sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Não, não vou por aí...


“O meio-campo continua sem explorar devidamente o espaço interior, o que não deixa de ser preocupante … O fabulástico Herrera voltou à normalidade com uma exibição a roçar o zero … De resto, foi um jogo (mais um) relativamente fraco em termos colectivos … Pelo que vi, fiquei envergonhado por esta vitória e por esta arbitragem … Qualidade individual que farta e qualidade colectiva pobre … Mas não se critica um treinador e um modelo de jogo que força o mesmo Brahimi a estar esgotado porque jogo sim, jogo não ele tem que resolver sozinho o que o treinador não tem capacidade para criar em jogo colectivo … Eu pergunto-me o que fazem os jogadores durante a semana com este treinador? … Eu também gosto muito do Oliver. Mas acho que ele se prende demasiado ao que o treinador lhe pede … a saída de bola pelos centrais continua fraca. Jogue Indi, Maicon ou Marcano, são todos fraquinhos neste aspecto … Falta-lhe (a Casemiro) cultura de posição, tudo aquilo que poderíamos ter com Rúben Neves...”


Estes foram alguns comentários que li no RP sobre o jogo entre o FCP e o Rio Ave. Opinião muito qualificada e em alguns escritos a demonstração de uma maneira de ser portista que não consta do meu registo, talvez porque nunca tenha sido jogador de futebol, treinador ou atleta, para além dos gloriosos campeonatos da FNAT/INATEL em que participei, cheio de reumatismo. E muito menos olheiro ou comentador encartado.

Mas, o pior não é a opinião que gosta de conversar, é a presunção de sapiência que se retira dos comentários e que assenta na convicção do domínio absoluto do jogo e das regras que o conformam, sustentados na ortodoxia da retórica estabelecida pelos experts que pululam os canais televisivos e não admite tergiversações.


Essa elite de comentadores define o modelo, a estratégia, a táctica, os processos, escolhe e classifica os jogadores, separa os bons dos maus procedimentos e trata por tu as rotinas que devem ser rotinadas (o pleonasmo é para dar força à coisa) para se chegar ao êxito. Mas, não fica por aí: deprecia tudo e chega ao limite de se envergonhar com a última vitória do FCP.

Considero que o meu clube teve alguns apagões no último jogo no Dragão, que me exasperaram, mas ao contrário dos meus ilustres colegas tenho para mim que as razões foram bem mais individuais que colectivas: Brahimi esteve irreconhecível e perdeu muita bola e Herrera deu um estouro que se ouviu na bancada e quando o Rio Ave reagiu ao golo sofrido a equipa do FCP, em função desse défice, reagiu mal na transição defensiva, foi menos coesa e tremeu. Nessa altura, o treinador mexeu bem e a equipa recompôs-se a tempo.

Para terminar: sinto sempre a necessidade de vir a este fórum fazer a defesa do treinador e dizer que tem feito um bom trabalho, na minha perspectiva. E enquanto tiver essa convicção, só espero que continue e se mantenha corajoso e lúcido no comando. Não alinho nos julgamentos primários feitos aos últimos treinadores do FCP e Lopetegui tem sido bombardeado de críticas contundentes, tanto de dentro como de fora e com demasiado e suspeito vigor. É estranho: não, não vou por aí…

19 comentários:

Pedro Matias disse...

Muito bom artigo. Parabéns.

nós portistas estamos habituados ao sucesso e à minima suspeita de que algo pudesse correr mal é habitual por-se logo tudo em causa.

p.s. Sou residente assiduo do Dragão mas cada vez menos gosto do ambiente na nossa casa. Os adeptos (até acho que principalmente os regulares) vao la acima de tudo para exigir em vez de irem ajudar a equipa a superar-se.

HULK ONZE MILHAS disse...

Parabéns Mário Faria por mais este excelente artigo.

Luís Vieira disse...

O Mário Faria prefere "escorregar nos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos como farrapos, arrastar os pés sangrentos, a ir por aí...". Se quer que lhe diga, faz muito bem. Apenas lhe peço o enorme favor, se assim lho aprouver, de não incorrer em sinédoques desnecessárias nas suas diatribes. Por outras palavras, não confunda zurzidores crónicos com críticos de ocasião (quando a crítica se justifica). Sem presunções de sapiência lhe digo: o Lopetegui tem em mim um apoiante e, por ora, sei que vou por aqui.

Miguel Magalhães disse...

Subscrevo e confesso que não me envergonhei nada com a vitória sobre o Rio Ave, tal como não atribui culpas exclusivas aos árbitros nos pontos perdidos com Guimaraes, Boavista e Sporting.
Quanto aos comentadores na fotografia, tirando o patético Rui Santos, tratam-se de treinadores desempregados que não desdenhariam sentar-se na cadeira do Lopetegui. O Oliveira gostaria também da cadeira do Pinto da Costa mas, para bem do Porto, felizmente que a participação neste programa ajudará a que tal vontade nunca se concretize.

