quarta-feira, 2 de março de 2016

São Porto?

Ser Porto.
Há uns anos começou a correr por aí a expressão "Ser Porto", como se os cimentos gastos do velho estádio das Antas recordassem outro grito de guerra entretanto perdido. Foi a época do marketing, do 1893 na camisola - não fosse alguém duvidar do duvidável - e da externalização da comunicação do clube com as suas forças vivas a labaredas ou diários mitológicos que vendem independência mas seleccionam melhor as noticias com lápiz azul(e branco) que outros. Mas o importante era repetir o mantra, "Ser Porto". Todos aqueles que tinham chegado até ali, muitos nascidos quando "Ser Porto" significava sofrer ano sim e ano também, tinham de reaprender a cartilha, não fosse alguém desconfiar de que "Ser Porto" não era lá com eles e como se o "Bibó Porto carago" que durante décadas se ouviu até no silêncio da neblina que todas as manhãs se adentra pela Douro fosse impossível de se vender nos emails enviados às empresas a quem se pede dinheiro para pagar os croisants que antes se compravam no Velasquez fiados. Mas por muito que vendam o grito, por muito que criem a linguagem moderna do que é, na prática, "ser Porto", há quanto tempo é que aqueles que a proclamam, ás vezes até em silêncio - pasme-se, há directores desportivos do clube que falam calados ou falam lá para fora, não para os seus, porque ficam melhor na fotografia - são eles Porto?

Foram, sem dúvida, foram Porto.
Foram provavelmente mais do que muitos ainda que o FC Porto, o que não ganhava todos os anos e sofria tantas vezes o injusto e criminal tratamento votado pelo centralismo, também estivesse cheio de homens grandes e que eram, sem dúvida, também eles, Porto. Mas ninguém discute, ninguém disputa que houve uma lufada de ar fresco quando quem hoje se esconde em muros de silêncio deu um pontapé na muralha para gritar, sem medo, que ser Porto era algo maior do que um motivo de orgulho, era uma forma de ser. Esses gritos, que se ouviam tão longe que minaram por dentro o sistema que nos afogava ano atrás ano, são a base de tudo e não há como esquecer essa voz que, quando falava, o mundo tremia. Durante três longas, inesquecíveis e intermináveis décadas - pelo menos na nossa memória - reescreveu-se o adn de um clube que deixou de ter medo de gritar que era ele próprio, um clube de portistas para portistas e disposto a tudo para não se deixar prejudicar por quem não suportava o êxito desses portistas. Forjou-se aí a cultura vigente, ás vezes substituindo coisas antigas, outras vezes recuperando-as. Nasceram dragões das nuvens, recuperou-se a "mistica" do balneário depois de anos de prima-donas que jantavam com presidentes para despedir treinadores e recuperaram-se figuras históricas, não para lamber feridas mas sim para lançar o futuro. A cada eleição, a cada aclamação, entendia-se aquele "ser Porto" porque não eram palavras vãs. O discurso tinha eco real no quotidiano e não eram apenas os titulos - nacionais e internacionais. Era o orgulho próprio, a identidade, a sensação de pertencer a algo grande, genuino e que não deixava de ser portuense, nortenho, apesar de haver espaço para todos. Aquele "ser Porto" era-o na teoria e na prática - vamos assumir já que ninguém é perfeito e que houve, como sempre, altos e baixos - e quem conduzia o navio era, sem dúvida, Porto. Ainda o é?

