sábado, 18 de junho de 2011

Sócios: Paixão e razão (III)

Por Miguel Lourenço Pereira

Paixão e razão (I)
Paixão e razão (II)


Há poucos adeptos no mundo tão identificados com os seus clubes como os britânicos. E, no entanto, no futebol inglês o conceito de “sócio” não existe. Mas há uma profunda preocupação, em ambos os sentidos, de que a relação entre o adeptos e a instituição seja dinâmica e interactiva.
Em pleno século XXI o FC Porto, já um grande da Europa por direito próprio, ainda tem muito caminho por percorrer neste sentido.

Talvez mais importante do que aumentar o número de sócios – esse conceito latino que ainda hoje perdura – seria valorizar os sócios já existentes. Para muitos, independentemente da antiguidade no clube, ser sócio significa apenas pagar um pouco menos pelo bilhete de jogo ou pelo lugar anual. E nada mais. A esmagadora maioria nunca utilizou o cartão que o clube vai renovando, pura e simplesmente porque ninguém lhes explicou que aquilo é mais do que um cartão: é um símbolo de união com a instituição. E para que essa ideia entre na cabeça dos sócios é primeiro preciso valorizar essa relação.

Nenhum sócio é mais portista por pagar quotas mensalmente, isso já todos o sabemos, mas os 120 euros que paga ao ano são uma ajuda às arcas do clube que deve ser recompensada. Já se falou aqui de acções com sponsors, com instituições parceiras do clube e essa realidade, hoje básica em clubes de topo europeus, no Porto ainda é um mito. Mas é preciso ir mais longe.

Ser sócio do FC Porto e viver no estrangeiro, como sucede comigo há uns bons anos, é como um casamento à distância a viver de lembranças pretéritas. As quotas dos sócios que vivem longe do Porto, tanto em Portugal como no estrangeiro, continuam a ser pagas, as contas do clube agradecem, mas nenhum sócio recebe nada em troca.

A página Web do clube não tem uma área dedicada de acesso aos sócios com conteúdos exclusivos. Conteúdos que podiam passar por sorteios com jogos a serem vistos no camarote presidencial, visitas ao balneário, viagens com a equipa, ofertas de merchandising, ou outras iniciativas que valorizem essa união. Iniciativas que devem apostar numa imagem de exclusividade e recompensa, elementos chave de diferenciação para garantir ao sócio que unir-se ao projecto FC Porto é, para lá de uma grande paixão, uma aposta pessoal com contrapartidas a seu favor que mais ninguém pode usufruir. O sócio que pode mostrar com orgulho aos amigos uma foto junto do presidente no camarote, o autógrafo conseguido do seu jogador preferido no balneário, ou o bilhete preferencial para um jogo fora de casa na sua zona de residência, é um sócio feliz. Um sócio capaz de demonstrar de forma palpável aos adeptos do seu clube, que há uma vantagem real em pagar uma quota mensal ao clube do seu coração.

O FC Porto vende-se muito mal para o sucesso que tem e, tirando os habituais sócios e adeptos historicamente fiéis, é difícil fazer a marca funcionar lá fora. Porque o clube aposta muito pouco nessa relação. Já discuti aqui a necessidade de uma política de marketing e merchandising profissional, capaz de capturar os grandes momentos do clube, eternizar a imagem do colectivo mesmo para aqueles que não a conhecem.

No ano passado, no final da Liga, o Benfica não perdeu tempo em editar um DVD comemorativo do título. Foi colocado à venda de forma consciente para aproveitar o fluxo de vendas que a romaria habitual dos nossos emigrantes provoca. E funcionou. O FC Porto, nesse sentido, continua uns passos atrás de muitos clubes e o sócio dragão também tem consciência disso.


Numa época de crise apostar numa relação de fidelidade implica contrapartidas. O clube tem direito a exigir um aumento de quotas para manter a competitividade do projecto desportivo. Mas só se o sócio sentir que parte desse dinheiro lhe é devolvido de forma indirecta. Dois não fazem nada se um não quer. O clube terá de dar o primeiro passo e demonstrar que entrar no futuro, como preconiza Angelino Ferreira, é também entrar numa nova etapa na relação directa e pessoal com quem tem sido o alicerce da instituição desde os primeiros dias.

Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Miguel Lourenço Pereira a elaboração deste artigo.

2 comentários:

Armando Pinto disse...

Uma maneira muito esclarecida de ver as circunstâncias, sendo de concordar totalmente com estas ideias, desejando que o clube as venha a ter em conta.
Muito pertinente a sugestão do DVD (eu penso que devia ser um livro + DVD), nesta altura de afluência às instalações do clube, em período de férias e de matar saudades...

http://longara.blogspot.com/2011/06/harmonia-dos-titulos-nacionais-de-1977.html

Mário Faria disse...

Os sócios do FCP – e regresso aos tempos de 50 quando passei a ser sócio do FCP – eram mais do que a alma, eram “o clube”. O FCP vivia quase exclusivamente da receita das cotizações. Os estatutos definem os direitos e obrigações dos associados. Ser sócio do FCP, para mim, é sobretudo um dever : essa foi uma das heranças que recebi e que prometo deixar aos meus filhos.
Hoje a receita dos sócios é apenas uma parcela do conjunto dos proveitos, mas muito importante. Custa-me aceitar que a condição de sócio seja tratada de forma muito semelhante à de mero consumidor.
Embora perceba que o clube tem de ser gerido pelos seus directores (e o futebol pela SAD que os sócios nomearam de forma indirecta) e entenda que o facto do negócio do futebol movimentar muito dinheiro e carecer de modelos de gestão sofisticados e criativos, que o FCP teve de acompanhar, nem por isso a importância ( a necessidade) de ser sócio do FCP mudou para mim. Mudaram-se os ventos não mudou a minha vontade. A participação neste momento fica-se por aí, mas é um vinculo que não dispenso.