terça-feira, 3 de junho de 2014

A figura da época - II

Para vencer a liga portuguesa (com 16 equipas), e olhando aos resultados dos últimos anos, são necessários cerca de 75+ pontos ou 25 vitórias, em 30 jogos. O Porto teve um treinador que mesmo não terminando a maratona no 1º lugar, era capaz de chegar aos 76 - sem a vitória sobre o SLB na penúltima jornada, o Porto arriscaria terminar o campeonato no 2º lugar, a um ponto do 1º. Aquilo que o Porto procurou/procura, admita-se ou não, é um treinador que faça o mesmo que o Vítor Pereira (mas de maneira diferente!). Só conheço outro treinador que "garante" essa quantidade de pontos, mas é funcionário de outro clube, e pessoalmente, preferia nunca vê-lo ao comando da equipa do Porto, por muito que essa ideia agrade a Pinto da Costa.

No que respeita a treinadores, o grande pecado resumiu-se a trocar o certo pelo incerto, e embora isso explicasse a não-conquista da liga, e as saídas das provas a eliminar, não justificaria as exibições paupérrimas e os resultados vergonhosos. As causas para essas más memórias têm raíz em problemas mais profundos, que não despontaram no ínicio da época.

Esses problemas, apesar de identificados de forma clara, não têm uma justificação óbvia: porque é que o Porto, continua, ano após ano, a investir(?) balúrdios em jogadores de valia duvidosa/questionável - e "os jogadores são como os melões" - cujo papel poderia ser cumprido tão bem ou até melhor, por outros vindos da formação, com um custo muitíssimo mais baixo? E se a formação não é capaz de fornecer esses jogadores, para que serve afinal? Porque é que o Porto arrisca e aposta em estranhos, quando tem disponíveis jogadores das suas camadas jovens, que conhecem o clube, gostam do clube e não têm como objectivo primário saltar o quanto antes para clubes menores da Premier League? Porque é que o melhor dirigente desportivo do Mundo, e a sua equipa, só conseguem demonstrar o seu génio com a compra e venda de passes, e não conseguem construir uma academia melhor que a do SCP - será assim tão difícil? - e (ao contrário daquela) torná-la um verdadeiro sucesso?

Esta não foi uma época atípica; em quase todos os aspectos, foi igual a muitas que a antecederam nos últimos 10/11 anos. Não foram cometidos nem mais nem menos erros do que até aqui. O que houve foi um ajuste de contas, um abrir de olhos, um banho de realidade, porque todos os alertas foram ignorados: há cerca de 4 anos atrás, para termos um "jogador à Porto", tivemos de pagar mais de 10 milhões de euros a um rival - se isto não é sinal de que alguma coisa está mal, (e dispensam-se comparações com o caso  do Futre...) não sei o que será; todos celebramos quando, se calhar, deviamos era ter vislumbrado nuvens negras no horizonte. Entretanto, Bruno Alves foi último jogador da "cantera" a singrar na equipa principal... já lá vão os mesmos 4 anos.


Na voragem de compras e vendas, surge ainda outro problema antigo: jogadores "mais vendáveis" são tratados literalmente como mercadoria; Jackson Martínez, como Lisandro antes dele, esperaram - e com legitimidade - que o seu excelente trabalho, fosse recompensado, como qualquer trabalhador de qualquer empresa. Só que o Porto, tendo como objectivo único a realização de mais-valias com a venda da mercadoria, ignora as "queixas" do jogador. A renovação do contrato do Jackson, jogador que se sagrou o melhor marcador da equipa no seu primeiro ano no clube, arrastou-se por toda a época e afectou claramente o seu rendimento. Não falta quem aponte o dedo ao jogador, mas quem se preocupa mais com a sua transferência do que com o seu bem-estar, estará isento de responsabilidade?

(continua)


21 comentários:

littbarski disse...

Sobre o certo e o incerto. Em 2010/11, o Benfica manteve o treinador campeão, um treinador que supostamente garantia os tais 75+ pontos e, seguramente, o título, e acabou com 63 pontos, a 21 do Porto de Villas-Boas (e com mais 2 do que o Porto fez esta época, trocando duas vezes de treinador)...

José Rodrigues disse...

"Jackson Martínez, como Lisandro antes dele, esperaram - e com legitimidade - que o seu excelente trabalho, fosse recompensado, como qualquer trabalhador de qualquer empresa."

E e' (recompensado).

A "recompensa" comeca acima de tudo pelo elevadissimo salario, para ai' umas 100x mais alto do q o trabalhador portugues medio. Quem dera ao trabalhador comum ser assim recompensado por um bom trabalho...

Filipe Sousa disse...

Isso é outra questão. Mas o que o Porto aceitou pagar ao Jackson, é problema entre as duas partes. Desde que paguem impostos, não me interessa.

Costa disse...

Não falta quem aponte o dedo ao jogador, mas quem se preocupa mais com a sua transferência do que com o seu bem-estar, estará isento de responsabilidade?

