quarta-feira, 15 de abril de 2015

Viena 87: O Céu na Terra

Por João Nuno Coelho

É impressionante a forma como o tempo altera a nossa percepção dos acontecimentos. A nossa enquanto indivíduos mas também enquanto colectivo. Viena 87 é hoje algo de completamente diferente porque aconteceram Sevilha 03, Gelsenkirchen 04, Dublin 11, e muitas outras datas deste Porto Feliz dos últimos 30 anos.
Viena 87 acabou por se tornar uma das referências máximas do sucesso portista, fénix renascida sob a égide de Pedroto e Pinto da Costa. Mas foi muito mais do que isso...

Pelo menos para nós, simples adeptos.
A realidade é que ao minuto 76 do jogo do Prater, para qualquer adepto portista, como eu que, com 17 anos, via o jogo no sofá de casa, ao lado do meu pai e do meu irmão (desde sempre a minha mãe decidiu que dava azar ao Porto e refugiava-se noutra divisão da casa) aquele não era um Porto de sucesso, muito menos um Porto Feliz. Tudo parecia demasiado semelhante a Basileia 84. Uma final perante um colosso europeu, bancadas preenchidas massivamente pelos adeptos contrários, uma resposta forte de excelente futebol portista a uma desvantagem no marcador que se eternizava, apesar do nosso domínio, por vezes asfixiante. E um frio no estômago a antecipar mais um troféu oferecido pelos adeptos para premiar outra extraordinária vitória moral.

Viena, 27 de Maio de 1987


E depois... Depois foi o que todos sabemos e não nos cansamos de rever e de reviver. E nunca nos cansaremos. Porque no fundo sabemos a importância deste depois no que aconteceu depois, anos a fio.

Mas na altura não sabíamos.
E, naquele minuto 77, quando uma jogada genial terminou com o mais genial dos toques de génio, eu, pelo menos, só sabia que afinal talvez a história não tivesse que se repetir. Talvez por isso desatei a correr pela casa fora aos saltos e acho que praticamente só voltei à sala quando o Madjer voltou ao campo depois de ser assistido, para partir os rins a um alemão e oferecer o golo da vitória ao Juary.

(Não sei se já pensaram nisto: decorreram cerca de 2 minutos entre os dois golos que mudaram a história do clube, mas o Madjer precisou de pouco mais de 20 segundos em jogo para marcar o empate e assistir para a vitória).

A história de Basileia não se repetiu e nada voltou a ser como dantes. Nunca saberemos como seria se o Porto tivesse perdido a sua segunda final europeia. O Porto europeu pode ter nascido em Basileia mas só começou a andar em Viena. E demorou dois minutos a aprender a fazê-lo.

No fim do jogo, os meus pais, primeiro, e os meus amigos, depois, não entenderam porque é que eu não os acompanhava à festa da Baixa. Na altura, não havia 10 programas diferentes de comentários e tangas à volta do jogo recém-terminado e portanto nem foi por isso que fiquei sozinho em casa. Precisava era de desfrutar plenamente, sem distracções, aquilo que o meu clube (e eu) acabara de alcançar: o Céu na Terra. Porque no futebol, deixemo-nos de tretas (nacionalistas... e outras), acima disto não há nada.


Éramos Campeões da Europa!

Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao João Nuno Coelho, autor, entre vários livros, do "Porto 1987-2012: 25 Anos no Topo do Mundo" e defensor habitual do FCP em tertúlias televisivas, a elaboração deste artigo.

7 comentários:

SNA disse...

Excelente artigo! Devo dizer que me arrepiei ao ler o mesmo e ao recordar a inesquecível noite de 1987 em que vergamos o todo poderoso Bayern e efectuámos uma conquista inolvidável mas não irrepetível!

rbn disse...

O Porto é o 17º clube do planeta com mais títulos internacionais, porque além dos 4 acima citados, venceu mais 3.

Do ponto de vista de alguns poucos países europeus, Portugal incluído, uma conquista continental vale mais que um conquista mundial, enquanto que para a maioria do resto do mundo, uma conquista mundial vale mais que todas as continentais, nacionais e regionais.

Porque ser campeão do planeta Terra desde que a Taça Intercontinental foi fundada em 1960, numa combinação entre a FIFA, UEFA e COMENBOL para saber qual era o melhor time do mundo, num desafio entre o campeão europeu e o sulamericano ( obviamente era assim porque o futebol de clubes em Africa, Asia, Oceania e as demais Américas nem fazia parte do mapa, de tão fracos que eram, e ainda continuam a ser) continua a ser privilégio de poucos, e na minha opinião, eu prefiro ser campeão do mundo do que campeão continental, portanto eu dou muito mais valor a Tóquio 87 e 2004 do que as competições continentais, embora sem elas, não haveria Tóquio.