JON disse...

Eu acho engraçado que as coisas são logo postas entre o "estás comigo" e o "estás contra mim".
O balanço à data do Lopetegui tem de ser positivo, o que não quer dizer que não haja coisas a melhorar.

Pontos positivos:
- ter conseguido convencer bons jogadores a vir jogar para o Porto e para Portugal, sendo que ele claramente teve um papel importante nisso;
- gestão do grupo, que parece estar a funcionar;
- gestão do Quaresma, onde Julen tem sido mestre. Sublinho que este é um problema enorme para ele resolver e que lhe pode rebentar com o balneário se mal gerido. Julgo que até os maiores defensores do Quaresma concordarão.
- resultados na CL excelentes;
- comunicação um pouco redonda e de lugares comuns, mas que não compromete nada a estratégia. Basicamente, não se enterra, o que parecendo pouco, não é nada fácil. Falar a jornalistas é muito difícil.
- a equipa revela alguma solidez em aspectos do jogo e o treinador tem uma ideia para o que quer.
- tem sido quase sempre muito assertivo e incisivo desde o banco, dando ao jogo o que precisa (aqui ajuda ter um banco de luxo para Portugal).

Pontos negativos:
- subvalorização de alguns jogos, achando que se ganhavam facilmente apenas metendo os craques, a saber: Estoril e scp em casa. Tem de perceber a realidade portuguesa e o facto de as equipas jogarem quase sempre com blocos baixos leva a que estratégia tenha de ser uma de paciência e não uma de "tenho craques e vai haver espaço, por isso eles vão resolver o jogo". Errado. Em Portugal, ao contrário de Espanha, as equipas pequenas não dão espaço.
- saída de bola: existe claramente algo de estranho aqui. Os centrais não progridem com a bola e isso emperra o nosso jogo, porque quando os médios baixam e pegam na bola, há menos unidades à frente para desequilibrar. Não há muitos Otamendis por aí, mas houve 8M para dar por um central. Não se deveria ter ido buscar outro perfil de central que colmatasse esta lacuna?
- temos grandes craques nas bandas (Sandro, Danilo, Tello, BRAHIMI nas alas são classe mundial!), e portanto percebe-se que ele tenha uma ideia de jogo segundo a qual se tenta desequilibrar os adversários por aí. No entanto, o nosso jogo tem muito a ganhar se se considerar o espaço central como alternativa. É da imprevisibilidade que nasce o melhor e mais eficaz futebol. Estou crente de que o Lopetegui sabe disto e depois de ter ganho a estabilidade do modelo, vamos começar a ver mais jogo interior como alternativa (já se nota muito mais movimentos interiores de Brahimi, por exemplo).


Como se vê, o balanço é positivo, não se pode é meter a cabeça na areia e fazer de conta que está tudo óptimo. Não está.
Eu não peço a JL que deslumbre e jogue sempre muito bem.

DC disse...

Sinceramente, admito que se discorde dessas opiniões. Agora compará-las a esses comentadores (obviamente com o intuito de as desvalorizar) é totalmente ridículo.
Aliás, esses comentadores são muito mais do estilo dos que criticam quando perde e elogiam quando ganha, tão típicas na maior parte dos adeptos. Ou alguns deles, do estilo dos que elogia sempre só porque é o clube deles.

E como tal, acho este post muito, muito mau.

P.S. Nunca fui jogador, treinador, estudante ou o que quer que fosse de futebol ou desporto. Não vejo porque é que isso me tornaria "adepto de palminhas" e incapaz de criticar o que acho errado no meu clube.

P.P.S
Se diz isto "tenho para mim que as razões foram bem mais individuais que colectivas" porque é que discorda quando eu digo isto "Qualidade individual que farta e qualidade colectiva pobre"?

Se o colectivo não tem capacidade para disfarçar baixas de forma dos jogadores, é errado dizer que há qualidade colectiva pobre? É errado dizer que este Porto depende muito das individualidades?

DC disse...

Juntaria como ponto negativo a distância entre sectores que compromete muito a transição defensiva, expondo o Porto a situações de igualdade e inferioridade numérica na defesa em praticamente todos os jogos.

Pedro ramos disse...

