quinta-feira, 22 de maio de 2014

De "special one" a "Bus Driver"


No dia 10 de Junho de 2013, José Mourinho regressou ao Chelsea, nove anos depois de uma célebre conferência de imprensa em que, poucas semanas após ter conquistado a Liga dos Campeões ao serviço do FC Porto, se intitulou como especial.

Desta vez, o special one encontrou uma equipa que, na época anterior (2012/2013), tinha ficado em 3º lugar na Premier League (a três pontos do Manchester City e a 14 pontos do Manchester United) e que tinha ganho a Liga Europa (derrotando o SLB na Final).

À sua disposição, José Mourinho teve um plantel de “velhos conhecidos” – Petr Cech, Ivanovic, Ashley Cole, John Terry, Lampard, Obi Mikel, Samuel Eto’o – e de outros “craques” mais ou menos consagrados – David Luiz, Gary Cahill, Matic, Ramires, Oscar, Willian, Eden Hazard, Schurrle, Torres – que, à partida, davam algumas garantias de sucesso, até porque o campeão inglês da época anterior tinha ficado sem o seu histórico manager (Sir Alex Ferguson).

Mas as coisas não correram bem. O Chelsea chegou ao fim da época sem ganhar rigorosamente nada.

Logo em Agosto de 2013, a Supertaça europeia foi perdida para o Bayern Munique do arquirrival Guardiola.
E, após Mourinho ter gozado/provocado quer Manuel Pellegrini, quer Arsène Wenger, viu as equipas orientadas por estes dois treinadores – Manchester City e Arsenal – ganharem, respectivamente, a Premier League (o Chelsea voltou a ficar em 3º) e a FA Cup (o Chelsea foi eliminado nos Oitavos-de-final).

Mas, na minha opinião, pior que perder tudo, foi a imagem que este Chelsea de Mourinho deixou, quer em Inglaterra, quer por essa Europa fora (a excepção é, claro, a subserviente comunicação social portuguesa).




E, para além do sabor amargo das derrotas em campo, Mourinho terminou a época provando do seu próprio veneno.
Na semana passada, numa sessão aberta a perguntas dos adeptos, denominada Twinterview, organizada pelo portal ‘Yahoo! Sport’, adeptos de clubes rivais do Chelsea aproveitaram a iniciativa «askjosetwitter» para colocar algumas perguntas irónico-sarcásticas a Mourinho:

«Depois de ter gasto 110 milhões de libras, não ter ganho nada e ter levado o Chelsea de 3º para 3º, ainda é o special one?»

«Porque é que o Arsenal não ganha nada e somos uns falhados e o Chelsea não ganha nada e vocês estão a construir para a próxima temporada?»

«Na próxima temporada vai tentar alinhar com dois guarda-redes e nove defesas?»

«A próxima contratação é um autocarro de dois andares? Qual será a tática a seguir? Vai tentar estacionar de lado, de frente ou tipo a Muralha da China?»

«Desde quando é que estacionar o autocarro se tornou uma genialidade tática?»


Após duas épocas desastrosas (uma saída pela porta pequena do Real Madrid em 2012/2013, seguida de um regresso infeliz ao Chelsea em 2013/2014), na próxima época, para além de necessitar de voltar a ganhar títulos, José Mourinho vai ter uma missão ainda mais difícil: reconquistar a admiração e respeito dos adeptos do futebol.

33 comentários:

Alexandre Burmester disse...

Anteriormente era apenas o sujeito que era uma figura antipática, mas agora também o futebol das suas equipas o é. Em países onde se gosta de futebol - como a Inglaterra - isso é uma mistura explosiva.

littbarski disse...

Até parece que foi o Mourinho que trouxe o autocarro para o Chelsea. Como é que o Di Matteo foi campeão europeu, há duas épocas? Na época passada, o Benítez salvou a época aproveitando o efeito Kelvin, na Liga Europa, depois de ter caído na fase de grupos na Champions e de ter falhado em todas as outras competições.