E esta Taça Intercontinental, antigamente chamada de Mundial Interclubes, dá-me bastante gozo porque é bastante desdenhada pelos rivais, devido às humilhantes goleadas sofridas em Montevidéu diante do Peñarol em 1961 ( 5 x 0) e principalmente em pleno galinheiro diante dos Santos em 1962 ( 5 x 2), onde na época os lampiões já estavam vendendo bilhetes para um 3º jogo, que também seria realizado no galinheiro, além de faixas e outros artigos onde estava escrito "boifica campeão do mundo"...

Como não conseguiram, desdenham e chamam taça toyota... deu me gozo passar em frente ao Dragão em ver escrito fora do estádio CAMPEÃO DO MUNDO 2004:-)

Quanto ao jogo de hoje, o chamado Bayern " super fragilizado sem 6 titulares" jogava em qualquer campeonato para lutar pelo título....e mesmo se jogasse sem os 11 titulares habituais, jogava em qualquer campeonato para lutar pelo título...

Eu entrava em 4-5-1 e metia Reyes ( que na seleção mexicana também joga a trinco e é alto ) e Casemiro protegendo a defesa, Herrera e Oliver um pouco mais à frente e Quaresma pela qualidade de passe, como "garçon" de Aboubakar...isso era o eu fazia, mas Lopetegui não vai mudar o esquema, portanto toda a gente vai ter que morder, correr, lutar, suar, pressionar a 110% quando o Bayern tiver a bola....e se marcano tivesse condições de jogo, metia a ele como trinco junto com Casemiro, pois na minha opinião, neste tipo de jogo, uma dupla de zaga alta com Maicon e Indi me agrada mais do que ter o "baixinho" Marcano a marcar Muller ou Lewandovsky...

Pena é não podermos contar com Tello, que com sua velocidade poderia trazer bastante ofensividade ao contrataque, mas vamos confiar nos que lá estão...só espero que ninguém faça com Jackson a burrada que o Atlético de Madrid fez na final da Champions, quando colocou um Diego Costa com a lesão mal curada a titular e deu no que deu...

littbarski disse...

Bom texto. De facto, é interessante pensarmos em como seriam as coisas sem aqueles dois minutos mágicos. No universo paralelo que se criaria a partir dali. No impacto que uma segunda final perdida teria na história do clube, tendo em conta que foram precisas quase duas décadas anos para voltarmos a estar numa final europeia. Mas eu acho que qualquer estrada que saísse dali, de Viena (e que já vinha de Basileia), só poderia levar ao sucesso. Com um formato diferente, talvez com mais uma paragem, para agarrar a taça que teria ficado em Viena, mas inevitavelmente para a consagração europeia.

Pés-Juntos disse...

Ámen!

Mefistófeles disse...

Revi-me e emocionei-me com este texto !
Chapeau !!!

PortoMaravilha disse...

Viva,

Vi a final de Basileia e a final de Viena. A vito'ria de Viena deu uma dimensão extraordina'ria ao Porto se pensarmos o futebol em termos geo poli'ticos - pela primeira vez um jogador de nacionalidade dum pai's de A'frica vence a Taça dos Campeões Europeus e pela primeira vez uma equipa vencedora representa três continentes e, ademais, um novo nome nasce para designar um gesto técnico; Talvez não seja um acaso se o dia'rio "L'equipe" - edição papel - consagra uma entrevista duma pa'gina a Madjer e que lembra que o Bayern actual é muito mais poderoso que o de 87.

Gostei do artigo;

E Viva o Porto!

jnporto disse...

Bom texto. Parabéns. Vem-me à memória esses anos surpreendentes. A loucura na cidade pela vitória, até de madrugada. Depois, a procura dos jornais no dia seguinte. Agora vão ter de nos reconhecer o valor porque somos campeões Europeus e fizemos história acreditava, leitor da Bola, ainda jovem e crédulo. Mas não foi assim; Pinhão encarregado de cobrir o jogo, destilava a sua azia na sua crónica, gozando com a vitória dos provincianos, tipo "o da Revigrés não parava de fumar o seu charuto", coisas no género. Adiante, depois foi mais e mais, interna e externamente o Porto fez-se um clube de dimensão mundial que os centralistas continuam a minimizar e a destratar. Seja qual for o resultado o Porto é o Porto e por mais que nos tentem deitar abaixo como é o caso das miseráveis primeiras páginas de hoje, terá sempre reconhecimento mundial, bem longe dos pequenos e medíocres que por cá continuam a fazer cabeças. Cumprimentos