terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O programa eleitoral

O FC Porto está a uma distância praticamente irrecuperável do título e depende, e muito, do que faça na próxima sexta-feira o acesso directo à Champions League e aos seus 12 milhões de euros garantidos. Não é por casualidade que o sorteio preliminar é cada vez mais exigente. Não caem Lille´s todos os anos do céu. Como se ninguém desse por isso, como habitual, daqui a dois meses há igualmente eleições. Possivelmente, como habitual, com lista única e vencedora antecipada.

Um processo eleitoral é algo que não se valoriza nunca o suficiente. É um elemento fundamental - não único nem exclusivo mas fundamental - da vida de uma instituição, a voz daqueles que fazem dessa instituição algo seu. E antes de uma eleição o lógico é que quem possa votar tenha acesso ao programa eleitoral ou, pelo menos, a um programa de intenções para os anos de mandato. Há clubes que transformam as suas eleições numa espécie de corrida à Casa Branca - casos do Real ou Barcelona - onde se prometem estrelas, investimentos, projectos, onde se debatem ideias. Cada candidato apresenta o seu programa e sabe que corre o risco de ser culpabilizado durante os anos de mandato se não cumprir o prometido. A Laporta muitos adeptos lhe criticaram o bluff que foi dizer que contava com Beckham mas ninguém ousou questionar quando colocou no seu programa a extinção da claque Boixos Nous, um grupo ultra-violento. Não cumpriu o primeiro - trouxe Ronaldinho, melhor decisão ainda que menos mediática então - mas fez o que tinha de fazer com a claque. Florentino Perez, já sabemos, colocou por escrito que pagaria do seu bolso o lugar anual de todos os sócios do Real Madrid se não trouxesse Figo. Com as cartas na mesa é mais fácil votar.
No caso do FC Porto, não sabemos realmente nada disto porque discutir ideias eleitorais para o futuro do clube é algo que desde 1982 desapareceu do mapa. Basicamente o caminho tem-se feito caminhando, à base da crença. Não foi, longe disso, um mau caminho. Mas há muito que derrapou ainda que se continue a avançar, agora por descampados abandonados em vez de estradas bem asfaltadas. E porquê? Porque sim.



A dois meses das eleições eu gostava de saber qual era o programa eleitoral para os próximos quatro anos de clube. Que podemos esperar de quem vai governar na certa - mesmo que surja, espontânea, das entranhas do portismo mais corajoso, uma lista alternativa - os destinos do clube até 2020?
Já sabemos que o candidato ganhador está de boa saúde (felizmente) e quer construir um grande centro de formação para o futuro. É um discurso copiado dos anos oitenta, quando se prometiam museus (que demorou mais de duas décadas), pavilhões (que demorou uma eternidade), e um eterno pulso contra os interesses asfixiantes da capital (que é um discurso indigno, aparentemente, nos dias que correm). Portanto calculem o centro de formação lá para 2030. Se tiver atrás o mesmo gestor do projecto Visão, juntem mais uma década até resolver todos os problemas estruturais e em 2040 La Masia vai estar nas margens do Douro na certa.
Mas, há algo mais a que o sócio portista possa acudir quando vá colocar o seu voto? Tem havido sinais de ideias para o futuro? Neste momento, prima, o silêncio o que nos permite suspeitar que o programa ainda está a ser organizado pelo que podemos antecipar, talvez, que pontos poderão ser incluídos. A saber:

- o FC Porto deixará de falar de árbitros. O FC Porto deixará de falar do Conselho de Arbitragem, dos kits a árbitros, dos jantares e almoços, dos sorteios...o FC Porto deixará de denunciar a corrupção arbitral e a influência dos clubes de Lisboa nas tomas de poder. Isso é indigno do FC Porto. Quando, em última análise, a direcção quiser mencionar algo, será de forma metafórica e graciosa - via email - porque estamos acima dessas coisas.

- a comunicação externa será gerida por mulheres, companheiras e amigas de funcionários do clube, independentemente do seu estatuto no organigrama. São pessoas de confiança e tudo o que disserem reflecte o que pensamos. Poupam-se assim os salários dos eventuais relações públicas que podem ser investidos em contratações para instituições ligadas ao clube de pessoas de confiança. Que sejam ou não familiares directas de funcionários do clube é irrelevante...porque estamos acima dessas coisas.