O novo processo eleitoral está prestes a chegar à sua conclusão antes de ter sido sequer iniciado, consequência lógica e inevitável de quem se sabe eterno e imortal - ele, os outros, todos - e não está para incomodar-se com burocracias. Mas se há rostos similares, alguns gastos pelos anos, pela vida e pelos excessos de tudo, o discurso hoje já não é o mesmo. É vazio, é oco, é um loop gasto, perdem-se já palavras, entendimentos e ilusões a cada vez que o "ser Porto" se corrompe, dia após dia. Tudo aquilo que se defendeu em 1977, que se reforçou em 1982 e que foi, ano atrás ano, dando força aos nossos despertares, é hoje memória presente mas vã, como aqueles que sentem nostalgia por algo que sabem que não vai voltar olhando para aqueles que lhes dizem, quase rindo-se de eles, de que esse algo nunca se foi. Mas foi, ó se foi. Em 1982 o FC Porto fez-se grande porque decidiu colocar o seu destino nas mãos de quem era Porto, soube ser Porto e soube fazer-nos a todos um pouco mais Porto. Mas em 1982 - e nos anos seguintes - o que o Porto não queria, o que não era ser Porto, o que nos fazia a todos um pouco menos Porto era precisamente aquilo que hoje aqueles que lutaram contra essa realidade colocam em prática com assustadora frequência. Procurei, juro que procurei, nos panfletos eleitorais, nas hemerotecas, no discurso e nas aclamações e vivas daqueles anos sinais do que é o Porto de hoje e não encontro paralelos, não encontro concordância. Em nenhum lugar encontrei sinais do que podiamos encontrar em relatórios de conta como os que vamos abrindo, trimestralmente, com resignação, as alvisseras e vivas a um "ser Porto" que inclui entre tantos outros pecados inconfessáveis:

- pagar comissões a familiares por negócios
- contratar familiares e familiares de amigos para a estrutura do clube
- permitir que familiares exerçam de porta-voz do clube, defenestrando simbolos reais de escudo no peito, ou coloquem em risco o próprio futuro do clube tendo acesso a informações mais tardes debitadas por meia dúzia de tostões e muito rancor
- estar mais preocupado em distribuir riqueza pela corte de amigos do que no futuro do clube
- apostar conscientemente na desvalorização desportiva em prole da dependência financeira alheia, entre bancos e fundos, o que ás vezes é o mesmo
- alhear-se do que é ser simbolo de uma cidade, de uma região, não como elemento exclusivo - todos podem ser Porto em qualquer canto do Mundo - mas como vector de dinamismo deixando essa luta abandonada ou a outros sem a mesma força que tem a voz do dragão
- abdicar de uma excelente equipa de scouting, forjada com anos de trabalho intenso de pessoas que, muitas vezes desde o biberão sim "são Porto", para externalizar esses serviços
- transformar a formação, a base de mais de década e meia de êxitos, num pro-forma, num negócio onde até percentagens de passes são oferecidos, como eclairs, em processos de renovação quando, quem assina, já tem o contrato escrito a azul e branco no coração
- transferir a seu belo prazer as quotas dos sócios, negligenciando as modalidades que sempre fizeram parte do ADN do clube e que também são, para muitos, Porto.
- transferir a seu belo prazer a posse do estádio, correndo o risco de deixar, num futuro em que a SAD possa não ser da instituição de um modo maioritário -e ninguém pode jurar que isso não passará - o FC Porto no olho da sua própria rua.
- calar, consentir e silenciar todos os "roubos de Igreja" que prejudicam, dia sim, dia também o clube quando o êxito do clube se construiu em gritar, não consentir e denunciar cada golpe que nos tentaram dar por cima e por debaixo da mesa
- permitir que os velhos poderes, os que se contestavam e que columpiados com o poder, esse que ia entrar na Assembleia com uma cabeça na bandeja, controlem como um polvo as instituições que têm poder de decisão sobre a vida desportiva onde compete o escudo e a camisola
- ser incapaz de competir com equipas menores, em orçamento e pedigree, sem um assomo de vergonha e auto-critica salvo por escorrer a culpa para os que já não estão, assobiando para o lado ao mesmo tempo que se engorda a maquinaria orçamentada até ao risco da implosão.

Não, não adianta procurar porque não vão encontrar nada que proponha como politica desportiva nada disto porque, "ser Porto", nessa altura de positivismo e arrojo, era outra coisa ainda que alguns sejam os mesmos, e muito do que hoje se faz era então combatido, valentemente, sem papas na lingua, sem medos e sem meias palavras.
Aquilo que corrompia o clube até as entranhas - o medo crónico, a subserviência, a desvalorização desportiva, o desrespeito pelo associado - aliado aquilo que nem nos piores anos se vivia como o nepotismo, as negociatas com entidades que existem debaixo de um imenso ponto de interrogação - está hoje mais presente do que então, a tal ponto que parece, pura e simplesmente, que voltamos a viajar no tempo. Nada pode apagar 30 anos de titulos e memórias que não se derretem no tempo mas também nada logra, realmente, explicar, tanto interesse em voltar atrás no tempo. Parece, de algum modo, que alguém se arrependeu de quem foi, do que significou e do que logrou e quer voltar ao inicio, recuperar a juventude perdida tentando voltar à casa de partida do jogo para reiniciar o processo. Só que todos sabemos que o tempo não volta para trás por muitos que alguns queiram e devolver o clube à mais miserável das condições não dá direito a jogar o jogo com uma nova vida guardada. Ou talvez aqueles que ajudaram a definir, com todo o mérito, aquele "ser Porto" se tenham esquecido do que foram.

