quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Dezenas de milhões «investidos»... fora de campo

Dizia eu no artigo anterior que o facto de termos dezenas de milhões de euros (e não é só os passes, é também os salários) «empatados» no banco, na bancada ou na equipa B é uma das razões práticas para não haver correspondência entre a diferença orçamental do FCP para com os adversários que tem defrontado e as exibições em campo (havendo claro outras, de que já muito se falou). Falava eu nomeadamente das 4 contratações mais caras de 2013, nomeadamente Reyes, Herrera, Quintero e Ghilas.

Ora a meu ver, se isso acontece tem que ser apenas e só porque a resposta a (pelo menos) uma das perguntas seguintes é um claro «sim»:

1) Comprámos gato por lebre (i.e. a um preço claramente inflacionado)?
2) Demos prioridade no investimento às posições menos prioritárias?
3) Os jogadores são mesmo bons mas o treinador não sabe/pode tirar usufruto disso?
4) A «concorrência» desses jogadores (na luta por um lugar na equipa) tem surpreendido pela positiva, excedendo as expectativas iniciais?
5) Os jogadores estão a demorar bastante tempo a adaptar-se?

Pessoalmente acho que a verdade é uma mistura de 1), 2), 3) e em menor medida 5), dependendo do caso específico.

Comecemos por aquilo que acho claramente que não é: 4).

Muito sinceramente, não me parece que se esses quatro jogadores não jogam é porque os outros colegas que lhes estão a «roubar» o lugar (como Defour ou Josué) tenham estado até agora a um nível excepcional, superando as expectativas do início da época.

Do ponto 3) já muito aqui se falou, nomeadamente de uma insuficiência do treinador em potencializar a valia de jogadores. Por exemplo: penso que Herrera e Quintero poderão ser em parte vítima da confusão de ideias para o meio-campo; Ghilas poderia talvez ser aproveitado num 4-4-2 (tal como Quintero, aliás, jogando a nr 10 à frente de Lucho e Josué/Herrera, e Fernando mais atrás), ou pelo menos fazendo muitos mais minutos para descansar Jackson e coloca'-lo 'em sentido'.

Quanto ao ponto 5), isso poderá explicar muito parcialmente as situações de Herrera e Reyes em particular, chegados do México. Digo «muito parcialmente» porque - a este nível e num FCP, que nao e' um Barcelona receado de estrelas - um jogador que vale 10M ou perto disso não precisa de mais de 5 meses para começar a demonstrar qualidades de forma a ganhar algum espaço claro nas escolhas principais, mesmo que a adaptação ainda não tenha terminado.

Quanto ao ponto 1), sem haver dados definitivos (muito longe disso) parece-me que Herrera e Ghilas em particular terão custado bem mais do que valiam na altura (e valem) - mesmo que possam eventualmente valorizar-se no futuro (mas isso, a bem dizer, podem todos, pelo menos os que ainda nao atingiram o pico de carreira).

Quanto ao ponto 2), penso que é o factor que melhor explica a situação de Reyes, e em menor medida Quintero e Ghilas. Investiu-se muito pouco em extremos – posições claramente deficitárias no fim da época, principalmente se a ideia era para continuar com um 4-3-3, ainda que «envergonhado» - em detrimento de uma posição em que já estávamos claramente bem servidos (central) e outra em que a concorrência era considerável começando pelo «dono» natural do lugar (Lucho, mas também Carlos Eduardo e Josué). Da mesma forma dá jeito ter um suplente de qualidade para Jackson, mas já é discutível que seja preciso ter alguém no banco que custe tanto ou quase como o PDL titular (que dá garantias, estando no top10 europeu para a sua posição).

Ainda sobre o ponto 2), eu até compreendo que se queira precaver o futuro (por ex antecipando uma venda futura de Mangala ou Jackson), mas nunca descurando o presente ao ponto das 4 contratações mais caras de 2013 serem todas «de futuro» (se tanto).

Mais: se porventura a razao para este desequilíbrio na balança presente/futuro for (ainda que parcialmente) não uma decisão deliberada mas sim um desajustamento entre o que o treinador quer (tactica- e individualmente) e o que esses jogadores oferecem, entao sera' caso para pensar para os meus botões que das duas uma:

1) Ou a SAD toma ela própria a iniciativa nas grandes contratações (como parece à primeira vista ser regra geral o caso) e nesse caso terá que dar um pouco menos de autonomia ao treinador, impondo-lhe um ou outro ponto fundamental na táctica ou na composição da equipa (o que implica por sua vez contratar treinadores dispostos a tal, o que exclui tipicamente treinadores com palmarés e CV - e à partida seria de esperar que PF fosse um desses treinadores mais «moldáveis», sendo muito jovem e chegando com um CV muito modesto);

2)... ou então a SAD envereda por oferecer uma grande autonomia ao treinador no seu trabalho, mas nesse caso terá que lhe dar a principal palavra nas contratações (começando pelas mais caras).