- não há necessidade de uma direcção desportiva. Temos externalizados os serviços de contratação, negociação de contratos, agenciamento, scouting e empréstimos a uns amigos porreiros que só querem o melhor para o clube. Vamos brevemente abrir duas novas delegações negociais, uma numa aldeia perdida das Midlands a meio caminho de tudo o que é clube rasca mas rico da Premier e outra na costa chinesa, a pouca distância de Macau, porque esse é o futuro. Não se preocupem com os orçamentos desproporcionados, o aumento dos gastos anuais em salários ou o plantel de guarda-redes que estamos a formar paralelamente para começar um novo desporto. Confiamos nos nossos amigos mesmo quando publicamente dizemos que nos enganaram por contratarem um jogador um ano antes de nós nos termos dado conta e cuja chegada foi evidentemente exigência do treinador.

- a pessoa que estiver sentada no banco com o estatuto do treinador é um acessório que se vende em separado e pode ser trocado ciclicamente sem influenciar a qualidade do produto. A estrutura somos nós, quem ganha somos nós e esse senhor sabe disso e deve assumi-lo desde o primeiro momento. No entanto, como lhe estamos a fazer um favor ao tê-lo ao serviço do maior clube português, como contrapartida deve assumir que no contrato há uma clausula invisível que diz que deve dar a cara pelo clube sempre, dizer tudo aquilo que nos reservamos e que ao menor sinal de barulho terá de abandonar o navio, mesmo que o tenhamos elogiado semanas antes, porque aqui o mérito é nosso...a culpa, dele.

- os sócios, adeptos, simpatizantes ou turistas da Ryanair que vão ao estádio são consumidores e o que pensem ou não do clube importa-nos pouco porque temos claro o nosso caminho e com quem e como queremos trabalhar. Agradecemos os aplausos, os gritos de apoio, as compras de equipamentos, kits, cachorros e pipocas e sobretudo que tenham a sensatez de assobiar a pessoa que estiver sentada no banco ou qualquer um dos tipos vestidos em campo que pertencem à empresa de externalização de serviços porque nos permitem resolver os problemas facilmente. Como? Porque a culpa, já sabemos, é deles.

- ser campeão está demodé. ser uma equipa competitiva na Europa é tão século XX. Nós pensamos em grande. O nosso objectivo é "Somos Porto" e com isso dizemos tudo. A questão desportiva de ganhar, perder ou empatar, ser eliminados de torneios de primeira ou terceira, conectar a equipa B com os A, isso são questões aborrecidas. O mundo intenso e emocionante dos jantares, das transferências com clubes presididos por tipos que nos insultam, o falar espanhol para o El Pais e falar chinês para o Diario de Pequim, isso é que está a dar. Temos um canal catita e familiar, um estádio state of the art com pavilhão e museu ao lado que é a inveja do mundo e ganhamos umas coisas nos últimos cinco anos, que mais querem?



Há coisas que se dizem, há coisas que se sentem. O FC Porto vai a eleições, provavelmente sem listas (no plural) e sem programa (no singular). Mas isso não significa que se vá a eleições sem um plano de futuro concreto, mesmo que oculto e silenciado por ruidos externos que permitem tapar tanta, tanta coisa. A votos, realmente, vão duas Champions League, duas Intercontinentais, duas UEFA/Europa League, 20 Ligas... tudo entre 58 titulos. Que o mais recente campeonato seja de um mandato anterior e que, desde então não haja nada para oferecer a não ser um bilhete para o museu, diz muito da necessidade de um programa publico de futuro (que treinador, que fazer com a formação, que direcção desportiva, que organigrama, que fazer para controlar gastos....) e de uma lista alternativa com as suas ideias claras. E não vale qualquer lista nem qualquer programa porque isto é o FC Porto e os sócios do clube merecem sempre o melhor. Duvido que seja isso que vão ter sobre a mesa no boletim de voto daqui a dois meses.

19 comentários:

Francisco Paulos disse...

Muito bem escrito.A incompetência dos últimos anos deve ser castigada nas urnas.Rua com esta Sad amorfa e burguesa.

MIguel Alexandre disse...

Infelizmente de acordo. Não dá para disfarçar, Pinto da Costa está cansado e longe e sem ele a gestão (?) tem sido zero!
Podia enumerar uma centena de razoes a começar pela inenarravel ultima entrevista no Porto Canal, mas nem me apetece, ando profundamente triste com o clube, sinto que me andam a enganar para se servirem do clube mais 4 anos.
Acima de tudo angustiado por estarmos presos a esta SAD sem direito a REAL contraditório.
Quero muito poder votar numa alternativa.
Miguel Alexandre.

Joaquim Lopes disse...

Bom ponto de vista, parabéns pelo blog já agora.

João Lima Ribeiro disse...