Será, então, que esse "ser Porto" que foi também o de todos aqueles que vieram de trás e suportaram não a glória mas a dor, o sofrimento e a tristeza de perder sem poder lutar, existe ainda naquele espaço fechado onde se tomam as decisões que padecemos todos? No fundo, em todo este processo, só há uma pergunta que é ainda válida tendo em conta tudo o que sabemos, tudo o que desenterramos, tudo o que vivemos e tudo o que debates. Será, de verdade, que eles ainda são "Porto"?

22 comentários:

JOSE LIMA disse...

Caro Miguel Lourenço Pereira
Simplesmente arrasador! Obrigado por estar atento. Como diria o meu Avô "são verdades como punhos". Mais que não fosse os sócios deveriam "saber olhar" para os RC e fazer a análise do descalabro financeiro do clube e SAD nos últimos anos. Daí deduziam o resto. Abraço

DC disse...

O que custa é ver cada vez mais gente a saber disto e a não ter qualquer poder para mudar.
Eu já tomei uma decisão há algum tempo que é a de não dar quotas a estes abutres. O meu dinheiro não é para alimentar o Alexandre Pinto da Costa e outros como ele.
O Porto corre sérios riscos de ficar num estado de destruição massiva até que Pinto da Costa e a turba de sanguessugas seja corrida do clube ao pontapé.

Pedro ramos disse...

Por muito que me custe, neste momento é PdC que permite tudo isso. Com ele, ninguém tem coragem sequer de ir a jogo.
Infelizmente quem acaba por "pagar" por tudo isso é a equipa de futebol, jogadores e técnicos, porque na maior parte das vezes os adeptos ainda não sabem fazer essa separação.

César Martins disse...

Muito bom.

Paulo Rodrigues disse...

Tantos anos de glória devido a, provavelmente, o melhor Presidente de um clube de todos os tempos e agora chegamos a isto.

Custa-me imenso não ver alternativas credíveis e que, mesmo não sendo eleitos, não façam barulho. O abismo está tão perto e não percebo/entendo como os sócios ainda votam nesta administração, será que ainda são portistas? Faz-me lembrar um bocado o povo português: deixa-se roubar e ainda vota nos mesmos ( nem vou falar em manifestarem-se para limpar a corja que lá anda...).

PdC teve o seu tempo de glórias e estou eternamente agradecido mas como tudo na vida há um princípio, meio e fim. Pdc está no fim e a atitude digna era sair o mais depressa possível.

João Barbosa disse...

Muito bom Miguel.

José Lopes disse...

O filho a receber comissoes por intermediacao de jogadores que nao representa, a filha no canal do clube, o genro e o ex-cunhado do Antero tambem no cambalacho, etc. Tudo gente boa, tudo serio. Nao sei e' como ainda ha portistas que relativizam isto, fazem de conta que nao e' um escandalo, que a culpa e' do mundo do futebol e nao das PESSOAS, e que fazem apelos ao presidente como se este quisesse saber dos apelos para alguma coisa. Ainda ha quem atribua culpas a quem rodeia Pinto da Costa apenas para nao ter de ver que e' evidente que Pinto da Costa nao esta senil coisa nenhuma e que esse argumento, o de que a culpa e' sempre de quem rodeia e que ha que respeitar a obra e mais nao sei que, e' o tipo de discurso que se ouve de quem defender qualquer politico corrupto, veja-se os casos do Isaltino ou do Alberto Joao Jardim.

Andamos, como socios, a ser roubados. E' o unico termo para estas comissoes e para estes salarios da administracao quando comparados com a produtividade. Continuo a pagar quotas porque ja sao 28 anos de filiacao e porque representa ao menos a garantia de poder votar, mas o distanciamento e' cada vez maior.

