domingo, 23 de outubro de 2016

O "Jogar à Porto" de NES

Na conferência de imprensa que se seguiu ao triunfo por 3-0 sobre o Arouca, Nuno Espirito do Santo teve um gesto extremamente atípico num treinador de futebol de elite: falou de futebol, falou de treino, falou de táctica, falou de mentalidade. NES desligou o piloto automático habitual que faz com que cada conferência acabe quase sempre por ser um exercício de repetição da anterior e deixou plasmado, visualmente, o que ele entende por "Jogar à Porto". Um modelo onde o sistema, a táctica, o desenho em campo, tudo se reduza a um plano secundário face a um conjunto de valores partilhados pelo grupo. E sabem que mais? Tem toda a razão.

O "Jogar à Porto" é um conceito pintocostista, forjado na década de vitórias dos anos oitenta, que bebia directamente da radical mudança implementada na década anterior pelo "refundador" moral do clube, José Maria Pedroto. Pedroto - o mais brutal treinador da história do futebol luso - não era um inovador táctico como Guardiola nem era um motivador nato como Simeone nem um gestor de grupo privilegiado como foi (ou é?) José Mourinho. Era um pouco de tudo. Para o "Zé do Boné" jogar em 4-4-2 - a táctica habitual da época - não era um santo e senha mas também não era um condicionante. Jogou em 4-5-1, jogou em 4-2-4, jogou em 4-3-3 em muitas ocasiões da sua carreira. Porque os resultados eram quase sempre os mesmos? Porque o importante não era o desenho, era a atitude. Se algo defendeu Pedroto foi a criação de uma base forte no balneário, um espírito de coesão de equipa onde cada jogador sabia que tinha e devia confiar no colega, onde todos jogavam para todos - mesmo quando havia dandys do talento de um Oliveira - e que o importante era controlar onde se jogava - o espaço - e o ritmo a que se jogava - a bola - dentro de uma dinâmica grupal. Para Pedroto as linhas não existiam por si mesmas se não que eram tecidas no balneário, no treino, nas conversas com e entre os jogadores. Se um jogador estivesse preparado a dar a vida pelo colega em campo, a dar tudo pelo clube, então as probabilidades de êxito eram muito maiores. Claro que Pedroto não inventou nada. Quase todas as grandes equipas da história partiam dessa premissa mas no caso do Porto, um clube sem dinheiro para contratar estrelas e que dependia enormemente da formação e da prospecção em clubes vizinhos - de onde vinha o 80% do plantel quase sempre - essa realidade tornava-se cada vez mais importante. Para contrariar o "Sistema" e a qualidade dos planteis mais ricos dos clubes de Lisboa, o forjar desse "Jogar à Porto", tão bem interpretado por Rodolfo e João Pinto, por Octávio e André, por Jaime Magalhães e Frasco, durante esses quinze anos, assentou as sólidas base do êxito do clube mesmo quando Pedroto já não estava.