O que já não fará para mim sentido é enveredar - como parece estar a ser o caso - por uma postura a meio caminho que «nem é carne nem peixe»: a Direção tomar a iniciativa nas grandes contratações, mas depois dar autonomia quase total ao treinador no seu trabalho. A consequência mais provável de tal postura é um desperdício de recursos (leia-se $$$$) com enorme custo de oportunidade (i.e. o dinheiro teria sido mais bem gasto em outras posições/jogadores que estivessem mais de acordo com as ideias do treinador) e/ou o desvalorizar de alguns dos seus melhores activos.

14 comentários:

Nuno Fonseca disse...

Acho que a politica está correcta assim da forma que está a funcionar neste momento. Há olheiros na América do Sul e noutros sítios cujo trabalho é encontrar bons jogadores, mais ou menos óbvios, e há que tentar contratá-los na janela de oportunidade que se abre, antes que cheguem tubarões europeus ou mesmo o nosso rival benfica. Estes olheiros parecem-me que não rodam tanto como rodam os treinadores e portanto não se pode estar à espera de decisões de treinadores quando muitas vezes não se sabe se vai continuar aos comandos do Porto na época seguinte. O trabalho de um treinador é trabalhar com o que tem e identificar lacunas no plantel. Reconheço no entanto que se calhar não foi isso que se passou nas épocas do Mourinho, épocas gloriosas. Mas mourinho é mourinho.

bruno cláudio disse...

com tantas comissoes a ficarem pela america latina por mediocridade, e tantos olheiros, nao seira mais interessante investir na formaçao e ter olheiros por portugal?
tantos milhoes fora de campo, eu diria fora de jogo!

Abel Pereira disse...

Não posso garantir que não esteja enganado, mas tenho a ideia de Pinto da Costa ter afirmado, há já uns bons anos, que comissões só admitia na compra de jogadores, jamais na venda; e também tenho a ideia de ter lido que as contratações passariam a ser da exclusiva responsabilidade do presidente, a seguir a uma época em que as mesmas se revelaram muito más. Será que alguém do blog tem conhecimento destas situações, ou estarei eu equivocado? Actualmente parece que há muita gente envolvida nas contratações e há proliferação de comissões cada vez mais avultados. Ficamos com a sensação de que a política de contratações é definida pelas comissões...

José Rodrigues disse...

O q o N. Fonseca descreve parece-me ser a 1a das duas posturas q descrevi, mas nao me parece corresponder 'a realidade.

Para essa 1a postura ser a realidade, a Direccao teria dado instrucoes concretas a PF de forma a q este aproveitasse muito melhor um Herrera, um Ghilas ou acima de tudo um Quintero, o q parece nao ser o caso (ele parece ter outras ideias e a Direccao nao parece ter um problema com isso).

Ou isso, ou nem sequer contratar um PF logo 'a partida (tendo ficado claro em discussoes iniciais antes de ser contratado q as ideias dele nao eram muito compativeis com o investimento q foi feito).

Nuno Fonseca disse...

Não necessariamente José Rodrigues. Tome o exemplo de James rodriguez e Alex Sandro por exemplo que não jogaram na sua primeira época no Porto.
Portanto penso que o acontece é a primeira das duas posturas mas não há obrigação de o jogador ter de ser logo utilizado e ir logo para as montras.

rbn disse...

Eu penso que Pinto da Costa como qualquer um de nós, é mortal, humano e erra.

Mas acerta (acertou) muitas mais vezes do que erra (errou), com uma percentagem beirando aos 80% desde que assumiu a presidencia do clube.

Quem dera a qualquer clube no planeta e arredores ter um presidente como nós temos.

E acostumou mal(ou será bem?) a nós portistas, tanto que na época 2004/2005 que toda a gente acha um "flop" só porque perdemos a liga doméstica(não percebo, sinceramente), fomos "apenas" CAMPEÕES DE FUTEBOL DO PLANETA TERRA!!!
PELA 2ª VEZ!!!

