domingo, 25 de outubro de 2015

Colinho em espanhol, tapem lá agora a vergonha!

O diário desportivo As publicou na sua edição de hoje uma entrevista a duas páginas no coração do jornal com o árbitro português Marco Ferreira. Uma decisão com um timing perfeito tendo em conta que estamos em véspera de derby lisboeta e, como todos sabemos, há meses que a comunicação social portuguesa montou um silêncio espectral ás declarações originais de Ferreira, o árbitro que não teve medo de denunciar as pressões sofridas por Vitor Pereira para facilitar nos jogos com o Benfica.

—¿Cómo se eligen los árbitros para los partidos en Portugal?
—Es Vitor Pereira el que tiene total libertad para elegir a quien le apetece.

Todos conhecemos a história de Marco Ferreira, algo que não devemos a nenhum jornal ou web portuguesa que preferiram não investigar declarações que são, para mim e para qualquer pessoa com dois dedos de testa, tão ou mais graves do que o famigerado Apito Dourado. Porque claro, o protagonista, não sendo o FC Porto, o importante é calar, já sabemos todos. Dizer que o responsável da arbitragem portuguesa procura constantemente beneficiar um clube é muito menos grave do que comer um croisant e tomar um chá com um árbitro em casa. Claro.

Yo y muchos compañeros recibimos llamadas del presidente del Consejo de Arbitraje, Vitor Melo Pereira (homólogo en Portugal de Sánchez Arminio), en la misma semana que estamos nombrados para arbitrar al Benfica. Vitor Pereira tiene muchos enemigos y muchos opositores, entre ellos la gente del propio Consejo de Arbitraje y muchos clubes de Primera. No le quieren ahí. Ahora, el único de los grandes que apoya a Pereira es el Benfica.

A entrevista de Marco Ruiz não falha um só tiro no alvo e é um trabalho jornalistico que só podia ter sido feito por alguém de fora, alguém que não estivesse tapado pela ameaça centralista e asfixiante tão portuguesa de nunca se tocar nos podres dos clubes da capital. Que esse mesmo jornalista tenha sido um dos habituais enviados do As ao Porto para cobrir o dia-a-dia da vida de Iker Casillas - temas recorrentes semanalmente no jornal - pode dizer muita coisa ou pode não dizer absolutamente nada. Pessoalmente gostaria, e muito, que esta entrevista tivesse sido facilitada pelas boas relações entre o jornalista e o FC Porto, como uma forma de denunciar publicamente, e para toda a Europa ver, a podridão que é o futebol português que o senhor Vitor Pereira quer manter a todo o custo. Seria um excelente golpe a quem nos ofende e raramente leva o tratamento que merece. Mas ninguém o pode afirmar a ciência certa pelo que deixemos isso no campo da especulação.




A entrevista é claro e põe todos os nomes nos bois e não há boi maior nesta história que o maior hooligan da arbitragem portuguesa das últimas décadas. Marco Ferreira não acusa directamente o Benfica - faz exactamente o contrário, afirmando categoricamente que nem o Benfica nem qualquer outro clube, nos seus nove anos de carreira, alguma vez o abordou pessoalmente (nove anos e nem uma chamadinha de fruta do Porto? Que desilusão deve ter sido ouvir isso no departamento de escutas lançadas ao YouTube desde fontes anónimas não é??) - mas não perdoa ás pressões sofridas por Vitor Pereira.

Ferreira repete o mesmo discurso. As ameaças de Pereira e as chamadas em vésperas de jogos com o Benfica (e só com o Benfica), o clamor de que não ligue aos insultos que vinham do banco encarnado (e que provocaram a expulsão de Jesus num jogo no Bessa) porque um lider da arbitragem não está para defender os árbitros de serem insultados, ou o aviso claro de que Ferreira tinha de se portar bem no jogo do título do Benfica. No jogo do título não se refere ao Benfica - Porto, claro, porque como Ferreira diz, é o próprio Pereira, quase a comportar-se como um "paineleiro" encarnado, que afirma que o Benfica precisa de receber o Porto com 4 pontos de avanço para não haver problemas. Todos sabemos o que se passou.
O Benfica perdeu. O Porto não aproveitou. O Benfica foi campeão vendendo cachecóis a relembrar o escandaloso colinho e Ferreira foi despromovido depois de ter sido considerado como um dos eventuais sucessores do actual Presidente da Liga Portuguesa de Futebol na cúspide da arbitragem nacional.

