segunda-feira, 23 de março de 2015

Uma 2ª Parte para recordar

Texto de Miguel Lourenço Pereira


Ainda faltam algumas jornadas para o término do campeonato, mas parece claro que o último fim-de-semana irá ter contornos decisivos, que nos acompanharão até ao fim do curso.

Era muito difícil que o Benfica – e a sua legião de admiradores de negro – conseguissem perder pontos antes do Clássico da Luz. E, ainda assim, em Vila do Conde, uma inesperada derrota dos encarnados, permitiria ao FC Porto – que entrava minutos depois na Choupana – reduzir a um misero ponto uma diferença pontual que, há umas semanas atrás, parecia irrecuperável.

Alguém se lembrou, seguramente, de 2012/13. Eu, pelo menos. O que se seguiu foi uma vergonhosa exibição na Madeira, sobretudo para uma equipa que sabia que tinha em mãos a melhor oportunidade da temporada para vencer um campeonato que, a todos, estava entregue à partida.

Esta época, o FC Porto perdeu 5 pontos na Madeira e esses podem ter sido precisamente os pontos que nos separam to titulo.

O que também se viveu na ilha, foi uma nova demonstração de erros de gestão de plantel e de cálculo de Julen Lopetegui em momentos de aperto. Sobretudo no segundo tempo.

O Porto chegou ao intervalo a ganhar. Não o merecia, propriamente. Tivera mais a bola, mas causara pouco perigo. O golo brilhante de Tello tapava muitas deficiências do jogo coletivo. Mas era um golo de 3 pontos, como se costuma dizer.

Para os segundos quarenta e cinco minutos era, simplesmente, necessário fazer o mais fácil, deixar o relógio correr, controlar o jogo e procurar ampliar a vantagem em lances pontuais. Sucedeu o oposto.

Tudo começou com a saída de Casemiro, ao minuto 52.

Não sei porque Lopetegui decidiu tirar o brasileiro. Tinha amarelo, sim, mas até então o jogo não tinha sido duro, não tinha exigido a Casemiro uma acumulação de faltas que o levasse a uma eventual expulsão. Quase todos os médios jogam largos minutos com amarelo e não saem por isso.

Há a possibilidade de que Casemiro – como quase todos em campo – tivesse problemas físicos já ao intervalo. Tentou aguentar, não conseguiu e pediu para sair. É um cenário possível que levanta outra questão, a do péssimo planeamento do plantel para uma posição chave, esse imenso flop que foi Campaña e a ausência de um médio defensivo de raiz no plantel, porque Lopetegui queria apenas um perfil muito concreto de jogador e que era demasiado caro para a SAD (Darder, Clasie, Camacho...).

Tendo em conta o estádio onde se jogava, a importância do jogo e a natureza do rival, a saída de Casemiro exigia um perfil próprio para a posição. Basicamente, qualquer jogador, menos Rúben Neves.

Evandro e um "carro de combate" do Nacional (fonte: Maisfutebol / REUTERS)

Gosto muito, muito do Rúben, mas nem ele é um seis de raiz, nem tem capacidade física para aguentar um meio-campo sozinho num jogo de máxima tensão longe de casa. Rúben está em processo de crescimento, é um interior reconvertido e tem tido um excelente primeiro ano. Mas na Madeira foi “queimado” por Lopetegui.

Que podia ter feito o espanhol?

Subir Marcano ou Maicon para a posição de pivot e colocar Indi, por exemplo. Era importante segurar a vitória, mais do que procurar a nota artística. Não era noite para floreados. Mas Lopetegui é teimoso, acredita que o seu estilo prevalece sobre as circunstancias – viu-se no Estoril, contra o Boavista (em casa), contra o Marítimo – e a partir daí o meio-campo perdeu-se.

Herrera estava só, porque Evandro fisicamente não podia (a gestão do plantel, outra vez em questão, face ao claro mau estado físico de muitos jogadores).

Herrera cercado por jogadores do Nacional (fonte: Maisfutebol / REUTERS)

Nesse cenário o Nacional cresceu. Procurou transições laterais rápidas, porque os alas estavam expostos. Não havia ajudas dos interiores nem dos extremos. João Aurélio parecia a reencarnação de Cafu e, ainda para mais, Alex Sandro estava em modo de não meter o pé e não correr mais do que o básico.

O perigo multiplicou-se e o Nacional deu sucessivos avisos. Lopetegui, impávido, voltou a errar. Ciente de que o meio-campo se perdia, lançou Quintero e Quaresma para os lugares de Evandro e Brahimi. Manteve o 4-3-3, mas deixou em campo um leque de jogadores macios, sem capacidade pressing, proclives a perder a bola e não recuperar. Abdicou de tudo aquilo que funcionou contra o Basileia. O descalabro foi inevitável. Rúben, Quintero e Herrera no meio e Quaresma, Tello e Aboubakar no ataque foram trucidados por um Nacional que pressionava, recuperava e lançava rápidos contra-ataques sem encontrar resistência. Marcaram um, podiam ter sido dois ou três. O título – perdido na Madeira, se é que está perdido – foi-se por má gestão táctica do colectivo.