Mas então se o FCP está a pagar ao Jackson o que foi acordado, qual o seu grau de responsabilidade ?!

Ou agora o FCP é culpado do Jackson ser um mercenário igual a muitos ?!

reine margot disse...

Filipe, não acho nada que os jogadores devam ter queixas e se deva ir atrás delas; por os jogadores olharem o Porto como trampolim é que as coisas correm mal. O que se exige de qualquer trabalhador é que cumpram o seu trabalho o melhor possível enquanto tiverem contrato.
Quem acha que os jogadores "mais vendáveis" , como lhes chama, não compactuam - eles ou os empresários - com a sua venda, está de olhinhos fechados... - Vão jogar para o frio da Rússia porquê? - Pelo que rendem ao clube ou porque aquecem os bolsos? Vá, essa sua de só ver defeitos em quem dirige está-lhe a toldar o raciocínio... Nem sequer acredito que as regras não sejam claras. cenas como as do Palito,ou do Iturbe, muito obrigada, mas nunca mais. Prefiro ficar 3 anos em 3º lugar...

DC disse...

Já nem vou bater no ceguinho porque basta ouvir as recentes entrevistas do nosso antigo treinador em dois programas televisivos para ter mais gosto por futebol do que PF e Luís Castro alguma vez nos conseguiriam dar (e claro que Luis Castro não tem culpa, veio apenas tentar apagar um fogo já bem aceso, mas trazia gasolina).
Vou apenas desejar que Lopetegui tenha pelo menos uma qualidade e um conhecimento de futebol aproximados dos dele. Porque se não tiver, muito dificilmente evitaremos um bicampeonato, a não ser que haja o milagre de algum clube de topo perder o seu treinador para uma selecção no final do mundial e JJ ainda acabe por sair.

Paulo Costa disse...

Nem sei como é que o Porto conseguiu 25 campeonatos, 16 taças de portugal, 18 supertaças, 2 taças uefa, 2 taças dos campeões, 2 taças intercontinentais e 1 supertaça europeia sem VP. Acho que foi sorte. O melhor é acabarmos com o futebol e dedicarmo-nos ao andebol.

Mário Faria disse...

1) O FCP teve uma época muito má e não resulta apenas de opções duvidosas de recrutamento, do modelo de negócio, do insucesso da formação e das transações onerosas em atletas ainda em fase de formação. Estes artigos do Filipe não contemplam a incerteza: no futebol as coisas podem correr mal porque não deixa de ser um jogo cheio de factores aleatórios que teimam em influenciar um resultado, para o bem e para o mal. Assim aconteceu com o FCP nas últimas três épocas. Assim aconteceu ao MU de forma pouco atendível num clube tão organizado e com uma gestão insuspeita de permitir a influência malévola de interesses inconfessáveis.
2) Um plantel é constituído por homens e não por máquinas e formado por jogadores que acolhem todas as qualidades e defeitos da condição humana a que acresce o facto de serem jovens, ricos, com trabalho certo em mercado garantidos, pelo menos para os atletas do FCP. E quem resolve são sempre os jogadores. Não faz sentido que se glorifique sempre o jogador quando se ganha e se culpe o treinador sempre que se perde. Esta tendência ganhou mais força, desde que o futebol passou para a disciplina das ciências exactas, e se tomou como certo que tudo pode ser previsto, treinado e aplicado com êxito se o estudo e o exercício forem cumpridos e aplicados disciplinadamente. Até a qualidade do jogador pode ser refinada e moldada, segundo o modelo estratégico e táctico indicado. Feito o desenho, descarrega-se a montagem no cérebro e nas pernas dos jogadores e depois é só ganhar. Mas, não é assim, felizmente. Perdia a graça toda.
3) Para além das condições estruturais, dos erros próprios e das virtudes alheias, na competição ainda entram outros factores menos visíveis, mas igualmente relevantes: a condição física e anímica, a preparação psicológica, a disciplina na ocupação dos alargados tempos livres dos jogadores, as arbitragens, o ciclo vitamínico para a recuperação dos atletas e os centros de poder que influenciam o jogo: institucionais e fácticos. E como pesaram na época de 2013/14.
4) Apesar do referido, entendo que a estrutura, a(s) equipa(s) técnica(s) e os jogadores falharam. Obviamente que a SAD, como principal responsável pelas decisões no recrutamento dos profissionais que a servem, deve assumir o desaire como seu. Nestes momentos de alguma aflição – ainda que o FCP esteja repleto de sucesso – há uma bateria de críticas que se sente gratificada em diabolizar os autores da tragédia, metendo a última época como a pior das últimas décadas para depois considerar que esta não foi uma época atípica. Defender que o FCP não devia defender os seus interesses desportivos e financeiros a favor das pressões deste ou daquele jogador ou empresário em defesa do bem-estar do atleta, parece-me incompreensível porque representaria um prejuízo para o clube, abriria precedentes e um caminho inaceitável a bem da competição e da solvência do clube.
Continua....