Después del Braga-Benfica del que le hablé, Pereira me nombró para un Rio Ave-Benfica. Esa semana me llamó dos veces. El martes y el jueves. El jueves me dijo que, si no hacía un buen partido, no me podría nombrar para el Benfica-Oporto, que era en abril. Dijo que tuviera cuidado, que “eran los que se quejaban” y que “era el partido del título del Benfica”. Y yo le dije que no, que no era el partido del título porque el Benfica llevaba cuatro puntos de ventaja con respecto al Oporto. Y me contestó: “Es muy diferente jugar en contra del Oporto en abril con una diferencia de cuatro puntos que con dos puntos o uno”. Esto, bajo mi punto de vista, es grave. Porque claramente estaba refiriéndose al Benfica.

Todos sabemos perfeitamente que o que Marco Ferreira afirma encaixa perfeitamente com a politica seguida por Vitor Pereira nos últimos anos. As nomeações dos árbitros e dos assistentes a dedo, a sua posição inflexivel de abandonar um posto para o qual não tem nivel e o apoio inequivoco do Benfica são realidades indismentiveis. Que este lodaçal tenha cruzada a fronteira - onde se tentou abafar tudo - para chegar a um dos jornais desportivos mais lidos da Europa é um triunfo inequivoco para a verdade desportiva. Nada vai mudar. Isto é Portugal, um país onde um presidente pode ameçar partidos e ir jantar como se nada tivesse passado. Pereira continuará a ser Pereira e os árbitros continuarão a receber chamadas noite dentro para portarem-se bem. Mas lá fora já não há manto protector que esconda a vergonha. O Colinho é agora tema de conversa mundial. Da próxima vez que encarregarem cachecois na Luz, não se esqueçam também de fabricar versões internacionais em espanhol, francês ou inglês. Porque já todos sabem do que se trata!

17 comentários:

DA disse...

E o Marco Ferreira até era dos melhores árbitros da liga portuguesa.... talvez demasiado sério....

Mas há aqui responsabilidades do nosso clube que, nos últimos anos (década), se tem colocado fora dos jogos eleitorais para os principais cargos do futebol português, deixando-os completamente controlados pelo benfica. Aliás, nas últimas eleições para a FPF, a AFPorto cometeu o erro de patrocinar a lista da APAF para o conselho de arbitragem da FPF, lista essa cujos candidatos para a secção profissional eram, por esta ordem, os srs Luis Guilherme (que já tinha presidido à comissão de arbitragem da Liga, entre 2003 e 2006, por escolha pessoal do LFV, naquela altura em que pronunciou aquela célebre frase, qualquer coisa como "o importante são os lugares na liga" ) e Lucílio Baptista.

A secção profissional é, por isso, um belo ramalhete de anti-portistas e serviçais vermelhas: Vitor Pereira, Luís Guilherme, Lucílio Baptista, Antonimo Silva (AF Lisboa) e Domingos Gomes (AF Braga).

Esperemos que em 2016 a situação mude, com a eleição de órgãos minimamente equitativos no tratamento os clubes.

Quero acreditar que o clube esteja a trabalhar para isso.

Justiceiro Azul disse...

Quando fala num presidente que pode ameaçar partidos está a falar de futebol?

Luís Pires disse...

consequências por cá? irá ser instaurado um inquérito para apurar se há matéria para punir o Marco Ferreira por difamação, what else?

Luís Vieira disse...

Se não for por mais nada (é o mais provável), serve como prova testemunhal do manto protector de que o Benfica tem gozado nos últimos anos. Por cada referência a fruta e escutas há um Marco Ferreira e um voucher-restaurante para contraditar. Não é muito, mas já é alguma coisa. A virgindade angelical acabou, preto no branco e em espanhol.

José Correia disse...

"...declarações que são, para mim e para qualquer pessoa com dois dedos de testa, tão ou mais graves do que o famigerado Apito Dourado"

"Dizer que o responsável da arbitragem portuguesa procura constantemente beneficiar um clube é muito menos grave do que comer um croisant e tomar um chá com um árbitro em casa. Claro"

"A entrevista de Marco Ruiz não falha um só tiro no alvo e é um trabalho jornalistico que só podia ter sido feito por alguém de fora, alguém que não estivesse tapado pela ameaça centralista e asfixiante tão portuguesa de nunca se tocar nos podres dos clubes da capital."

"O Colinho é agora tema de conversa mundial. Da próxima vez que encarregarem cachecois na Luz, não se esqueçam também de fabricar versões internacionais em espanhol, francês ou inglês. Porque já todos sabem do que se trata!"

