, os planos que reiterava para o clube que dizia ser do coração fizeram acreditar que era um de nós. Não é, nem nunca será. No fundo, era apenas mais um funcionário profissional. Jamais será perdoado. Espero que nunca se atreva a voltar cá. E se vier jogar ao Dragão que morra de assobios. Pode ser que sinta então um pingo de vergonha pela forma como tratou o Porto e os seus adeptos. Não precisamos de gente assim aqui.

Daniel Gonçalves disse...

Se me doeu muito esta saída abrupta do André, será mais doloroso se o FC Porto enfrentar o Chelsea treinadado pelo "cenourinha".
Sobre o futuro do André VB, quero ver como é que ele, ainda jovem e algo "verde", vai lidar com um plantel cheiro de veteranos como Drogba, John Terry, Lampard e um espírito de balneário cheio de vedetismo e individualismo. Porque uma coisa é ter um espírito de balneário do FC Porto com uma cultura disciplinadora/respeitadora e outra coisa é o espírito individualista e snob dos ingleses. Mourinho começou a ter problemas no Chelsea quando teve um confronto de personalidade com John Terry - capitão de equipa - e nunca mais conseguiu "dominar" o balneário, e Mourinho tem mais "cara de pau", é mais duro/disciplinador do que parece ser André VB. Carlo Ancelotti, campeão inglês na temporada passada, começou a ter maus resultados esta temporada quando perdeu o pulso/liderança e o domínio emocional do plantel do Chelsea.

David disse...

Sim, o Terry deve ser mesmo um snob do caraças, Daniel Gonçalves: Lord Terry of Stamford Bridge!:-))

Essa de os ingleses serem snobs é como a dos espanhóis serem orgulhosos, os franceses pérfidos e os portugueses malandros: não passa de um chavão, normalmente usado por quem os conhece mal. E eu nem simpatizo nem deixo de simpatizar com eles, diga-se.

Quanto ao post, é isso mesmo! Eu também me lembro desse jogo Porto-Penafiel (se não erro,golos de Oliveira e Abel - outro ex-portista). Voltando ainda ao Daniel, devo dizer que, quanto ao Gomes, fiquei todo contente quando o Porto não lhe renovou o contrato: nas duas últimas épocas protagonizara casos graves de indisciplina e nessa altura (final da época de 1988/89) houve uma radical "limpeza de balneário", ele incluído. Tal como agora com o AVB, era de esperar mais do Gomes nessa altura, mas também ele se colocou acima do clube.

Justiceiro Azul disse...

Estes últimos dias a sensação que me deram e que se vê bem que se passa com todos os portistas, é parecida com o que se sente(ia) quando se perde uma namorada que pensávamos que gostava de nós, com quem tudo corria bem, um cenário idílico, e de repente, afinal não era verdade! Dá-nos um chuto e vai à sua vida.
Salvas as devidas proporções e só percebe quem passou por isto...

868 disse...

Espero tudo de bom ao AVB e agradeço o seu trabalho aqui.
O FCP é um clube pensado e estruturado de forma a que não dependa de um treinador, jogador ou presidente.
O Pedroto morreu mas ganhamos outros campeonatos, fomos até penta. O Artur Jorge saiu mas voltamos a ser campeões europeus. O Mourinho saiu mas ganhamos outra vez a taça UEFA. O Jesualdo, que ninguém gostava, ganhou 3 e só não ganhou mais por fizeram as coisas por outro lado.
O que é preciso é não desesperar se algo for menos bom esta época.
Se no tempo em que vendemos o Futre me dissessem que iríamos vender um treinador por 3 Milhões de contos...

Daniel Gonçalves disse...

David, sim os ingleses são, por índole de carácter ou idiossincrassia, snobs; não é nenhum chavão, e é não preciso lidar pessoalmente com eles para chegar a essa conclusão, basta perceber um pouco de mentalidade/pensamento e entender a natureza humana para ver a tradicional fleuma britânica.

Daniel Gonçalves disse...

Relativamente ao caso Fernando Gomes em 1989, eu com 12/13 anos não compreendia, nem tinha idade para compreender, casos de indisciplina no balneário, apenas sabia que o bi-bota era um dos meus ídolos e daí o embate dele contra o FC Porto ter sido doloroso para mim.

Daniel Gonçalves disse...

E por snob eu quero dizer pessoa caprichosa, arbitrariedade de ideias e modas, extravagância.

bart disse...

negocio concertado com PC? ja que tinha de sair, mais cedo ou mais tarde,... uma maneira de trazer 15M disfarçada de negocio/traiçao? de qualquer forma: perder de novo a inocência é duro... ate porque palavras como honra, caracter, sonho e sentimento têm muito mais haver com o futebol (irracional e apaixonante) que: profissionalismo, dinheiro e carreira.

David disse...

Pois, Daniel, mas snob não é isso: um snob é alguém que acha que outros lhe são inferiores, seja em inteligência, em origem, etc. Também pode significar arrivista e pretensioso, no sentido original do termo, "sans noblesse", ou seja, alguém que quer passar-se por aquilo que não é.

E também existe o fenómeno do snobismo invertido, que consiste em ter um preconceito contra supostas elites.

Bom, mas eu não quero entrar em off-topic, e de facto nada me incomoda que o meu amigo considere os ingleses snobs. Só que me desagradam as ideias feitas, incidam elas sobre nacionalidades, religiões ou etnias - e já agora, clubes de futebol!

Abraço

Daniel Gonçalves disse...

David disse: "nada me incomoda que o meu amigo considere os ingleses snobs." Olhe que não sou o único a considerar os ingleses snobs, pergunte aos franceses, alemães ou americanos, e não é um preconceito mas sim um "representação" intelectual na civilização ocidental baseado no estudo do comportamento/pensamento dos ingleses. Depois eu não sou uma pessoa de ideias feitas, procuro ser racional e analisar todas as premissas para só posteriormente formar ideias/opiniões. Snob pode ter vários significados, como o David afirmou, mas eu empreguei a palavra no sentido de pessoa caprichosa, que muda de vontade sem qualquer razão, vaidosa e teimosa, que é o sentido que os alemães dão à palavra.
Para off-topic já vai longo.

Abraço.

Nuno Silva Leal disse...

Tal e qual! Doeu muito porque me acreditei na pessoa para lá do profissional...