quarta-feira, 11 de julho de 2012

Como sair beneficiado da nova lei de empréstimos

Desde que a Liga de Clubes confirmou que a partir desta próxima época os empréstimos entre clubes da mesma divisão seriam proibidos, tenho lido as mais variadas reacções, a esmagadora maioria delas contra o projecto aprovado pelos clubes pequenos (essencialmente da II Liga com o apoio do Sporting essencialmente). Eu, ao contrário da maioria, estou totalmente a favor desta nova medida, algo que pode, a médio prazo, significar uma profunda melhoria no panorama do futebol português.

É certo que a decisão é precipitada, é extremista e vai custar muito a alguns clubes. É uma decisão feita propositadamente contra os clubes grandes, especialmente o duopólio Benfica-Porto que controla o mercado de empréstimos nacionais. É uma decisão que não contempla fases de transição nem o modelo inglês que exige um número limite de jogadores que podem ser emprestados de um a outro clube. E, sobretudo, é uma decisão que parece um contra-senso tendo em conta a situação económica dos clubes portugueses num cenário de crise mundial. Tudo isso é certo e acho que a maioria dos clubes que votaram a favor desta medida o fizeram cometendo um erro que, à partida, os prejudica. Mas mesmo assim vejo aspectos positivos onde a maioria só vê um cenário negro.



Em primeiro lugar sejamos honestos.
Os empréstimos, há quase uma década, tornaram-se numa mina de ouro para a influência de Porto e Benfica junto dos clubes pequenos. Clubes que se posicionavam, quando era necessário, ao lado do clube que mais jogadores lhes emprestava ou comprava a preço superior ao de mercado. Clubes que recebiam jogadores que nunca poderiam pagar a custo zero (muitas vezes sem ter sequer gastos com os salários) e que com isso formavam plantéis que lhe permitiam viver acima das suas expectativas. Porto e Benfica (e a partir daqui falo só do nosso FCP que é o que me importa), passaram os últimos anos a comprar jogadores com o único objectivo de os ter a rodar por clubes até finalizar o contrato. Jogadores que vinham do estrangeiro e que raramente jogavam pela equipa principal e jogadores que começavam a despontar em equipas pequenas, que eram contratados por tuta e meia e que viviam da falsa ilusão de chegar a um grande quando o que na realidade eram moeda de troca. Com esta nova medida esse jogo de cadeiras chega ao fim.

Não vejo os clubes grandes continuarem a contratar jogadores a torto e a direito para emprestá-los a clubes da Liga Orangina, para encher a própria equipa B ou para enviar a clubes estrangeiros. Essa medida não só, a médio prazo, significará uma redução no quadro de efectivos salariais do clube como também permitirá a muitos clubes pequenos manter os seus melhores jogadores mais tempo. Sem um grande que o compre ao primeiro sinal de desenvolvimento, jogadores como Beto, Miguel Lopes, Emidio Rafael, Bracalli ou Fabiano deixariam de chegar ao FC Porto a não ser que fossem apostas reais do clube. Poderiam jogar na equipa B - e essa é uma das principais razões para que os clubes grandes deixem de emprestar os seus jogadores - mas aí já estariam a gerar um lucro ao clube comprador porque tudo o que aportassem seria ao clube e não a terceiras entidades.


A realidade da equipa B tem de ser explorada de forma definitiva e consciente.
Atsu, Kelvin, Castro e companhia, jogadores que andaram a rodar este ano, têm de estar dentro dos quadros do clube, preparados para ser chamados à primeira equipa em qualquer momento. Para o FC Porto, que joguem na primeira ou na segunda divisão é indiferente. Não só porque jogar contra o Beira-Mar e o Leixões, na realidade, não é tão diferente como isso mas também porque os jogadores, essencialmente de ataque, não se desenvolvem como atletas de alto nível em clubes que passam uma larga época a explorar esquemas defensivos que os asfixiam. Se o FC Porto empresta extremos, avançados ou médio ofensivos fá-los, supomos, para garantir que melhoram as suas capacidades profissionais. Em clubes que se desenvolvem em 4-5-1, 4-3-3 ou 4-3-2-1 sempre com mentalidades defensivas esse crescimento é impossível razão pela qual muitos clubes começaram a preferir emprestar jogadores a clubes estrangeiros mais ofensivos do que a clubes nacionais onde não se tornam preponderantes. Na equipa B, criada para emular o esquema da equipa principal - como já faz não só o Barcelona mas também o Villareal, por exemplo - não só estão sempre disponíveis para o técnico principal como trabalham com as mesmas ideias que vão encontrar na primeira equipa.