O que podia e devia ter feito Lopetegui?

Dando por descontado que não queria quebrar a dupla de centrais (inconsequente num jogo assim a meu ver) e que Rúben entraria por Casemiro, o espanhol devia ter mudado o esquema de jogo de um frágil 4-3-3 para um mais compacto 4-4-2, quando o meio-campo deu os primeiros sinais de fraqueza.

Defender o resultado segurando o meio-campo. Procurando ter a bola e que ela circulasse, explorando dois avançados moveis nos espaços. Podia tê-lo feito de distintas maneiras.

Colocando Oliver no lugar de Brahimi, deixando Tello e Aboubakar nas alas, garantia mais posse, mais clarividência no jogo e as alas fechadas às incursões do Nacional. Deixava Tello em liberdade para explorar diagonais e Aboubakar a prender os centrais.

Outro cenário seria o de retirar Aboubakar e Brahimi e apostar em Quaresma e Oliver, com duas setas no ataque e um meio-campo de quatro.

Havia ainda uma terceira opção, a de colocar a equipa num claro 4-5-1 com Brahimi e Oliver acompanhados de Rúben, Herrera e Evandro no meio e Aboubakar ou Tello só no ataque. Os 3 pontos valiam o sacrifício e isso teria reduzido ao mínimo qualquer opção do Nacional.

Evandro a lutar contra o meio-campo do Nacional (fonte: Maisfutebol / REUTERS)

Qualquer um destes três cenários alternativos teria garantido tudo aquilo que as opções de Lopetegui não deram: controlo da bola e do espaço. Um ritmo de jogo imposto pelo nosso meio-campo, a exploração das diagonais entre o meio-campo e a defesa do Nacional e o impedimento de que os laterais pudessem subir em demasia para criar perigo. Lopetegui foi teimoso, mantendo o 4-3-3 com os jogadores mais macios que tinha e com isso provocou um naufrágio colectivo.

Um treinador está para treinar durante a semana – e aí o trabalho de Lopetegui tem sido positivo – mas também está para adaptar-se aos acontecimentos durante o jogo. Nesse cenário o espanhol ainda tem muito que aprender. O Porto raramente produz reviravoltas, a equipa raramente altera o esquema táctico e, num jogo de capital importância, exige-se mais ao líder do colectivo.

Duas viagens à Madeira complicadas, cinco pontos perdidos e a dupla sensação de um plantel mal definido com o seu consequente desgaste e, sobretudo, de um treinador que toma decisões erradas em momentos críticos.

Duas áreas a melhorar – e muito – para o próximo ano. Será difícil que o Benfica volte a perder pontos e será difícil ganhar por 0-2 na Luz (e ter um melhor goal-average). Mas talvez o mais difícil será não repetir erros cíclicos como tem sucedido esta temporada.

16 comentários:

José Correia disse...

Quando o Lopetegui tirou o Casemiro pus as mãos na cabeça.

O Rúben Neves é bom, mas não é suficientemente bom para um jogo deste cariz, de luta a meio-campo (e não só), disputado à altitude e debaixo da humidade/chuva da Choupana.

José Correia disse...

«Um estádio da Liga só com uma bancada e três muros, situado a mais de 600 metros de altitude, numa zona de microclima. Ventos fortes, nevoeiro, calor sufocante, aguaceiros intermináveis - tudo pode acontecer no estádio também conhecido por Choupana. É lá que o FC Porto vai jogar no domingo, com o Nacional de Manuel Machado. Adriaanse já avisou que a sua equipa vai ter de subir a montanha. Mais, vai ter de subir e de lá se aguentar 90 minutos com uma boa performance, sem queixas anaeróbicas. Mas não só.»
Eugénio Queirós
21-10-2005

José Correia disse...

E, vendo como estava a luta do meio campo, não lembra a ninguém tirar o Evandro para meter o... Quintero!!!

José Correia disse...

Já agora, o mesmo Lopetegui que, na minha opinião, leu mal o jogo e tomou más opções neste Nacional x FC Porto, há uma semana atrás esteve muito bem contra o Arouca.

Perante a expulsão do Fabiano, logo no início do jogo, retirou um defesa (Ricardo) e manteve a equipa igual do meio-campo para a frente.

Só ao intervalo, após o FC Porto ter marcado e estando em vantagem no marcador, reequilibrou a equipa atrás, para controlar melhor o jogo.

Tivesse feito a mesma coisa na Choupana e, muito provavelmente, nesta altura o FC Porto estaria a 1 ponto do SLB.