Pinto da Costa sozinho e com tostões, fez muito mais que o lendário Bernabéu com o apoio de Franco e por aí fora...imaginem Pinto da Costa com o dinheiro que teve Alex Ferguson para comprar quem quisesse, ou como o presidente de algum endinheirado europeu, o que não fazia.

Mas basta uma fase menos boa(estamos apenas na 11ª jornada a 2 pontos totalmente recuperáveis da liderança) para que indignados e virgens ofendidas venham colocar tudo e mais alguma coisa em causa.

O futebol desta época não tem sido bom, as atuações idem, o treinador idem, e idem, e idem, mas nós portistas devemos pelo menos dar o benefício da dúvida e crédito, muito crédito ao presidente, afinal, no século XXI, ainda é o FCP o clube de futebol que ganhou mais títulos no...PLANETA TERRA.E arredores.

Mainada.

D.Liberal disse...

Concordo com a maior parte, mas nada disso faz com que o Paulo Fonseca tenha qualquer qualidade para treinar o Porto. Isto não vaí lá com conversas e visitas ao Olival, mas antes com uma chicotada psicológica preventiva.

zzzzz disse...

Reyes foi uma contratação para o futuro, precavendo a saída mais do que previsível de um dos actuais centrais (Mangala), provavelmente já na próxima época. É um jogador jovem e de qualidade. Não duvido que será o futuro central do FC Porto. assim como Abdoulaye.

O caso de Herrera é idêntico, pois era seguro que Moutinho ia deixar o clube. O jogador está a ser vítima da confusão que reina no meio campo. Há um excedente de jogadores para o sector e o treinador tarda a encontrar a melhor combinação. Também é verdade que não aproveitou bem as oportunidades que teve, mas para se afirmar tem de jogar frequentemente, o que não acontece.

Os treinadores do FC Porto têm uma autonomia total nas questões técnicas. Outra coisa não faria sentido. É um erro pensar que a Direcção contrata jogadores independentemente do parecer dos técnicos. Um exemplo paradigmático é o caso de Roberto Carlos. Pinto de Costa sugeriu a sua contratação, mas o treinador entendeu que Geraldão seria mais útil para a equipa e acabou por ser contratado.

Paulo Fonseca pouco teve a dizer sobre a formação do actual plantel, visto que foi contratado tardiamente. A aposta da Direcção era Vítor Pereira.

zzzzz disse...

clap, clap, clap....

José Rodrigues disse...

Esse exemplo do R. Carlos já tem quê, 20 anos?

Quer-me parecer q ao longo dos anos PDC e Cia tem dado cada vez menos preponderância à preferencia do treinador na decisão sobre grandes investimentos, quiçá fruto de um síndroma "toque de Midas" (o q nao quer dizer já agora q nao os consulte de todo).

rbn disse...

Estes foram os misters que deram ao FCP os 26 títulos oficiais, que fazem do clube o maior ganhador do Século XXI.

Fernando Santos, 1 campeonato, 2 Taça de Portugal, 2 Supertaça = 5
(Fernando Santos no séc XXI ganhou 3 dos 5 títulos que conquistou no FCP)

José Mourinho, 1 champions, 1 LE, 2 campeonatos, 1 supertaça, 1 taça de Portugal = 6

Victor Fernandez, 1 mundial, 1 supertaça = 2

Jesualdo, 3 ligas, 2 taças, 1 supertaça = 7

Villas-Boas, 1 liga, 1 supertaça, 1 taça, 1 LE = 4

Vitor Pereira, 2 ligas, 2 supertaças = 4

Paulo Fonseca, 1 supertaça = 1

O mister atual já tem um título oficial no seu palmarés, pode juntar mais 4(liga, taça, taça da treta e LE) e ultrapassar AVB. na previsão do mais otimista dos mais otimistas de todos os portistas.

Também pode ficar só com esta supertaça e mainada, mas vejam lá uma coisa:Paulo Fonseca em meia época a correr francamente mal para ele(e nós) já ganhou mais títulos que o Sporting nas últimas 4 temporadas:-)

zzzzz disse...

Quer-lhe parecer, mas está errado. Roberto Carlos é apenas um exemplo que podia ser multiplicado por muitos outros.