Não emprestar significa a clubes como o FC Porto perder essa influência politica mas em troca há um claro ganho na evolução do próprio jogador. O que isso implica é uma real aposta na formação (algo que o nosso clube tem negligenciado, apesar da qualidade existente) e o final desse negócio com intermediários cinzentos de comprar para emprestar. Mas o futebol português tem outras opções de crescimento com esta medida.

Em primeiro lugar é previsível que se viva uma limpeza moral do que se vive na Liga Sagres.
O caso da União de Leiria foi evidente e vergonhoso mas espelha bem a realidade da nossa liga. Há muitos clubes a viver muito acima das suas possibilidades porque sobrevivem graças a jogadores emprestados ou comprados de forma cirúrgica quando faz falta. Esses clubes - que se alguma vez chegam à Europa deixam a sua pobre imagem - não têm lugar numa competição que tem de procurar ser auto-sustentável o mais rapidamente possível e se alguns acabam (como sucedeu com o Estrela, Salgueiros, Alverca ou Leiria) ou têm de passar largos anos nas divisões inferiores (Belenenses, Boavista) é importante perceber que estão nessa situação por culpa própria. Por outro lado, o futuro do futebol luso tem de passar por projectos como o do Feirense, clube com jogadores próprios, contratados a custo zero, portugueses, produtos de formação regional, o modelo de clube que mais tem a lucrar com esta nova medida. Não surpreende portanto que tenham sido esses clubes, os da Liga Orangina, os que apoiaram esta medida. São eles que vão lucrar a curto prazo com essa medida porque têm sido eles quem continuou a apostar na formação e a manejar orçamentos realistas.


Por último, esta politica de empréstimos deverá contribuir, de forma definitiva, para o rejuvenescimento da nossa politica de formação nacional. Com as equipas B os principais clubes têm já uma plataforma directa de apoio à primeira equipa sem necessitar de entrar no ciclo de empréstimos. Sem ter essa almofada, os clubes pequenos (e médios) terão de apostar na prata da casa para compor os seus planteis e isso vai significar, principalmente, novas caras no futebol português. O sucesso do futebol de formação alemão, francês e espanhol não está na formação dos clubes grandes mas essencialmente na atenção dada à formação pelos clubes pequenos. Quando isso suceda, o futebol português crescerá e com ele também acabará por ser beneficiado, de forma indirecta, o FC Porto.

É que ser campeão num campeonato com equipas como a União de Leiria, inevitavelmente, baixa o nível de exigência aos clubes que lutam pelo título e isso afecta-os nos palcos europeus. Uma Liga Sagres mais forte forçará um FC Porto mais exigente consigo mesmo, com o seu plantel, com a sua formação e isso é o primeiro passo para avançar definitivamente para aquilo que a SAD e a direcção têm medo de dizer de forma clara e transparente e que alguns adeptos já começam a exigir de forma evidente, um papel preponderante ano após ano nas provas europeias.

17 comentários:

Nelson Carvalho disse...

Excelente artigo, Miguel. De facto, à parte da medida ter sido tomada sem grande ponderação e de forma altamente restritiva, sem contemplar um período de transição que permita os clubes adaptarem-se à nova realidade, concordo que a médio prazo poderemos ter mais a ganhar do que a perder com esta medida.

Apenas não concordo com a referência no artigo de que os clubes da 2ª Liga e escalões inferiores vivam actualmente, na sua generalidade, com produtos da sua formação e/ou portugueses. Por incrível que pareça, verifica-se um número exagerado de estrangeiros nestes escalões, ocupando o espaço que efectivamente deveria ser do produto nacional e da formação.

Acho que o próximo passo para se aproveitar verdadeiramente a captação dos nossos jovens, passa pela proibição de contratação de estrangeiros para estes escalões, abrindo definitivamente portas aos "berços" da formação como o são os clubes e agremiações locais.