Mourinho desiludiu, é um facto, mas ainda assim fez melhor no campeonato (mais 7 pontos) e na Champions do que o seu antecessor. Além disso, lembro-me de bons jogos do Chelsea: em Manchester, contra o campeão inglês, e em casa, contra o Arsenal (eu sei, contra 10, mas aos 15 minutos já o Chelsea ganhava 2-0), só para dar dois exemplos. Não foi sempre como em Madrid...

DC disse...

Este Mourinho é uma verdadeira anedota comparado com o que passou pelo Porto de 2002 a 2004. E quem se recordar da forma como jogava no Porto, com pressão alta, com intuito de ter bola, com excelente organização ofensiva, não poderá nunca gostar desta "cópia foleira".

José Correia disse...

«Mourinho desiludiu, é um facto, mas ainda assim fez melhor no campeonato (mais 7 pontos) e na Champions do que o seu antecessor.»

A fasquia era tão baixa que mau era que o Mourinho não tivesse feito melhor na Champions (na época passada o Chelsea ficou em 3º na fase de grupos) e mais pontos na Premier League.

Se fosse para fazer igual, tinha lá ficado o seu antecessor e o Chelsea podia ter poupado 100 milhões de Libras em reforços.

Luís Vieira disse...

Apesar das últimas duas épocas pouco conseguidas, não me parece que o Mourinho tenha perdido a admiração e o respeito dos adeptos de futebol. Todos têm direito a vacilar e o Mourinho, apesar da aura de semi-deus, é terreno e não vai ganhar sempre. Caso contrário, seria uma anormalidade. No princípio da carreira, o Mourinho articulava como ninguém o "resultadismo" com o bom futebol. Nos últimos tempos, principalmente desde a passagem pelo Inter, a vertente resultadista intensificou-se e o bom futebol perdeu algum brilho (exceptuando a época fantástica em que foi campeão em Madrid). Talvez a idade acentue o conservadorismo e retire algum arrojo próprio da juventude. O que é certo é que o seu discurso, desde que regressou ao Chelsea, tem denotado a vontade em regressar a um estilo mais agradável (com mais nota artística, como diria a Paula Rego do futebol), no entanto, parece-me que o Mourinho ainda não tem confiança total na equipa/jogadores, daí que tenha optado por uma postura mais defensiva em certos jogos. Mas não sejamos radicais, porque o Chelsea também fez bons jogos esta época, praticando um futebol ofensivo, ao arrepio de um qualquer Trapattoni ou Capello. Assinalo o fracasso destes dois anos atípicos, mas encaro-o como uma situação transitória e natural na carreira do sadino. Mantenho a admiração e o respeito e espero que o jogo de homenagem ao Deco sirva de mote para enterrar definitivamente o machado de guerra com o Porto, fumando-se o cachimbo da paz, se possível com uma visita ao Museu do Dragão. Afinal estamos a falar de um dos melhores treinadores da história do nosso clube, num tríptico com Pedroto e Artur Jorge.

José Correia disse...

E quanto ao fazer melhor no campeonato, foi insuficiente para o Chelsea melhorar a classificação final (ficou na mesma em 3º lugar) e até aumentou a distância em relação ao Manchester City (na época passada ficou a 3 pontos e esta época ficou a 4 pontos).

littbarski disse...

Claro que Mourinho não é contratado para fazer mais pontos que o seu antecessor, é contratado para ganhar. E não ganhou nada, por isso falhou. Mas convém enquadrar as coisas. O Chelsea já anda a jogar na retranca há duas épocas. A fasquia na liga inglesa já é baixa há duas épocas (e na época passada sempre foi um pouco mais alta do que na anterior). Veja quantos pontos o Chelsea fez nas últimas 3 épocas, com Ancelotti, Villas-Boas, Di Matteu e Benítez, na liga inglesa. E a quantos pontos ficou do primeiro lugar (é esse o objectivo, não é?). É só para pôr as coisas em perspectiva, mais nada.

Alexandre Burmester disse...

