sábado, 22 de setembro de 2018

Olá Futebol, chamo-me FC Porto e gostava de te conhecer

Dizem as lendas urbanas que treinadores tão diferentes mas tão triunfais como Helenio Herrera e Brian Clough tinham o hábito, antes dos jogos, no balneário, de reunir a equipa em circulo (onde é que eu já vi isto) e fazê-los tocar a bola com as mãos, acariciá-la, lembrando-lhes que aquela, a bola, tinha de ser querida, cuidada, conservada e utilizada para lograr o objectivo do grupo, a vitória. A bola, ah, essa entidade esférica misteriosa e de tons quase mitológicos, que alguns treinadores acham que deve permanecer nos pés dos seus jogadores o máximo de tempo possível, recuperando um velho refrão do futebol de rua que dizia sempre, "a bola corre mais que os pés" ou então "se eu a tenho, tu não a tens". Dizia Quique Setien, treinador do Bétis, que a filosofia de jogo que aplicava era aquela que gostava quando era miudo. E quando se é miudo o que se quer é ter a bola nos pés. Tocar, passar, driblar, chutar. Não é correr como um desalmado, não é pontapear a bola para a frente...é outra coisa. Costumam ter um nome para isso: Futebol.

O FC Porto de 2018/19 tem sido até agora uma caricatura. De si próprio e de tudo o resto.
De si mesmo porque, mantendo grande parte das peças chave - saiu um central, entraram dois melhores (Eder e Diogo), e saiu um lateral importante na manobra colectiva - o mesmo treinador e o mesmo espirito de grupo (a rodinha ainda lá está), desapareceu tudo o resto. Tudo, bem, tudo não. Continuasse a mandar pontapé para a frente á menor oportunidade (o que, quando eu jogava com o Valadares se dizia, prosaicamente, "bota-la nas couves") para que o Marega correr, tropeçar, ganhar a segunda bola, descolocar a equipa com a manobra e, tantas vezes, favorecer transições rivais que apanham os laterais a extremos, os interiores a avançados, os centrais sozinhos e Iker a benzer-se a si próprio. Isso mantém-se. O que desapareceu foi tudo o resto. O FC Porto 17/18 tinha registos defensivos impecáveis. Era uma máquina atacante trituradora. Não era uma equipa perfeita. A defesa também se desorganizava (quantas vezes não viamos Telles e Ricardo perdidos na frente sem ninguém a cobrir os espaços?) mas a pressão alta da equipa, a omnipresença de Danilo (a regressar ainda de lesões) e Herrera (já com a cabeça no contrato milionário que seguramente o espera longe de aqui) permitiam a rápida recuperação do esférico. Por outro lado atacava-se muito mais. Era atabalhoado, era. Era preciso rematar quinze vezes para marcar um golo? Também. Muitos centros morriam na pequena área porque não temos um avançado de nivel a condizer com a história do clube? Sim. Mas entre Brahimi em excelente forma (o apagão foi lá para Fevereiro) e a conexão Aboubakar (desaparecido em combate desde a última lesão) e Marega resolviam. Eramos uma equipa pouco atractiva para quem acha que o futebol significa jogar com a bola e não apenas correr, gritar e suar mais que o rival, mas eramos uma equipa eficaz, tremendamente eficaz, que sabia compensar as deficiências técnicas com a atitude.
As deficiências, essas, estão lá todas e vão a mais. Maxi não pode fazer de Ricardo e no entanto é ele que joga. Da mesma forma que no ano passado ninguém podia fazer de Marega e o treinador em vez de mudar o modelo o que tentou foi procurar o Marega II em Hernani, Corona e no próprio Ricardo. No meio campo há pulmão mas não há descernimento e Oliver (e agora Bazoer, que tal como Jorge tem experiência em competições europeias e vá-se lá saber porquê anda a jogar na equipa B) continuam a ser párias, em detrimento dos Oliveira e Herreras, jogadores para outra coisa que não seja pautar um ritmo de jogo. Porque o Porto campeão 17/18 nunca soube pautar o jogo porque nunca precisava de o fazer. Á meia hora já tinha o resultado feito. A versão de este ano como não é capaz nem de criar perigo real, quanto mais marcar, depois também não sabe gerir o jogo de outra forma, mais pensada, para vencer com astúcia, com a bola o que não conseguiu com o grito e com o suor. E isso é responsabilidade absoluta do treinador.



