segunda-feira, 12 de março de 2018

Depender de nós mesmos

A vantagem de um tropeção importante, desses que deixa sangue nos joelhos e as mãos feridas, é que acontece precisamente quando por primeira vez o FC Porto dependia apenas de si mesmo para cair e poder levantar-se sem deixar nunca de depender de si mesmo. A reviravolta em Estoril permitiu ter este colchão. Muitos - a começar pelos rivais - contavam com esse tropeção para que o Porto chegasse ao jogo com o Sporting já com a liderança efectivamente em risco mas depois de superados os leões, a rasteira veio precisamente onde era mais previsivel que chegasse. Não é por acaso que este Porto tem um padrão claro de sofrimento este ano, fruto das decisões tácticas de Sérgio Conceição.

Vila das Aves, Santa Maria da Feira, Moreira de Cónegos, Estoril e agora Paços de Ferreira. A casa dos últimos, dos que vão sofrer até ao fim, e também campos pequenos, sem espaços, perfeitos para equipas que montam o autocarro, perdem tempo desde o primeiro instante e roubam ao FC Porto aquilo que o alimenta, o jogo de transição ao espaço. Conceição tropeçou contra a mesma pedra várias vezes. Estes foram os piores jogos do Porto em todo o ano e sempre com o mesmo padrão de comportamento - tanto no 11 escolhido, nas alterações e na forma de jogar. O caso do Estoril foi especial (45 minutos como há muito não se via) e frente ao Feirense houve uma dose de eficácia inesperada mas nos restantes cenários perderam-se sete pontos que são aqueles que mantêm o campeonato vivo. Ninguém pode exigir ao Porto - ou a qualquer outro clube - ser perfeito e ter vencido esses três encontros basicamente era o mais próximo a ser perfeito que a liga portuguesa tinha visto em muito tempo mas o certo é que o preocupante passa pelo facto de ser sempre o mesmo cenário e sempre o mesmo resultado o que demonstra escassa aprendizagem. Havia muitas baixas importantes, sem dúvida, mas nunca houve futebol nem uma ideia de jogo coerente e eficaz para as condições em que se disputou o duelo. Debaixo de um diluvio e de um vendaval, com o campo enxarcado desde o primeiro instante, o Porto jogou exactamente como joga num fim de tarde tranquilo no Dragão. Manteve jogadores tecnicistas mas com pouca incisão (Corona), optou por usar o jogador mais parecido a Herrera (mas muito pior) quando a condução com o esférico era impossível e apostou tudo num jogador, Waris, que tem tudo o mau de Marega e nada do bom. Foi o jogador que menos contribuiu para o jogo, com mais perdas, menos passes e com uma relação com a bola nefasta. Foi jogar com um menos desde o início tendo a Gonçalo no banco e sabendo, desde o primeiro momento, que Aboubakar não só não recuperou a boa forma prévia à lesão como é um reflexo ofensivo deste Porto, um jogador que precisa de muitas oportunidades para marcar.
Porque sim, apesar de tudo, tal como nas Aves, Feira ou Moreira de Conegos o Porto criou ocasiões suficientes para dar a volta ao golo irregular do Paços mas como sempre tem sucedido o ratio de eficácia é extremamente baixo. O Porto é uma equipa ofensiva, de tração dianteira mas a quem custa marcar como a nenhum outro e ontem os disparates de Aboubakar, Waris, Brahimi e Hernani - só para dar alguns exemplos - foram evidentes e reflexos de histórias parecidas.

Entre essas oportunidades esteve o penalti falhado por Brahimi, o momento chave do jogo.
Brahimi não é um especialista, acertou metade dos remates que tentou na sua passagem pelo Porto, e é um jogador macio para estes momentos. Também não era o homem escolhido por Conceição. Foi visivel na televisão e audivel na rádio que Oliveira foi o escolhido para anotar a grande penalidade mas por um motivo que só ele sabe, deixou Brahimi ficar com o peso da responsabilidade. Num plantel sem grandes especialistas é importante partir para os jogos com as coisas claras e os marcadores muito bem definidos. O passo atrás de Oliveira foi um péssimo sinal de caracter e o erro de Brahimi esperado e consequente com o desnorte emocional de uma equipa frustrada pelo anti-jogo do Paços (um recorde seguramente) mas também pela falta de um plano B. Até ao final do jogo o Porto tentou sempre a mesma jogada mas Dalot (ainda) não é Telles e os seus centros não fazem a diferença do mesmo modo que faltou altura e bom jogo de cabeça para explorar tantos cruzamentos ao mesmo tempo que faltou calma e frieza na hora de gerar as jogadas (as que Herrera, Oliver e Danilo sempre têm e que ontem fizeram muita falta ao colectivo) de ataque.