NES recuperou exactamente as mesmas expressões, a mesma atitude na formação do grupo. Ele conhece a casa. Ele viveu o que é "Jogar à Porto" mesmo na sua etapa já mais decadente onde os valores se foram perdendo por culpa de uma SAD com mais olhos que barriga que levaram o clube à situação financeira penosa onde se encontra. E portanto é natural que seja ele - e não Lopetegui ou Peseiro - a explicar algo que, no entanto, também Villas-Boas e Vitor Pereira fizeram durante três anos. A diferença? NES tem claramente material de pior qualidade para por a ideia em prática. Porque criar o pilar que é introduzir no jogador o "Jogar à Porto" é fundamental mas não suficiente. Não o é quando falta qualidade individual. Não o é quando o jogador sabe que daqui a oito meses nada disto lhe vai servir porque vai ser despachado pela SAD para tapar buracos. Não o é quando é o próprio jogador que está com a cabeça noutro lado. Esses problemas não os teve nunca Pedroto - que viveu outro mundo - e que agora minam o balneário. Porquê?
Porque foi a própria SAD do clube que em diversas ocasiões manifestou a evidência de que o jogador do FCP é-o apenas durante ciclos curtos. Foram eles que abandonaram a formação e o campo de recrutamento local - que permitiu que os Diogo Jota, Rafas e afins acabem noutro lado - em função de negócios aparentemente mais lucrativos mas que deixavam o balneário sem referências. Foram eles que procuraram satisfazer caprichos de treinador, agentes e comissionistas e esqueceram-se da necessidade de ter sempre lideres a passar a mensagem, nacionais ou estrangeiros. Porque olhando para Helton ou Sapunaru, para Lucho ou Hulk, está claro que não é preciso ser-se portuense para ser-se "Jogador à Porto". Mas hoje já nem isso sobra porque o importante é o tal ciclo que acabou num problema de muitos milhões e poucas soluções. Os balneários hoje não são os de antes nem o são os jogadores. André Silva é da casa. Ruben Neves também. Ambos querem ser jogador do Porto durante muito tempo mas ambos sabem que o clube os tentou vender num passado muito recente porque as contas são mais importantes que ter essa base de "Jogar á Porto". Com que motivação jogam se sabem que têm o destino marcado por decisões que não são suas. E que pode fazer um treinador que quer criar esse núcleo duro se os jogadores que escolhe para que façam parte do mesmo são provavelmente os primeiros com guia de marcha - juntem a esses dois Danilo, Layun e Herrera e podem fazer-se uma ideia de quem vai ser vendido em Junho para salvar as contas.

NES deu ontem uma lição que todos os portistas que cresceram com o clube nos últimos trinta anos sabem de memória. Que "Jogar à Porto" não pode ser nunca um espelho do que faz um Barcelona porque as nossas condições são e sempre foram diferentes. Que querer implementar um desenho táctico, um sistema de jogo, nunca pode ser a prioridade num clube que se fez grande com base noutros princípios e valores. NES tacticamente não é um treinador entusiasmante nem apresenta um futebol vistoso e provavelmente não tem sequer nível mínimo exigido para levar o FC Porto ao êxito. Mas sabe qual é a base a partir da qual se constroem os triunfos nesta instituição e é normal que ressalve esse processo, sobretudo quando, e é evidente, tem um grupo de jogadores novos e jovens, a maioria dos quais com o futuro já traçado antes de começar, que dificultam ainda mais o seu trabalho. Não tem a mesma matéria prima da esmagadora maioria dos treinadores do FC Porto pos-Pedroto e não tem culpa no cartório nesse aspecto. É de louvar que queira recuperar uma ideia e uma mensagem - pelo menos na teoria - e que procure criar este cordão de empatia com os adeptos que valorizam essa aproximação ao ADN do clube. No entanto, sabe ele e sabemos que nós que isso será sempre insuficiente se todo o trabalho de base for deitado borda fora para tapar erros de muitos anos. Porque se algo fez do FC Porto grande, no passado, foi a constância de uma ideia, esse "Jogar à Porto" que mais do que as vitórias em campo selaram para sempre a história deste clube.

12 comentários:

scape disse...

concordo com tudo o que esta escrito,mas faco uma pergunta:aquele exercicio nao devia ser exclusivo dos balnearios do FCPORTO?helder oliveira

Jomes Band disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
reine margot disse...

Como se vê a cada dia na bluegosfera e nos jornais e tvs cada um pode ter a sua versão do que é "ser portista", e do que é "jogar à Porto". É importante que o treinador do clube diga qual é a sua. Sobretudo é bom que se afirme.A mensagem não foi para dentro, foi para fora! Exatamente para termos constância e consistência, há que ter o apoio dos adeptos, e o respeito dos restantes. Há que saber o que pensa o treinador e o que anda a fazer nos treinos e nos tempos livres. - A Pedroto importava-o um grosso o que pensavam dele, mas hoje quem não cuida de parecer ser, mais do ser apenas a mulher de César esta feito!.


PS: "NES tacticamente não é um treinador entusiasmante nem apresenta um futebol vistoso e provavelmente não tem sequer nível mínimo exigido para levar o FC Porto ao êxito."

