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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A crónica inadaptação que tantos pontos tem custado

Quem anda à chuva sem guarda-chuva molha-se. Quem anda de guarda-chuva quando não chove, não se molha mas o mais provável é que ganhe uma tendinite de pulso sem sentido. A vida é um processo constante de adaptação. Há treinadores que têm muita dificuldade em assumir essa realidade. Facilmente afirmam que cada jogo é um jogo mas depois, na prática, quantas vezes não vimos repetir-se o mesmo guião de uma equipa, jogando de uma mesma forma, se vê incapaz de superar rivais que jogam de uma outra forma concreta? Não se trata nem de desenho táctico, disposição de jogadores ou dos nomes dos futebolistas elegidos. Trata-se de adaptar-se a uma realidade distinta da habitual e de procurar pontos favoráveis para sair vencedor. Vila das Aves, Estoril (até ver) e Moreira de Cónegos sairam mal todas pelo mesmo motivo e em alguns outros jogos o cenário podia ter sido parecido (Santa Maria da Feira) porque o problema foi sempre o mesmo. Zero adaptação.

Sérgio Conceição tem feito milagres. É fácil esquecer isso quando levamos todo o ano à frente da classificação mas ninguém, em Agosto, podia sequer sonhar com esse cenário. Era dificil antecipar o pior ano do Benfica em largo periodo de tempo, um ano em que só o Polvo lhes permite estar a dois pontos e não a doze. E era igualmente dificil antecipar que o Sporitng, ainda que competitivo, fosse não aproveitar o investimento realizado no mercado com dinheiro que ninguém sabe muito bem de onde veio, tanto no que não teve de vender como no que acabou por contratar. Face a essa realidade, e visto o plantel disponível, a liderança é um milagre e Conceição o seu artifice. Nada a dizer a não ser aplaudir.
No entanto a liderança lograda a partir de uma ideia de jogo muito concreta – que segue a escola de Jorge Jesus ainda que, com o handicaap duplo de haver pior qualidade individual da que este teve à disposição e a ausência do guarda-chuva arbitral que deu tantas vitórias a esse  -tem esbarrado com dois problemas muito sérios. O primeiro, mais natural e evidente, é o desgaste. Num plantel curto, onde jogam sempre os mesmos, é impossível em Janeiro pressionar e recuperar o esférico com a mesma frescura que em Setembro quando o modelo de jogo não assenta em descansar com a bola e sim na procura do espaço.

Conceição começou o ano com um verticalissimo 4-2-4 em que o meio campo exercicia uma tremenda pressão sobre o rival, a dupla avançada roubava as primeiras bolas e a equipa, recuperada a posse, verticalizava cada lance – seja pelas bandas laterais, seja em passes em diagonal para as corridas de Aboubakar e Marega – e explorava, em momentos de bloqueio, as bolas paradas (na Champions, onde há menos espaços, foi um recursos fundamental). Esse modelo assentava nas caracteristicas muito especiais de alguns jogadores – desde Danilo a Marega – e sobretudo no entrosamento e estado de forma dos restantes. O Porto matava cedo os jogos e esfolava depois, sem especular, levantando os fantasmas da NESificação horizontal e temerosa que guardava o 1-0 como se fosse a virgindade de uma donzela. Esse modelo, que Jesus implementou em Portugal com êxito – com ajuda extra-desportiva de distintas naturezas – sempre encontrou um problema. Em jogos em casa e contra rivais que saem a jogar haveria sempre forma de fazer o modelo funcionar. Mas contra rivais que preferem estacionar o autocarro em casa, em campos pequenos, relvados em más condições e onde o espaço não abunda, os problemas da ideia de jogo eram evidentes. Jesus perdeu assim três campeonatos – dois com o Benfica e um com o Sporting – cedendo empates em deslocações onde a equipa era incapaz de fazer vingar o modelo, e ganhou outros quantos quando os fieis amigos de negro vieram ao resgate para evitar resultados mais embaraçosos. Resgaste que o FC Porto, já sabemos, não tem ao seu serviço. Tanto não tem que começa sempre – ou devia – a pensar que o rival já ganha por 1-0, seja por um golo mal anulado, um penalty por marcar ou uma expulsão ou duas perdoadas pelo VARissimo de serviço. Nesse contexto, como Vitor Pereira demonstrou, o FC Porto que era fiel ao 4-3-3, o modelo de jogo que dominou quase vinte anos de futebol português, de 1996 a 2014, encontrava melhores opções para esse cenário porque gerava maior controlo, maior jogo interior e com ele encontrava forma de criar espaços onde este não existiam.

Essa é a principal diferença e o principal problema da falta de adaptação de Conceição a estes cenários. O seu Porto não procura criar o espaço, procura apenas explorar o espaço. Se ele existe, o plano funciona, como tem sido evidente. Se não existe, não há plano B mais do que se tem visto, cruzamentos laterais, lançamentos bombeados para que o volume de homens gere o caos e do caos saiam as oportunidades. Bolas para os avançados deixarem para o interior. Cruzamentos que os extremos procuram surpreender ao segundo posto. Tudo sabendo que o rival sempre vai ter a lógica vantagem númerica de quem defende com mais e com o contorlo do espaço. Em nenhum momento se viu Conceição procurar outra coisa em momentos de aperto e mesmo em Moreira de Cónegos quando decide mudar, em duas ocasiões, o que faz primeiro é aplicar um 3-5-2 que dá as alas aos extremos mas não gera nada de jogo interior porque se continua a insistir no cruzamento e na segunda jogada; depois, ao lançar Sérgio Oliveira, não procurou gerar jogo interior se não reforçar outro lançador de bolas altas. Em nenhum instante, como nos restantes tropeções que geraram em empate, se tentou fazer “outra coisa”. Que “outra coisa”?
É verdade que o plantel do FC Porto tem pouco talento e, indismentivel, que a baixa de Danilo – aliada à baixa de forma de outros jogadores chave (Aboubakar e Brahimi, sobretudo) – não ajuda, mas ninguém pode dizer que não sabiamos ao que iamos. Em lugar de insistir com um modelo que está em crise, Conceição devia ter procurado gerar futebol mais apoiado, maior toque, maior procura dos espaços. Provavelmente Oliver tenha feito o pior jogo em muito tempo mas não terá sido mais porque o que se pedia de ele era contra-natura ao que pode dar? Não foi Herrera desaproveitado como pivot quando é precisamente cubrindo todo o cambo que faz com que a sua aportação resulte positiva? Não pedia ontem – e na Feira, Aves ou Estoril – talvez um 4-3-3 que em posse se transformava, de facto num 2-1-4-3, com dois interiores gerando um fluxo constante de bolas interiores com o apoio dos extremos (Oliver, Paulinho ou Herrera), para dois avançados interiores (Marega/Aboubakar e Brahimi) e um avançado mais móvel (Soares)? Sabendo que o rival não ia atacar e o campo era curto, porque não gerar superioridade por dentro em vez de a procurar insistentemente por fora?