Amorfa, burguesa, relapsa e criminosamente negligente

José Lopes disse...

Excelente texto! Infelizmente, vamos mesmo andar a penar mais 4 anos (no mínimo), liderados por uma direcção que amarrou a claque e não lê blogs e por isso pensará que a massa adepta ainda está inteirinha do seu lado. O problema é que, para o que interessa, eles terão razão, porque a contestação não produzirá listas alternativas e por isso lá continuarão os mesmos a enriquecer enquanto desgraçam o clube.

Porta 26 disse...

Mais uma reflexão muito bem estruturada. Comprova-se passo a passo que a reputação quer se sobrepor à qualidade e seriedade. Infelizmente, os intervenientes serão os mesmos por mais quatro anos, onde o clube corre o risco de ver a distância para os rivais aumentar ainda mais, enquanto os responsáveis enriquecem à custa do clube. Não acredito que, no meio de 100.000 sócios, não exista uma alternativa capaz de proteger os interesses do clube e recolocá-lo no caminho das vitorias. No entanto, creio que a passividade, e até o medo, possa bloquear qualquer alternativa.

Um abraço.

Porta 26, em blogporta26.blogspot.pt

Paulo Marques disse...

Bem dizido, sim senhora, mas é preciso não esquecer de pôr os pés na terra quanto às possibilidades de um clube a navegar contra o regime num país cada vez mais pobre e cada vez mais longe dos interesses de quem manda também no futebol - ou seja, não contem comigo para continuar a criticar todos os empregados por não serem o Guardiola ou o Messi.

Louro disse...

Está na altura da mudança, temos muito a agradecer ao nosso presidente , muito mesmo , mas está desgastado tal como a estrutura.
É preciso uma alternativa válida, não sei qual seria o melhor candidato mas António Oliveira adquiriu recentemente mais accoes do clube e Baia também está disponível.
Parece-me que, se não aparecer alguém até ao final deste mês, vamos estar mais uns anos a penar.
Convoque-se uma assembleia extraordinária, façam petições, não ao silêncio!
Sou sócio há 15 anos, nunca votei mas, estou disponível para o fazer já este ano!

santosanonymus disse...

Vamos por partes, pois são mais de 30 anos:

1. Herança desportiva (títulos), 100/100.
2. Herança material (infra-estruturas), 90/100.
3. Finanças, 80/100.
4. Modalidades 60/100.

Quem não assinava hoje mais 35 anos iguais aos últimos 35? Nenhum portista, certamente.

A partir daqui o que vejo, em geral, é alguma (para não dizer muita) hipocrisia porque a verdade é que não foi a direcção que roubou o clube aos sócios/adeptos mas os sócios/adeptos que se demitiram das suas obrigações entregando o clube à direcção, que fez o que bem entendeu com ele, para o bem e para o mal.

Como foi dito, hoje não há programa como não há décadas. Então e só agora é que isso é relevante? Por outras palavras, porque há-de esta direcção largar o poder (que tant€ rend€ a tant€s) quando durante décadas ninguém quis saber do futuro clube, além de quem lá estava?

Claro que isto não é válido para toda a gente (é quase), mas qual foi a última lista alternativa? Em que ano foi isso? Quem tentou alterar os estatutos para evitar um reinado de 30 anos? A sério que haviam pessoas convencidas que alguém a caminho dos 80 anos ia ter sucesso infinitamente ou de um dia para o outro deixava o clube que todos lhe dizem ter sido "criado" por si? Depois de se colocar alguém no topo de uma torre de marfim é complicado tirá-lo de lá...

Exemplo: a direcção extinguiu o basket (porque sim!). Quantas pessoas se preocuparam realmente com isso (fora da net!)? 5? 10? 40? Quem é que se preocupou com o facto do clube não ter um pavilhão durante largos anos, ou não ter sido construído ao mesmo tempo que o estádio? E por aí fora.

Então durante 30 anos (e principalmente nos últimos 10) dá-se carta branca e agora é que se acorda para a realidade? Sei que não o caso do blog, mas é essa a inegável realidade.

E mesmo assim, chegados a 2016, qual é a lista alternativa? Onde está ela? Na CMTV? Nos últimos 3 anos não houve tempo para fazer um programa? É por medo? Por respeito? Se é por medo é uma ditadura e o respeito supremo deve ser o respeito pelo clube, porque sem ele esta direcção nunca teria existido.

O que acho é que as pessoas têm o clube que merecem, e se mereceram todas as vitórias também merecem todas as derrotas porque nada fizeram para as impedir. Fizeram ou fazem.