1- Neste espaço felizmente nunca senti necessidade de demostrar o meu portismo, nem de defender o clube, por isso aponto mais facilmente e mais prontamente aquilo com que nao concordo do que os aspectos com que estou de acordo.
2- As criticas que tenho lido nao me parecem feitas de má fé, tal como no inicio da época colaboradores deste blog deram a sua opiniao sobre a contrataçao de Lope e dos muitos espanhois, nao me parece que venha mal ao mundo portista por isso.
3- Penso que é um erro terrivel comparar algumas das coisas que se tem dito aqui com " retórica estabelecida pelos experts que pululam os canais televisivos e não admite tergiversações."
4- Provavelmente nao devia ter escrito envergonhado, foi de facto um exagero de linguagem, mas de facto nao gosto nunca de ser beneficiado por arbitragens, embaraça-me nao consigo evita-lo, e nao é o resultado final que altera isso. O meu clube pode estar a ganhar por 6-0 que vou ficar sempre embaraçado por beneficios de arbitragem. Diferente é pensar que ganhamos ou perdemos por causa de erros de arbitragem.

Bruno Pinto disse...

Pela parte que me tocou, acerca da saída de bola através dos centrais, é manifestamente fraca e isso preocupa-me, mas está longe de ser um bicho de sete cabeças. Se o autor tem uma opinião diferente, há que aceitar, assim como terão de aceitar a minha. Eu não gosto de Casemiro a 6. Embora ache que esteja agora melhor, considero que o brasileiro não tem as características ideais para jogar a médio-defensivo. É uma opinião. Se o autor do post não concorda, é a sua opinião, que vale tanto quanto a minha. Considero ridículo o tom deste post, em que se fala de presunção de sapiência, quando tudo se limita a opiniões diferentes. Tenho sempre muita dificuldade em conviver com malta que não aceita opiniões. Se o autor deste post me conhecesse ou soubesse o que penso, saberia que sou apoiante de Lopetegui desde o início. Mas isso não me impede de criticar o que acho estar mal, assim como elogio quando acho estar bem. Tudo o que saia deste registo, para mim não é ser um bom adepto. Como diz um amigo meu e grande portista, é ser lampião. E eu estou perfeitamente à vontade, porque nunca na minha vida assobiei no Dragão. Limito-me a opinar porque gosto de futebol e do clube e não é um qualquer Mário que tem legitimidade para colocar em causa o que quer que seja na minha forma de actuação.

JON disse...

DC, eu por acaso não acho que haja na maioria das vezes distância entre sectores, porque as linhas estão próximas quando a equipa está bem. E aqui assumo que quando a equipa está bem é quando faz o que o treinador pede, como em Bilbau, por exemplo.

Há, sim, é distância entre jogadores, o que dificulta a reacção à perda de bola e transição defensiva. Quando há basculação do centro de jogo, os jogadores estão demasiado longe uns dos outros, fazendo "campo-grande", o que dificulta a reacção à perda, por vamos ter uns quantos jogadores que estão do outro lado do campo onde a perda de bola ocorre.
Penso que isto é também um risco assumido pelo treinador em muitos momentos, porque tenta ganhar os jogos, correndo riscos (ao distanciar jogadores, obriga o adversário a "partir-se")... Há todavia espaço para melhorias e para adaptar a estratégia ao executar este "campo-grande" também em função do adversário...

Por exemplo: com o Rio Ave, quando entrou Rúben e Quintero, jogamos próximos, pelo centro, sem colar os extremos tanto à linha. Conclusão: o Rio Ave não atacou mais porque a nossa reacção à perda melhorou!

Nuno Nunes disse...

Atenção Bruno que este não é "um qualquer Mário". Este é da Colheita de 44 e sócio do FC Porto há mais de 60 anos. Respeito.

O Bruno considera ridículo o tom do post e eu considero ridículo o tom do seu comentário. Entendo que tenha ficado melindrado se foi um dos visados (foi?) mas a resposta deveria atacar o assunto e não o autor do post. Obrigado.

Saudações Portistas

pancas disse...

No inicio da pre-epoca, um reporter fez a seguinte pergunta a Lopetegui: "Quando e que fica satisfeito com a equipa?" Ele respondeu: "Nunca. Ha sempre aspectos a melhorar."
Eu achei simplesmente maravilhosa essa resposta ate porque eu proprio a uso muitas vezes na minha propria vida profissional. E para isso e necessario estar constantemente a criticar e a encontrar areas para serem melhoradas e nao ha ca espaco para melindracoes sobre ser criticado.

Agora, as criticas tem de ser substanciadas, honestas e consistentes. E isso e o que eu tenho visto e feito pelos autores dos excertos que vejo usados neste post. Muito diferente de certos comentarios que tambem ja se viram em que Lopetegui e alguns jogadores eram criticados, por exemplo, so por serem espanhois!

O que eu quero e nao encontrar nenhuma area para criticar, e pelo contrario ate aprender novas coisas de futebol deste treinador. Espero que la cheguemos. Ate la vou continuar a procurar onde se deve melhorar a equipa.

DC disse...