De facto, Di Matteo usou "autocarros" em Barcelona e Munique, mas a diferença é que foi à final e ganhou. Além disso, o Mourinho é que se considera o maior, não comparável a simples mortais como Di Matteo e Benitez. Acresce que foi o próprio Mourinho que inventou a expressão "autocarro" (depois de um jogo contra o Tottenham, em 2004-2005), e daí ser agora mimoseado com a mesma figura de estilo.

Alexandre Burmester disse...

Algo me diz que o Luís Vieira nunca viu jogar o A.C. Milan de Fabio Capello, provavelmente a melhor equipa que vi antes do Barcelona de Pep Guardiola.

Quanto a comparar-se o Mourinho a Pedroto ou Artur Jorge, há uma básica diferença entre os dois últimos e ele: é que o Pedroto e o Artur Jorge eram "dos nossos".

meirelesportuense disse...

E José Mourinho é um "Peseteiro", um homem sem alma...Vi a final de 2004 e as trombas dele após o triunfo são qualquer coisa do outro Mundo...Tudo para que o Clube o deixasse sair sem a indemnização devida.

José Lopes disse...

Eram "dos nossos" e nao andaram a nao dar o devido valor ao que conseguiram no Porto, como o Mourinho ja repetidamente fez. Isto alem da forma ridicula como se pos a andar e a figura que fez em Gelsenkirchen. Ou a comparacao do Porto com Palermo.

José Correia disse...

Lembro-me de se ter falado em autocarros estacionados à frente da baliza, no final de um FC Porto x Moreirense, disputado em Março de 2004.

«O Moreirense fez um jogo dos anos 70 no Dragão, acusou Mourinho no final de uma vitória sofrida. Esses eram os tempos em que as equipas pequenas chegavam aos estádios dos grandes e nem abandonavam o autocarro, antes o estacionavam à frente da baliza. A equipa de Moreira de Cónegos revisitou essa forma de estar.»
Luís Sobral, Maisfutebol

http://www.maisfutebol.iol.pt/opiniao-desce-mourinho-moreirense-defesa-superliga/520a58e03004bc615fcfd568.html

Nuno Fonseca disse...

Desde que foi para o Porto até agora, foi a primeira vez que não venceu nada se não estou em erro... Vai voltar em grande. é o melhor do mundo. ainda ontem estive a rever partes do jogo inter-bayern que consagrou o inter campeão europeu. impressionante a entrega dos jogadores mas mais que tudo a sua superação. Milito a jogar o dobro daquilo que sabe. é nisso que mourinho é bom. A lidar com estrelas e vaidades não é o melhor do mundo como se está a verificar com o caso do real madrid, no qual ancelotti parece mais à vontade com uma equipa de galacticos.
Quanto ao autocarro, isso pode ser a imagem que fica, mas como já foi dito este chelsea fez grandes jogos esta época com grande futebol. De qualquer forma desde o primeiro ano no Porto que o seu futebol é muito mais pragmático que belo.

DC disse...

Por favor, não compare o que ele faz agora com o que fazia no Porto. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Nada mesmo!

Luís Vieira disse...

Alexandre Burmester, é uma presunção algo temerária, uma vez que, naturalmente, vi jogar essa equipa (muito boa por sinal). Quando me referi ao Capello, porventura forcei um bocado a nota, mas queria ter como termo de comparação o seu passado recente (não apenas dois anos, como o Mourinho, mas já largos anos a jogar para o resultado sem um pingo de brilhantismo). O Mourinho do ponto de vista técnico, de resultados e de importância para o clube é perfeitamente comparável com o Pedroto e o Artur Jorge. Reconheço que não existe a mesma empatia com os adeptos, muito (ou quase exclusivamente) por culpa própria, visto que confundiu um grupúsculo de pessoas com a generalidade dos portistas. No entanto, águas passadas não movem moinhos, por isso está-se sempre a tempo de recuperar uma relação que se pretende positiva com um dos maiores símbolos (goste-se ou não) da história do FCP. Daí que defenda uma reaproximação, entrevista, nos últimos tempos, em declarações/gestos dos principais interlocutores (Pinto da Costa e Mourinho).

