sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Quanto valem, afinal, os direitos televisivos?

"Estudo encomendado pela Liga coloca centralização de direitos e concorrência na TV paga como forma de potenciar receitas.

Os clubes da I Liga de futebol negoceiam cada um por si os direitos televisivos e ao todo recebem actualmente cerca de 60 milhões de euros. Se a negociação fosse feita em conjunto (de forma centralizada), as receitas podiam duplicar, passando para 120 milhões anuais num cenário intermédio. Esta é uma das conclusões de um estudo encomendado pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional à Oliver & Ohlbaum Associates e que foi divulgado nesta segunda-feira.

O estudo apresenta três hipóteses para 2013. Num cenário de baixa, os direitos de TV valeriam 83 milhões de euros; num cenário-base, o valor sobe para 120 M; e num cenário de alta chegariam mesmo aos 142 milhões, sendo que em qualquer um deles a maior parte da receita seria proporcionada pela venda dos jogos para transmissão em canal fechado – em 2017, o valor poderia atingir os 165 milhões."

Público, 11/09/2012

Este estudo encomendado pela Liga conclui que “se a venda centralizada de direitos de TV fosse implementada em Portugal (tal como acontece em boa parte dos países europeus, à excepção de Espanha), os maiores beneficiados seriam os pequenos e médios clubes”.

Embora não conhecendo a totalidade do estudo, nem parte dele, tenho sérias reservas sobre a principal conclusão dele retirada de que os direitos televisivos poderiam valer 120 milhões de euros se negociados em conjunto pelos clubes profissionais em Portugal. A economia portuguesa apresenta na actualidade um cenário macroeconómico fortemente recessivo e as expectativas dos agentes estão a piorar em face das dificuldades de recuperação e ajustamento sentidas em 2012.

Por outro lado, sabemos, pelos casos vindos a público na última década, que os “estudos de procura” encomendados pelos promotores de determinado projecto em Portugal devem ser encarados de forma muito conservadora dado que, em grande parte deles, quando os projectos chegam à sua fase madura, é o worst case scenario que se atinge.


A infografia acima foi retirada do jornal Record e mostra as receitas obtidas por cada clube profissional da comercialização dos seus direitos televisivos. O rácio top to bottom (a maior receita individual dividida pela menor receita individual) foi, em Portugal, de 7,75. Parece demonstrar algum desequilíbrio na repartição das receitas, no entanto ainda é bastante menor do que o da La Liga, em Espanha, de 12,5 e o da Serie A, de Itália, de 10,0 (Nota: estes rácios de Espanha e Itália são válidos para a época anterior, de 2010/2011, Fonte: The Guardian).

O sistema mais equilibrado – e o mais rico! – em termos de repartição de receitas provenientes dos direitos televisivos é o da Premier League. O rácio top to bottom é de apenas 1,54 (!) na época de 2010/2011. As receitas dos clubes ingleses provenientes das transmissões televisivas são divididas em 3 partes: 50% distribuídos de igual forma entre os 20 clubes, 25% são pagos mediante o custo das instalações e os restantes 25% são pagamentos baseados na classificação obtida por cada clube na temporada anterior. No entanto, os maiores clubes acreditam que sozinhos conseguiriam ganhar mais dinheiro do que vendendo os seus direitos em conjunto, principalmente no que respeita às receitas obtidas no exterior. Houve um movimento iniciado pelo Liverpool no ano passado com o objectivo de terminar com a negociação em conjunto no final do actual contrato, em 2013.


Voltando ao caso português. Duvido que os grandes estejam dispostos a ceder, à cabeça, parte das suas receitas aos clubes mais pequenos para, de seguida e com maior força negocial, puxarem para cima o valor de um pacote global dos direitos televisivos. Pode até existir a possibilidade de um Equilíbrio de Nash, mas será necessário ter em conta a força e a defesa dos seus interesses que fará o monopolista da aquisição de direitos televisivos – a Olivedesportos (Sporttv). A esta cabe-lhe preservar a sua posição de domínio, dividindo os clubes e criando obstáculos ao aparecimento de concorrência, nomeadamente através de contratos individuais, longos e em diferentes momentos no tempo.