Vidente Mor disse...

percebo mas um texto demasiado filosofico. O clube e dos socios, onde estao eles? se nao estivessem de acordo com o estado das coisas e com mais uma recandidatura de PC iam votar pelo menos branco ou nulo ou coisa assim, ou forçavam a candidatura de alguem, OU SERA QUE SAO TODOS ZOMBIES, NENHUM E DO TAL SOMOS PORTO?? mas afinal o que se passa os socios do porto sao todos ceguinhos, carneiros, sao afinal o que?? A CONCLUSAO E OBVIA A ESMAGADORA MAIORIA QUER CONTINUAR NESTE ESTADO DE COISAS , COM ESTA ADMINISTRAÇAO PARA VER SE CHEGAM AS GLORIAS DE OUTRORA, O RESTO SAO FILOSOFIAS QUE FICAM BEM NESTES TEXTOS MAS NADA MUDAM.

Lápis Azul e Branco disse...

Concordando com o essencial da mensagem, volto a repetir a ideia que já deixei noutro lado: não compreendo a resignação, sobretudo após tão eloquente exposição.

É verdade que o tempo é escasso. As eleições são a 17 de Abril e as candidaturas devem ser "apresentadas nos termos do disposto no artigo 52.º dos estatutos do clube", ou seja "até 30 dias antes da realização das eleições e ser propostas por, pelo menos, 300 associados sénior no pleno gozo dos seus direitos, devendo ser acompanhadas dos termos de aceitação dos candidatos". Ou seja, até 17 de Março. Sobram quinze dias.

No entanto, não é por isso que desisto de passar a mensagem de que "QUERO CANDIDATURAS ALTERNATIVAS". Credíveis, evidentemente. Mesmo que a derrota seja quase certa, servirá como sinal aos incumbentes de que novos tempos se avizinham. De maior escrutínio, de denúncia do que deve ser denunciado.

E podem ter como certeza esse(s) putativo(s) candidato(s) que mesmo perdendo sairão muito reforçados aos olhos dos portistas, pela coragem em dar o peito às balas (e aos enxovalhos) quando o clube mais precisa deles. E, sem dúvida nenhuma, darão um passo de gigante para se tornarem numa das principais candidaturas nas eleições seguintes - que aliás desconfio que serão antecipadas.

Nota final: Lápis Azul e Branco sou eu, agradeço que se evite criar confusões nefastas :-)


Abraço portista,

LAeB : Do Porto com Amor

Mário Faria disse...

Jogador à Porto e agora Ser Porto. Não, não é uma vacina para tomar, felizmente. “Em 1961 o clube atravessava sérias dificuldades financeiras. Foi então eleita uma Comissão Administrativa e o novo Presidente, Nascimento Cordeiro, conseguiu recuperar as finanças do clube numa época bastante difícil, já que qualquer que fosse a despesa, era sempre um problema”. Segundo um estudo do Nuno, entre 2001/2 e 2007/8 apresentámos de Resultados Operacionais Líquidos um prejuízo de cerca de 20mihões€. As contas nunca foram o nosso forte, nem Nascimento Cordeiro “durou” muito tempo.
O FCP tem um património brutal. E não só de vitórias. Devemos estar orgulhosos (eu estou) por fazer parte dele o Estádio do Dragão, o Dragão Caixa, o Museu, e o clube ter condições ímpares na Constituição para o Dragon Force, no Centro de Treinos e na Piscina Municipal. Se isto não é obra, onde está a obra? Podia ser melhor, podia.
Quando PdC chegou ao FCP e com o alto patrocínio de Pedroto, ousou concorrer com as equipas de Lisboa. Fomos muito competentes e chegámos a campeões. O Verão Quente obrigou a um intervalo, mas recuperou-se rapidamente. Foi um fartote de vitórias. Não é alheio a esta superioridade o facto de pertencermos à AFP que era a maior do país e gozava de um poder de influência que nunca pudera ter nos tempos em que a presidência da FPF rodava entre a rapaziada conceituada e de confiança política do SLB, do SCP, ou do Belenenses. Com a mudança de regime, passou a haver uma partilha de lugares mais democrática, mas dominámos quase sempre no sector da arbitragem. E foi sempre a somar.
A vitória na Taça dos Campeões Europeus pôs a boa gente de Lisboa em Alvoroço. Ousamos ganhar num território do clube de todos os regimes. Quebrar o FCP passou a doutrina. Por alguns bons motivos e muito interesse dos principais clubes de Lisboa, havia que mudar o cento do poder a que alguns chamavam o SISTEMA, com carácter de urgência. E nessa intervenção valeu tudo. Também por culpa própria, diga-se. E perdemos bastante. Quando o SLB conseguiu juntar à sua enorme influência uma equipa de futebol capaz de concorrer com o FCP, puderam, finalmente, juntar ao poder real e fáctico, uma estrutura competente que copiou bem os nossos moldes e, finalmente, ganhar títulos e praticar um futebol atractivo. O poder do SLB ganhou mais legitimidade
Muito mudou e ainda vai mudar mais. Hoje, li que alguns clubes ingleses estudam a possibilidade da criação de uma Super Liga Europeia. É estranho que se fale de futebol e da sua gestão, sem atentar no efeito do tempo e das mudanças profundas que têm perpassado nas sociedades. E no futebol, obviamente. E no FCP, de certeza. Não me admiraria que a prazo se esteja a negociar a entrada de novos investidores.