ℕℯℓsση ℳαcℎα∂σ disse...

E há um outro aspecto que não é referido no post mas que penso que é também algo que se pode deduzir desta votação que acabou com os empréstimos; a separação e independência que os clubes pequenos querem em relação ao "duopólio" para poderem mais tarde reivindicar melhor os seus direitos, como por exemplo as verbas a receber dos direitos das transmissões televisivas dos jogos.

Nightwish disse...

Com esta medida, passamos a ter menor possibilidade de arriscar em jogadores, o que vai reduzir a qualidade do plantel do duopólio mas também daqueles a quem emprestávam, que precisam de poupar ainda mais para pagaram ordenados a piores jogadores.
Com isto, as prestações europeias pioram, os jogadores não vão lá para fora ou fazem menos lucros, com consequências também na seleção.
Corresponde, de resto, com a tendência nacional de regredir 30 ou 40 anos em meia dúzia de anos, dizendo depois que nunca ninguém poderia ter previsto enquanto as elites continuam a ganhar com os cargos que ocupam.

MrCosmos disse...

Eu, que sou do distrito de Leiria, e de bem perto da cidade, não sabia que a União de Leiria tinha Morrido. A notícia da sua morte aqui não será precipitada?

Parabéns pela boa analogia ao tema neste post.

Miguel Lourenço Pereira disse...

@Nelson,

Sem dúvida, uma politica de aperfeiçoamento contratação de estrangeiros nas camadas secundárias, como aliás já sucede em Itália ou Inglaterra, seria fundamental para continuar com a evolução necessária ao futebol de formação.

@Nelson Machado

E essa postura é fundamental. O dinheiro que se perde em Portugal com a negociação individual dos contratos é uma autêntica loucura. Os clubes pequenos não são, habitualmente, grandes exemplos de gestão (basta ver os preços das entradas) mas um melhor contrato televisivo colectivo é fundamental para acabar com esse dominio asfixiante que a Controlinveste tem sob o futebol português.

@Nightwish,

Não concordo. A qualidade do plantel do duopólio tem de subir precisamente porque o dinheiro que se gasta em compras para emprestar deverá ser desviado a a) reforçar a equipa B com jogadores de projeção futuro à equipa A b) reduzir carga salarial que pode permitir melhores investimentos em jogadores de nivel médio-alto.

Quanto aos restantes clubes, ao não terem de vender a correr os seus melhores jogadores e, ao mesmo tempo, ao terem de apostar na formação e negócios rentáveis para subsistir, os planteis deverão melhorar com os anos. Podem continuar a vender ao mercado europeu (Chipre, Roménio, Rússia, Ucrânia continuam aí) fazendo o seu lucro e a nível de provas europeias, só há quatro clubes que realmente fazem sentido nesse cenário e esses são os menos afectados pelo problema.

Quanto à equipa nacional, penso exactamente o oposto. Tarde ou cedo a UEFA vai implementar o 6+5 o que obrigará os grandes a apostar em jogadores nacionais de nível, incluindo os da formação, e isso só acabará por beneficiar uma selecção de um país onde, no último Europeu, só 3 jogadores titulares jogavam na liga portuguesa.

@MrCosmos

Honestamente espero que a União perdure durante longos anos, mas um clube sem estádio, sem plantel e com um presidente sem rumo está mais perto do além do que do mundo real. Faço votos que alguém na cidade pegue no clube e seja capaz de dar a volta à situação, um distrito como o de Leiria, com a pujança social que tem, deveria apostar no desporto.

Mário Faria disse...