Em suma, e voltando ao estudo da Oliver & Ohlbaum Associates: apesar da posição monopolista exercida pela Olivedesportos, tendo em conta a instabilidade do mercado português e o ambiente de crise generalizada, creio que o valor global dos direitos televisivos estará muito mais próximo dos 83 do que dos 142 milhões de euros (os cenários de baixa e alta, respectivamente, do recente estudo defendido pela Liga).

10 comentários:

JOSE LIMA disse...

Caro Nuno Nunes

Bom artigo como é seu apanágio, a colocar realisticamente os “direitos televisivos, no seu devido lugar. Esta guerra de Alecrim, e Manjerona só aparece por força da “instituição” pensar que é igual ao Barcelona ou Real de Madrid, e pretender subir a parada que lhe é oferecida pela Olivedesportos, à qual se agarram com unhas e dentes os clubes mais carenciados. Também não nos devemos esquecer que este processo (junto com a integração das equipas “B” na Segunda Liga e o aumento (?) para 20 clubes) foi bandeira eleitoral do pior presidente da Liga que se conhece.

Não tive acesso a este estudo mas já li outros precisamente no sentido contrário. Apenas ouvi por alto, as premissas apresentadas por Rui Santos no último Tempo Extra, provavelmente cedidas pela Liga ou pelo clube da treta para pressionar a opinião pública. Depois, um facto La Palíssiano: o “valor de uma coisa” é aquele que efectivamente alguém paga por ela, não aquele que se pretende que seja pago. É como apresentar um “génio” que vale 100 milhões e depois vendê-lo por 40.

Não tenho nada a ver com a Olivedesportos. A minha única ligação é ser assinante da SportTv, mas gostava de dizer que é falsa a ideia que a Olivedesportos goza de um “monopólio”. Joaquim Oliveira não impõe preço nenhum, oferece aquilo que pode. Os direitos televisivos pertencem, originariamente aos clubes e, que eu saiba, não são negociados sem o seu acordo. O único “crime” que se pode apontar é não aparecer mais ninguém a concorrer.

Monopólio é, por exemplo, o exercido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa em relação às Apostas Desportivas. Se o inefável presidente da Liga quer ir discutir o caso com as entidades reguladoras, ou mesmo até ao Tribunal Europeu, que se acautele, porque vai levar banhada de certeza.

Abraço

José Correia disse...

Em 4 de Julho de 2008:

«A Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD, de acordo com o artigo 248º nº1 do Código dos Valores Mobiliários, vem informar o mercado que prolongou até à época 2013/2014, com a empresa “Olivedesportos – Publicidade, Televisão e Media, SA”, o contrato de cedência, em regime de exclusividade, dos direitos de comunicação audiovisual, nacionais e internacionais, dos jogos do F.C.Porto disputados para a competição principal da Liga Portuguesa de Futebol Profissional na qualidade de equipa visitada.
Como contrapartida deste acordo, a Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD garante proveitos globais de 51,750 milhões de euros

http://web3.cmvm.pt/sdi2004/emitentes/docs/FR19394.pdf

José Correia disse...

Em 8 de Abril de 2011:

«a Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD, vem informar o mercado que, por Aditamento celebrado nesta data com a PPTV – Publicidade de Portugal e Televisão S.A., (sociedade integrada no Grupo Controlinveste, que assume a posição contratual da Olivedesportos – Publicidade, Televisão e Media, S.A.), prolongou até ao termo da época desportiva 2017/2018, o contrato de cedência, em regime de exclusividade, dos direitos de transmissão televisiva para território nacional e internacional, dos jogos disputados pela equipa profissional da Futebol Clube do Porto – Futebol SAD para a competição principal da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (actualmente designada “Liga Zon Sagres”) na qualidade de equipa visitada.
As contrapartidas adicionais a receber pela Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD nos termos do Aditamento ascendem ao valor global de EUR 82.800.000 (oitenta e dois milhões e oitocentos mil euros).
Mais se informa que, nos termos do Aditamento, a Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD fica autorizada à utilização, sujeita a determinados termos e condições acordadas, os referidos direitos televisivos no âmbito de canal televisivo que venha a ser criado pelo Futebol Clube do Porto e/ou pela Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD.»

http://web3.cmvm.pt/sdi2004/emitentes/docs/FR32967.pdf

José Correia disse...