O problema não são apenas os empates concedidos – a equipa continua invicta e gerou, em todos esses jogos, oportunidades suficientes para ganhar (a fraca produção ofensiva tendo em conta o volume gerado é outro dos grandes problemas deste Porto) e foi prejudicado claramente em todos esses jogos – mas sim a sensação de que os próximos duelos desta natureza resultem num cenário repetido já demasiadas vezes. Conceição acertou em cheio com o plano A e potenciou muitos jogadores para lá do seu nível mas em condições adversas as suas fraquezas ficam expostas e o técnico parece não encontrar um antidoto, um plano B seja com outra forma de jogar com os mesmos jogadores ou trocando cromos para procurar potenciar outras situações. Se não for capaz de o fazer até Maio estes seguramente não serão os últimos pontos fora concedidos. E seria um péssimo sinal que a inadaptação fosse um dos condicionantes para vencer uma Liga a todos os títulos merecida.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Inflexível até ao fim?


"Tenho de continuar a acreditar nas minhas ideias. Não acredito em mudanças repentinas ou momentâneas. Quando mudamos as coisas, tudo tem de ser trabalhado. Não prevejo muitas alterações porque é nisto que eu acredito.
(…)
Os jogos são todos difíceis. Quero ver um Porto determinado, concentrado e ambicioso. Estamos focados no que temos de melhorar. Acredito que a equipa vá dar uma boa resposta. Queremos reforçar o nosso primeiro lugar."

Paulo Fonseca, 29-11-2013 (na antevisão ao jogo Académica x FC Porto)


Aquilo que já toda a gente viu, menos o treinador: o modelo táctico que Paulo Fonseca anda a tentar implementar desde o início da época não funciona.

Em primeiro lugar, porque a colocação de um jogador ao lado de Fernando para formar um “duplo pivot” confunde e tira efectividade à acção do Polvo, que sozinho com os seus tentáculos consegue anular a maior parte das investidas do adversário. Nesta equação do meio campo é importante referir também a enorme falta que João Moutinho faz à equipa do FC Porto. Sem o box-to-box e com o seu substituto sempre “amarrado” a Fernando e sem a mesma capacidade técnica do agora jogador do Mónaco, o FC Porto não consegue sair a jogar e, são invariavelmente os defesas centrais quando pressionados pelos adversários, que mandam “chutão” para a frente. Além disso, Lucho Gonzalez está sempre 20 metros à frente de onde devia jogar (ou pelo menos começar a jogar), quase numa posição de apoio ao ponta-de-lança. Com o desenrolar do jogo e as evidentes dificuldades da equipa em sair a jogar, Lucho acaba por se ver forçado a recuar para vir buscar jogo e ensaiar passes de calcanhar que muitas vezes dão perdas de bola. Não há futebol apoiado e solidário, nem dinâmicas, nem sequer um modelo de jogo.

Em segundo lugar, o sector defensivo tem estado muito mais inseguro que no passado, com os mesmos jogadores mais desconcentrados e a cometerem erros infantis com graves consequências. Grande parte desta mudança é uma consequência do estilo táctico que o treinador quer implementar. Fernando perde referência com outro jogador a seu lado e é obrigado, pela primeira vez desde que chegou ao FC Porto, a pensar o jogo ofensivo da equipa quando a sua missão sempre foi a de recuperar bolas e entrega-las aos colegas o mais rápido possível. Não tendo ninguém a quem passar a bola (ainda por cima todos parecem esconder-se) e com Lucho muito mais à frente, Fernando (ou o outro médio, seja Defour ou Herrera) passa a bola para trás obrigando os defesas centrais ao trabalho que deveria ser feito pelos médios e laterais. Os adversários aperceberam-se disso e colocam 3 a 4 jogadores a pressionar a defensiva portista. Daí ao pânico generalizado é um pequeno passo.


Em suma, o cerne do problema táctico está no posicionamento de Fernando e de Lucho Gonzalez. A solução a curto prazo seria voltar de imediato a um 4-3-3 clássico, com extremos rápidos como o Kelvin, por exemplo (o tal que na opinião de Paulo Fonseca não faz o suficiente nos treinos), com o Polvo sozinho no papel de trinco e com Lucho mais recuado com o mesmo papel de outros tempos. Mas este é apenas um dos muitos problemas que Paulo Fonseca não tratou de acautelar e foi empurrando até ao limite. Entretanto os jogadores perderam a confiança no líder, estão altamente desmotivados, arrastam-se em campo, e têm tido um comportamento pouco profissional e até indigno da camisola que vestem.

O treinador queixa-se da qualidade dos extremos, tendo já sido noticiado o regresso de Quaresma… No início da época PF dispensou Iturbe (ou terá sido Antero Henrique?), que tinha sido apenas um dos melhores jogadores da pré-época (e tem 'facturado' com frequência pelo Verona) e praticamente não tem dado hipóteses a Kelvin, constantemente relegado para a equipa B. As últimas exibições do FC Porto demonstram uma equipa sem profundidade nas alas, que afunila o jogo pelo miolo e que não tem rapidez para fazer transições ofensivas, preferindo parar o jogo e devolver para trás para (mais) uma troca de bolas entre os defesas centrais. É ridículo!

É necessária uma mudança urgente de Paulo Fonseca. Outros no passado também se renderam às evidências. Lembram-se certamente de Co Adriaanse, que depois de um empate em Vila do Conde e de sofrer grande ‘contestação’, alterou o esquema táctico colocando Paulo Assunção a fazer de pivot e central em situações ofensivas e defensivas, respectivamente, arrancando em definitivo para o título de Campeão. Poderá não ser assim desta vez, mas pelo menos Paulo Fonseca deveria esgotar todas as possibilidades à sua disposição, porque se está a fazer tarde.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

FC Porto, o novo Real Madrid?

Em 2009 todos descobrimos a lua. Não viajamos até lá. Ela veio até nós sob a forma do Barcelona treinado por Guardiola. Era uma equipa que enchia qualquer medida futebolística possível. Uma equipa agressiva mas elegante. Uma equipa com uma qualidade individual impressionante mas que funcionava como colectivo. Uma equipa onde os baixinhos (Xavi, Iniesta, Messi) jogavam com os raçudos (Etoo, Pedro, Touré, Puyol), com os inteligentes (Pique, Busquets, Henry) sem que qualquer um de nós fosse capaz de os excluir das outras características principais. Provavelmente tivemos a sorte de ver uma das grandes equipas da história do futebol moderno. Mais, tivemos a sorte de que o nosso FC Porto fosse comparado, lá fora, com essa máquina de futebol.