O empréstimo é uma prática antiga e tem-se mantido porque é favorável a todas as partes. Não somos uma excepção. Por toda a Europa (e por todo o mundo, provavelmente) se faz o mesmo de forma mais ou menos regulada. Mais e melhor regulação era o que sugeriria, na actual situação.
Recordo alguns dos jogadores emprestados que serviram bem os clubes que os acolheram nessa condição e voltaram valorizados para o nosso FCP:
Secretário, Fernando Couto, Jorge Costa, Bruno Alves, Rui Filipe, Rui Barros, Paulo Assunção, Fernando, Jorge Couto, Sérgio Conceição, Folha, …. etc, etc …..
e alguns que “perdemos” no caminho :
Pedro Barbosa, Rui Jorge, Bino, Paulo Machado, Hugo Almeida, Vieirinha, …. etc, etc….
Não foi por acaso que constituímos equipas fortes, baseados na prata da casa.
Bem sei que a verdade desportiva (e outras maledicências todas posicionadas tendo como alvo o FCP) vem à colação para defender a solução, mas eu não vou por aí. Além disso esta medida é muito facilmente ladeada contratualmente, o que me parece bastante pior.
O preponente da dita proposta acabou de anunciar na imprensa que não se candidatará às próximas eleições do Nacional “estando na origem desta decisão estará o corte dos apoios do Governo regional em cerca de 21 por cento, tendo o Nacional recebido 1.7 milhões de euros em vez dos 2.2 milhões da temporada passada”. Como acreditar na bondade desta proposta e do seu autor? Não vou por aí !
Para rematar : se fosse jogador preferia ser emprestado a uma equipa da primeira liga a ficar na equipa B, cuja permanência não admitiria que ultrapassasse uma a duas épocas.

José Rodrigues disse...

Tenho duvidas no q diz respeito ao FCP (pode ser q melhore como pode ser q piore, mas acho mais provável q piore). Mas já não tenho duvidas q os outros fiquem a perder.

E isto por uma razão muito simples q o Miguel esquece: em vez de comprar para emprestar a outras equipas da 1a liga, o FCP vai comprar na mesma mas para emprestar... a clubes da Roménia, Chipre ou Grécia.

Como alias já fizemos por diversas vezes nos últimos anos: Pitbull, etc. Esse fenómeno só se vai acentuar.

The Best Man... disse...

Boas.
Eu estou completamente de acordo com o José Rodrigues.
Ainda o ano passado vimos o que a exportação do jogador nacional pode fazer a um campeonato sem expressão como o cipriota.
Foi com o ENORME contributo dos jogadores que "não cabiam" no futebol luso, que clubes como o APOEL, o Pananthinaikos, o Cluj, etc, etc, etc, fizeram brilharetes na Europa.
Esta medida não vai "apenas" enfraquecer em larga escala o campeonato português, como aumentará na razão inversa, a qualidade dos países referidos pelo José Rodrigues.
Mas além desta questão há ainda outro ponto que não podemos deixar de analisar.
Se até agora a razão enunciada para o fim dos empréstimos foi a "Verdade Desportiva", então, o que até agora era feito às claras será
completamente escamoteado pelos clubes, quer o de origem, quer o beneficiário.
Agora acabam os empréstimos e vão começar as cedências a título definitivo mas com um bónus numa opção contratual, a recompra do jogador,
passada uma ou quiçá duas épocas desportivas. E este tipo de cláusula, parece-me que não tem de ser comunicada nos contratos enviados à CMVM.
Como estes jogadores são sobretudo adquiridos a baixo custo, nem sequer é necessário declarar à entidade que regula o mercado.
Mas mais manobras são ainda possíveis como a venda do jogador, por exemplo, pelo nosso FCP ao Leixões e depois, o mesmo Leixões emprestar o jogador ao Paços de Ferreira.
Vender o jogador a um fundo (por exemplo o do Jorge Mendes que ainda hoje comprou o Pizzi ao Braga...), e depois colocá-lo onde bem entender.
Poderá até nascer um clube empresa, sem qualquer interesse na competição, que se preste apenas a ser um entreposto de jogadores, como o é o caso do Rentistas,
clube ao qual se bem se lembram comprámos o Incrível Hulk...
Cenas para ver nos próximos capítulos.
Resta-me apenas dar a minha opinião pessoal para o debate, sendo que é apenas mais uma.
Não sou, como deixo antever, a favor do fim dos empréstimos, mas sou claramente a favor de limitar o número de jogadores da casa mãe, que podem permanecer
na mesma época num único clube. As situações vividas há dois anos no Mafra e no ano passado em Leiria, fizeram claramente destes dois clubes um Benfica B
na prática...e este ano já estavam três no Rio Ave! Sou a favor sim de no máximo colocar dois jogadores por equipa no mesmo escalão. Mas como também alguém
já disse, emprestar um jogador de cariz ofensivo a uma equipa que jogue como por exemplo num Setúbal, é no mínimo, um crime lesa pátria.
Preferia ver claramente, os nossos jogadores de índole mais ofensiva, na liga holandesa, onde esta escola tem raízes e tradição na formação,
do que numa Naval, num Moreirense, num Beira-Mar, etc...
Saudações Portistas, cumprimentos a todos e queria aproveitar também este comentário para lamentar o facto de não poder estar presente no encontro da bluegosfera,
mas com a profunda convicção que tudo o que for debatido será com vista a um melhor futuro do nosso grande clube.
PS: Foi convidado alguém da estrutura Portista para assistir a estes trabalhos...?
Espero que sim para também ouvirem a voz das pessoas que com a sua dedicação, têm apresentado várias recomendações, sugestões e críticas construtivas
para um melhor funcionamento do clube em questões fundamentais para Nós adeptos.
Acho que a questão da bilhética é das mais pertinentes, e nos dias que correm o Porto não ter um sistema que permita através de um Smartphone,
Ipad, ou qualquer ponto de acesso da Internet, comprar um bilhete na hora é no mínimo imcompreensível.
Agora é que é. Forte Abraço a todos, atenciosamente,
Filipe Miguel Lopes