RS disse...

"Esta época, o FC Porto perdeu 5 pontos na Madeira e esses podem ter sido precisamente os pontos que nos separam to titulo."

Nunca achei que o FCP estivesse arredado do titulo, nem quando ficou a 6 pontos do líder à 13ª jornada e a maioria dos adeptos já deitava a toalha ao chão. E se com 6 pontos de atraso o título não estava perdido, com 3 pontos de atraso muito menos...

Por outro lado, se por absurdo o campeonato estivesse perdido, também não me parece que o tivesse sido pelos 5 pontos deixados na Madeira, um local onde por tradição sentimos sempre grandes dificuldades, independentemente do adversário, e onde já deixámos muitos pontos. Pelo mesmo motivo não teria sido pelos empates em Guimarães ou Alvalade (ou até Estoril). Se perdemos pontos onde não devíamos, pontos que nos podem vir a fazer muita falta nas contas finais, foi em casa frente ao Boavista e frente ao slb. Esses sim, esses são os 5 pontos que nos separam do título…

Miguel Magalhães disse...

"O Porto raramente produz reviravoltas" - para a Liga portuguesa nunca produziu uma reviravolta.
Guimaraes, Sporting, Estoril, Benfica, Maritimo e Nacional, foram os jogos que nos custaram pontos (para além do nulo com o Boavista) e nos quais sofremos 8 dos 11 golos sofridos nesta época. Nos outros 3 jogos em que sofremos golos (Braga, Gil Vicente e Penafiel) já ganhavamos por mais do que um golo quando sofremos.
Serão meras coincidencias estatisticas mas não deixa de ficar uma sensacao estranha de insegurança.
Quanto ao resto está tudo dito. Foi muito mau. A apatia dos jogadores e os erros do Lopetegui (a ideia de tirar o Casimiro, o erro de casting do Quintero e o nao ser capaz de adaptar o modelo para controlar o meio-campo). Um Porto à Porto nunca deixaria fugir uma oportunidade destas! Andamos há meses a reivindicar (com toda a razao, diga-se) que se nao fosse pelos arbitros estavamos em primeiro, temos uma oportunidas unica de chegarmos lá perto para dar ainda mais força aos nossos argumentos, e deitamos a oportunidade ao lixo?

Miguel Magalhães disse...

Correccao - com o Braga em casa, sofremos o 1-1 e ganhamos 2-1. Foi a excepcao que confirma a regra

JON disse...

Eu não vi o jogo deste sábado, porque não consegui, mas antes do jogo disse que, face à derrota, se ganhássemos seríamos campeões.

No entanto, recordo-me que depois de termos ido ganhar à Luz na primeira época de VP (3-2) e de se achar que íamos ali descolar, cedemos um empate caseiro com a Académica... A tal estória de nunca falharmos nas horas chave, vale o que vale...

Agora é indesmentível que se temos ficado a um, o Benfica ia sujar a cueca e com jeito cedia a liderança logo na jornada seguinte. Assim, respiraram de alívio e nós de desespero...

Continuo a achar que se ganharmos os próximos 7 jogos somos campeões. Até podemos dar o empate ao Penafiel na última jornada.

Pedro disse...

"frágil 4-3-3 para um mais compacto 4-4-2"

- ?? O 4-4-2 é mais compacto ao nível do meio campo?? Em que planeta? Bom, não entremos em discussões inúteis.

A saída do Casemiro foi fundamental. Mas para além da táctica, para além do espirito, para além do adversário e dos micro climas, esteve a falta de pernas.

Foi penoso ver Herrera, Alex Sandro, Danilo e outros, completamente arrebentados aos 60 minutos de jogo. Por isso mesmo este era um jogo para ser ganho nos primeiros 45', e depois gerir.

Miguel Lourenço Pereira disse...

RS,

Em Guimarães e com o Estoril houve uma clara influência externa na perda de pontos. Em casa contra o Boavista, naturalmente, foram os pontos piores perdidos do ano.

Perder pontos contra Sporting e Benfica custa mas não custam campeonatos (são torneios de regularidade e é muito dificil perder campeonatos desse modo, não estamos em 2012/13 com registos perfeitos de ambas equipas).

Nesse cenário, por culpa própria - leia-se mal trabalho colectivo de jogadores e treinador - a Madeira enterrou muitas das opções que temos em ser campeoes.

Miguel Lourenço Pereira disse...

Pedro,

O jogo ofensivo do Nacional baseava-se na recuperação de bola (facilitada pela facilidade de perda da nossa parte) e no jogo pelas laterais a romper o espaço e procurar o centro no ultimo terço.

Esse esquema exige do 433 duas coisas: que os dois extremos fechem o lateral (algo que Quaresma e Tello nunca fizeram) e que os interiores fechem o no apoio aos laterais (algo que o Quintero e o Herrera, mais por desgaste) também não faziam.