José Lopes, concordo com quase tudo o que disse, mas remeto para a explicação acima. No entanto, questiono em que medida o Mourinho não deu o devido valor ao que conseguiu no Porto?

Nuno Fonseca disse...

Estou a falar do pragmatismo apenas. Esse manteve-se desde o segundo ano no Porto. E o que fazia no Porto não deixou de fazer só porque de lá saiu. Na primeira passagem pelo Chelsea por exemplo manteve o mesmo estilo. No Inter começou a experimentar autocarros, porque teve de defrontar uma das melhores equipas de sempre nas UCL.

DC disse...

Qual pragmatismo? Quando é que o Porto de Mourinho jogou, em qualquer momento que fosse, para o 0-0? Quando é que abdicou de atacar?
Eu lembro-me de ter um 2-0 favorável frente ao Lyon e de ir a Lyon jogar ao ataque, lembro-me de ir a prolongamento contra o Celtic e de forma alguma deixar passar o tempo, forçando sempre o golo, lembro-me de estar a vencer a Lazio por 2-1 e procurar sempre mais e mais golos, de ter um resultado relativamente mau em casa com o Deportivo e ir ao Riazor assumir o jogo. Não há comparação!

José Lopes disse...

Eu como sou dos que nunca comprou a suposta "autenticidade" do Mourinho, acho que as ja muitas declaracoes dele a valorizar o que conseguiu no Inter ou na passagem anterior no Chelsea sao um bocadinho demais se pesadas contra o repetido "esquecimento" do que ganhou no Porto. Sempre me pareceu que esse mesmo "esquecimento" e' deliberado, como forma de se demarcar do clube, seja para nao ficar demasiado conotado com o mesmo nao sendo ele portista, seja pela rabula das supostas ameacas que tera recebido. Ninguem no seu perfeito juizo nao colocaria o que ele ganhou no Porto no topo dos seus meritos! O Inter pode nunca mais ter feito nada na Europa desde 2010 e muito pouco ate ai, mas joga numa liga historicamente mais forte e tem mais dinheiro. Posso ser demasiado radical, mas acho que o Mourinho deve-nos um pedido de desculpa e dos grandes. Saiu de uma forma ridicula, fez o frete em Gelsenkirchen para se fazer passar por vitima, andou este tempo todo mais enamorado com o Benfica que a valorizar o que conseguiu no Porto, e ainda teve a ousadia de comparar o Porto-cidade a uma mafia. Cai-me mal a vinda dele ao Dragao para este proposito, sinceramente, apesar de achar que ele so tem e' de vir e que provavelmente nao havera atrito nenhum entre ele e o Pinto da Costa, ou nao fosse o Jorge Mendes proximo dos dois.

José Lopes disse...

Foi uma completa afronta. Estavamos todos euforicos com o que tinha acabado de acontecer e tivemos de levar com aquele numero de circo.

Alexandre Burmester disse...

Plenamente de acordo, caro José Lopes. O Mourinho normalmente diz uma coisa e pensa outra, e quando diz o que pensa costuma tratar-se de escárnio ou troça.

A cena de Gelsenkirchen e a viagem a "Palermo" ainda me estão atravessadas, tais como as múltiplas declarações de "amor" pelo Chelsea e pelo Inter, sem uma palavra para o Porto.

Para estacionar autocarros qualquer Prof. Neca serve, não é preciso gastar balúrdios com o "Especial".

Alexandre Burmester disse...

Na época de 2012/13 o Mourinho apenas ganhou a Supertaça de Espanha, e inclusivamente perdeu a Final da Taça do Rei em casa.

Nuno Fonseca disse...

