segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"Estamos fartos de ser chulados"

«Há alguns anos (não muitos), com os ânimos incendiados pela vã tentativa do estado-maior benfiquista de quebrar a hegemonia portista com manobras na secretaria, esteve em voga a palavra de ordem "Nós só queremos Lisboa a arder".

A provocação não caiu no goto da generalidade dos residentes na capital, pelo que amiúde alguns lisboetas, meus amigos ou conhecidos, perguntavam-me se também eu achava bem a ideia de pegar fogo à sua cidade.

"Não. Lisboa é uma bela cidade. O que defendo é o uso de uma bomba de neutrões, de modo a preservar o magnífico património edificado". Foi esta a resposta que formatei para dar nessas ocasiões. Quando a pergunta não é séria, sinto-me desobrigado de responder a sério.

Neste novo século, trabalhei oito anos em Lisboa, uma das mais bonitas cidades do Mundo, pela qual é muito fácil uma pessoa ter uma paixão fugaz e à primeira vista.

Estou imensamente feliz por o JN me ter proporcionado voltar a viver na cidade que amo e onde nasci, mas não posso negar que, de vez em quando, ainda sinto uma pontinha de saudade de alguns pequenos prazeres que Lisboa pode oferecer, como um fim de tarde no miradouro da Graça, petiscar ao almoço uma sanduíche de rosbife e um copo de branco no terraço do Regency Chiado, ou tomar o café matinal na esplanada da Ponta do Sal, em S. Pedro do Estoril.

Quando alguém é incapaz de diferenciar se estamos a falar em sentido estrito ou figurado, geram-se situações embaraçosas e terríveis mal-entendidos. Ninguém quer mesmo Lisboa a arder. O que queremos a arder, num fogo purificador, é a governação centralista que empobrece o Norte e desgraça o país.

O modelo centralista de pôr todas as fichas em Lisboa, partilhado por todos os partidos do arco da governação, é o responsável por 2000-2010 ter sido a pior década de Portugal desde 1910-20 - anos terríveis em que vivemos uma guerra mundial, golpes de Estado e a epidemia da gripe espanhola.

Na primeira década deste século, o crescimento médio anual da nossa economia foi de 0,47%, apesar do afluxo diário médio de seis milhões de euros de Bruxelas, que valiam todos os anos 2% do PIB.

Já ultrapassado pelo Alentejo e Açores, o Norte é a região mais pobre do país, apesar de ser a que mais contribui para a riqueza nacional, com 28,3% do PIB, logo a seguir a Lisboa e Vale do Tejo, com uns 36% enganadores, já que aí está contabilizada a produção feita noutras partes do país pelas grandes companhias nacionais e multinacionais com sede na capital.

Quando leio (ver página 2) que ao abrigo do famoso efeito de dispersão - uma vigarice inventada para desviar para Lisboa fundos comunitários - dinheiro destinado às regiões mais pobres está a ser usado pelos serviços gerais e de documentação da Universidade de Lisboa, dá-me vontade de ir para a rua gritar "Nós só queremos Lisboa a arder".

Não. Nós não queremos mesmo Lisboa a ser consumida pelas labaredas. O que queremos é dizer que estamos fartos de ser chulados e já é tempo de impedir que Portugal continue a arder em lume brando, por culpa de governantes incompetentes ou corruptos.»
Jorge Fiel
JN, 12/12/2011


Que grande artigo do Jorge Fiel!

13 comentários:

Alexandre Burmester disse...

"O modelo centralista de pôr todas as fichas em Lisboa, partilhado por todos os partidos do arco da governação, é o responsável por 2000-2010 ter sido a pior década de Portugal desde 1910-20 - anos terríveis em que vivemos uma guerra mundial, golpes de Estado e a epidemia da gripe espanhola."

Obviamente que não. E então nas outras décadas não existia o modelo centralista? O verdadeiro responsável dá pelo nome de euro.

Luís Negroni disse...

O artigo está excelente, embora haja um pedaço de frase com que não concordo nada e que os portuenses figuras públicas passam a vida a dizer, não porque o sintam realmente, a maior parte das vezes, mas antes por uma espécie de complexo de politicamente correcto: "Lisboa, uma das mais bonitas cidades do Mundo".

