segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Da exigência máxima à desculpabilização (I)

Diretores de O JOGO, Record e A BOLA (fonte: FPF)

Não conheço pessoalmente José Manuel Ribeiro (JMR) mas, sendo leitor de O JOGO, costumo ler aquilo que escreve e parece-me ser um daqueles portistas que nunca foi grande apreciador do trabalho feito por Vítor Pereira nos três anos em que o espinhense foi treinador do FC Porto (um como adjunto e dois como treinador principal). Sobre isso nada a dizer.

Mas, para além do adepto de futebol, JMR é também jornalista e Diretor do jornal O JOGO. Ora, nesse papel, impressiona-me a forma dual como tratou os últimos dois treinadores do FC Porto. Onde havia exigência máxima (em relação a Vítor Pereira), agora vejo explicações e até desculpabilização para todo o tipo de desaires (em relação a Paulo Fonseca).

Vejamos alguns exemplos de escritos de JMR nos últimos três meses…


«A cura para a ingenuidade
Era previsível que a ingenuidade fosse o calvário do FC Porto nesta Liga dos Campeões (...) Desde o treinador, ainda a procura da melhor formula para equilibrar uma equipa grande e ele próprio estreante na Champions, até aos reforços, todos vindos dos arrabaldes da alta competição, não havia muito por onde fugir. (...) É perder para aprender
O JOGO, 02-10-2013 (após a derrota em casa frente ao Atlético Madrid)

Ingenuidade na Liga dos Campeões?

Recuemos no tempo. Em Setembro de 2012, qual era a experiência (número de jogos disputados) de jogadores como Danilo, Alex Sandro ou Jackson na Liga dos Campeões?
E, há um ano atrás, Helton, Otamendi, Mangala, Fernando, Defour, Lucho e Varela tinham, por acaso, mais experiência na Liga dos Campeões do que têm esta época?

Reforços vindos dos arrabaldes da alta competição?

É um facto que o Josué, o Licá, o Carlos Eduardo, o Ricardo e o o Ghilas vieram de Paços Ferreira, Estoril, Vitória Guimarães e Moreirense.
Mas não era isso que muitos portistas defendiam?
Isto é, que o FC Porto devia suprir as lacunas do seu plantel, procurando, em primeiro lugar, entre os valores emergentes que se destacassem nos “clubes pequenos/médios” do campeonato português?
E, já agora, de onde vieram Drulovic, Zahovic, Capucho, Deco, Jorge Andrade, Derlei, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Pepe, Helton, Rolando, Cissokho, Maicon, entre muitos outros que vestiram e jogaram com a camisola do FC Porto na Liga dos Campeões?

O Reyes e o Herrera vieram da América Latina (como todos sabemos, um “arrabalde da alta competição” onde é raro o FC Porto contratar jogadores…) mas, por exemplo, de onde vieram o paraguaio Paredes, o brasileiro Fernando, ou o colombiano Jackson Martinez?

O Quintero não veio do Real Madrid ou do Manchester United? Pois não, veio de um “clube pequeno/médio” europeu (Pescara, Série A italiana), mas de onde vieram Guarín, Belluschi, Alvaro Pereira, Defour ou Mangala?

E, já agora, de onde veio o Hulk? Da Premier League?

Esta tese, cruzando a ideia de reforços de qualidade duvidosa com uma suposta ingenuidade do plantel portista, de ingénua não tem nada, mas pronto, foi uma das que serviu ao Diretor de O JOGO para desculpar a desastrosa campanha do FC Porto na Liga dos Campeões 2013/14.


«Moutinho leva tempo a curar
Era exigível que [o FC Porto] jogasse um futebol mais autoritário? Não. O facto de termos esquecido tão depressa que o FC Porto perdeu João Moutinho, ventrículo direito e esquerdo da equipa, é trabalho do treinador, mas não é problema que se ultrapasse assim. (...) Paulo Fonseca teria sempre direito a tempo e a experimentação. Sobretudo quando consegue experimentar e ganhar em simultâneo

Pois, conforme os portistas sabem, não é nada normal o FC Porto vender dois ou três dos seus melhores jogadores no final das épocas... Mas, para além disso, o tom dramático desta tese do Diretor de O JOGO, que mais parece algo do género “depois do Moutinho, o diluvio”, fez-me pensar como é que foi possível o FC Porto ganhar 1 Taça dos Campeões Europeus, 1 Taça UEFA, 1 Liga dos Campeões, 1 Supertaça Europeia e 2 Taças Intercontinentais… sem o Moutinho! Os treinadores dessas equipas devem ter feito autênticos milagres…