O Porto mereceu perder o primeiro jogo do ano porque jogou mal, desaproveitou muito, não soube adaptar-se ao ritmo do jogo e ao terreno de jogo e falhou um penalti tão claro que nem Bruno Paixão pôde não apitar. Mas que equipa chega á jornada 26, sofre a primeira derrota e só tem dois pontos de avanço de um segundo classificado levado ao colo há meses por um Polvo que a cada dia é destapado um pouco mais? Até ao dia de ontem só o Barcelona de Messi se mantinha invicto nas ligas europeias de elite (actualmente só o Lincoln Imps de Gibraltar também está sem ser batido no seu campeonato) mas enquanto os catalães sacam oito pontos de avanço ao segundo, a impunidade que grassa em Portugal permite ao segundo classificado depender apenas de si próprio para ser campeão. O que há que reter desta noite nefasta é que as próximas deslocações fora do Dragão vão ser contra rivais (e em campos) diferentes daqueles que têm custado pontos e que continuam a faltar oito vitórias (ou sete e um empate na Luz, como queiram) e que apenas se perdeu um match point dos nove disponiveis. A brilhantez do trabalho do plantel continua sem merecer a mais minima critica e ninguém seria capaz de imaginar que o FC Porto fosse cair apenas pela primeira vez a esta altura do campeonato. A cada dia que passa estão também mais perto de voltar os lesionados (Alex, Danilo e Soares, sobretudo) e a cada dia que passa novas revelações vão dando ainda mais valor ao que está a ser logrado em campo por um clube totalmente condicionado fora dele. No fim de contas, o Porto sai deste fim-de-semana como entrou. Apenas a depender de si mesmo. Que seja assim até ao último jogo do ano!

5 comentários:

Vidente Mor disse...

pois ta bem, mas nao podiamos perder, conclusao?? SC ainda e um treinador pequenino, teimoso, que pensa na ideia dele que todos do plantel mesmo a irem para a bancada ou a estarem no banco jogam da mesma maneira tem o mesmo ritmo. Afinal quem manda na equipa? Quem e o marcador de penaltis no porto? sera que os treinam? ou e ao calhas? Cabe na cabeça de alguem jogar num terreno daqueles com ricardo, andre2, hernani, corona e brajhimi ao mesmo tempo? sera que SC sabe o que anda a fazer ou tem a sorte Marega? Porque razao jogou o warris e nao o paciencia? ah o paciencia e o abou sao parecidos ah ah ah, era um jogo para rematar de longe, lutar, ser rijo, jogar de pontape para a frente e nao com florinhas como os Citados, ALGUNS JOGADOES QUE ESTAO NO PORTO NAO TEM ESPIRITO DE CAMPEOES e estao acomodados, HERNANI, ANDRE2, CORONA, sao exemplos, onde esta osorio alto e forte e ideal para este jogo? Reyes alto O PORTO PERDEU DEVE O A SC QUE SEM MAREGA NAO TEM CAPACIDADE PARA FORMAR A EQUIPA. Uma desilusao e temos de ir a madeira e a belem, a jogar assim e com opçoes taticas de SC dificilmente la chegaremos.

Pedro Saavedra disse...

Muito bom texto... Boa análise... Só uma nota, o Sérgio Oliveira defendeu-se, o Brahimi assumiu a marcação, ele não podia roubar a bola , tinha de ser o treinador a impor o que estava predefinido. Vamos ser campeões!

J. Vieira de Sousa disse...

Dois comentários nesta notícia que espelham bem a bipolaridade e os extremismos de opinião.
Não colocando o "portismo" de ninguém em questão tem algum cabimento uma equipa sem reforços que está a bater recordes e que nos jogos contra adversários directos foi francamente superior, lidera o campeonato desde o início e que tem superado as armadilhas que lhe vão lançando, ao primeiro deslize ser enxovalhado pelos adeptos? Poderei não ter iniciado a época da forma mais confiante, mas cresceu em mim uma convicção de que podemos e seremos campeões nacionais. E tal será um dos maiores feitos se tivermos em atenção os recursos e os meios de que os nossos rivais dispõe. Sejamos todos os dias mais adeptos e apoiemos esta equipa que bem merece.

Por último parabenizar o autor do artigo, que está bem escrito e que espelha aquela que é também a minha opinião

Paulo Azevedo disse...

O Porto está a fazer um grande campeonato, não entendo como ainda há adeptos que criticam o treinador. O que eles deviam criticar é o facto de haver um clube que só começou a jogar futebol em meados de FEVEREIRO estar a apenas 2 pontos. É um escândalo. Com arbitragens agnósticas esse clube estaria a pelo menos 10 pontos.

Dragaoatento disse...

Caríssimo!
O brilhantismo do trabalho do plantel continua a não merecer a mais pequena critica... Concordo em absoluto...!
Mas isso não quer dizer que nós como treinadores de bancada não possamos dar os nossos "bitaites"...
E então aqui vai:
1 - Antes do jogo chamei no meu blog a atenção de quem de direito para o facto do árbitro ser Bruno Paixão um anti-portista primário que na dúvida iria decidir sempre contra o Porto.
2 - Atendendo ao temporal (chuva e vento) e ao estado do terreno não seria de adoptar uma estratégia de jogo, um futebol mais pelo ar, optando por artistas mais vocacionados para esse tipo de futebol?

Bom, e é só por agora...
Armando Monteiro
dragaoatento.blogspot.com