Mário Faria disse...

continuação....
5) O VP era detestado pela maioria dos sócios. Se o FCP tivesse renovado o seu vínculo contratual e não vencesse a SAD seria cilindrada tal como o está ser no momento.
6) E incompreensível é falar que o FCP não foi capaz de criar uma academia como a do SCP que Roquete fundou para a conquista de títulos e para o equilíbrio financeiro. Ora o SCP nem ganhou campeonatos nem domou o seu passivo que é brutal. E bateu no fundo.
7) Quanto aos jogadores à FCP, lembro que os ditos têm a ver, menos com a proveniência dos jogadores, mas mais com o perfil percebido pelos adeptos em função do desempenho em campo. Derlei, Pedro Emanuel e Nuno Espírito Santo eram tanto jogadores à Porto quanto os jogadores vindos da formação ou mais. Paulo Ferreira esteve apenas duas épocas no FCP, foi exemplar e deixou saudades. Ricardo Costa era um mal-amado e Secretário foi desprezado apesar de serem excelentes profissionais formados no clube.
8) Não vejo como aprovar esta época e a próxima será muito exigente e cheio de riscos que não devem ser menorizados. Mas tenho esperança e considero que Lopetegui é uma aposta que compreendo e agradou-me esta integração a tempo de poder ter uma posição activa na formação do plantel que vai ter muitas mexidas. Acho que a VP e PF não lhes foram concedidas tais contribuições. Essa poderá ter sido uma evolução que aplaudo porque me parece fundamental.
E mais não digo...

José Rodrigues disse...

"O VP era detestado pela maioria dos sócios. Se o FCP tivesse renovado o seu vínculo contratual e não vencesse a SAD seria cilindrada tal como o está ser no momento."

Ao contrario do que o Filipe disse e no que respeita a treinadores, o grande pecado NAO se resumiu a trocar o certo pelo incerto - o grande pecado esteve em escolher um treinador incompetente como sucessor de VP, isso sim. Tenho visto muitos comentarios q falam do assunto como se só houvesse 2 hipoteses, VP ou PF, o q obviamente é 100% incorrecto.

De resto e quanto ao comentario do Mario, assinalo q os dirigentes estao la' para escolher treinador em funcao da confianca q têm no seu desempenho, e nao em funcao de (forma egoista) de correrem o risco de virem a «ser cilindrados» se a escolha nao resultar. Mau era se nao fosse assim (ainda mais quando nem sequer existe uma lista forte de oposicao aos dirigentes em funcoes).

Filipe Sousa disse...

Se o Porto não tem dinheiro para pagar a um jogador, pura e simplemente nem o devia contratar - é assim tão simples.

Filipe Sousa disse...

A lista de treinadores "mansos" não é assim tão extensa, portanto era VP, PF ou outro semelhante. Nunca houve uma "terceira via".

Filipe Sousa disse...

E quais é que não são mercenários? Os jogadores da casa?

Filipe Sousa disse...

O Lisandro também entra nessa lista?

DC disse...

Nesses 25 campeonatos quantos treinadores fizeram mais pontos que VP? E quantas vezes o adversário do Porto fez tantos pontos como o 5LB das épocas de VP?

DC disse...

Pelo que VP referiu no "grande área" as coisas não estavam assim tão "mansas". VP afirmou não estar de acordo com a política de vendas e contratações da direcção e considerar também preocupante um clube perder tantos jogadores fundamentais no balneário em tão poucas épocas.

Paulo Costa disse...

Pelo menos poupa-me o trabalho de ter de verificar as diferenças de desempenho na champions e nas outras competições, senão perdia a hora do almoço a fazer a lista. Devolvo-lhe as perguntas. Quantas vezes o Braga fez 71 pontos? Há quantos anos o Sporting não fazia 67 pontos? Convém enquadrar as coisas. Se Braga e Sporting conseguem chegar aos 70 pontos, ou perto disso, é lógico que Porto e Benfica, com orçamentos muito maiores, consigam fazer mais, de forma mais regular.

José Rodrigues disse...

«A lista de treinadores "mansos" não é assim tão extensa»

Quem é q disse q só se podia escolher treinadores mansos? Ora essa!

E já agora: Lopetegui é um treinador manso?

Filipe Sousa disse...

Não fui eu que disse. Basta olhar para os perfis dos que foram contratados, e para as reacções quando se avança a hipótese de se contratar um treinador que não encaixe nesse perfil. Não conheço o Lopetegui; não posso responder a essa pergunta. Mas para estar onde está, não deve ser muito diferente dos antecessores.

Filipe Sousa disse...

O SCP não chegou onde chegou por causa da academia.

DC disse...

Eu pergunto-lhe pelos pontos do 1º e do 2º e você fala-me especificamente de Braga e Sporting a que propósito?