Lisboa, não é, objectivamente, de maneira nenhuma, uma das mais bonitas cidades do mundo. Nem pelo "património edificado" - pobre património ao pé do de muitas cidades europeias, nem é preciso ter em conta as capitais - nem pela paisagem - quantas cidades africanas, americanas, australianas e até europeias não têm uma envolvência paisagística superior - nem pelas pessoas (os lisboetas, na sua generalidade, são do mais provinciano - no sentido pessoano do termo - que há. E ao mesmo tempo são extremamente presumidos, julgando que são uma espécie de povo eleito na cidade eleita. São gente feia, na sua esmagadora maioria, e sei bem do que falo, vivi em lisboa muito tempo).

Está claro que pode haver quem ache - subjectivamente - lisboa a mais bonita cidade do mundo, tal como eu acho a minha aldeia a aldeia mais bonita do mundo. Mas objectivamente, por comparação rigorosa e desapaixonada com outras cidades do mundo, é vulgarzota. Não dá sequer para "ter uma paixão fugaz e à primeira vista".

PS Achei muita graça à "boca" da bomba de neutrões. Mas o património edificado lisboeta que ainda não está em ruínas, não vale tamanho gasto, era um enorme desperdício financeiro, em tempos de tão grande crise.

Ricardo Melo disse...

Deixo aqui o meu "concordo e subscrevo" com o autor do artigo, vindo aqui de um Benfiquista do Norte. Por muito que "Benfiquista do Norte" seja uma conjugação de duas palavras que, adivinho eu, para a esmagadora maioria dos leitores deste blog, não poderiam constar da mesma frase.
Todos nós, nortenhos, já sentimos de uma forma ou de outra "no pêlo" os efeitos do centralismo que nos rege. Efeitos esses que são invariavelmente nefastos.
Uma das coisas que mais me irrita no centralismo é o sorver parasita do crescimento económico, nomeadamente ao nível do emprego. Aliás, o próprio autor do artigo teve que para Lisboa para progredir na sua vida profissional. E isso é desesperadamente horrível - sim, horrível - para quem não quer sair desta terra que tanto ama.
Ser do Norte é ser do povo mais forte, já diz o cântico futebolístico. Pena que essa força, porque nos obrigam a isso, seja a de um Ferrari com as rodas no ar...
Isto só vai lá com regionalização, mas com regionalização a sério!
E podem chamar-me tolo, mas que bem (julgo) que funcionaria um país que fosse da Corunha até à Mealhada!

Miguel Pereira disse...

Um euro que, com base em acordos de submissão politica do governo centralista, destroçou a economia do resto do país. Um euro que levou Portugal a abdicar da indústria, do comércio têxtil, da pesca, da agricultura e de tudo aquilo que possa significar produção e exportação para se tornar num país periférico, que vive dos subsidios que os grandes da Europa dão aos pequenos para que comprem os seus productos porque mais ninguém no mundo quer saber deles.

Essa politica sancionada em Lisboa (com muitos politicos do Norte e do Interior, tão prejudicados...e esses são o cancro) levou à situação actual. Quando o famoso lema se começou a tornar chavão no Porto era outro o problema, o Norte ainda tinha um forte tecido industrial, o comércio das pequenas e médias empresas ainda trazia dinamismo social e era o aparelho burocrático de Lisboa que impedia um desenvolvimento sustentado. Agora será dificil voltar atrás.

Barba azul disse...

Alexandre, o euro, a globalização (no sentido "o fim dos privilégios do Ocidente / Norte"), foram condições de "stress" (real, não os famosos testes) que constituiram o teste final para o nosso modelo centralista, demonstrando sem margem para dúvidas a sua incapacidade para gerar riqueza suficiente para dar alguma coisa ao resto do país, depois da distribuição dos dividendos a Lisboa.

Outros países / outras economias, enfrentaram as mesmas situações gerais e estão pelo menos a safar-se melhor (mesmo tendo em conta que ninguém parece estar a salvo). Ergo, com elevado grau de probabilidade, a diferença entre nós e essas outras economias pode ser devida ao nosso sistema centralista (mesmo dando o devido desconto ao atraso que levamos à partida).

Logo, o Jorge Fiel não deixa de ter razão: é o centralismo lisboeta a principal causa do falhanço económico desta década. Mesmo que também o tenha sido para todas as décadas anteriores, embora sem as mesmas consequências, pelo diferente enquadramento.