Em primeiro lugar tentei distinguir o porto da taça uefa do porto da champions. Por isso não estava a discutir a primeira época de mourinho no porto. Em segundo lugar, para si pelos vistos pragmatismo é jogar para o 0-0. Não é bem isso, na verdade. Os dois jogos com o Corunha foram pragmáticos, correndo risco praticamente zero. O jogo do mónaco por exemplo tem um resultado saboroso, mas muito enganador para quem não viu o jogo. Tivemos nessa noite uma finalização impecável.
Quando digo pragmatismo quero dizer que a equipa jogava simples e fazia o que tinha a fazer sem inventar, correndo o mínimo de riscos necessários. Por exemplo no ano da taça uefa dava espetáculo de bola. Seria talvez mais ingénua nessa altura.
Ser uma equipa mais pragmática e com mais ratice é uma coisa boa. Não tem nada a ver com tácticas de autocarros, era isso que queria distinguir.

DC disse...

Risco zero? O quê? Passar os dois jogos a atacar, a assumir o jogo é risco zero?
E o que tem a ver espectáculo com ingenuidade. Dá ideia que o Nuno pensa da mesma forma de Mourinho e acha que só está seguro com 10 gajos dentro da área.

O Porto de Mourinho era equilibrado mas atacava com muita gente. Pelo menos 6 homens estavam constantemente envolvidos em jogadas de ataque.

Luís Vieira disse...

Naturalmente, também não gostei das comparações do Porto com Palermo, nem da rábula de Gelsenkirchen. Mas entendo que a distância temporal é suficiente para sarar as feridas e fazer a paz entre o clube/adeptos e o Mourinho. Entristece-me que um dos melhores/maiores treinadores da história do FCP seja quase um proscrito/renegado. É tempo de superar questões passadas e de reabilitar o Mourinho como figura cimeira do FCP, sem resquícios de inimizade. Pode ser que este jogo de homenagem sirva (também) para isso. Quanto às restantes questões elencadas (enamoramento com o Benfica, desvalorização do que fez no Porto, não conotação com o clube) parece-me que há um manifesto exagero, propiciado pelo ódio à personagem, que turva a objectividade. Tenho a certeza que o Mourinho, como homem inteligente e profundamente conhecedor do fenómeno, tem perfeita consciência que a conquista da Liga dos Campeões, em 2004, foi o maior feito da sua carreira. Por outro lado, nunca o vi a tecer loas ao Benfica e a desvalorizar o Porto (pelo contrário, normalmente põe-nos no mesmo plano, elogiando-os pelo que conseguem fazer na Europa contra clubes com maiores responsabilidades). Mas quem compara o Mourinho ao Prof. Neca muito dificilmente conseguirá ter discernimento para pôr as coisas em perspectiva: ele será sempre o anticristo.

Alexandre Burmester disse...

"Pragmático" também o futebol do Vítor Pereira era...

José Lopes disse...

Luis, se o objectivo for sarar feridas, quem tem de dar o primeiro passo e' o proprio Mourinho. A nao conotacao com o clube e a nao valorizacao publica do que ganhou vem precisamente de comentarios como esse sobre Palermo ou das contantes loas ao Inter e Chelsea (e seus adeptos) em contraste com o Porto. Eu tambem tenho o Mourinho por inteligente e nao duvido que ele saiba a importancia do que conseguiu no Porto. Por isso mesmo e' que acho que estes 10 anos de quase silencio sobre esses feitos e sobre o clube sao propositados. Quanto ao Benfica, comentarios como ficar "triste" pelo que se disse sobre o Vieira ano passado sao ilustrativos do comportamento.

Alexandre Burmester disse...

O futebol - especialmente para o espectador neutro - vai muito além do "pragmatismo". Essa é, aliás, uma expressão nunca usada em relação às verdadeiramente grandes equipas - a Hungria de Puskas, Czibor, Kocsis e Kubala, o Brasil de Pelé, Gerson, Jairzinho e Tostão, a "Laranja Mecânica" de 1974 e 1978, o Ajax de Stefan Kovacs e Rinus Michels, sob a batuta do genial Johan Cruyff, o Milan de Arrigo Sacchi e Fabio Capello e o Barcelona de Pep Guardiola. Mourinho poderá ser um grande treinador - no seu género - mas parece-me incapaz de algum dia pôr uma equipa a jogar como as que referi.