Anónimo disse...

Para mim o fim dos empréstimos tambem pode significar o fim das contratações absurdas...
Não é admissivel um clube que inscreve 25 jogadores, ter 50 ou 60 nos seus quadros!!!!
E depois os empréstimos na minha opinião são "humilhantes" para o atleta emprestado. É por isso que a maioria diz que prefere rescindir a ser emprestado, e eles lá sabem porquê!

Felisberto Costa

José Rodrigues disse...

Parem por favor de falar no "fim dos empréstimos", porque não é fim nenhum. Vão é mudar de direcção: da 1a liga para o estrangeiro, onde o jogador fica pior. Sofrem os clubes da 1a liga e sofrem os jogadores (questão de adaptação e também de "longe da vista, longe do coração".

Eu estou de acordo q se limite o nr de jogadores emprestados a um ou dois por clube. Agora, nem 8 nem 80.

Finalmente, isto poderá dar azo certamente a manhices como já aqui foi apontado.

Anónimo disse...

A maioria dos jogadores da "B" com potencial ao fim de 2 epocas na Liga Oranjina, para completar a sua evolução vão precisar de fazer uma epoca na primeira de divisão e assim ver-se-ao obrigados a ir para o estrangeiro o que não é bom para ninguém e pode Inviabilizar afirmação dos jovens talentos nessa situação.

Vejo certos aspectos defendidos pelo Miguel Pereira no post bem fora da realidade .

Luchugo disse...

Concordo com muito do que o Miguel escreveu, mas há um pormenor que 'mina' a lógica do argumento que é o seguinte:

"(...) Sem ter essa almofada, os clubes pequenos (e médios) terão de apostar na prata da casa para compor os seus planteis e isso vai significar, principalmente, novas caras no futebol português." ou "Quanto aos restantes clubes, ao não terem de vender a correr os seus melhores jogadores".

Ora, como sabemos a nossa "pool" de jogadores é bastante reduzida quando comparamos com países como o Brasil, Argentina, Colômbia, ou mesmo China e India.

Adicione-se a esse factor o facto de os custos (transferências e salários) dos jogadores europeus serem über-inflacionados e temos que o que realmente vai acontecer é a continuação do que já acontece, e que o Nélson Carvalho faz (e bem) referência quando escreve: "(...) Por incrível que pareça, verifica-se um número exagerado de estrangeiros nestes escalões, ocupando o espaço que efectivamente deveria ser do produto nacional e da formação."

E isto é apenas um dos pormenores, porque duvido que o "duopólio" vá abdicar assim sem mais nem menos desse poder maquiavélico (no sentido de dividir para reinar) que usufrui (ou usufruiu até) agora.