Alexandre Sottomayor

G. disse...

Pelo menos tinha bom gosto no que diz respeito a esplanadas. A Ponta do Sal também é a minha esplanada de eleição. :-)

Pedro disse...

@Alexandre Burmester

Não sendo este um espaço dedicado à economia... :-) Não deixo de apontar que o responsável técnico não foi o euro. Foi a falta de regulação nos mercados financeiros (mundial), e a entrada prematura dos paises menos desenvolvidos no euro (europa).

De qualquer das formas desde 2000 são 2.2 mil milhões de euros que não entraram no Norte, desviados para sul. Se seriam bem investidos ou não... isso é outra questão.

Muito bom o artigo do Jorge Fiel.

Alexandre Burmester disse...

Pedro,

Como bem diz, este não é um espaço dedicado à economia. Por isso, não estando de acordo com o seu diagnóstico dos mercados financeiros não regulados como responsáveis pela crise portuguesa, não expandirei o meu raciocínio.

Esta minha resposta aplica-se a todos os os outros leitores que possam ter tido a maçada de comentar o que eu disse,

Abraços

Mefistófeles disse...

Luís Negroni disse:"Lisboa, não é, objectivamente, de maneira nenhuma, uma das mais bonitas cidades do mundo."

Não acha que isso é um bocado subjectivo ? Eu, por acaso acho que é. E conheço muito estrangeiro que já me disse o mesmo, e olhe que não foi por quererem ser simpáticos.

Lisboa poderá não ser tão monumental como Roma ou Paris mas tem seguramente uma luz única e um encanto muito próprio.

Bacalhau_com_belgas disse...

Antes de mais quero dar as felicitacões por este excelente espaco de discussão e reflexão (mormente desportiva). Sou frequentador assíduo mas como benfiquista, prefiro assistir de fora e não me meter em casa alheia. Não posso no entanto deixar de comentar este artigo, uma vez que quer o próprio, quer muitos dos comentários que aqui li não levantam questões que me parecem relevantes:

- Antes de mais, e esta é relacionada com futebol, parece-me descabida a introducão a este artigo. Que o autor vá buscar quezílias entre adeptos de Benfica e FC Porto para introduzir uma questao de interesse nacional é tremendamente infeliz. Tem sido de resto essa a estratégia de Pinto da Costa ao invocar legítimas razoes de queixa de favorecimento a Lisboa e excessivo centralismo, como forma de mobilizacão dos seus adeptos numa guerra que comecou há 30 anos contra o Benfica. É uma falácia, uma vez que o país é mais do que futebol, e as assimetrias são muito piores do que apenas norte/sul (já lá vou) dos quais de resto nem FCP nem SLB deverão ser porta-estandartes. É uma falácia geradora de ódio porque mistura clubismo com qualidade de vida. Um perigo, e uma irresponsabilidade à solta há 30 anos (nos ultimos tempos alimentada e muito por LFV). Foi um bom cartão de visita entregues pelo sr. Jorge Fiel, que de resto nao conhecia, mas mostrou ao que vinha.

- Não sei em que medida o Alentejo ultrapassa o norte neste momento, mas tendo raízes profundas nesta região e conhecendo-a muito bem, devo dizer que em termos de qualidade de vida não será seguramente um paraíso na terra. Tem sido de resto, e ao longo dos anos uma das regiões mais massacradas do país, primeiro nos anos da ditadura devido às ligacões comunistas e ao regime quase feudal que aí existia, e no pos-25 de Abril pagando o preco desse atraso e, ponto fundamental, também vítima do centralismo que se critica. Neste artigo (e na maioria dos comentários aqui deixados), isso passa para segundo plano, uma vez que o que realmente parece importar é a defesa do interesse de uma região, e não a crítica ao centralismo que prejudica todo o restante país. Esse sentimento está bem patente no comentário do senhor Ricardo Melo quando fala num sonhado país da Corunha até à Mealhada. É que por vezes as coisas vão a extremos tais que parece mais discurso separatista do que outra coisa. Acaba por, ironicamente, haver uma arrogancia nortenha muito subliminar que parece levar a que tambem no norte se esquecam do resto do país a sul do Tejo.

Bacalhau_com_belgas disse...