Quanto a ser tratado por muitos portistas como proscrito ou renegado, ele que se queixe de si próprio. E não acredito que algum dia peça desculpa seja do que fôr.

Outros portistas - porventura prenhes de "discernimento" - idolatram-no, no que, diga-se, estão muito bem acompanhados, pois a comunicação social lisboeta elevou-o a vaca sagrada. Esses terão sempre a maior "compreensão" para com os seus dislates tácticos e verbais

Luís Vieira disse...

A questão é que os adeptos do Chelsea e do Inter idolatram-no, ao passo que a grande maioria dos adeptos do Porto despreza-o. Não é de estranhar que não haja grande empatia mútua. No entanto, há que reconhecer que o Mourinho é equidistante em relação aos clubes portugueses, não há tratamentos de favor. Se calhar esperaríamos esse tratamento especial, pelo passado vitorioso comum, mas a verdade é que o inusitado processo de saída e os primeiros tempos posteriores a esse momento cavaram um fosso grande entre as partes, difícil de recuperar (o que nasce torto, tarde ou nunca endireita). Volto a frisar: o regresso do Mourinho ao Dragão pode servir para reatar essa ligação perdida, na senda do convite ao Villas-Boas para a gala dos Dragões de Ouro, depois daquela saída abrupta da cadeira de sonho para a cadeira "dourada" (eu próprio apelidava-o de Libras-Boas e, entretanto, ultrapassei a questão e voltei a torcer por ele). Em suma, prefiro a paz com os grandes símbolos da história do Porto a um clima de guerrilha paradoxal e desnecessário. Por isso, aguardo serenamente pelas cenas dos próximos episódios.

Luís Vieira disse...

Concordo que foi desolador, mas convém não esquecer as ameaças de que tinha sido alvo por adeptos do próprio clube com a conivência dos seus dirigentes.

Luís Vieira disse...

O Vítor Pereira tem de comer muita broa para sequer chegar aos calcanhares do Mourinho.

Luís Vieira disse...

O Porto de 2002 a 2004 (brilhante, não pragmático) não fica muito aquém dessas equipas, por isso essa teoria peregrina cai por terra. E o Mourinho não "poderá ser" um grande treinador, é-o sem margem para dúvidas. Só por má-fé se afirmará o contrário. Não se trata de idolatrar, trata-se de reconhecer o óbvio, constatar factos, apreciar a realidade objectivamente, sem ódios e preconceitos. Não é imune a críticas, tem muitos defeitos e tem fraquejado, principalmente nos últimos dois anos, mas não é, por isso, que se deve entrar em euforia, qual ave necrófaga, na razão inversa do seu insucesso.

Alexandre Burmester disse...

Bem, a minha teoria, peregrina ou não, não cai por terra com tão frágil argumento. E todos nós temos a nossa subjectiva objectividade, passe o paradoxo.

Mas devo dizer que a minha antipatia pelo Mourinho é muito mais de ordem pessoal que de ordem técnica: personifica o cinismo, a arruaça, a petulância, o jogo rasteiro (a que alguns preferem chamar eufemisticamente "mind games") e a falta de desportivismo, como bem evidenciado pela objectividade dos factos, seja-se abutre, hiena ou chacal ou, em alternativa, pomba, rôla ou bambi.

Luís Vieira disse...

Se o Porto de 2002 a 2004 é um frágil argumento, não sei mais o que lhe diga. No que respeita às falhas de carácter do Mourinho, estamos plenamente de acordo (seja bluff ou não, é um estilo - maquiavélico - que não aprecio). Não obstante, o facto de não pactuar com o status quo e de seguir o seu caminho de forma vertical, assertiva, alheia a peias e amarras, é louvável (por muito que incomode). Antes isso que pombas, rolas e bambis na aparência, mas que se revelam autênticos abutres, hienas ou chacais na substância.