Mário Faria disse...

Continuo a pensar que o nosso Presidente não mudou muito. As circunstâncias é que mudaram, e as vitórias é que minguaram. Está mais velho e continua resistir, quando provavelmente já deveria ter passado à reforma. PdC acha que não e está no seu pleno direito. Vou-me repetir, mas uma repetição que não fica alheia à situação preocupante do clube, em termos desportivos e financeiros. Dependemos demais das vendas e da presença na CL. Temos uma folha salarial desproporcionada, relativamente ao valor do plantel. Estamos longe de garantir a presença na CL e resta-nos a taça, a nível interno. Podemos salvar a época, mas podemos perder tudo. Como não havemos de estar preocupados? Os sócios têm o direito e o dever de intervir, conforme lhes dá mais jeito. E percebo a severidade. Tem havido erros a mais na formação do plantel, despesa a mais, dívida a mais, juros a mais, comissões a mais, vitórias a menos e transparência a menos.
Esta coisa da transparência é importante. “Ser Porto” da parte de um sócio é uma questão meramente individual. Só me represento a mim. “Ser Porto” por parte do Presidente, é totalmente diferente. Tem o enorme poder de representar a instituição e de tomar decisões, em seu nome. O FCP tem um enorme prestígio que PdC personaliza. Ainda que se fale da importância e do mérito dos sócios pela sua perseverança e apoio na caminhada, raramente são chamados a ser ouvidos fora das obrigações estatutárias, que não passam de rotinas sem significado, porque os sócios não aderem e as direcções não se importam. A formação da SAD aprofundou o distanciamento. PdC pela qualidade da sua representação, pelo tempo que está à frente dos destinos do clube e pelo aval que recebe de um número muito significativo de sócios, tomou a presidência, formou a estrutura, premiou e saneou e continua a ser o suporte do núcleo dura que o acompanha há largos anos. Este enorme poder deveria aconselhar uma grande prudência e um acompanhamento devidamente selecionado, relativamente a todos os colaboradores. E a todos os negócios, nomeadamente de intermediação. E a todos os familiares.
Em suma: a forma de “Ser Porto” por parte de PdC é diferente da minha. Como não tomo decisões que contem para o totobola, como poderia a minha condição de “Ser Porto” senão genuína e inocente. PdC tem poder, decide, negoceia, recebe salários e prémios, escolhe os parceiros e, nesta condição, toma decisões certas e erradas com os companheiros da direcção. Foi eleito para isso. É impossível que esse imenso poder não traduza um “Ser Porto” diferente porque quer ganhar muito para além da peregrinação na Avenida dos Aliados. É um “Ser Porto” também feito de interesse porque traduz muitos proveitos. Que não são pecado, nem inocentes.
A indústria do futebol, como é de bom-tom dizer, criou uma rede de interesses sem controlo e os abutres andam por aí. E, por sabermos isso, como perceber que as comissões referentes à aquisição de passes na presente época andem acima dos 25%? E quando não se percebe desconfia-se porque ninguém explica.

Miguel Ferreira da Costa disse...

É por estas e por outras que a minha contribuição para este peditório acaba em Maio de 2016. Quanto a voltar a ocupar o meu lugar anual de há muitos anos, só se for por engano...
Para bens ao autor desta prosa,

Pedro disse...