A excepção são os treinadores. Sem dúvida que houve muita pressão para despedir treinadores, mas isso não é preocupação com o futuro do clube mas com os próximos 90 minutos.

O identidade da equipa hoje não passa de uma miragem: os últimos resistentes, Maicon e Helton, têm os dias contados.

Portanto quanto mais tempo os sócios (e adeptos) demorarem a reagir mais difícil vai ser a recuperação. Um grande exemplo é o Sporting, onde os sócios permitiram a eternização do Roquettismo... até o clube ficar irreconhecível. Não vai chegar a esse ponto mas a este ritmo também não vai andar muito longe disso.

Mas quem sabe, talvez a solução seja mesmo ficar de braços cruzados à espera de melhores dias.

Cumprimentos.

jorge Mendonça disse...

Concordo em absoluto com MLPereira que tem um discurso fluido, estruturado e fundamentado. Realmente desconheço o programa eleitoral da lista que vai a votos. Lanço um repto- porque não avançarmos para um verdadeiro movimento que seja defensor dos verdadeiros ideais do SOMOS PORTO? Estou disposto a participar.

miguel87 disse...

PdC não pode ser posto em causa por tudo que construiu e deu ao clube ao longo de 30 anos, mas quando é ele próprio que coloca tudo isso em causa é altura de reconhecer que o seu tempo (e desta direcção) acabou.
Já se sabe que enquanto ele for candidato não haverá alternativa credível, pois alguém que tenha a lucidez e capacidade para gerir o clube tem que saber também que contra PdC nunca irá ganhar.
Resta-nos a solução possível, comparecer em massa nas próximas eleições e votar em branco. Neste momento parece-me a única maneira credível de mostrar o desagrado pelo estado actual do clube.

Paulo Rodrigues disse...

Um novo rumo com novas ideias e essencialmente um pouco do passado em que PdC tinha forças para lutar contra tudo e todos, em que arbitragens escandalosas a favorecer o rival direto não passavam despercebidas, em que arbitragens escandalosas a prejudicar o meu (nosso) clube tinham logo uma reacção imediata.

Não entendo o que se passa será que a liga aliança existe mesmo?!

PdC já está na reforma mas e os restantes elementos da SAD também estão velhos e amorfos?

Algo de muito estranho se passa e Vítor Baía tem razão no que diz( apesar de ter usado um meio de comunicação inapropriado).

Pedro disse...

É uma cagada autêntica !!! digo e volto a repetir: eles agem como se o clube fosse deles.... então enforquem-se com ele !!!

Gonçalo Rodrigues disse...

Amém ao que escreveu. Não mudaria um virgula.

Nuno de Campos disse...

A direcção do FC Porto devia ir à Avenida dos Aliados aprender com o Presidente Rui Moreira como se luta contra o centralismo da capital do império, sem medo, sem tréguas. A actuação de RM no caso Tap é exemplar e uma grande lição para a nosso presidente, que já se esqueceu do que é lutar para ganhar uma batalha todos os dias, para em Maio se ganhar uma guerra. Vá aos Aliados já para aprender ou relembrar, talvez possa ainda um dia lá ir para festejar.

Paulo Rodrigues disse...

Para mim a única alternativa possível aos chupistas que estão ansiosos para que PdC saia do trono é só uma: António Salvador.

E atenção para mim está na hora de PdC gozar a sua bela reforma após tantos anos de luta.

Pedro Moreira disse...

Haverá coragem para apoiar uma lista alternativa à actual??
Acho que ninguém se quer «lançar às feras» enquanto PdC concorrer...
O mal é esse.
Mas que está na hora de mudar, isso ninguém duvide...

Pedro Moreira disse...

O maior problema é que ninguém se quer «atirar às feras» enquanto PdC se candidata com o suposto apoio de 10 mil assinaturas de sócios...
Mas não duvido, e creio plenamente, que está na hora de mudança...
E sem guerras. Democraticamente está na hora de substituir o histórico Presidente...

Pedro disse...

Não nos iludamos: mesmo no dia em PdC se não candidatar, ele, ao contrário do que inúmeras vezes declarou (mas contradições é o que mais há no seu discurso), apoiará, explícitamente ou veladamente outra candidatura, e os Cerqueiras, os Super-Morcões e outros membros da guarda pretoriana angariarão para esse candidato fantoche o número de votos suficiente para obliterar qualquer pobre diabo que tenha a veleidade de se candidatar contra ele. Ao menos o Pinto de Magalhães e o Américo Sá saíram pelo próprio pé e pacificamente.