Sérgio Conceição foi um dos grandes responsáveis do titulo conquistado. Não há dúvidas disso.
Também nunca houve dúvidas sobre o seu perfil, sobre a forma como prefere um jogo vertical e menos pensado, um jogo mais físico e "másculo" a uma abordagem mais técnica e organizada. É parte do seu trademark e funcionou-lhe bem sobretudo porque na época passada era o perfil de jogadores que tinha para utilizar (salvo Oliver, sempre o patinho feio). Ninguém lhe podia criticar pegar em párias e remendos, dispensados e eternos emprestados e fazer deles um bloco ganhador. Havia também um aspecto motivacional fundamental, o de impedir o Penta corrupto do Benfica e o de voltar aos títulos. O objectivo foi logrado e é necessário criar novas metas. Competir na Europa não faz sentido porque o jogo com o Liverpool deixou claro que nem o FC Porto (nem o futebol português em geral) está para esses voos e mais a jogar assim. O que se pedia então? Provavelmente uma de duas: ou melhorar o sistema que já existia, sendo a equipa mais eficaz na frente e mais pressionante ou mudar o estilo de jogo, pelo menos de tempos a tempos.
Ao contrário do que podia parecer o plantel parecia ter mais opções para isso, sobretudo com a chegada de Bazoer (futebolista com excelente saída de bola) e a perda de um lateral como Ricardo e, sobretudo, pela possível saída de Marega. Teria sido o negócio perfeito - jogador limitado a todos os niveis faz época de sonho, aparece oferta, clube vende, todos felizes. Não foi. Marega ficou e com isso bloqueou a mudança do paradigma. Ou talvez não olhando para Marius, olhando para André Pereira e olhando para a evolução de Otávio num jogador cada vez mais ao gosto do treinador e distante da sua origem. Isso e vendo como o desenho não muda e a um lateral de 34 anos se pede que faça o que fazia um de 24, que um médio que se recusa a renovar se pede que deixe o corpo e alma com critério no passe frente ao mesmo jogador que tinha tudo para provar ao mundo e a ele próprio. Que insiste num Sérgio Oliveira que é, a todos os titulos, um excelente jogador de plantel mas, provavelmente, o pior dos médios centros disponiveis. E que continua a insistir numa fórmula que precisa de homens golo quando, precisamente, o plantel carece de um goleador nato, situação reforçada pela lesão de Soares. Tudo isso é entendivel para qualquer adepto e talvez por isso o facto de se repetir o 11, o modelo, a péssima qualidade de jogo, a dinâmica, a ausência de melhorias, de novas ideias, novos "truques" semana após semana, deixe antever um péssimo cenário. Afinal de contas o FC Porto apenas jogou com equipas muito inferiores - e já perdeu pontos no campeonato - e na Champions League, apesar da sorte do grupo em disputa, apenas defrontou uma das piores equipas da Bundesliga nesta época. Provas de fogo? Zero.

No fundo esta equipa continua a ser o espelho do seu treinador. O problema é que este não só não evoluiu com o êxito. Parece ter-se estancado sobre si mesmo. Nervoso, intranquilo, não transmite aquela aura que um título deveria otorgar, esse toque de varinha que até a um Vitor Pereira, tão criticado e marcado pela injusta sombra de "adjunto", conseguiu ter no ano do "Tri". Conceição comporta-se e actua como se fosse um "desperado" quando devia partir dele a ideia de jogo e a harmonia de gestão de grupo que se exige a um FC Porto campeão rumo ao Bi. Esse é o sinal mais preocupante. O de repetir nos mesmos erros e aplicar-se um discurso de melhoria continua que ninguém vê. O de abdicar permanentemente dos que tratam o esférico por tu para defender um ADN de mais força, mais suor, mais grito e pouco ou nenhum futebol. Não existe auto-critica (não só no discurso mas na prática, em campo), não existe uma clara vontade de fazer diferente e, pior que tudo, não parece que se esteja a fazer o melhor dentro do que já existia. Os pontos vão-se somando (menos mal) mas as sensações vão piorando.

E apesar da rodinha no fim dos jogos (para a galeria) a bola, nesses momentos, não está lá. Não está á vista. Ninguém quer saber dela. Ninguém a está a acariciar, a mimá-la, a pensar em ficar com ela largos minutos enquanto os outros correm com a lingua de fora. Ninguém está a pensar em passá-la bem, sem errar. A controlá-la bem quando chega aos pés sem tropeçar ou precisar de três toques onde um chegava. Ninguém está a pensar em sair a jogar com calma em vez de a chutar para longe, quase com despeito, sem medo a perdê-la em pés inimigos. Não se vê bola quando se vêm as camisolas suadas e aos gritos azuis e brancas. Não se vê a bola e quando não se vê a bola raramente se pode ver Futebol. E era bom que esse Futebol fosse parte desta viagem. Que encontrasse numa esquina qualquer de um relvado perdido no meio do nada com o FC Porto e trocassem um sorriso cumplice, um olhar compenetrado e que, para quebrar o gelo, o dragão azul e branco, determinado, lhe dissesse ao ouvido: "Olá Futebol, chamo-me FC Porto e gostava de te conhecer".

Não consigo imaginar melhor história de amor.

10 comentários:

Paulo Marques disse...

Todos os anos, o mesmo: o adepto portista à espera do deslize para continuar a povoar o cemitério. Tal como os comissionistas, o adepto também não muda.

Helder Oliveira disse...

concordo com tudo o que foi escrito,mas discordando.

Costa disse...

Olha (mais um) portista com muito orgulho.

Felisberto Costa disse...