Toda a gente fala da SAD, de PC, de comissões que até nem sabem bem para onde vai, mas que ás vezes dá jeito insinuar que vão para familiares. O que ninguém fala é dos sócios e adeptos. Dos que em bons momentos seguem mais ou menos, e que em maus momentos abandonam a equipa, abandonam o apoio e a contestação. Recentemente estive na minha 1ª AG. Escusado será dizer que estava vazia praticamente.

Contestação sim. Com textos filosóficos recheados de populismo, não!

Eles ainda têm algo de Porto, pouco. Nós adeptos... nem por isso.

Francisco Paulos disse...

Somos o clube das comissões e dos comissionistas,o clube dos tachos para os familiares e amigos,o clube onde os negócios se sobrepõem às vitórias. É inadmissível não haver ninguém que se candidate mesmo perdendo.Podia aproveitar a campanha para denunciar muitos podres e assim posicionar-se para uma futura eleição. Quanto ao texto deste post está bom e concordo com ele

Joao Moreno disse...

Também são Porto, desde que continuem a viver à conta e por conta. Excelente texto. É por isto que, se não houver alternativa, votarei em branco ou nulo, pela 1ª vez.

José Rodrigues disse...

Excelente artigo do Miguel.

Relembro ja' agora q PdC disse ha' mais de 30 anos q nunca iria aceitar um cargo remunerado no FCP, q o q o movia era o amor ao clube. Hoje em dia nao so' e' pago de forma principesca (ha' ja' mais de 15 anos), tendo acumulado uma fortuna imensa, como ainda arranja tachos de luxo para os filhos (o filho nos ultimos 2 anos levou 2,5M de comissoes do FCP, cortesia do pai; errr, perdao, da SAD).

De facto "longos dias tem 100 anos"...

De resto o Miguel esqueceu-se de outra coisa q nao e' "ser Porto", e q muito mudou nos ultimos 30 anos: ser Porto tambem nao e' dar um poder (e tachos) desmesurados a uma claque do clube.

Como o Mario Faria diz, muita coisa mudou no mundo do futebol nos ultimos 30 anos, no contexto externo ao FCP. No entanto NADA DISSO explica minimamente 90% dos pecados indicados pelo Miguel. Nao foi por causa dessas mudancas q se tem q se arranjar tachos para os filhos e amigos, acomodar-se na politica de comunicacao, dar poder desmesurado a lideres de claques, etc.

Ou foi, Mario?

bruno borges bayr disse...

pimba, golo!

DC disse...

Vejo com agrado que a contestação a esta miséria que vai pelo Porto já é bastante abrangente na blogosfera. Diria que o próximo passo é fazê-la passar dos blogs para a rua. Espero que esse passo seja dado brevemente.

Filipe Sousa disse...

Se calhar estava vazia, porque há uma "polícia do pensamento" que "desaconselha" declaracoes que desafinem do diapasao oficial; para além do escandalo das comissoes, a guarda pretoriana era outra "inovacao" que deveria ser erradicada.

Miguel Lourenço Pereira disse...

Pedro,

"mas que ás vezes dá jeito insinuar que vão para familiares"

Aqui não se insinua nada, convém ler os relatórios de contas que indicam a que empresas o Porto pagou comissões e a que agentes e depois confirmar quem trabalha nessas empresas para encontrar filhos, cunhados e irmãos de directores da SAD. Já o PortoCanal requere menos esforço ainda, a familia está lá (quase) toda.

João disse...

Desculpem o off-topic mas nunca há um post depois destes jogos palhaçada para dizer isto. Alguém que acabe com a carreira do Sérgio Oliveira, já mete pena. Nunca vi ninguém simultaneamente tão tronco, tão burro e tão displicente.

Em relação ao assunto, completamente de acordo com o Miguel. Agora deixar de pagar quotas é regar a fogueira com gasolina.

DC disse...

É só não aceitar que o meu dinheiro esteja a ser gasto num aumento de Custos do Pessoal brutal sem que isso se reflicta no plantel. Ou seja, não ando a pagar jogadores, ando a pagar administradores. E eu não estou para isso.
Chamem-me o que quiserem mas eu se isto continua assim por muitos anos deixo o Porto definitivamente e não tenho vergonha de o dizer. Não gosto de financiar aldrabões e corruptos.