A meu ver, a única maneira de estimular a formação em Portugal é de facto o Governo intervir com regulação mais apertada em relação à importação de jogadores estrangeiros 'a granel' e favorecer a criação de estruturas (e infraestruturas) que permitam a prática do desporto desde o primeiro momento em que uma bola é dada a uma criança: Campos de futebol (pelados, ervados, cimentados), programas de formação para jovens jogadores e adultos (treinadores e arbitros), estimulos fiscais para clubes que atinjam quotas elevadas de jogadores formados nas suas 'escolas' dentro dos planteis profissionais, e finalmente a famigerada Casa das Selecções - que se deveria chamar Centro Português para o Futebol à imagem do que os Ingleses acabam de fazer com o St Georges Park - http://en.wikipedia.org/wiki/St_George%27s_Park_National_Football_Centre - ou o que os Franceses fizeram com 12 academias do género nos idos de 1988 entre as quais se encontra a famosa Clairefontaine.

José Rodrigues disse...

Luchugo disse: "Adicione-se a esse factor o facto de os custos (transferências e salários) dos jogadores europeus serem über-inflacionados"

Isto parece-me um bocado um mito, nomeadamente de que os jogadores sul-americanos sao mais baratos do que os portugueses.

Tendo apenas alguns dados soltos anedoticos, nao me acredito minimamente que em media (pode haver excepcoes, claro) que entre dois jogadores de valor (e idade) identicos - um portugues, o outro brasileiro, argentino ou colombiano - o portugues seja claramente mais caro.

E' verdade q ha' 10 ou principalmente 20 anos se podia encontrar optimo "value for money" no vasto mercado brasileiro em particular. Mas entretanto aconteceram 2 coisas:

1) o poder de compra dos clubes brasileiros aumentou imenso (varias ordens de grandeza)

2) com a profissionalizacao dos clubes (e facilitado pelas novas tecnologias como por ex imensos jogos transmitidos na TV, etc), o resto da Europa passou a conhecer e apostar muito melhor no mercado brasileiro, a vantagem competitiva dos portugueses esbateu-se quase completamente.

Esse efeito e' mais pronunciado nos digamos 100 melhores jogadores brasileiros, mas ha' um efeito em cascata ("knock-on effect") para os restantes.

Hoje em dia um jovem brasileiro promissor custa imenso, muitas vezes mais do q um Europeu de igual valia/potencial. Veja-se por exemplo os casos de Danilo e A. Sandro...

E' verdade q um jogador brasileiro de 3a categoria e' acessivel para os clubes tugas pequenos, mas sera' melhor q um portugues de igual valia? Pelo q vou vendo duvido imenso (mesmo q haja honrosas excepcoes).

O q acontece e' q a aura de ser "brasileiro" fica bem ("chegou o novo craque, ne'?"), e os dirigentes gostam da oportunidade de trabalhar / viajar com um pais turisticamente porreiro (para alem de, em alguns casos q acredito serem a minoria, criar uma possibilidade interessante de comissoes para proprios e amigos, o q nao sera' o caso caso aproveitem prata da casa).

O q escrevi nao invalida q haja na mesma um numero bem razoavel de contratacoes no Brasil q continuem a fazer sentido (seja para um FCP seja para um Estoril), ainda q certamente menos do q o q se observa na pratica.

PS - o tao apregoado (ha' uns 9 meses) investimento do FCP num campus no Brasil, ja' agora.. q e' feito dele? Nunca mais ouvi falar disso. Alguem sabe alguma coisa?

Miguel Lourenço Pereira disse...

Eu sou o primeiro consciente de que no mundo do futebol profissional - e esse mal está longe de ser português - a corrupção e falta de ética rapidamente encontram formas de escapar a um projecto que, moralmente, me parece certo.

Em Itália é a co-propriedade e em Espanha a venda com opção de recompra constante durante 3 épocas. Sem dúvida que esses cenários, bem como alguns dos avançados, vão ser usados igualmente pelos clubes. Emprestar ao estrangeiro para mim perde a função principal de como os grandes têm encarado a politica de empréstimos nos últimos anos. Sobram os casos dos jogadores que realmente falha a adaptação e não se conseguem vender (também para isso está a equipa B) ou os favores a empresários que, esses sim, vão continuar.