Historicamente o FCP sempre se associou ao FC Barcelona.
Clubes de segundas cidades, burguesas, mercantis, marítimas, rebeldes contra o poder do centralismo e, também é preciso dizê-lo, clubes que viveram as suas maiores secas desportivas de forma similar (durante os anos 60 e quase todos os 70) e que renasceram nos anos 80 para tornarem-se na maior força desportiva do seu país. O FCP com um presidente, o FC Barcelona com um ideólogo chamado Johan Cruyff. Ambos ganhamos provas europeias desde então (mais que o respectivo rival), ambos ganhamos ligas (mais que o respectivo rival) e ambos ganhamos a admiração do Mundo. Nós por sermos o eterno underdog sobrevivente na elite europeia, capaz de encontrar pérolas no meio do Amazonas e transformá-los em diamantes, e eles por serem os herdeiros dessa escola danubiana mítica. Para qualquer portista era um motivo de orgulho a comparação. A associação de futebol de posse, de qualidade técnica e táctica, de gestão desportiva com o Barça seguia os mesmos padrões que a comparação Real Madrid-Benfica dos anos 50 e 60, ambas equipas alimentadas pela máquina estatal, habituadas a ser o símbolo da propaganda de regime ditatoriais e com duas grandes gerações que coincidiram no tempo e espaço.

Nos anos AVB e VP a comparação permaneceu.
O Barcelona de 2013 já não é o mesmo de 2009. A própria evolução de Guardiola introduziu matizes importantes. Messi passou a ser o falso-nove, a equipa passou a jogar mais em função do génio argentino e a procura de alternativas estancou com o modelo original. Com o passar dos anos a agressividade e o pressing na hora da recuperação que tinham sido marca de identidade do primeiro Pep Team tornou o Barcelona uma equipa mais previsível, salva recorrentemente pelo génio superlativo de alguns dos melhores futebolistas da história. O FCP, que com AVB teve um ano similar ao do primeiro Pep Team, seguiu um trajecto similar. No nosso caso o problema foi a falta de opções condicionada pelo mercado e pelo desejo de jogadores importantes em sair. Sem Belluschi e Guarin o ritmo do meio-campo seria sempre diferente. Sem Hulk e Falcao a eficácia ofensiva baixaria sempre com o tempo. Com Varela a cair de forma, James a nunca explodir verdadeiramente e com Fucile, Rolando e Alvaro Pereira em quarentena (primeiro) e fora de contas (depois) o processo obrigou a uma reconstrução durante dois anos que interrompeu a ascensão da qualidade de jogo. Mas a matriz permaneceu, mesmo nesses momentos, a mesma.
O 4-3-3 era inegociável, a segurança defensiva o primeiro passo para o sucesso (como foi com Pep) e o controlo de jogo a obrigatoriedade máxima para quem subia em campo. É certo que o ritmo de jogo era vitima das opções e tinha baixado muitas rotações. As transições eram mais lentas, a agressividade esfumou-se e a qualidade individual também. Mas quem tinha visto jogar os homens de AVB reconhecia o mesmo padrão com VP da mesma forma que entre as diferenças que existem entre Guardiola, Vilanova e Martino não impedem que o Barcelona continua a ser o Barcelona.



Agora podem dizer o mesmo?
Não!

Desde Agosto que a matriz dos últimos três anos foi abandonada por completo.
É o direito legitimo de qualquer treinador escolhido pela direcção de impor o seu estilo e modelo de jogo. Se o faz, imagino que seja de acordo com quem o contrata que é quem responde aos sócios e accionistas. Eles são conscientes do que custou criar essa matriz, do que significa manter um modelo ao largo dos anos a nível de estabilidade futebolista e de gestão de balneário. Se aprovam a mudança - não só do desenho táctico mas dos princípios básicos do jogo - saberão porque o fazem. Mas agora na Europa ninguém se lembraria de associar este FC Porto ao Barcelona. Como muito poderiam fazer uma comparação que é, para muitos portistas, odiosa: com o Real Madrid.
A equipa da capital espanhola é reconhecida mundialmente por não ter modelo de jogo. Vive para onde o vento sopra. A cada presidente e treinador que chega tudo muda. O importante são os jogadores, quanto mais mediáticos e caros, melhor. Bale custa 100 milhões, logo vale mais que Ozil que só custou 15, pensam muitos adeptos e dirigentes do clube espanhol. Com o esquema de jogo é o mesmo. Não há um modelo desde o fim da Quinta del Buitre, nos anos 80. A táctica muda, os princípios mudam, os jogadores mudam, os treinadores mudam. As vitórias só aparecem porque o valor individual e o dinheiro metido no plantel assim o ditam. De futebol, muito pouco.
Actualmente em Portugal passamos pelo mesmo cenário. O FC Porto ganha muitos jogos porque é o FC Porto. Não porque jogue bem, não porque tenha um padrão de jogo, não porque saiba o que faz. Ganha-o simplesmente porque Jackson é o melhor avançado da liga, porque Lucho coxo é melhor que a maioria dos médios do campeonato. Porque Mangala-Otamendi ainda é uma dupla que supera qualquer outra. Porque os frangos ocasionais de Helton não empalidecem comparados com os de Artur, Eduardo e Patricio. Porque ganhar no Dragão é impossível e defender com dez homens dentro da área nos jogos fora nem sempre resulta. Ganhamos por inércia da mesma forma que o Real Madrid ganha muitos dos seus jogos. Não pela qualidade do projecto que PF tenha a apresentar. E isso é, sobretudo, o mais preocupante.

Eu quero que o FC Porto tenha um modelo que seja válido hoje, com PF, e amanhã com o treinador X.
Para isso é preciso duas coisas.
Ter a direcção decidida a apostar fielmente nesse modelo de jogo (em vez de se preocupar tanto com modelos de negócio, que não é o mesmo) e contratar sempre treinadores e jogadores para cumprir esse preceito colectivo como tem feito o Barcelona (noutra escala, obviamente) ou então apostar como há muito defendo num nome sério para o banco. Num nome consagrado, com uma cultura futebolística suficientemente alta para manejar distintas situações e saber o que está a fazer, sem parecer um puto de olhar perdido. Falou-se muito em Pellegrini, um treinador que cumpre esse preceito, mas entendo que entre o Dragão e o City of Manchester, o dinheiro tenha falado mais alto. Mas o chileno não é o único dentro desse grupo de treinadores que sabem muito de futebol e colocam sempre as suas equipas a jogar muito bem e de forma coerente. A SAD prefere-os inexperientes, jovens e ambiciosos e está no seu direito. Acertou duas vezes. Mas se o faz, pelo menos que tenha o cuidado de escolher nomes que se enquadrem numa ideia colectiva que faça parte do nosso próprio ADN. De alguém que saiba onde vai entrar, que rotinas há que saber manter, que processos há que assimilar e que estruturas são fundamentais para manter o equilíbrio.