EXCELENTE!
Excelente artigo do Miguel que, tal como na entrevista dada por Marco Ferreira ao As, põe todos os nomes nos bois.

José Correia disse...

«É uma pena que as autoridades nacionais estejam atafulhadas em trabalho e ainda não tenham tido tempo de dispensar um bocadinho de atenção às denúncias de Marco Ferreira. O ex-árbitro deu uma entrevista ao jornal espanhol Ás, que vale a pena ler.»
in Dragões Diário, 25-10-2015

http://futbol.as.com/futbol/2015/10/24/internacional/1445642994_796252.html

José Correia disse...

«Vítor Pereira reagiu prometendo uma acção judicial contra o ex-árbitro, embora talvez fosse mais simples divulgar o registo telefónico dos árbitros, mas quem enfiou a carapuça, quem foi? Esse mesmo, mr. Burns, que com a subtileza habitual encheu-se das dores de Vítor Pereira, numa espécie de confissão de valor acrescentado. Como muito bem disse Julen Lopetegui “está tudo dito, não é preciso dizer mais nada”. Ou como dizia o outro, com voucher ou sem voucher, não há almoços grátis.»
in Dragões Diário, 25-10-2015

Lápis Azul e Branco disse...

Tal e qual o que escrevi. Infelizmente a impunidade é tal que lhes basta assobiar para o lado e esperar que passe.

http://doportocomamor.blogspot.pt/2015/10/e-pluribus-unum.html

Justiceiro Azul disse...

Caro Miguel Lourenço Pereira, fiz-lhe uma pergunta no 2o comentário a este post. Pode responder?

Miguel Lourenço Pereira disse...

Naturalmente, não!

Luís Pires disse...

dos registos telefónicos seria interessante saber para quem ligava o VP imediatamente antes e após falar com os árbitros que iam apitar o 5LB.

Justiceiro Azul disse...

Natural seria não fazer esse comentário a despropósito e totalmente fora do contexto. Se quanto ao tema do post lhe dou inteira razão, quanto ao tema político que introduziu estou diametralmente contra si e não percebo porque o introduziu. Nunca tinha visto uma opinião política aqui.

Miguel Lourenço Pereira disse...

Naturalmente introduzi o comentário porque me apeteceu e porque reflecte bem a realidade deste país.

Justiceiro Azul disse...

Naturalmente as pessoas vêm aqui para saber notícias sobre o Porto e futebol. Não para saber a sua opinião subjectiva sobre a actuação do Presidente ou sobre o que é que lhe apetece comentar extra futebol/desporto. Existem muitos comentadores neste blog e não os vejo a fazerem comentários deste género.

José Lopes disse...

O Justiceiro Azul quer ser o Censor Azul, pelos vistos. Sentiu comichao com a opiniao politica, mas aposto que se a opiniao fosse abonatoria para o Presidente ja nao se queixaria. So me faz confusao e' porque e' que ha pessoas que querem condicionar o que cada um escreve no seu proprio blog.

Justiceiro Azul disse...

Não entendeu o que eu escrevi? É assim tão difícil perceber que até agora eu nunca tinha visto uma opinião política neste blog? Não escreve só para si, pois não? Escreve porque quer que as pessoas leiam e saibam a sua opinião. E o blog tem o nome de Relexão Portista, não é a Reflexão rosa, vermelha, ou laranja.

Miguel Lourenço Pereira disse...

Caro Justiceiro Azul,

O contexto da frase é tudo.

"Isto é Portugal, um país onde um presidente pode ameçar partidos e ir jantar como se nada tivesse passado. Pereira continuará a ser Pereira e os árbitros continuarão a receber chamadas noite dentro para portarem-se bem."

Este artigo visa, entre outras coisas, denunciar a macrocefalia, centrismo e absolutismo de determinadas figuras sediadas na capital que assumem postos de poder e o exercem sem qualquer respeito por outros, ultrapassando recorrentemente os seus próprios limites num "quero, posso e mando" que só em Portugal passa sem escrutinio.

E naturalmente, a posição dos Vitor Pereiras, que infelizmente são muitos, não é um exclusivo do mundo do futebol e sem um triste reflexo do país. O Presidente da República é apenas um exemplo, provavelmente o mais gritante porque, legalmente, é o representante da nação, dessa mentalidade e a mim tanto me faz que seja da cor A, B ou C, é a actitude, tão comum à dos Vitor Pereiras, que incomoda e explica o que se passa neste país e no seu futebol.