Um 442 perde superioridade no coração do meio-campo mas não era por ai que o Nacional jogava. No entanto tapava a possibilidade de um jogo vertical pelas alas - que era o que buscavam - com um jogador directo. Isso ia forçar o Nacional a procurar o meio e com 4 médios como Oliver, Evandro, Ruben e Herrera, a recuperação de bola podia suceder-se numa sequência de possessão controlada. Mais, com dois avançados moveis (Tello e Quaresma/Aboubakar), isso permitia igualmente mais espaços para as transições ofensivas.

Não sendo o 442 um esquema tacticamente ideal para controlar o jogo - onde o 433 funciona melhor - naquele momento concreto era a variação que se exigia face á indisponibilidade fisica do meio-campo de bascular horizontalmente.

rbn disse...

Pois eu continuo com a opinião de que a única burrice de Lopetegui foi meter Quintero em campo, quando o jogo pedia transpiração e marcação forte....e até concordava com a entrada de Indi em qualquer sítio ali atrás, passando a tática pra 5-3-2, 5-4-1, 5-5-0, ou whatever...

A saída de Casemiro era mais que previsível, pois Casemiro geralmente sai de campo acompanhado do seu amigo "cartão amarelo", e ao levar aquele amarelo estúpido, era previsível que com a pressão do Nacional levasse o segundo mais cedo ou mais tarde...

Brahimi jogou mais de 60 minutos, quando nem devia ter voltado pro 2º tempo...Brahimi é craque, pode decidir um jogo, mas perder 95% dos duelos com o lateral deles em 45 minutos é dose...e quando ganhou, nunca tomou a melhor opção.

Quaresma em ótima fase ficou no banco até os 20 minutos finais, e nesse período, fez o dobro do que fez Brahimi...

Acertar no euromilhões depois da 20 horas de 6ª ou 3ª feira é fácil, mas concordo que Lopetegui esteve profundamente infeliz nas suas opções e leitura dos acontecimentos...toda a gente estava a ver que o Nacional chegava com muita facilidade à nossa área no 2º tempo, mas também mandamos duas ao ferro e o goleiro deles salvou gol certo...

Entre mortos e feridos, chegamos à Madeira com 4 pontos de atraso, saímos de lá com 3...com 24 pontos por disputar...estamos bem melhores que em 12-13, onde com 9 pontos por disputar, estávamos com 5 pontos de atraso...

DA disse...

Não consigo perceber a teoria do cansaço. Evandro, tem poucos minutos, considerando o meses que a época já leva.

meirelesportuense disse...

Não creio que Campaña seja um flop.Primeiro porque ele nunca foi apresentado como estrela rutilante, segundo me recordo ele apareceu como alternativa a um lugar que na cabeça de Lopetegui já tinha dono, melhor, já tinha donos.E depois, porque ele pura e simplesmente, nunca jogou, não me lembro de um jogo em que ele tenha participado para além da equipa B onde deixou também de ser utilizado.Para mim é uma questão de empatia dos treinadores como por exemplo acontece com David Bruno na equipa B onde normalmente joga em detrimento de Victor Garcia que para mim é muito melhor jogador.E quando Campaña jogou foi quanto a mim o melhor médio da equipa B.Portanto há coisas que precisam de ser explicadas e não são fruto de incapacidade dos jogadores.São sim em princípio resultado da má visão dos técnicos.Por exemplo a equipa B tem jogado nos últimos encontros com uma defesa de papel.Lá vai conseguindo um empate aqui uma vitória ali mas sem apresentar uma regularidade exibicional que satisfaça.E no entanto de jogo para jogo vai mudando a sua constituição especialmente no eixo onde nunca estabilizou como deveria estabilizar. O mesmo acontece com a equipa principal. Para mim acho que não tem havido regularidade na constituição da equipa especialmente na área intermédia onde vai oscilando entre a entrada e saída de alguns jogadores excepto Casemiro e Herrera e para mim esta é a zona mais periclitante da equipa como agora ficou demonstrado na Madeira.

Alberto Silva disse...

Há que virar as agulhas, e montar a imagem que só dependemos de nós, para colocar pressão nas galinhas...um 2-0 na luz vale quatro golos não esquecer, e neste momento temos 3 de diferença...os 6-0 deles ao Estoril foi o que fez aumentar a diferença...

meirelesportuense disse...

Sinceramente ignorava -porque estou completamente ao largo da Selelcção Nacional- que logo a seguir ao jogo da Madeira muitos dos nossos jogadores estavam a partir para as diversas Selecções...Vendo melhor, não terá isso influenciado a forma de estar em campo de alguns jogadores?
Brahimi chegou ao Porto e partiu de imediato para a Argélia.