domingo, 1 de julho de 2018

Enterro do futebol de posse

A chegada dos "pseudo intelectuais" ao futebol teve muitas coisas boas. Os métodos, a ciência e a inteligência permitiram trazer para o jogo algumas dimensões menos trabalhadas anteriormente.
Houve, no entanto, um ponto que os intelectuais trouxeram e que foi, a meu ver, muito negativo: a cultura (quase a religião) da posse.
Já sénior, tive um treinador que, com ironia, dizia: "O futebol é uma coisa muito simples. É pegar na bolinha e pô-la dentro da baliza".
Os intelectuais repararam que, na maior parte dos jogos, segundo as estatísticas, ganhava quem tinha mais tempo a bola, ou seja, quem tinha mais posse. Concluíram, então, que a possa originava e era causa da vitória.
Associaram a esta conclusão - absurda, como é evidente - uma recomendação aos jogadores: "Não larguem nunca a bola, mesmo que estejam em situação de risco e próximos da vossa baliza, pois se mantiverem a bola, não sofrem golos".
Este tipo de pensamento foi, como disse, muito negativo: vemos jogos que parecem "meiinhos" e equipas a sofrer golos ridículos, originados por perdas de bola em zonas proibidas (durante a minha formação, jogador que perdesse a bola em zona complicada, saía imediatamente do jogo).
Mas tudo continua, alegremente, a associar posse a vitória.
Ora, a posse não é causa da vitória. O que se passa é que, habitualmente, a melhor equipa tem mais posse; e a melhor equipa, habitualmente, ganha o jogo. Mas não ganha por ter mais posse, antes por ser mais eficaz nos diversos "momentos" do jogo (a defender, a disputar cada lance, a construir e, fundamentalmente, a finalizar).
O absurdo da posse fica mais exposto em provas onde a excelência está mais presente: em campeonatos da Europa e campeonatos do Mundo. Aí, manifestamente, não vai mais longe quem tem mais posse, desde logo porque equipas teoricamente inferiores, conseguindo concretizar nas poucas oportunidades que têm, alcançam o sucesso.
Fiz essa análise no campeonato da Europa de 2016, em que Portugal não teve um futebol de posse e foi feliz.
De resto, muito mais ligada à vitória está a distância percorrida pelos jogadores, por ser um indício de chegada mais rápida à bola e de sucesso na disputa de cada lance.
Neste campeonato do Mundo tivemos menos posse contra Marrocos (mas ganhámos nos duelos) e vencemos. Tivemos mais posse contra o Uruguai e perdemos.
O que fez o Uruguai? Fez o que dizia o meu treinador: pegou na bolinha e colocou-a dentro da baliza.
Também em Portugal, tivemos o exemplo do que sucedia com Lopetegui e do que sucedeu com Sérgio Conceição.
Tudo é importante: defender bem, construir bem e, especialmente, finalizar bem. A posse  pode ser um meio, mas nunca deve ser um fim.
Eu prefiro o futebol da luta, da disputa de cada lance, do correr mais do que o adversário, do risco nas jogadas de ataque e do limpar a zona defensiva (não arriscando aí). 
Espero estar a assistir ao enterro do futebol de posse, o futebol dos que aceitam e se resignam à frase "Jogámos como nunca, perdemos como sempre".
Que esse futebol descanse em paz.

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