Mas eu pessoalmente sou contra a imoralidade de haver equipas na Liga Sagres a viver de empréstimos, a desvirtuar por completo a competição, usufruindo de jogadores a custo zero sem gastar um só cêntimo com os salários. Essa realidade tem de acabar porque o mercado de empréstimos de hoje não tem nada a ver com aquele dos anos 80 e 90, como apontou o @MárioFaria, onde os empréstimos eram residuais e essencialmente para fazer a ponte entre juniores/séniores.

Não acredito que um bom jogador precise de uma época emprestado na Liga Sagres depois de estar na equipa B. Não é essa a politica dos clubes ingleses, alemães ou do Barcelona, e não vejo que lhes tenha ido demasiado mal. Acho que para o nosso caso, bem orientada, a equipa B substitui muito bem esse circulo infernal de empréstimos.

Quanto ao argumento do @Zé Rodrigues, lembro-me de uma entrevista, acho que foi do Atsu, que está em Vila do Conde, bem longe da Roménia ou do Chipre, e que declarou que ninguém do FCP falou com ele ao largo do ano, pelo que o "longe da vista, longe do coração", lamentavelmente para a nossa SAD, não é uma questão de kilómetros.

E para terminar, acho que nenhum jogador é mais rentável daquele que é produzido pela formação. Se ela já existe (e todos os clubes têm os seus escalões) o custo é zero porque está deduzido a esse sistema e o lucro será sempre na ordem dos 100%. Ir buscar jogadores ao estrangeiro simplesmente porque são contratados (ou eram, melhor dito) por pouco e vendido por muito soa muito bem, mas acho que para o FCP foi o melhor o negócio do Ricardo Carvalho do que o do Anderson.

um abraço

José Rodrigues disse...

"Quanto ao argumento do @Zé Rodrigues, lembro-me de uma entrevista[...]"

Miguel, essa entrevista e' irrelevante para o meu ponto principal.

E o meu ponto principal e' q ao contrario do q dizes, eu nao acho q o FCP e slb vao deixar de "roubar" jogadores promissores na 1a liga (talvez um bocadinho menos); vao mas e' empresta-los para o estrangeiro (sim, pq nao vao enviar um jogador q deu nas vistas num pequeno ou medio na 1a liga para a equipa B se nao tiver lugar no imediato no plantel A, nenhum jogador nesse contexto iria aceita-lo).

Ora em q e' q o futebol portugues fica a ganhar com isso?

Abracos

Miguel Lourenço Pereira disse...

Zé,

A fome de contratação de jogadores promissores da liga portuguesa seguramente baixará, a dos portugueses pode até subir se realmente se aprovar o 6+5, mas não estou a ver o Benfica a contratar o próximo Hugo Vieira ou o FC Porto a contratar o futuro craque do Nacional só para os emprestar. Se falharem a adaptação à equipa principal e equipa B não digo que não seja essa a via, mas comprar para emprestar como tem sido feito, especialmente para agradar a empresários, parece-me descabido, especialmente tendo em conta a actual situação financeira dos clubes.

Aliás, os próprios jogadores dão-se conta dessa situação e quando chegarem à porta com um contrato com empréstimo para um clube do Chipre vejo mais do que um a dizer que não, obrigado.

O que o futebol português não ganha, desde já, é com ter equipas com seis ou sete emprestados, quase todos da mesma proveniência, para chegar ao final do ano e manter a categoria frente a projectos que procuram procurar algo distinto. Pode ser que abra os olhos de alguns dos dirigentes desportivos e dos próprios jogadores.

Não acredito que seja imediato, pode até demorar algum tempo, mas eu pessoalmente continuo a achar que esta medida é melhor do que o cenário que existe actualmente.

Nightwish disse...

Eu também não gosto muito dos planteis de 50 jogadores, nem de planteis formados por jogadores emprestados... mas, por exemplo, em relação ao 6+5, que é mais simples, relembro, pela enésima vez, que após a lei bosman e quejandos os clubes, jogadores e seleção nacionais atingiram patamares nunca antes vistos. Nada me faz querer que um regresso (à ilegalidade, diga-se) vá manter a qualidade de qualquer um destes conjuntos, muito pelo contrário, principalmente aliado ao empobrecimento brutal a que está e estára sujeito o país na próxima década.