sábado, 2 de setembro de 2017

Zero reforços

Sérgio Conceição é um tipo com coragem. Tem feito um trabalho admirável de coesão, colocou a equipa a jogar bastante mais (sem ser brilhante tem logrado momentos de brilhantês, o que não é o mesmo), assumiu uma abordagem vertical, ofensiva e de riscos e, sobretudo, um projecto que hoje lhe dá menos a ele do que ele pode dar ao projecto. E para isso é preciso ser um tipo de coragem.

O "negócio" de Vaná - a posição que o FC Porto seguramente mais precisava de reforçar - impede que podamos afirmar que o FC Porto não contratou ninguém neste defeso. Também há quem defenda que além dessa "contratação", o FC Porto também recebeu na forma dos emprestados do ano passado "reforços", casos de Ricardo Pereira, Moussa Marega (um jogador que a esmagadora maioria dos adeptos há um ano ofereceria grátis a quem quisesse pegar nele) e Vincent Aboubakar. Recuso-me a chamar "reforços" a jogadores que já pertenciam ao clube e que, pelo menos no caso de Ricardo e Aboubakar, jamais deviam sequer ter saído do plantel principal. Portanto, sendo intelectualmente honestos, o FC Porto não contratou ninguém útil e não se reforçou no mercado. Sérgio Conceição sabia que chegava a um clube com problemas financeiros - motivo por qual a maioria dos treinadores sondados por Pinto da Costa lhe deu as costas - e debaixo do olho atento da UEFA. O que provavelmente não sabia é que não ia sequer ter um pequeno brinde até ao fim do mercado na forma de um ou dois jogadores da sua escolha. Conceição é o primeiro treinador que começa uma época com o FC Porto sem um reforço pedido. Nem um. Se nos lembramos que Co Adriaanse abandonou o barco por algo parecido há pouco mais de uma década, fica claro como as coisas mudaram no Dragão. O Porto vai para a guerra com os mesmos do ano passado, entre os que estavam e os emprestados. Nem mais nem menos.

Tudo o que suceda a partir de agora é, portanto, um milagre.
Para ser segundos o clube já tinha os Lopetegui e NES da vida. Depois de quatro anos o clube tinha de fazer um esforço para ser campeão e quebrar um ciclo nefasto. Não o fez. E o treinador será o menos culpado. Conceição pode cometer erros (vale a pena pensar na formação e no seu tratamento da mesma num futuro) de cariz táctico em determinados jogos (o esquema original já deu para perceber qual é e ninguém vem enganado) ou ter problemas de gestão de balneário. Mas sem ovos nem o melhor cozinheiro faz omeletes. O Benfica e, sobretudo, o Sporting, reforçaram-se bastante melhor e têm planteis com mais soluções para a maioria das posições. Se o Porto já não partia em superioridade face ao que havia em cada onze no ano passado, este ano o abismo aumenta. Uma lesão de Soares/Aboubakar, de Oliver, de Danilo ou de Brahimi abre um problema muito sério. São 41 jogos, o mínimo, por temporada, números que, provavelmente, se aproximem dos 50 com as Taças. E na prática há posições onde há uma solução e meia. Há três avançados centro para dois lugares segundo o esquema actual. Oliver e Otávio nunca demonstraram ter o pulmão para aguentar uma época a somar noventa minutos constantemente e nem André André nem Herrera cumprem o mesmo papel que Danilo, que deixou de ter concorrência directa. Na ala os únicos extremos puros são Brahimi, Hernâni e Corona, admitindo-se que tanto Ricardo como Layun podem dar uma mão, mas sempre obrigando a recorrer a planos B e C´s noutras posições. A manta é curta. Ponto.



Felizmente a ausência de dinheiro real - e não aquele que outros clubes movem alegremente no mercado - e o olho atento da UEFA (ficaram 37 milhões de euros por contabilizar nas vendas, um problema mais para resolver que Luis Gonçalves não soube driblar) obrigaram o clube a actuar com prudência. No caso desta SAD actuar com prudência é um bom sinal, pelo menos, salvo o caso Vaná, não houve comissionistas a beber da teta da vaca e quase metade dos excedentários encontraram colocação. O lado negativo, responsabilidade de Gonçalves - o director de futebol continua sem existir no mercado - e também de uma política que depende excessivamente da gestão de Mendes, D´Onofrio e Teixeira para que os jogadores saiam do clube, foi o facto de vários excedentes não terem sido colocados e os que foram terem aportado muito pouco ao clube, que se livra em alguns casos dos salários mas não recupera nem parte do investimento. Muito triste. Se a isso juntamos que jogadores que não vão ser titulares e podiam ter rendido bom dinheiro como Maxi, Reyes/Indi e Herrera ficaram no plantel e o buraco de 37 milhões continua aí (quando, há um ano, só Herrera, segundo o Presidente, valia mais dos 30 milhões que recusou), não se pode dizer que tenha sido um verão positivo. Só saíram dos jogadores da casa, com um futuro superior às cifras que foram pagas por eles como vão seguramente demonstrar. Muito pouco.