Em quatro meses a estabilidade defensiva de três anos desapareceu.
A organização na construção de jogo também. A equipa é mais vertical mas menos coerente. Os jogadores estão perdidos porque os que já cá estavam tinham rotinas bem treinadas que agora não podem por em prática e os novos ainda não entenderam o que se lhes pede.
Provavelmente todos eles gostariam de jogar como no ano de AVB, e os adeptos também não se importariam de rever esses jogos no presente. Mas para chegar aí não basta apenas ter opções individuais (e este plantel tem mais opções que o dos últimos dois anos). É fundamental ter alguém que siga um modelo, que seja fiel ao nosso ADN.

Em Madrid, Carlo Ancelotti - um treinador de títulos, onde é que já ouvi isso - não sabe a que joga. Nem ele nem ninguém. E a sua equipa é penosa. Em Barcelona, chegado do outro lado do Atlântico e sem experiência europeia, Tata Martino herdou uma ideia que apenas tem de gerir e controlar. Ás vezes é mais dificil não mexer do que inventar. PF tem, como Ancelotti, procurado inventar. Sem sucesso. Tem sido salvo pelos jogadores e pela inércia mas isso não durará para sempre quando for a doer. Talvez devesse ter sido mais humilde, como Martino, e procurar ver o bom naquilo que o precede antes de procurar melhorar a máquina já montada e oleada. Tem tempo para isso? Tem. Mas precisa de saber dar um passo atrás. Devolver aos jogadores a confiança nos processos de jogo perdidos (e isto vai muito mais longe do que só recuar Fernando e voltar ao 4-3-3) e a partir de aí procurar introduzir novas variantes que nos façam mais imprevisíveis e, portanto, mais fortes. Caso contrário até podemos ser Tetracampeões, vencer a Taça de Portugal e a Taça da Liga. Muitos adeptos irão para as ruas celebrar. Mas teríamos ganho por motivos que, mais tarde ou mais cedo, vão-se revelar mais um problema do que uma solução!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca... (III Parte)

Concluídas as duas primeiras jornadas do campeonato está na altura de revisitar os excelentes artigos do Miguel Lourenço Pereira de 12 e 13 de Agosto, aqui no Reflexão Portista, sobre o esquema táctico 4-2-3-1 do treinador Paulo Fonseca:

O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (I Parte)
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (II Parte)

O FC Porto apresentou-se com a mesma equipa titular nas duas partidas da Liga: Helton, Danilo, Mangala, Otamendi, Alex Sandro, Fernando, Defour, Lucho, Josué, Jackson e Licá, o que significa que Paulo Fonseca encontrou um "onze base", tendo em conta que o titular Varela, lesionado, foi substituído por Josué.

Nos referidos artigos o Miguel descreveu os princípios básicos do novo esquema táctico relativamente ao conhecido 4-3-3: (i) a criação do conceito de número 10, Lucho, (ii) a mudança do conceito defensivo, de um jogador fixo de marcação para a divisão de tarefas entre dois jogadores, Fernando e Defour e (iii) o maior espaçamento de linhas para a obtenção de um futebol mais vertical. Além disso chamou a atenção para os principais defeitos e virtudes do 4-2-3-1: "este modelo, na teoria, coloca um homem extra no ataque, o tal 10, e portanto, mais poder de fogo. Mas ao não ter um dos dois médios mais recuados com um papel fixo, como tampão, corre o risco de haver uma atrapalhação na movimentação do miolo e a equipa ficar mais frágil no momento da perda de bola. (…) [o adversário pode] lançar um passe a rasgar entre-linhas, os dois médios estão em linha (ou muito próximos disso), ligeiramente afastados da defesa e é nesse espaço que surge o rival".


No primeiro jogo, em Setúbal, a equipa acusou falta de entrosamento e permitiu vários lances perigosos aos sadinos, incluindo o do golo, sendo que o perigo foi aparecendo de situações que o Miguel previra: o "duplo pivot" estava em linha e sem uma noção clara de quem deveria marcar e foram surgindo passes para as costas da nossa defesa. Por outro lado a articulação entre os jogadores das linhas ofensivas não foi a melhor, o que gerou mais dificuldades de penetração na defesa contrária e criação de lances de perigo. Lucho não conseguiu ser o número 10, Defour não foi box-to-box e Fernando não foi… Fernando. Valeu Quintero, que substituiu Defour, e mal entrou mandou uma bomba para resolver o jogo.


No segundo jogo, na estreia da equipa esta época no Dragão, tudo foi diferente. O FC Porto submeteu o Marítimo a forte pressão desde o início, com um futebol rápido, alegre e mais vertical. Na vertente defensiva Mangala e Otamendi estiveram muito bem na antecipação e na anulação das investidas do adversário e o "duplo pivot" Fernando-Defour funcionou bem, o primeiro libertando-se do seu típico jogo de recuperação e varrimento e o segundo conseguindo ser um box-to-box mais influente. Não foi Moutinho, mas esteve no campo todo. Vi pela primeira vez o Fernando a avançar no terreno com a bola controlada e a procurar linhas de passe, fazendo-o com maior à vontade e segurança que em partidas anteriores. Contrariamente ao que afirmou o Miguel, parece-me agora que o Fernando poderá ser um dos mais beneficiados com este estilo de jogo porque terá mais bola e terá de pensar mais o jogo, o que o tornará num jogador mais valioso. Às suas características de trinco puro, poderá juntar características de distribuidor e tornar-se um médio mais completo.

Apesar da boa exibição e dos golos achei que a equipa, pelas características de Licá e Josué, que não são extremos puros, afunilou demasiado o jogo, tendo abusado do jogo interior, perdendo profundidade. Poderá, eventualmente, ser ideia do treinador usar momentaneamente os laterais Danilo e Alex Sandro como extremos, com o apoio e as dobras do "duplo pivot" em caso de perda de bola e (principalmente) Licá como segundo ponta-de-lança, dando ao Lucho tempo e liberdade para deambular no meio campo e no ataque.


A este esquema sobram ainda Herrera e Quintero – que deverão competir com Defour e Lucho, respectivamente, por um lugar no "onze" – e Carlos Eduardo como alternativas para o meio campo e Kelvin e Iturbe como jokers para os lugares de extremo. Ghilas deverá ser a alternativa a Jackson Martinez dado que, em jogos oficiais, creio que não foram experimentados simultaneamente.

À pergunta final do Miguel, "será este o modelo ideal para esta época?", respondo, para já, com um sim porque a equipa tem dado sinais de que o consegue assimilar e o plantel tem variadas opções e de grande qualidade para substituir ou complementar os jogadores que neste momento integram o "onze base". Tanto o “duplo pivot” como a defesa, na generalidade, estiveram bem melhor no jogo contra o Marítimo. Que a equipa e o treinador continuem a evoluir e a proporcionar bons espectáculos de futebol (com vitórias!).
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (I Parte)

Parece claro que Paulo Fonseca não vai abdicar do seu 4-2-3-1.

