sábado, 6 de dezembro de 2014

Regulamentos, hipocrisia e “verdade desportiva”

Deyverson e Miguel Rosa

«Na época passada, à 21.ª jornada, no início de Março, o Belenenses recebeu o Benfica e, à última hora, Miguel Rosa, Deyverson e Rojas, jogadores do clube do Restelo cedidos pelos benfiquistas, ficaram de fora do jogo.

Posso dizer que não foi por uma opção técnica”, sustentou, na altura, Marco Paulo, responsável técnico da formação de Belém. Pouco depois, tornou-se pública a ideia de que um acordo verbal na transferência dos jogadores levara a essa situação.

Amanhã, sob orientação de Lito Vidigal, o Belenenses visita o Benfica num clássico em que a história ameaça repetir-se, ou seja, uma percentagem detida pelo clube da Luz em relação ao passe de Miguel Rosa e a opção de recompra no que diz respeito a Deyverson podem afastar os jogadores do encontro desta jornada.

Nada nos regulamentos da competição defende casos deste género e, sejam quais forem os clubes envolvidos, não faz sentido que isto aconteça. Se um clube não está interessado ou não pode contar com determinados jogadores, a partir do momento em que os cede não deve exercer qualquer tipo de influência para impedir que representem o clube seguinte quando se reencontram. Pior ainda se, de um lado, está um dos três grandes, pois é suposto que a sua força esteja acima de questões desta natureza.

A integridade das competições não vive apenas de um contexto em que não haja resultados combinados. É preciso respeito entre os clubes e os dirigentes devem ser os primeiros a garantir que assim é. Caso contrário corre-se o risco de se chegar à conclusão que, no final da temporada, o campeão só foi a melhor equipa porque defrontou alguns adversários diminuídos. E ganhar a qualquer custo não deve ser a meta dos campeões.»


O texto anterior, escrito por Paulo Jorge Pereira e publicado no Diário Económico de ontem, toca nos pontos-chave desta discussão.

Miguel Rosa foi titular em dez jogos esta temporada, somando 900 minutos e quatro golos, enquanto Deyverson é a principal referência do ataque do Belenenses, com onze jogos (981m) e sete golos.

A propósito deste assunto, Fernando Mendes, antigo jogador do SL Benfica e do CF Belenenses, em entrevista à Antena 1, disse o óbvio:

O Deyverson tem feito muitos golos e o Miguel Rosa é excelente. Sem eles, o Belenenses fica mais fragilizado


Já Jorge Jesus, confrontado pelos jornalistas, preferiu fazer de conta e ser hipócrita:

Não sei qual é legislação em Portugal, nem qual é o acordo [entre os clubes]. Sei apenas o que sucede noutros países, onde os jogadores emprestados não podem ser utilizados nestas circunstâncias, pois é assim que está contratualmente decidido. Em Portugal não sei como é. Não conheço em termos da legislação.


Pois, não sabe… Eu também não sei se, à última da hora, Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus, tolhidos pela vergonha, irão dar luz verde para que Lito Vidigal possa utilizar os seus dois melhores avançados mas, mesmo que o façam, o mal está feito.

O que eu sei é que, após o autêntico descalabro que foi a participação nas competições europeias, o SL Benfica está obrigado a ganhar este campeonato, custe o que custar. Contudo, conforme referiu Paulo Jorge Pereira, ganhar a qualquer custo (recorrendo a “trunfos” como nomeações cirúrgicas, arbitragens de “colinho”, equipas adversárias condicionadas, etc.) não deve ser a meta dos verdadeiros campeões.


P.S. «Apesar de integrarem a lista de convocados para o jogo com o Benfica, este sábado, Deyverson e Miguel Rosa não vão a jogo, no Estádio da Luz, por indicações expressas da SAD. Segundo noticia A BOLA, o treinador dos azuis, Lito Vidigal, foi informado por um elemento da SAD, antes do final do treino desta sexta-feira, que ambos os jogadores, que já passaram pelas águias, não iriam estar disponíveis para serem utilizados, mas que ainda assim deveriam ser convocados. No meio da surpresa por, a poucas horas do jogo, ter sido informado da indisponibilidade de duas pedras nucleares, o técnico rejeitou incluir Miguel Rosa e Deyverson no seu lote de eleitos, sendo que, por indicação do treinador, nem seguiram para estágio.»


Nota: Os destaques no texto, a negrito e sublinhado, são da minha responsabilidade.

6 comentários:

João disse...

Isso é tudo acessório, o que interessa é o futebol às fotografias. Um jogo tipo formalidade antes de visitarem o Dragão (e outra formalidade no Restelo antes de receberem o Porto na 2ª volta), os 6-8 pontos a mais por erros crassos de arbitragem, isso não tem relevo nenhum.

