sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A brutal ascensão de André Silva

André Silva.
Neste marasmo absoluto de meses de competição, com uma equipa que joga como clube pequeno contra grandes e anões do futebol nacional e internacional, poucas noticias positivas há a celebrar. O defeso foi um desastre, os dois meses de pré-época a trabalhar em 4-3-3 foram atirados ao ar por um 4-4-2 que parte da premissa de que "primeiro não perdemos e depois já vemos se ganhamos" tão fiel ao espirito do seu treinador e salvo as aparições positivas de Otávio e Diogo Jota e as boas sensações, um ano mais, de Danilo e Layun, pouco há que acrescentar a um plantel que dista muito do nível de exigência de um FC Porto. Mas depois há André Silva.

O avançado portuense leva sete golos e três assistências em treze jogos. Não são números de Mário Jardel mas não estão demasiado longe. São apenas dois meses completos de competição (obviando os quatro golos em três jogos que já tem como internacional A) e aos 20 anos, André é já um dos avançados mais determinantes no futebol nacional, um seguro de vida para um clube que decidiu que depois de deixar sair Aboubakar a solução era contratar Depoitre caso André não estivesse a um nível que, francamente, não era supor estar. Estamos a falar do primeiro ano de sénior de um avançado que na época passada apenas começou a contar - e pouco - na segunda metade da época. Lopetegui foi assobiado por não o colocar em campo (blasfémia, e mais para quem não tinha tido medo com Ruben Neves e vinha dos escalões de formação) e Peseiro nunca soube muito bem o que fazer com ele. A brilhante exibição no Jamor, repleta de garra e magia levou-o inclusive a entrar na lista de muitos para o Europeu de França no lugar de Éder. Felizmente Fernando Santos manteve-se fiel a si mesmo. Felizmente para Éder, para Portugal e para o FC Porto que, provavelmente, teria ficado sem o avançado no defeso e hoje estaria a lutar com os Depoitres que por cá aterram. Obviando a lenga-lenga para dormir de que o clube podia ter vendido o avançado se quisesse - claro que sim - e que esse cenário não esteja demasiado distante num futuro próximo face ao estado desastroso das finanças desta gestão, o certo é que é dificil olhar para os números e para os jogos e esquecer-se que André está apenas a dar os primeiros passos. No entanto a sua frieza - o penalti em Bruges foi apenas mais um golpe de autoridade moral - e a sua progressão convidam a sonhar alto. Tem ainda muitos defeitos, sobretudo na recepção e controlo orientado, no jogo ao primeiro toque e no futebol de apoio. É um avançado de presença na área e de progressão vertical á base da potência, não da técnica. Sem os primeiros, dificilmente triunfará na elite mundial mas com vinte anos está muito bem a tempo de limar essas arestas no seu jogo. O que está claro - e que muitos pareciam duvidar no ano passado - é que André tem golo. Tem faro de golo, tem apetite de golo e tem tido a capacidade de desbloquear encontros graças aos seus golos, algo de que o Porto carecia profundamente.



Convém, sobretudo, ao pensar nestes dois primeiros meses de André Silva como titular indiscutível do ataque dos Dragões pensar no que fizeram os outros avançados que saltaram da formação á primeira equipa no passado. Ajuda a ter uma perspectiva real do seu crescimento.
Pensemos, por exemplo, em Hélder Postiga, lançado por Octávio Machado em 2001-02, que disputou um total de 41 jogos em todo o ano anotando 13 golos, nove deles na Liga (praticamente os mesmos que André tem em Outubro, cinco) e dois em Champions (os mesmos que tem André, contando em ambos casos a fase preliminar).
Pensemos, por exemplo, em Hugo Almeida, que em 2003-04 passa a contar finalmente para a primeira equipa depois de marcar, inclusive, na inauguração do Dragão, é emprestado em Janeiro porque nos sete jogos oficiais disputados não marca um só golo, um cenário que repetiria no ano seguinte, sendo que só em 2005/06 consegue o seu primeiro golo como profissional.
Pensemos, por exemplo, em Domingos Paciência, que em 1987/88, ano de todos os títulos menos a Taça dos Campeões Europeus - e portanto, ano de super-equipa - jogou doze jogos oficiais e marcou um só golo. No ano seguinte anotou seis em trinta e três e para superar a cifra que André Silva já tem esta época é preciso esperar á 1990/91, quando marca 31 golos em 44 jogos naquele que foi o seu quarto ano de profissional, tendo já 22 no Bilhete de Identidade.
E claro, pensemos no mito Fernando Gomes, que tal como André Silva se estreou na primeira equipa numa época de profunda crise desportiva, no ano 1975/75 marcou 18 golos na sua primeira temporada como profissional em vinte e oito jogos que disputou em todas as competições. Uma cifra quase triplica a de André com dois meses de competição mas que está perfeitamente ao seu alcance - faltam mais de seis meses para terminar o ano desportivo - e que explica bem, em perspectiva, onde pode chegar o jovem avançado. Aos pés do Bibota, nem mais nem menos.