O tempo dirá se a sua opção é a mais acertada, sobretudo em jogos radicalmente diferentes aos da pré-época e da Supertaça. Em Aveiro o sistema funcionou perfeitamente também porque o rival foi macio, muito macio. Na véspera do jogo o treinador tomou a palavra na sala de imprensa para responder a um jornalista que sugeriu o modelo como mais defensivo. Paulo Fonseca não gosta dessa ideia (apesar de ser um sistema muito mais utilizado por equipas de contra-golpe do que de ataque continuado).
Vou tentar explicar o que penso ser o seu ponto de vista e a minha percepção sobre o que vai significar a aplicação do modelo ao longo do ano, os seus pontos fortes e fracos. E, sobretudo, a sua adequabilidade ao plantel, no seu todo, e a alguns jogadores, em particular.

No final, podemos chegar à conclusão se o sistema é mais ou menos defensivo que o 4-3-3 standard da última década, se mais parecido ao modelo de Fernando Santos em 2001 ou ao Borussia de Dortmund de Klopp (de quem Paulo se lembrou na conferência de imprensa).

Basicamente há três grandes alterações conceptuais com este modelo.
A inversão do triângulo do meio-campo gera duas situações novas:
- a criação do conceito de número 10, que no 4-3-3 não tem lugar (ou é um extremo adaptado, como foi James, ou é um médio centro reconvertido, como muitas vezes joga Iniesta)
- a mudança do conceito defensivo, de um jogador fixo de marcação para a divisão de tarefas entre dois jogadores, ambos com ordens para subir e descer, alternando-se sucessivamente

No primeiro caso, a ideia de Paulo Fonseca parece-me evidente.
O número 10 está liberto de carga táctica. Marca menos o rival, corre menos, ocupa mais os espaços livres e aproxima-se ao avançado. Ele tem a missão de criar superioridade ofensiva na área, ajudar Jackson nas suas movimentações e oferecer-se sempre como alternativa de passe.
No segundo caso, implica ter uma equipa muito mais móvel, sem nenhum jogador com uma missão fixa todo o encontro, o que exige mais fisicamente dos dois jogadores, que terão de ser muito mais flexíveis.

A terceira alteração passa pelo maior espaçamento de linhas.
Com o 4-3-3 era muito habitual ver as linhas muito próximas entre si, com a equipa a subir em campo de forma compacta, em posse, muitas vezes num ritmo mais lento e previsível. O médio mais defensivo ficava ancorado entre os centrais, os laterais subiam (ora um, mais raramente, os dois) e os dois médios da parte superior do triângulo pautavam o ritmo. Agora nota-se claramente a existência de duas linhas, e cabe aos dois jogadores mais recuados do triângulo pautar o ritmo, permitindo sempre a 3 ou 4 jogadores estarem perto da área sem a bola, à espera de que a combinação entre os restantes jogadores a faça chegar até eles o mais rápido possível.

Nesta imagem pode ver-se qual é o desenho táctico standard em campo:


Um dos médios sai com a bola permitindo aos defesas abrirem-se para cada lado oferecendo linhas de passe e possibilitando aos laterais abrir o campo. O segundo médio está perto, numa zona próxima, para servir de apoio imediato. Mais à frente, os dois extremos jogam abertos e o número 10 e o avançado próximos um do outro, para puxar a marcação e abrir espaços nas costas e, em caso de recepção de bola, poderem combinar entre si de imediato.

Com esta ideia, o Paulo Fonseca quer claramente uma equipa mais vertical, mais dinâmica e trabalhada fisicamente e mais opções para o remate, com a presença constante de um segundo elemento perto da baliza.

Nesta outra imagem, num movimento ofensivo, podemos ver como o Lucho aparece quase como um 2º avançado (na sombra do médio defensivo do Vitória, ele está lá!), na mesma linha que os dois extremos (bem abertos), com o Jackson a prender um dos centrais. Essa situação garante quase uma igualdade numérica em movimentos ofensivos (4 para 5, em vez do 3-5 habitual do ano passado). Vemos os dois centrais a fechar a linha, uma vez mais os laterais abertos, neutralizando os extremos e os dois médios centro com a função de criar desde o primeiro instante.


Pode ser este um sistema mais defensivo do que o 4-3-3, como se tem sugerido?

Depende sobretudo do rival.
Em teoria, uma equipa que utilize um jogador como "número" 10 ou dois avançados, é uma equipa mais ofensiva por natureza. O problema está onde se movem. O 4-3-3 permitia a aproximação regular de dois jogadores do meio-campo à entrada da área, a que se juntavam os três da frente e, eventualmente, os laterais. Este modelo, na teoria, coloca um homem extra no ataque, o tal 10, e portanto, mais poder de fogo. Mas ao não ter um dos dois médios mais recuados com um papel fixo, como tampão, corre o risco de haver uma atrapalhação na movimentação do miolo e a equipa ficar mais frágil no momento da perda de bola. O 4-2-3-1 pode não ser mais defensivo que o 4-3-3, mas é um sistema bastante mais frágil.

O FC Porto vai jogar, para a Liga, com equipas que vão estacionar o autocarro e aproveitar falhas para lançamentos rápidos de contra-ataque. Foi assim que se perderam muitos pontos no ano passado. Lançamentos rápidos da defesa, diagonais no meio-campo, aproveitando processos defensivos desorganizados por uma rápida perda de bola. O 4-3-3 garantia, na teoria, que a presença de um médio mais defensivo na ajuda aos centrais, podia tapar essas iniciativas de contra-ataque com mais facilidade, o que leve a uma maior contenção da dupla e menos ajuda no movimento atacante.

O 4-2-3-1 é um modelo que sofre muito mais nessa circunstância.
Aliás, o Paulo Fonseca deve saber, grande parte dos golos sofridos por equipas como Dortmund e Real Madrid (que no ano passado usaram esse sistema) surgiram de situações assim, diagonais entre os dois médios centros, perdidos em campo, aproveitando os espaços disponíveis entre linhas para ganhar segundos preciosos, suficientes para armar o remate que a presença de uma sombra na zona evitaria (o que faz Busquets em Barcelona, por exemplo).

Nos jogos da pré-época, e na Supertaça, já se verificaram essas situações.
Um médio rival (ou defesa) tem a bola, lança um passe a rasgar entre-linhas, os dois médios estão em linha (ou muito próximos disso), ligeiramente afastados da defesa e é nesse espaço que surge o rival. Isso vai suceder regularmente durante o ano. Contra equipas mais exigentes, que vão ter a bola tanto ou mais tempo que nós (jogos de Champions, sobretudo), essa situação vai ser ainda mais habitual porque esse espaço livre é uma mina de ouro para explorar. Não há um jogador que varra o lance.