"O estudo encomendado pela Liga adianta que se os direitos fossem vendidos por 142 milhões de euros por época, e se toda a receita fosse distribuída pelos clubes, os três "grandes" receberiam no seu conjunto cerca de 40 milhões de euros, pouco mais do que os 32 que encaixam actualmente e que representa mais de metade da receita."

Tomando como ponto de partida os últimos contratos que o FC Porto e o SCP assinaram com a empresa de Joaquim Oliveira, e partindo do principio que o slb não conseguirá um valor anual muito superior ao do FC Porto (cerca de 20 MEuros por ano), nunca os três grandes aceitarão um cenário em que apenas recebam, em conjunto, 40 MEuros por ano.

Alexandre Burmester disse...

Nuno,

Artigo muito interessante e bom raciocínio.

Em relação à Premier League, aquilo que descreves como o "custo das instalações" não é, nada mais nada menos, que o número de jogos transmitido de cada clube, sendo garantido um mínimo equivalente a 10 jogos, mesmo que um clube não atinja essa número de transmissões.

Anónimo disse...

Witsel: Benfica recebeu menos de 30 milhões

Publicado hoje às 00:38







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pedro estevesHá 1 minuto
nao foi revista cor de rosa foi o sport foot magasine. Antes de falar e preciso pesquisar.....


Revista belga escreveu que o empresário Jorge Mendes recebeu um terço do valor da transferência, mas o que lhe cabe é uma comissão de quatro milhões de euros



Vendido ao Zenit há 12 dias - a transferência foi fechada no passado dia 3, tal como a do ex-portista Hulk -, o negócio da ida de Witsel para a Rússia continua a ser notícia. O médio belga teve uma estreia infeliz pela nova equipa, perdendo (2-0) em casa com o Terek Grozny, no mesmo dia em que o Benfica - tal como o FC Porto - prestou à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários mais detalhes do negócio do que aqueles que constavam da curta comunicação efetuada a propósito da venda do internacional belga ao clube russo. OJOGO

Anónimo disse...

Estádio em Cabo Verde que ninguém conhece

Publicado ontem às 22:06





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freimasHá 30 minutos
agora anda com visoes ja ve projetos que nao esistem e os macacos da africa acreditao deve....


A promessa foi feita pelo presidente Luís Filipe Vieira, em digressão por Cabo Verde, mas parece ter-se antecipado a um projeto que ainda não passou ao papel.



O presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, prometeu hoje levar a equipa principal para participar num jogo comemorativo da inauguração do novo estádio da ilha de São Vicente, em Cabo Verde. A revelação do dirigente "encarnado", em visita a Cabo Verde, surpreendeu, uma vez que não se conhece qualquer projeto para a obra, tão-pouco foi feita uma estimativa para o lançamento da mesma, a despeito de há muito tempo se falar na construção de um novo estádio para a ilha OJOGO

José Rodrigues disse...

"A minha única ligação é ser assinante da SportTv, mas gostava de dizer que é falsa a ideia que a Olivedesportos goza de um “monopólio”. Joaquim Oliveira não impõe preço nenhum, oferece aquilo que pode."

LOL

E' obvio q o Oliveira nao oferece o q pode, mas sim o valor mais baixo possivel.

Ele poderia oferecer muito mais (a transmissao dos jogos do campeonato sao de longe a principal razao para alguem subscrever a Sport TV, e o lucro gerado pela Sport TV e' imenso), mas nao precisa precisamente porque nao tem verdadeira concorrencia.

E nao tem pq os canais abertos nao sao concorrencia minimamente a serio pq nao eles tem as receitas de subscricao q a Sport TV tem, apenas as receitas extra de publicidade (o q comparativamente falando e' "peanuts").

JOSE LIMA disse...

O “estudo” da LIGA é uma perfeita idiotice, baseado em pressupostos errados com cenários colhidos noutros países, e ignora o facto dos Direitos, pelo menos até 2018, já terem dono.
Com as assistências a baixar, e a publicidade a cair a pique, o resto é conversa da treta, mais um bluff do senhor Figueiredo, para enganar os pacóvios.

edgar queiroz disse...

grande publicação, alimentava esta dúvida a anos, estou 100% exclarecido.