Bem, eu acho que os primeiros 15 minutos de ontem foram de um futebol bem vistoso!

Mário Faria disse...

Acho que este artigo é interessante, mas questiona-se a si mesmo pela profusão de ideias que se contradizem. No FCP antes de Pedroto não havia falta de identidade. Pelo contrário: foi com ela que sobrevivemos, tivemos grandes equipas e poucas vitórias. Os jogadores vestiam a camisola que envergavam toda a vida ou quase. Eram fieis e sujavam os calções. E tivemos momento de enorme esplendor. Faltou organização e liderança. E a luta era muito desigual. Lisboa criou uma cortina de ferro que protegia os seus clubes com unhas e dentes o que era facilitado pelo governo ultra centralista que nos desgovernava e de uma federação que seguia esse valor maior. Insisto: o FCP por essa altura era gerido por uma estrutura amadora e não raramente era vítima da tendência autofágica dos seus dirigentes. Não creio que seja muito útil recriar o ambiente de ontem para que regressem as vitórias. O amor ao clube é o principal. Logo a seguir a competência e o profissionalismo. E depois sabermos adaptar-nos às novas condições e contingências. Todos.
Há três anos que não vencemos. O culto da vitória sobrepôs-se ao amor ao clube. Os atletas e os treinadores são julgados sumariamente quando se perde, a exibição é pobre e o desempenho dos artistas e do mister são tidas como medíocres. Para mais quando logo a seguir, vem uma série de especialistas encartados explicar com toda a certeza o que falhou e o que se deveria ter feito para o evitar e que confirmam os nossos pareceres. SE “NES tacticamente não é um treinador entusiasmante nem apresenta um futebol vistoso e provavelmente não tem sequer nível mínimo exigido para levar o FC Porto ao êxito” como poderemos chegar a campeões se acrescentarmos a este défice na condução da equipa a existência de jogadores muito jovens e de muitos outros apenas medianos? Pelo que foi escrito, obviamente que não chegámos a lado nenhum e apenas poderemos aspirar ao terceiro lugar.
A “demonstração” de NES foi útil? Foi, mas uma andorinha não cria a primavera. Tenho notado um maior espírito de grupo no FCP e isso ajuda. Os sócios compreendem o discurso. E pode ser que amaciem a contestação fácil e barulhenta ao primeiro passe falhado. As vitórias também ajudam e não é pouco. Mas do que ficou dito, a não ser que haja evolução muito positiva, é que poderemos sonhar. Mas, com um treinador que não cumpre os mínimos, como lá chegar? É um teorema sem solução. Não é?
Pela minha parte vou-me ajustando jogo a jogo e os prognósticos deixo para o fim. Gosto do NES.

JOSE LIMA disse...

Uma bela interpretação do Miguel, e um otimismo contido do Mário Faria. Se bem me lembro do tempo de Pedroto ambos estão certos. Por mim, mea culpa, ainda estou um pouco desiludido com a forma de jogar da equipa. Muita lateralização, muitos passes atrasados, a maior parte do tempo de posse de bola é inconsequente mas, a pouco-e-pouco, parece que as coisas estão a encarreirar. Não noto vedetismos nos jogadores, apenas uma certa frustração pelos constantes assobios sempre que falham um passe ou um pontapé à baliza.
Temos também de pensar que "nós", sócios e adeptos, também precisamos de reciclagem. Vamos lá confiar nele, nos rapazes que temos, e pensar que dar apoio ao treinador que me parece ser uma pessoa séria resultará em nosso benefício.
Saudações portistas

Ricardo Rocha disse...

"""André Silva é da casa. Ruben Neves também. Ambos querem ser jogador do Porto durante muito tempo mas ambos sabem que o clube os tentou vender num passado muito recente porque as contas são mais importantes que ter essa base de "Jogar á Porto". Com que motivação jogam se sabem que têm o destino marcado por decisões que não são suas"""

O artigo faz pouco sentido, como a frase acima. Ainda mais num ano em que se vê algum resultado da formação que é o que tanta gente anda a pedir há anos.