André Silva não precisa de maior pressão. Já a tem toda. É o nove titular do FC Porto. E no entanto, com 20 anos e toda essa pressão - mais sendo consciente, porque seguramente o é, que a equipa depende dele para marcar porque Adrian e Depoitre não serão nunca alternativas lógicas - André tem sabido responder bem ás expectativas o que demonstra não só espirito goleador como alma de guerreiro. No meio de tanto cinzentismo, a sua brutal ascensão é a grande notícia que nos alegra o corpo e alma de dragões.

8 comentários:

Artur Rodrigues disse...

Sem por em causa o valor e principalmente o potencial de André Silva, compara-lo ao mítico (sim, mítico e não mito porque Fernando Gomes não foi um mito) Fernando Gomes é neste momento ousado, muito ousado, demasiado ousado. Fernando Gomes estreou-se também numa época de profunda crise desportiva tendo marcado 18 golos em 28 jogos, sim, mas com uma significativa diferença: Fernando Gomes fez essa época de estreia com 18 anos. Com os mesmos 20 anos de André Silva, Fernando Gomes já somava 65 golos marcados em 91 jogos (média de 0,71 golos/jogo), contra os 10 golos marcados por André Silva em 27 jogos (média de 0,37 golos/jogo). Dizer com isto que André Silva está "aos pés do Bibota, nem mais nem menos", é fazer como o nosso Presidente e esquecer a nossa História. André Silva tem um grande potencial, repleto de defeitos a corrigir, mas infelizmente está ainda muito longe dos números e da qualidade do Bibota.

Miguel Lourenço Pereira disse...

Artur,

Sem dúvida, não se trata de se comparar o incomparável (e Gomes é incomparável) mas sim colocar em perspectiva o que o André está e pode fazer. O Gomes era um prodigio a distintos niveis - não só goleador - e um futebolista precoce em todos os sentidos e será muito dificil que o André chegue perto do seu valor como jogador. No entanto, numa época de estreia como profissional - depois das boas sensações no final de época - ter números como os que tem permitem-nos ver realmente o seu ponto de evolução. Não por alcançar - se é que alcança - Gomes que será tão bom ou melhor jogador que ele mas no contexto actual não deixa de ser um êxito histórico, uma vez que essa é ainda hoje a referência máxima de um estreante como profissional com a camisola do FCP numa época completa.

Pedro disse...

só há elogios para André, Danilo e Layún? e o excelente reforço Alex Telles? ou o super consistente Maxi? e a surpresa Otávio? ou mesmo o patrão Marcano a segurar a equipa agora em Brugge?

Mário Faria disse...

FG foi o melhor júnior que vi actuar. Segui de muito perto a sua formação e integração nos seniores. Mas, por essas alturas o quadro competitivo na formação não tem nada a ver com o que temos por estes dias. Era vulgar o FCP vencer por números astronímicos. E o Bi-Bota ultrapassou todos os limites em termos de concretização. Se acho que o André é menos astuto na desmarcação e pior na finalizador que FG, é muito mais rápido e agressivo. E, por isso, se o seu crescimento acontecer de forma progressiva, acho que vai ser melhor que FG. E provavelmente não ficará por cá durante muito tempo.
Mas, isso sou eu dizer.

Minha Chama disse...

Infelizmente para mim - ;) - Este artigo transmite a ideia que tenho do André. Vejo o futuro nele. Que se mantenha fiel ao futebol e que aprenda a moldar as insuficiências.

Francisco Andrade disse...

Mais dois.

littbarski disse...

72% de posse de bola a jogar como equipa pequena... como equipa pequena jogávamos quando tínhamos bola e não sabíamos o que fazer com ela. qualquer equipa vinha ao dragão e chegava ao ataque com 5/6 jogadores, pois sabia que teria todo o tempo do mundo para recuperar posições, uma vez que o Porto não sabia fazer um contra-ataque. tantas vezes me lembrei da cena da espada e da pistola do Indiana Jones... o problema não é o modelo de jogo, que é bem mais incisivo do que o pseudofutebol de topo que por cá andou nos últimos anos, o problema é falta de qualidade no imediato. Há alguma qualidade para o futuro, como no caso do André Silva, mas no futuro o André Silva não vai estar cá e, portanto, o problema mantém-se. E este é que é o problema, o círculo vicioso que se instalou no nosso clube e que nos faz perder qualidade de ano para ano, para além de destruir o ADN portista que tanto custou a construir.

bruno disse...

@pedro
alex tellez excelente reforço? super maxi? patrão marcano? epa, assustadora visão. é muito bom ser optimista, mas há coisas demasiado evidentes.

o andré silva tem muito potencial, e se a equipa acompanhar vai ser muito útil.
e parece-me que tem a atitude necessária para vencer como futebolista de elite.
que a equipe o ajude a ser o melhor marcador do campeonato, para que nos ajude a vencer este título.