Nesta imagem estamos perante essa situação. 
Uma perda de bola do ataque, contra-golpe do rival. O número 10 é o último, o que não corre e o avançado e os extremos estão todos muito próximos. Um dos laterais (Fucile), está pendente do extremo e longe da linha defensiva. Os restantes elementos da defesa estão em linha. Mas os dois médios estão expectantes, na mesma zona. Neste momento o Defour não está a marcar ninguém, é um jogador passivo na acção. O Fernando cumpre o seu papel (o que faz melhor) e aproxima-se do homem com a bola, que pode colocar um passe em diagonal para o avançado nas costas do meio-campo. 


Não deixa de ser uma movimentação de jogadores que pode ser trabalhada durante o ano. Mas é um risco.
Não há sistemas perfeitos, o 4-3-3 desde já não o era. Mas defensivamente era muito mais seguro do que este modelo. Claro que o trabalho dos jogadores será fundamental para que este ou qualquer outro modelo funcione. E de aí vamos ao segundo ponto da análise.

Faz o 4-2-3-1 mais sentido que o 4-3-3 com este plantel e estes jogadores?
(continua)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Do 4-3-3 ao 4-5-1

Temos vindo a trabalhar de há um ano a esta parte em 4-3-3, e é natural que quem quer ser fiel a si próprio mantenha a estrutura. Não há razões para mudar.

Estas declarações foram feitas por Vítor Pereira, na véspera da final da Supertaça Europeia contra o Barça. Nesta altura, interessa pouco discutir se o FC Porto actual, sem ter ainda um ponta-de-lança com nível suficiente para substituir Falcao, deveria ter jogado em 4-3-3 contra a melhor equipa que Vítor Pereira já viu jogar. Contudo, perspectivando o futuro, vale a pena recordar o que se passou em 2002/03 e 2003/04.

Na época 2002/03, o FC Porto jogou quase sempre em 4-3-3, com a equipa base a ser constituída pelos seguintes jogadores:
Vítor Baía
Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente
Costinha, Maniche, Deco
Capucho, Postiga, Derlei

No entanto, chegados à final da Taça UEFA, em Sevilha, não houve Postiga (tinha sido expulso nas meias-finais) e no onze inicial surgiu Dmitri Alenichev, alterando o esquema habitual para um 4-4-2.

Será que José Mourinho fez mal, ao ter alterado o seu esquema habitual de 4-3-3 para 4-4-2? Devido a esse facto o FC Porto jogou pior que o Celtic? Foi menos ofensivo? Criou menos oportunidades e marcou menos golos que habitualmente?

Depois de ter “passeado” na Taça UEFA de 2002/03, na época seguinte o FC Porto voltou à Liga dos Campeões e nos jogos europeus, nomeadamente nos de maior dificuldade, Mourinho passou a adoptar o 4-4-2 como esquema base. A equipa de 2003/04 era menos ofensiva que a do ano anterior, mas o que perdeu em espectacularidade ganhou em consistência defensiva. Não foi certamente por acaso que não perdeu um único jogo na fase a eliminar da Liga dos Campeões.

Em 26/05/2004, no Arena Aufschalke, em Gelsenkirchen, o onze inicial dos dragões foi o seguinte:
Vítor Baía
Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente
Costinha, Pedro Mendes, Maniche, Deco, Carlos Alberto
Derlei

Ou seja, uma equipa com cinco médios e sem um único ponta-de-lança de raiz. De facto, Mourinho deixou no banco McCarthy, o qual só entrou em campo aos 78 minutos, para substituir Derlei, e quando o FC Porto já vencia por 3-0.

A situação actual não é exactamente igual à da época 2003/04, mas será que na Liga dos Campeões, contra os adversários mais fortes, a equipa se poderá dar ao luxo de jogar em 4-3-3?

domingo, 28 de março de 2010

Quem deve fazer o plantel? II

Nota prévia: Este artigo é uma reciclagem de um artigo escrito aqui em 2008, mas por o achar actual, por manter a mesma opinião e por estar com preguiça para escrever sobre outra coisa qualquer, faço um copy-paste e uma breve revisão.

Luís Freitas Lobo:

É uma das perguntas teóricas mais feitas no futebol: o que está primeiro, o sistema ou os jogadores? A resposta certa escapa, porém, a esta simples dicotomia. O que está primeiro é o modelo de jogo do treinador. Quando no início da época se contrata um treinador, os clubes devem ter presente que mais do que o líder ou o estratego, contrata-se também, simultaneamente, o seu modelo de jogo preferencial.

Kevin Keegan, quando abandonou o Newcastle (Setembro 2008):

It's my opinion that a manager must have the right to manage and that clubs should not impose upon any manager any player that he does not want.

Jesualdo Ferreira, em entrevista ao Público (Outubro de 2008):

O FC Porto tem de se estruturar internamente, tem de ter um “scouting” activo e competente e os treinadores do FC Porto têm de se dedicar profundamente ao trabalho com os jogadores que chegam.

E muitos outros exemplos se arranjariam, por isso a questão que eu ponho: no meio disto onde é que fica a política desportiva e de contratações?

foto: Academia de Talentos

O clube deve ter um modelo de jogo ou ter o modelo de jogo do treinador? Ou seja, anda-se uma meia dúzia de anos a dizer que se está a implementar um modelo de jogo no clube, a equipa de juniores B passou da alçada do clube para a SAD, para uniformizar modelos de jogo desde os 15-16 anos. Fazem-se contratações para os escalões jovens, para os jogadores crescerem dentro do clube a jogar em determinado modelo. Depois chega um treinador e faz-se um rewind a tudo isto? começa-se tudo de novo? ou ignora-se o sistema de jogo da equipa principal e continua-se a formar para o 442 e 433?

Num clube que tem uma cultura de manter os treinadores durante 2 anos (com casos muito esporádicos de 3 anos), faz sentido dar liberdade total de acção ao treinador? Faz sentido contratar um treinador por 2/3 anos e depois contratar os jogadores por 4/5 anos? Se o próximo treinador não gostar do modelo de jogo anterior e quiser implementar o seu, lá vão ficar jogadores encostados 2 anos com o clube a pagar salários ou indemnizações.

Se se muda constantemente o modelo da formação, a probabilidade de aproveitar jogadores diminui. Se se dá liberdade ao treinador para escolher o modelo de jogo, ele precisa de jogadores para esse modelo, logo não há tempo para os formar, logo há que contratar a terceiros.

Parece-me que o lema Quando se contrata um treinador, contrata-se, ao mesmo tempo, o seu modelo de jogo na gestão global de um clube ou SAD, é a melhor forma de aumentar o n.º de jogadores sobre contrato, logo aumentar os custos, algo a que um clube como o FCP não se pode dar ao luxo.