Os jogadores acima, como todos os outros, querem ficar no Porto o tempo exacto até aparecer um clube maior ou um cheque ainda maior. Quase mas pelos vistos nem todos aprendemos a viver com isso há muitos anos.

Luís Vieira disse...

Acho que é pacífico dizer que o aspecto positivo mais evidente da curta passagem do Nuno pelo banco é a criação de espírito de grupo, de uma certa união que andava arredada com Peseiro e Lopetegui. Se esta filosofia convencer os jogadores, como parece acontecer até agora, é meio caminho andado para o sucesso. No entanto, o modelo de jogo ainda deixa muito a desejar. Não sei se vai haver melhorias no "jogar", mas até lá é crucial não perder pontos no Bonfim para depois disputar a liderança com os mouros.

SUMO disse...

Boas,

Eu achei tudo aquilo ridículo. Digam-me um clube ou treinador, ou melhor, alguma organização ou grupo seja do que for, que não defenda aqueles valores. Ele citou o processo de treino, não falou nada dele. A única coisa que disse acerca da ideia de jogo é que quer reduzir o campo para estar mais perto da baliza adversária, como fazem todas as equipas que jogam para ganhar. Li muita gente preocupada por NES revelar segredos aparentemente bem guardados. Mas repito: digam-me uma organização que se baseia em trabalho de grupo e em equipa que não defenda exactamente o mesmo.
A repetição desta ideia, vezes sem conta, só tem uma leitura para mim: neste tempo todo, o NES ainda não conseguiu passar esta mensagem simples ao grupo que comanda.

Saudações!

Filipe Sousa disse...

Os vídeos disponibilizados até aqui nao sao esclarecedores, mas o mais provável é que a exposicao do NES, tenha sido despoletada pela pergunta "o que é jogar 'a Porto" - e mais provável ainda é ter sido colocada por algum "jornalista" da Borla/Reco/CM, armado em "carapau de corrida". Pois teve a resposta que merecia e certamente nao esperava. Agora apressam-se a ridicularizar o NES, mas o que seguramente nunca os veremos fazer, é a colocar questoes semelhantes ao Rui Vitória e afins.

António Martins disse...

Quando li que o Helton era um jogador à porto parei, e vim aqui escrever este comentário, creio que é mais do que suficiente para se perceber que o conceito de jogador à Porto está perdido até entre os adeptos. No dia em que o Helton for jogador à Porto eu arrumo e passo só a ver as modalidades.

Com exemplos como João Pinto, Jorge Costa, Fernando Couto, Lucho, Hulk, Deco, vai-se falar de um tipo que depois das derrotas até sorria e dava autógrafos, sinceramente. Um tipo que nos momentos de maior importância jogava desconcentrado e dava casas que até aqui em Espanha era conhecido por isso. Não brinquem comigo. O gajo simpático das guitarras e sem alma de vencedor, aquele que dobrava antes de quebrar? E o final foi o que foi, primeiro com aquela mensagem nas redes sociais e depois esta última palhaçada que até motivou comunicado do clube.

Helton desculpe lá mas não é jogador à Porto nem nunca o foi nem nunca será, pelo menos do Porto que eu me apaixonei desde o dia que eu nasci.

bruno disse...

@Antonio Martins
concordo na totalidade. helton era um bom rapaz para ter no balneário, mas dai a grande capitão e jogador à porto, vai uma grande distância.

neste plantel nao existe nenhum jogador com perfil à porto dos anos 80 e 90, e os únicos que se aproximam são 2 ou 3 jovens portugueses, e maxi pereira.

AJC Guedes disse...

Este Porto não é o meu Porto, o Pinto da Costa já não é o mesmo, numa situação normal já estaria atacar os encornados, relativamente ao caso dos vauchers! Já ninguém nos teme, é uma vergonha. Ganharam duas vezes seguidas, já vem dar entrevistas a dizer que vai fazer 115M, já tenho vergonha de ser Porto, por muito que me custe!!!