Na prática foi também Conceição - e tendo em conta a sua coragem e a forma como tem trabalhado acho que merece sem dúvida o beneficio da dúvida nestes casos, se teve intervenção directa na decisão - quem decidiu virar as costas à equipa B e à formação. Todos os que podiam reforçar o plantel e abrir passo a algumas saídas úteis foram "despachados". Fonseca (lateral direito), Rafa (lateral esquerdo), Mikel (médio defensivo) e, sobretudo, Rui Pedro (avançado) podiam ter sido opções úteis para complementar o plantel, mais tendo em conta as restrições da lista da UEFA. Um caso para abordar mais à frente, com paciência e perspectiva.

Conceição tem um desenho táctico que funciona claramente em Portugal - na Europa, como Jorge Jesus, o seu primeiro grande defensor, e mais tarde Rui Vitória, têm demonstrado, nem tanto - e esse é e tem de ser o grande objectivo. Até agora, por jogo e por atitude, o seu trabalho tem sido muito superior às expectativas mas o ano é largo e haverá algum momento em que olhar para o banco e ver que não há um só avançado para entrar (como tem sucedido na ausência de Soares) pode ser a morte do artista. Conceição aceitou o desafio e nós aceitamos o desafio com ele. A responsabilidade, um ano mais, mais do que nunca, tem nomes próprios e apelidos. Em Maio, se o FC Porto for campeão, nunca será tanto por culpa de um treinador e tão pouco por mérito de um Presidente. Oxalá assim seja. O espírito do Dragão que Sérgio e os jogadores têm reactivado, muito mais real e sentido que o "Somos Porto", bem o merece!

Sérgio, estamos contigo!

6 comentários:

Alexandre O. disse...

O pessoal gosta mesmo é de entradas e saídas e de gajos da formação, este texto é o exemplo acabado disso, mas depois quer títulos também.

Os miúdos que saíram vão rodar, ganhar experiência, jogar muitos minutos e quem sabe um dia regressar pela porta grande (Ricardo Pereira é a prova viva disso). Se tivessem ficado, daqui a uns meses estava a ler aqui, que era uma pena o Rui Pedro ter jogado 10 jogos, no máximo de 15 minutos por jogo, que o Rafa tinha feito 2 jogos na Taça da liga e entrado em 2 jogos do campeonato aos 80 minutos, que o Mikel tinha 90 minutos num jogo contra o Pampilhosa da Serra na Taça e mais nada.

Não há reforços porque não dá para ir buscar jogadores que acrescentem alguma coisa à equipa, para refugo já temos nós despachado muito.
O Sérgio de certeza que queria o Wendel e um extremo de classe, e um Plc, mas na impossibilidade os ter, também prefere nada a ter Depoitres e Adrians para dizer que teve reforços.


O Porto está pior que a época passada? Não, não está! Ganhou com a entrada de Ricardo Pereira, este ano na frente não vai jogar com um catraio que faz a sua 1ª época na equipa principal, muito pelo contrário, tem Soares desde o inicio e fez regressar Aboubakar, mas acima de tudo tem treinador, coisa que não tinha.


Agora falta os adeptos esquecerem as entradas e saídas, pararem de chorar e apreciar o regresso aos títulos.

Francisco Paulos disse...

É porque não pedir responsabilidades a quem deixou chegar isto a este ponto depois de esbanjar milhões?

Saci Pererê disse...

100% de acordo com o comentário do Alexandre. Não foi perfeito mas penso que o trabalho do director desportivo tem sido muito positivo, o mercado é um mercado não está na mão de uma parte ou uma só pessoa. Considero e oponho-me à venda do Ruben Neves, mas entendo que se preferiu manter o Danilo pelo que dá no imediato à equipa, e era necessário vender. Não quero vender jogadores e dever favores, ou pode ser que estejamos a pagar favores do passado (caso Ruben Neves). Vou avaliar o trabalho do director para o futebol dentro de 4 anos, quando pelo menos leve 5 no clube, para mim e para já nota muito positiva. Dá a cara e faz respeitar o nome do clube, o que o antecedeu era mais de dar a outra face e manter uma rede de amigos que em nada beneficiou o clube, veja-se onde anda agora.

isabel disse...

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Quando os Portistas falam assim não precisamos de verde-rubros!

Kostadinov disse...

Que sejamos campeões para que todos festejemos.
Os que amam o F. C. do Porto e os que detestam Pinto da Costa, pois ainda agora estamos a começar e já dizem que se formos campeões, são só os jogadores e o treinador.
Venha o Campeonato e depois festejem como entenderem.

miguel.ca disse...

Para mim ainda estou em modo de deixa ver. Esta equipa, no seu conjunto entre jogadores e tecnicos, é inegavelmente melhor do que a do ano passado e no ano passado, apesar das missas e da bandalheira que se gerou, não fomos campeões por um triz.