Agora, numa coisa o Diretor de O JOGO tem razão. Ao contrário de Vítor Pereira que, a partir da “limpeza de balneário” de Janeiro de 2012, praticamente só dispôs de quatro médios (Fernando, Moutinho, Lucho e Defour), a Paulo Fonseca não faltaram jogadores e tempo (de Julho a Dezembro de 2013) para fazer experimentações no meio campo portista.
Só no jogo de Coimbra (estádio onde o FC Porto não perdia para o campeonato há 43 anos!), foram várias as experiências mirabolantes em apenas 90 minutos.



«O Crédito de Paulo Fonseca
Com a Liga dos Campeões danificada pela falta de maturidade de alguns elementos, mais do que por qualquer fracasso táctico (...) Pinto da Costa sabe muito bem que ficou a dever um extremo ao treinador no mercado de Verão
O JOGO, 26-10-2013 (após a derrota em casa frente ao Zenit)

Esta é uma das teses mais divertidas, a tese do modelo táctico excelente (o Bayern de Heynckes e o Real de Mourinho também jogavam com um duplo pivô…), a que faltou maturidade e um extremo de top (já agora, quais eram os extremos que existiam no plantel da época passada?).

O facto do Fernando render o triplo se jogar sozinho à frente da defesa e do Lucho render um terço se jogar encostado ao ponta de lança é, pelos vistos, irrelevante.
E que interessa se os jogadores do FC Porto têm características diferentes dos que jogavam no Bayern Munique ou Real Madrid?
Se o Diretor de O JOGO, do alto da sua sapiência, diz que não houve qualquer fracasso táctico na Liga dos Campeões 2013/14, quem somos nós para contestar?

(continua)

3 comentários:

Rui André Silva disse...

Na minha modesta opinião," Ojogo" ataca bem mais o trabalho do Paulo Fonseca ,comparativamente ao que fazia nas épocas do Vítor Pereira.
Bom Natal para todos.

Mário Faria disse...

Talvez o Zé esteja a ser um pouco "cruel" relativamente ao PF.
A grande mudança do Fernando é muito menos o regresso à ocupação do seu espaço em regime de exclusividade e muito mais uma intervenção na zona de construção em zonas mais avançadas e que exigem um tipo de intervenção mais cuidada tecnicamente, que parecia não ser capaz de desempenhar. Está um jogador completo e cada vez mais importante nos movimentos da equipa.
Quanto ao PF está a fazer o seu caminho. Há quem tivesse ficado indignado por ter dito que ainda está a aprender. Não estamos todos? Se PF conseguir transportar para a equipa maior verticalidade e transferir a zona de posse para bem mais perto da zona de fogo, o que obriga à definição de uma área de pressão construída com saber/esforço/solidariedade, talvez possamos vir a melhorar e apresentar um futebol mais atraente. Por mim, o PF continua a merecer o benefício da dúvida. Ainda não desisti da ideia que pode conduzir o Porto a bom porto.
As declarações dos jogadores nesta saída de férias tiram todas as dúvidas da extrema dificuldade em dirimir os direitos dos instalados e contemplar o ego das jovens vedetas. Principalmente destes últimos. São miúdos, bem sei, mas de pequenino se torce o pepino e estes trabalhadores estão obesos de luxúria e de mimos. Não tenho pachorra para aturar estes desvarios, mas o clube tem de saber gerir com (pa)ciência os amores e os humores desta rapaziada. Não exijo outra coisa!

José Correia disse...

Caro Mário, não tenho dúvidas que o Paulo Fonseca está a aprender com os seus próprios erros e, felizmente, já corrigiu alguns dos que vinha cometendo, quer em termos de modelo táctico, quer em termos de uma escolha mais adequada dos jogadores para as posições do meio campo.

Contudo, o que me levou a escrever este artigo (que devido ao seu tamanho tive de partir em duas partes), foram as "explicações", teses e desculpas que alguns arranjaram para o desempenho da equipa, "explicações" essas que não serviram, por exemplo, para essas mesmas pessoas serem mais compreensivas com outros treinadores do FC Porto.