E terem 20% do passe de 5 jogadores do Belém, que o José se esqueceu de referir, é outro pormenor. Minudências. O Herrera não está a teletransportar-se tão rápido como devia. Isso sim, é determinante para a classificação.

Nuno Fonseca disse...

Noutros relvados há Tozés muito profissionais a marcar penaltis ao seu clube do coração e a roubar 2 pontos. Este ano estamos ser anjinhos profissionais a lidar com chico-espertos profissionais. Assim é difícil.

PS: Tenho ideia que esses jogadores nem sequer emprestados são.

Pyrokokus disse...

Mais um penaltie fantasma no galinheiro....

DC disse...

O verdadeiro complexo!

meirelesportuense disse...

"o técnico rejeitou incluir Miguel Rosa e Deyverson no seu lote de eleitos, sendo que, por indicação do treinador, nem seguiram para estágio.»

-Não seguiram para estágio porque estavam com a gripe das Aves!...Como vemos todos têm telhados de VIDRO!...

José Correia disse...

Texto de Luís Sobral, publicado no Maisfutebol, que subscrevo na integra:

«Antes de começar a escrever passei pelo site do Benfica: nada. Depois fui à CMVM e vi os três últimos relatórios (dois anuais e um trimestral). Procurei «Deyverson» e «Miguel Rosa». Nada. Por fim fui ao site do Belenenses. Aí encontrei qualquer coisa: um comunicado da direção do clube em que remete para a SAD azul explicações sobre a ausência dos dois futebolistas no jogo com o Benfica, na Luz.

Antes de emitir opinião sobre o facto, sublinhar esta ausência de explicação. Não aos jornalistas, que para o caso não contam, mas sim aos adeptos dos dois clubes. Sem uma versão oficial, credível, sólida, os dois emblemas permitem que se abram as portas da especulação e da suspeita. Permitem, por exemplo, que seja levado a concordar com Bruno de Carvalho.

O que sabemos é pouco. Deyverson e Miguel Rosa são os melhores jogadores do Belenenses, treinaram toda a semana, foram convocados mas depois ficaram de fora. No caso de Miguel Rosa há antecedentes (veja o que disse o treinador, há um ano), o que leva a acreditar que algo impediu Lito Vidigal, contra sua vontade, de fazer alinhar os dois jogadores.

No final da partida, apenas os treinadores dos dois clubes falaram sobre o tema. Os dirigentes esconderam-se atrás deles, o que é feio. Para dizer o mínimo.

Lito Vidigal disse que os jogadores estavam «condicionados» por se falar disto há um mês. Ou seja, se ninguém tivesse referido o tema os jogadores podiam jogar? Estranha argumentação, pena ter vindo de um treinador sério e respeitável.

Jorge Jesus tentou resolver o assunto com uma daquelas tiradas à DDT (Dono Disto Tudo) que podem marcar pontos numa conversa de café, mas que na sala de imprensa de um clube como o Benfica são lamentáveis.

Percebo que Jesus, inventor do fair-play é uma treta, tenha pouco respeito pelos jogadores dos outros e pela verdade desportiva. Por outro lado, pode ter sido apenas mais uma desatenção do treinador do Benfica. Há uns dias não sabia que a sua equipa já não sairia do último lugar da Champions. Agora desconhecia que Deyverson e Miguel Rosa marcaram onze dos 15 golos do Belenenses na Liga. Ou seja, são apenas os mais importantes do plantel de Lito Vidigal.

Uma vez que os dois jogadores não estão emprestados pelo Benfica ao Belenenses, o que os impediu de jogar na Luz só pode ser um acordo verbal ou um compromisso que permita aos encarnados recomprar os futebolistas ou ter preferência no caso de algum clube manifestar interesse em Deyverson ou Miguel Rosa.

Os dois clubes podem ter jogadores em co-propriedade (comum em Itália, por exemplo) ou algo semelhante. O que não podem é fazer qualquer combinação que impeça um jogador de competir, por razões que talvez apenas Jorge Jesus finja não compreender: afeta gravemente a verdade desportiva. Sim, porque Deyverson e Miguel Rosa ajudaram os azuis a empatar em Alvalade e em janeiro por certo estarão no Dragão.

Uma vez que os dois dirigentes dos dois clubes recusaram dar explicações sobre este caso, compete a quem gere a disciplina no campeonato português investigar. Ao contrário do que sucedeu com o penálti de Tozé no Estoril-FC Porto (e sobre o qual o Nuno Madureira escreveu isto), este caso faz-nos mal à cabeça.»

http://www.maisfutebol.iol.pt/desce-opiniao-benfica-belenenses-deyverson-miguel-rosa/548498800cf2e6b87935e64f.html