(continuacao)


- Vivi em Lisboa durante 10 anos da minha vida. Tenho muitos amigos do Norte do país. Durante anos e anos tive que ouvir as mesmas bocas de que em Lisboa não se trabalha (os tais chulos), e que o norte do país é que me sustentava. Enquanto cidadão individual, não devo nada a ninguém, Norte, Sul, Este ou Oeste. É bom que se separem as águas entre o que é um modelo e uma classe governativos, e quem são os cidadãos comuns, que vivem e trabalham em Lisboa. O que me leva ao ponto seguinte...

- De forma muito subtil, prepassa todo o artigo de forma transversal, um certo ressabiamento em relacão a Lisboa da parte do senhor Jorge Fiel. Algo que se pode confundir com o natural (e legítimo) orgulho regionalista que é reconhecidamente forte no norte do país. Já não é tão facilmente admissível quando excede os limites e toca o sentimento de superioridade (o tal "Ser do Norte é ser do povo mais forte" de que falava o sr. Ricardo Melo). É algo que refiro porque não poucas vezes me deparei com essa soberba (como referi atrás), que de resto está também reflectida em alguns comentários aqui. Expoente maximo é o comentario do sr. Luis Negroni, que considera do alto da sua sabedoria que OBJECTIVAMENTE Lisboa não é uma das mais bonitas cidades do mundo. Numa azia mal disfarcada diz que Lisboa é "vulgarzota" e os lisboetas (tudo no mesmo saco) são gente “feia”, “provinciana” e “presumida” (!), subvalorizando as opiniões contrárias em relacão à cidade por serem (pasme-se) SUBJECTIVAS. Pois, bem, eu mal por mal, para opiniões mais avalizadas fico-me pelos inumeros prémios internacionais que a cidade de Lisboa tem ganho recentemente, o ultimo dos quais pela Academy of Urbanism, que a considerou cidade europeia de 2012, batendo Oslo e Gotemburgo.
Este tipo de opinião toldada não teria qualquer problema se não fosse o reflexo perfeito da forma acalorada com que estes assuntos sao tratados na opinião publica , contrariamente à análise fria, racional e desapaixonada que necessitam. Este artigo é quanto a mim uma ilustracão disso mesmo: levanta pontos legítimos e relevantes em relacão a injusticas evidentes, mas fá-lo misturando alhos com bugalhos e (mais grave) comete o mesmo erro que o centralismo que critica: esquece-se dos “restos”...

Luís Negroni disse...

O "sumo" do comentário de Bacalhau_com_belgas, é mais ou menos isto:
Pinto da Costa, é um gerador de ódio, um perigo à solta há 30 anos (basicamente porque faz frente ao slb).
Os nortenhos, são extremistas e separatistas (porque sonham com um país sem Lisboa a chulá-lo).
Jorge Fiel, é um ressabiado com Lisboa (o malandro, ressabiado com Lisboa, essa cidade tão linda à conta do dinheiro que tem roubado ao resto do país nos últimos 700 anos, pelo menos).
Lisboa, objectivamente, ou seja, segundo os lisboetas, os pasquins, revistas e tvs lisboetas, é uma das mais belas cidades do mundo; Subjectivamente, ou seja, segundo sites e revistas internacionais, isentos, não é (os malandros, pasme-se, preferem Paris, Londres, Nova Iorque, Roma, Tóquio, Barcelona, Istambul, Veneza, Florença, Amesterdão, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Las Vegas, etc., etc., etc.).
Rico sumo!

Uma pergunta, Bacalhau_com_belgas: O que acha, quem ficaria pior, se Portugal conseguisse livrar-se da gigantesca sanguessuga Lisboa? Lisboa, ou o feliz país entretanto livre dela?

Bacalhau_com_belgas disse...

Senhor Luis Negroni, agradeco que tenha confirmado com este segundo comentario aquilo que escrevi sobre o primeiro. Nao leu (ou nao quis ler) aquilo que escrevi, e deturpou completamente as minhas palavras. Essa sua cabeca só produz "sumo" azedo, precisamente pelos motivos que enumerei anteriormente, e que tão bem ilustrou. O ódio e o ressabiamento têm destas coisas e não permitem uma discussão civilizada acerca de coisa nenhuma. Por aqui me fico, mais uma vez agradecendo que tenha com as suas palavras confirmado cabalmente o meu primeiro diagnóstico. Desejo-lhe um bom ano e as melhoras para essas complicacões gástricas de que parece padecer.