Ou fazendo-o, tem de o fazer a médio prazo para dispersar os custos, mas para isso precisa que o treinador fique 5-10 anos no clube (numa gestão à inglesa), e que a mudança se faça gradualmente, nos escalões jovens o modelo entra em vigor de imediato, na equipa principal no 1º ano é o treinador a adaptar-se aos jogadores que tem, no ano seguinte vai-se fazendo um misto, e ao fim de 2-3 anos aplica-se o modelo do treinador, nesta altura a formação já poderá fornecer jogadores e o plantel foi sendo moldado para o modelo desejado. Mas nessa altura é bom que o treinador fique mais 4-5 anos.

Neste aspecto e como reconhecia Jesualdo Ferreira em 2008 parece-me que o FC Porto está com a política correcta. Ao contrário de muitos, a mim não me repugna, que seja a SAD - e não o treinador - a escolher os jogadores. Pode repugnar-me a forma como a nossa SAD escolhe alguns jogadores, mas isso é outra conversa.

E foi por aceitar não aceitando que, para mim, Jesualdo Ferreira falhou. Aceitou as condições de contratação, mas depois não aceitou que tinha de ser ele a moldar-se à cultura do clube e aos jogadores que tinha à sua disposição. Não tentou nem quis tentar tirar o melhor partido deles. E é isto que não faz sentido. Como não fez sentido que se tivessem contratado Diego, Leo Lima, Leandro Bomfim, Jorginho, Ibson e depois contratar um treinador que quis impor um modelo de jogo que no máximo (e com muita boa vontade) utilizaria um jogador com estas características.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Que esquema deve ser adoptado como base para os jogos que se seguem?


Das três opções disponíveis, a mais votada foi "o 4-4-2 de Alvalade" com 67% dos votos (37 em 55).

Na segunda posição, a uma distância considerável com apenas 11 votos (20%) ficou "o 4-3-3 habitual (com Mariano, Tarik ou Candeias no lugar de Tommy)". A opção por "outro" esquema reuniu apenas 7 votos (12%).

Deixe um comentário a este artigo, e diga-nos qual deveria ser o esquema utilizado, no caso de achar que deve ser diferente das opções acima.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Quem deve fazer o plantel?

Jesualdo Ferreira, recentemente em entrevista ao Público:

O FC Porto tem de se estruturar internamente, tem de ter um “scouting” activo e competente e os treinadores do FC Porto têm de se dedicar profundamente ao trabalho com os jogadores que chegam.


Kevin Keegan, quando abandonou recentemente o Newcastle:

It's my opinion that a manager must have the right to manage and that clubs should not impose upon any manager any player that he does not want.


Luís Freitas Lobo:

É uma das perguntas teóricas mais feitas no futebol: o que está primeiro, o sistema ou os jogadores? A resposta certa escapa, porém, a esta simples dicotomia. O que está primeiro é o modelo de jogo do treinador. Quando no início da época se contrata um treinador, os clubes devem ter presente que mais do que o líder ou o estratego, contrata-se também, simultaneamente, o seu modelo de jogo preferencial.


E muitos outros exemplos se arranjariam, por isso a questão que eu ponho: no meio disto onde é que fica a política desportiva e de contratações?

foto: Academia de Talentos

O clube deve ter um modelo de jogo ou ter o modelo de jogo do treinador? Ou seja, anda-se uma meia dúzia de anos a dizer que se está a implementar um modelo de jogo no clube, a equipa de juniores B passou da alçada do clube para a SAD, para uniformizar modelos de jogo desde os 15-16 anos. Fazem-se contratações para os escalões jovens, para os jogadores crescerem dentro do clube a jogar em determinado modelo. Depois chega um treinador e faz-se um rewind a tudo isto? começa-se tudo de novo? ou ignora-se o sistema de jogo da equipa principal e continua a formar-se para o 442 e 433?

Num clube que tem uma cultura de manter os treinadores durante 2 anos (com casos muito esporádicos de 3 anos), faz sentido dar liberdade total de acção ao treinador? Faz sentido contratar um treinador por 2/3 anos e depois contratar os jogadores por 4/5 anos? Se o próximo treinador não gostar do modelo de jogo anterior e quiser implementar o seu, lá vão ficar jogadores encostados 2 anos com o clube a pagar salários ou indemnizações.

Se se muda constantemente o modelo da formação, a probablidade de aproveitar jogadores diminui. Se se dá liberdade ao treinador para escolher o modelo de jogo, ele precisa de jogadores para esse modelo, logo não há tempo para os formar, logo há que contratar a terceiros.

Parece-me que o lema Quando se contrata um treinador, contrata-se, ao mesmo tempo, o seu modelo de jogo na gestão global de um clube ou SAD, é a melhor forma de aumentar o n.º de jogadores sobre contrato, logo aumentar os custos, algo a que um clube como o FCP não se pode dar ao luxo.

Ou fazendo-o, tem de o fazer a médio prazo para dispersar os custos, mas para isso precisa que o treinador fique 5-10 anos no clube (numa gestão à inglesa), e que a mudança se faça gradualmente, nos escalões jovens o modelo entra em vigor de imediato, na equipa principal no 1º ano é o treinador a adaptar-se aos jogadores que tem, no ano seguinte vai-se fazendo um misto, e ao fim de 2-3 anos aplica-se o modelo do treinador, nesta altura a formação já poderá fornecer jogadores e o plantel foi sendo moldado para o modelo desejado. Mas nessa altura é bom que o treinador fique mais 4-5 anos.

Neste aspecto e como reconhece Jesualdo Ferreira parece-me que o FC Porto está com a política correcta. Ao contrário de muitos, a mim não me repugna, que seja a SAD - e não o treinador - a escolher os jogadores. Pode repugnar-me a forma como a nossa SAD escolhe alguns jogadores, mas isso é outra conversa.

domingo, 21 de setembro de 2008

Imperfeições do Modelo

Venho desta vez abordar a questão da eventual existência de algumas imperfeições do modelo (ou do sistema ou da táctica, como preferirem, para não suscitar qualquer melindre a especialistas na matéria como o Prof. Jesualdo Ferreira) da equipa do FC Porto. Faço, porém, a salvaguarda de ser um leigo confesso neste tipo de assunto. Considero, então, que o modelo de jogo da nossa equipa enferma dos seguintes defeitos:

● Não saber gerir o trade-off entre as transições rápidas e a posse de bola. Isto é bem visível quando concede deliberadamente o domínio do jogo ao adversário, quando tal é desaconselhável (lembro que o Mourinho iniciou esta prática no FC Porto, mas com duração curta e controlada, apenas para a equipa poder descansar uns minutos).