Não creio que o problema seja do Sérgio ou do plantel. Tirando uma ou outra equipa, o futebol mundial de hoje é assim mesmo. Muita transpiração e pouca inspiração.
Os novos treinadores não sabem o que é o futebol de rua. Sabem apenas o que é o futebol de faculdade!
Dantes o treinador dava um ou 2 berros e o jogador compreendia. Agora antes de entrar o adjunto mostra-lhe um calhamço cheio de figuras e figurinhas e se perguntar oa jogador se entendeu...
Substitui-se a arte pela tecnologia. O bar pelo Var. A azelhice pela incomeptência.

Vidente Mor disse...

pois, ora bem, concordo. SC esta a mostrar ser um treinador de chicotada como o MOta, mexem com aquilo durante uns tempos mas deppois a receita esgota se. SC e teimoso, repito o que tenho dito,se viessem progba, rakitic e modric, sc no alto da sua sapiencia punha os na B para rodarem e ganharem ritmo, ridiculo. Jorge e so internacional brasileiro. Porque razao nao joga o leite e o militao a direita, porque razao nao joga o joao pedro a direita e temos de aguentar maxi que ja nao aguenta 30 min?, porque razao se mantem hernanis e fabianos na equipa? sera que ninguem serve a SC ou ele nao sabe como intehgrar jogadores? parece que pretende ser a vedeta mas começou a perceber que ou muda ou saira antes do Natal pelo seu proprio pe com alias costuma fazer, e parece ja haver uns quantos a espera.Noutros tempos SC tinha saido mesmo ganhando o campeonato, mas nesta altura PC e o clube nao tem a força suficiente para isso. PENA O VT GUIMARAES PORQUE MESMO JOGANDO MAL ESTAVAMOS A FRENTE e se um dia calhassemos a jogar bem........

D.Liberal disse...

O Herrera foi uma absoluta nódoa e o S. Oliveira é bom rapaz mas é lento e a jogar com o Herrera são duas nódoas porque o Herrera por vezes tem um efeito buraco negro, entrega mal 3 ou 4 passes seguidos e depois faz outro à queima.

Sobre o FCP cabe também mencionar que o Filipe não tem estofo para patrão de defesa, a juntar aos acima o miolo fica frágil. Outro que anda em turismo é o Brahimi.

O tempo dirá mas o filão mexicano vai ser uma flopalhada das grandes, Reyes rendeu bola, Gudiño zero, Layun (menos mal), Herrera ( o grande capitão que não renova) e o Corona (pífio executor de fintas que só passa por bom porque divide o banco com o A. Lopez e o Hernani).

É aí que estamos em perda, no banco, não há mais soluções? O Horrera não pode ir para o baco é isso?

Portistas, e SC em particular, como vamos parecemos um acidente à espera de acontecer (Guimarães foi aperitivo pelo andar da carruagem!).

Dito isto, temos equipa, treinador e adeptos, restando somente trazer a postura do jogam os melhores da época passada para esta época em que parece haverem vacas sagradas. Quem não joga banco e os do banco que não jogam, bancada...

meirelesportuense disse...

Fora do tópico alguém pode elucidar-me qual é a renda que o Porto paga à Câmara de Gaia pelo Centro de Treinos do Olival?...Faço esta pergunta porque alguém maldosamente fez hoje uma insinuação que merece uma resposta adequada mas devidamente fundamentada...Obrigado.

carlos eduardo Cardoso disse...

meireles.. 500 por mês.. menos que uma loja de 20 m quadrados

Fábio Freixo disse...

Desculpem a minha opinião, mas há portistas que merecem os otávios machados, nunos e lopeteguis......
Só fomos campeoes devido ao Sérgio Conceição, o Ricardo era bom antes,mas foi o único a pegar nele e apostar ao fim de anos, marega ninguém o queria em lado algum, faz uma grande época, Sérgio oliveira fez um época assombrosa, tem um raio de acção enorme, brhami e herrera com anos de Porto exibiram seu melhor futebol. Agora com um inicio de epoca um pouco titubeante concordo, fracas exibições, já ninguém presta.......

miguel.ca disse...

O Porto parece uma equipa triste e desmotivada e isso reflete-se no futebol miserável que tem apresentado.
Na minha opinião, uma das razões prende-se com o facto de haver no plantel vários jogadores que queriam sair. Marega foi a face desse problema mas acredito que hajam mais, muito mais, Herrera e Brahimi à cabeça.
Outra das razões, e esta provavelmente mais incisiva no mau estar geral tem a ver com a visivel insatisfação do SC relativamente aos reforços que nunca chegaram.
A forma como o treinador geriu a sua frustração na pré época quando despachou 6 jogadores por manifesta falta de qualidade para fazer parte do plantel terá sido a primeira pedrada a causar moça nas relações com Direcção e suspeito que terá mesmo afectado a relação com o resto do plantel, principalmente com quem manifestou vontade de sair e com quem foi prometido uma equipa mais forte e capaz de fazer uma melhor prestação na liga dos campeões.
Acho que existe ali uma aura de insatisfação geral que se não for reparada urgentemente temo que esta época seja um desastre completo.