Vocês, que como eu trabalham por conta de outrém, ouvem muitos elogios ao vosso desempenho? Quando fazem as coisas bem têm o patrão a dar-vos os parabéns?
E quando fazem as coisas mal?
Pelo menos no meu caso e nos casos que conheço, o bom desempenho poucas vezes é elogiado porque é o desempenho esperado. Pelo contrário, o mau desempenho é obviamente criticao, porque se espera que seja corrigido.

Eu com o Porto funciono da mesma forma. Ser bom, jogar bom futebol é o desempenho esperado. Tudo abaixo disso é criticado até estar no ponto que eu acho correcto (óbvio que a minha opinião neste caso não vai fazer mudar nada).

Luís Vieira disse...

JON, nos aspectos positivos, acho que está a diabolizar em demasia o Quaresma. Não vejo como ele pudesse "rebentar com o balneário". Bem sei que é rebelde e egocêntrico, mas, em caso de ruptura e num balneário formado por jogadores de craveira internacional, não me parece que tivesse grande capacidade de influência para criar um motim anti-Lopetegui. Por outro lado, acho que a comunicação é um dos aspectos fortes do basco e, aí, o JON foi tímido nos elogios. Mais do que "não se enterrar", o Lopetegui tem sido muito capaz na relação com os jornalistas, provocando-lhes até alguns embaraços (a postura dele nas flash-interviews, por vezes, chega a ser intimidante). Muito assertivo, orientado, com uma mensagem determinada, enfim, considero-a uma das suas boas valências. Quanto aos aspectos negativos, o problema não está na contratação do Indi (nem todos os centrais têm de ser Beckenbauers ou Ricardos Carvalhos), uma vez que este se tem revelado muito sólido e eficaz (um pouco à imagem do Jorge Costa, que não era um primor técnico, mas contribuía sobremaneira para manter a nossa baliza inviolada). Acho que este tipo de centrais são precisos, numa dupla complementar, tipo "good cop, bad cop". O problema está no parceiro de sector: nem o Maicon, nem o Marcano assumiram essa função (e o Maicon parecia querer transfigurar-se no início de época, não sei o que se passou) e quem mais potencialidade tinha para o fazer (Reyes), por mais dotado tecnicamente, não sai da cepa-torta. Apenas jogando pode evoluir, mas não sou capaz de criticar o Lopetegui por não arriscar porque o Reyes tem um défice de concentração inacreditável: são abébias atrás de abébias, tanto em jogos a feijões como em jogos a doer. Precisa de rodar e crescer para poder ser titular de uma equipa como o Porto.

Bruno Pinto disse...

Para mim até podia ser da colheita de 24. O post foi um dos mais ridículos que aqui vi publicado e não é por ser sócio há mais de 60 anos que pode vir espingardar para pessoas que são tão portistas quanto ele. Respeito, disse muito bem.

Luis Pereira disse...

Percebo o que diz e sei que se passa isso em muitas empresas. São feitios. Errados, digo eu.
Não é por termos um patrão ou um gestor medíocre, incapaz ou inseguro, que devemos seguir o exemplo e replicar nos outros esse erro.
Muito menos num desporto ou atividade emocional intensa.
A crítica objetiva, a exigência fundada, o elogio ao positivo e o bom planeamento dão, de longe, muitos melhores resultados do que criticar somente o negativo com a esperança que isso "pique" a equipa e a leve ao desempenho esperado.
É uma ilusão, senão, era fácil.

Nuno Fonseca disse...

o problema não está em criticar o treinador ou os jogadores. o problema está na falta de critério e na ponderação dessas críticas. Criticar tão ou mais ferozmente Lopetegui quanto se criticou Paulo Fonseca não tem qualquer ponta de razoabilidade. O problema está na pseudo exigência de quem parece que acha que o Porto tem equipa para ganhar a liga dos campeões. Há sempre coisas para melhorar, e há coisas mal feitas mesmo quando se ganham jogos. Mas o "bota-baixismo" que muitas se vê por aqui dá um pouco razão ao que diz o Mário Faria. Agora estão todos muito amenos, mas na sequência do Porto-Sporting para a taça, havia pessoas a dizer que não havia condições para o Julen continuar no cargo.

meirelesportuense disse...

Fora do tópico:
-Hoje o JJesus falando acerca do jogo com o Belenenses enriqueceu-nos com mais três pérolas linguísticas: -"Mutodologia", "Calandarização","mais nada acrescenta-nos este jogo"...Brilhante.

Bluesky disse...

O desporto no geral e o futebol em particular são das poucas coisas da vida onde quem está de fora é competente e quem está lá dentro não percebe puto de nada!!!!
Onde um simples erro merece que a mãe de alguém seja insultada, e um golo ou uma finta se transforma em lenda e cântico...
Talvez por isso, sou futebolisticamente dependente e portistamente apaixonado.
Ou como alguém disse, não se sabe quem é o doutor e quem é o peixeiro...