Sabemos que Jesualdo Ferreira "privilegia as transições rápidas", mas isso não deve significar o desprezo pela posse de bola. Os jogos mais difíceis, como o são os da Liga dos Campeões, exigem que depois de obtido o golo se “esconda a bola” (no léxico Lobista) tornando o jogo mais lento e permitindo à equipa descansar na sua posse. Este comportamento poderia ser cultivado e melhorado, da mesma forma que o foi o das transições rápidas.

Utilizar exclusivamente um modelo de transições é algo que não me agrada por manter sempre o ritmo elevado e permitir que o adversário consiga partir o jogo ficando as linhas defesa e ataque muito afastadas.

Actualmente vemos o FC Porto controlar o jogo durante alguns períodos por contraponto de um FC Porto de Mourinho (ah, sempre este fantasma…) que conseguia combinar nas doses certas a velocidade das transições com a posse para assim controlar o jogo do princípio ao fim. Além disso, para que o modelo puro de transições rápidas funcione é necessário mais qualidade individual para desequilibrar no ataque. Era com os esteios Quaresma e Bosingwa que se desenvolvia o modelo nas faixas, o que é completamente diferente do que ter nas laterais Mariano e Rodriguez. Isto já foi bem visível nos poucos jogos que realizámos esta época.

Esta ideia veio a propósito do jogo do Dragão contra o Fenerbahçe, em que a equipa se apanhou a vencer 2-0 e não foi capaz, nem pareceu querer e isso é que já me parece mais grave, fazer circular a bola para retirar ímpeto ao adversário e controlar o jogo.


● Defender bolas paradas à zona. Quando o fazemos contra equipas inglesas é a "morte do artista" (o Liverpool aproveitou bem no ano passado, o Arsenal vai agradecer e aproveitar). Os treinadores adversários acabam por fazer desmoronar essa estratégia como um castelo de cartas. Quique Flores já o fez na Luz, mandando os jogadores marcar cantos curtos e com passes para a entrada da área. No jogo com o Fenerbahçe, Aragonês fez o mesmo. A equipa perde a noção do posicionamento e abre brechas defensivas.

Além disso este "sistema" impede uma transição mais rápida para o ataque porque a maioria dos jogadores estão fixos dentro da área. Já reparei que só há transições rápidas quando o Helton consegue agarrar a bola porque tem uma visão ampla do posicionamento dos colegas, às vezes rápidas demais e tem de esperar que os colegas ocupem os seus postos. Sempre que outro jogador do FC Porto recupera a bola a transição é mais lenta e com mais circulação horizontal.


● A incapacidade de utilização de um dos principais sistemas tácticos: o 4-4-2.
Esta incapacidade é válida para os jogos internos contra o Sporting como para os jogos na Liga dos Campeões onde, para vencer, é quase obrigatório saber usar também este sistema. As tareias recentes que a equipa de Alvalade nos tem impingido demonstram claramente que este FC Porto não sabe jogar em 4-4-2. Talvez porque sempre que o tentou fê-lo com adaptações (por exemplo Marek Cech e Mariano foram adaptados a médios quando um era lateral e o outro extremo).

Se nas épocas anteriores as opções para povoar o meio campo não eram muitas, esta época temos jogadores em quantidade e qualidade para jogar em 4-4-2. Entre Fernando, Pele, Bolatti, Meireles, Lucho, Guarín, Tomás Costa e até Cristian Rodriguez temos opções suficientes para encontrar um quarteto eficaz para o meio campo. E não vão faltar oportunidades.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Mudança de formação: do 4-3-3 para o 4-4-2

A saída de Ricardo Quaresma para o F.C. Internazionale Milano, abriu a porta para uma possível mudança de formação (não no sentido de formação, mas no sentido da disposição táctica) da equipa.

O famoso 4-3-3 de Jesualdo Ferreira utilizado nas últimas épocas pelo FC Porto parecia "girar" em torno de Ricardo Quaresma, da sua capacidade de criar desequilíbrios no ataque e para prevenir os desequilíbrios defensivos criados pelo mesmo jogador, devido à sua inacção defensiva (propositada ou não). Este estilo de jogo dá preferência ao jogo junto das linhas laterais de modo a que o jogador que lá se encontre possa optar pelo cruzamento (para o avançado, e para os médios que apareçam vindos de trás) ou pelo remate ao descair para o centro do terreno.

Atendendo à fisionomia (Lisandro com 1.75, Farías e Hulk com 1.78 e Rabiola com 1,80) e estilo de jogo dos jogadores existentes no ataque do FC Porto e ao sistema de jogo implementado pelo treinador que privilegia as rápidas transições de bola e o lançamento dos jogadores nas costas da defesa, este plantel parece mais ajustado a uma formação diferente.

O 4-4-2 parece-me então uma formação interessante para o tipo de jogadores que o FC Porto tem no plantel actual.

4-4-2 (clássico)


Cristian Rodríguez e Mariano González são dois jogadores, que apesar de partilharem a mesma posição no terreno que Quaresma, são distintos na maneiro como o fazem. Auxiliam a equipa na fase defensiva, e são mais agressivos a atacar a bola. Para um maior equilíbrio ao meio campo, são normalmente utilizados dois médios de características complementares: um de pendor mais defensivo e um de pendor mais ofensivo.

4-4-2 Diamante


A contratação de múltiplos jogadores para a posição central do terreno (Tomás Costa, Freddy Guarin, Péle e o retornado Fernando) possibilitam uma formação que fortaleça o centro do meio-campo. Esta táctica permite (e exige) que os laterais sejam mais ofensivos de modo a apoiarem o ataque.


Para as duas opções acima existem opções no plantel actual que aconselham uma e outra:
- Os laterais que têm sido titulares (Sapunaru e Benitez) não terem muita propensão ofensiva desaconselha o uso da formação em diamante, mas existe também a opção mais ofensiva Fucile e Lino.
- A grande aposta feita em Cristian Rodríguez (custou 7M€ por 70% do passe) poderia aconselhar a utilizar a formação clássica, com o recurso a dois alas, apesar de o "Cebolla" poder jogar também como médio interior e explorar o seu remate de longe.
- A utilização simultânea de dois avançadas é possível em qualquer uma delas, potenciando o investimento feito nos actuais dois suplentes de Lisandro: Farías (4M€) e Hulk (5,5M€ por 50% do passe).
- O reforço de um meio-campo enfraquecido pela saída de P.A. a nível defensivo com a entrada de um dos médios centrais.

Jesualdo Ferreira tem utilizado frequentemente o 4-4-2 em jogos considerados de dificuldade acrescida (na Liga dos Campeões e em alguns jogos contra os outros dois grandes do futebol português). Considerando que existe um trabalho prévio (não quero acreditar que os jogadores foram postos a jogar em 4-4-2 de improviso), não deverá ser muito complicado fazer esta transição.

imagens: record.pt e wikipedia.org