Criou-se a ideia de que Pinto da Costa está em todo o lado e toma todas as decisões. Contrata autonomamente jogadores e treinadores e decide construir estádios e museus a seu belo prazer. Porém, ele próprio não tem nenhum problema em reconhecer que muito do seu sucesso enquanto dirigente desportivo repousa na competência dos colaboradores que reuniu à sua volta. Na área de futebol, esses colaboradores são, entre outros, os treinadores. São eles que têm a competência técnica para avaliar e desenvolver jogadores e orientar equipas. Por outras palavras, no FC Porto cada macaco no seu galho.

É evidente que sobre os grandes investimentos, o parecer de Pinto da Costa tem um peso muito grande. Ele dirige um grande clube e não apenas uma equipa de futebol.

Luís Vieira disse...

Não há dúvida que os 4 jogadores mencionados foram boas contratações, do ponto de vista desportivo. O Ghilas demonstrou grandes qualidades no Moreirense, foi um dos melhores marcadores/jogadores do campeonato transacto e o Porto carecia de uma alternativa credível ao Jackson, para além de que havia a ameaça deste último sair. O Herrera, embora com características distintas, afigurava-se como o substituto natural do Moutinho; era internacional mexicano, um dos melhores jogadores do campeonato asteca e tinha realizado excelentes exibições em torneios de monta como o de Toulon e os Jogos Olímpicos. O Reyes alinhava pelo mesmo diapasão: havia quem o considerasse o próximo Rafa Márquez, pelo enorme potencial demonstrado, sendo que também se estaria a precaver uma eventual saída do Otamendi ou do Mangala. Por último, o Quintero foi um negócio de ocasião, depois do fantástico Mundial de sub-20 que realizou, revelador de dotes técnicos incríveis, augurando-se-lhe um futuro promissor, semelhante ao do James. Em teoria, foram excelentes contratações e, desportivamente, inatacáveis. Do ponto de vista financeiro, penso que os valores foram um bocado inflacionados. Para os mexicanos muito contribuiu a precedente compra do Jackson por valores semelhantes. Já no que respeita ao Ghilas, a carestia relaciona-se com o diferendo com o Sporting e o assédio de clubes estrangeiros. Quanto ao Quintero, parece-me um valor justo (relação qualidade/preço/margem de evolução). Posto isto, resta analisar o desempenho, até à data, de cada um deles. Se o Quintero já começou a justificar algum do dinheiro investido na sua contratação, com golos e assistências importantes, os restantes estão muito aquém do que se esperava. O Herrera foi apanhado na confusão que reina no meio-campo e não conseguiu afirmar-se nas oportunidades que teve. Há demérito próprio, naturalmente, mas entendo que é mais vítima das circunstâncias (instabilidade/indefinição do meio-campo) do que propriamente réu, até porque já lhe vislumbrei bons pormenores. Estará ainda no fatídico período de adaptação, mais extenso para uns (Guarín), do que para outros (Falcao). O Ghilas tem sido estranhamente desaproveitado, em virtude de o Paulo Fonseca insistir apenas no Jackson como único ponta-de-lança, não recorrendo ao argelino para um sistema alternativo ou mesmo para substituir o Cha Cha Cha nos jogos em que ele não está inspirado (não raras vezes esta época). Por último, o Reyes é o caso mais gritante de desperdício de recursos, uma vez que tem sido quase exclusivamente utilizado na equipa B. É bom para a sua aculturação, mas constitui um esbanjamento difícil de compaginar com a falta evidente de um extremo desequilibrador (Bernard? Quaresma?). Face ao exposto, penso que a política de recrutamento não foi errada (salvaguardando a questão do extremo), mas o treinador não está a conseguir projectar os jogadores da melhor maneira. Na minha opinião, o Quintero deveria ser utilizado como 10 puro, na posição do Lucho, ou como falso extremo-direito, como James e Josué. O Herrera deveria ser recuperado como médio-centro, ultrapassado o nervosismo dos primeiros jogos, estabelecendo-se ao lado do Fernando. O Ghilas deveria ser utilizado com maior frequência, em alternativa ou simultaneamente ao Jackson. Quanto ao Reyes, não há grandes exigências a fazer: não obstante a oscilação dos centrais este ano (de todos, sem exclusão - vide Maicon com a Académica), o mexicano será sempre o 4º central e restar-lhe-á esperar por uma oportunidade, mais ou menos remota, motivada por lesões, castigos, transferências ou jogos de menor valia.

Nuno Fonseca disse...

primeiro, o sporting não deve ser usado como comparação. assim como não deve ser o paços de ferreira, rio ave ou braga etc...
segundo, o mérito da conquista da supertaça é sempre da equipa técnica do ano anterior, uma que a supertaça é apenas um jogo.