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domingo, 17 de junho de 2012

A vergonha de Gijon

«São vários os cenários em cima da mesa. Para Portugal o caminho mais simples será ganhar à Holanda e torcer por uma vitória da Alemanha sobre a Dinamarca (o empate entre estas duas equipas também serve). A selecção portuguesa também pode empatar com a Holanda, desde que a equipa de Joachim Löw se imponha aos dinamarqueses.
Porém, uma vitória da Dinamarca sobre a Alemanha, por 3-2 (ou 4-3, 5-4, etc), colocaria imediatamente as duas selecções na próxima fase, em detrimento da portuguesa. É que, neste cenário, Portugal seria eliminado, mesmo vencendo a Holanda.
As três equipas somariam seis pontos e seria necessário recorrer aos outros critérios de desempate definidos pela UEFA. Os pontos conquistados nos jogos entre as três equipas (seis) não desfariam o nó. A diferença de golos (zero) também não. Seria então necessário recorrer à alínea c) (golos marcados nos jogos entre as equipas empatadas), o que ditaria a eliminação de Portugal.»
in PUBLICO.pt


Embora já tenham ocorrido dois resultados de 3-2 (no Portugal x Dinamarca e no Inglaterra x Suécia), não acredito que este resultado se repita hoje e muito menos que os vikings sejam capazes de marcar três ou mais golos à Alemanha.

Contudo, sempre que há um resultado que serve os interesses de duas equipas em confronto em detrimento de uma terceira, lembro-me da vergonha de Gijon, um pseudo-desafio entre alemães e austríacos do Mundial 1982 e que até obrigou a FIFA, a partir desse Mundial, a mexer nos horários dos últimos jogos da fase de grupos.

(Mundial 1982 - o alemão Paul Breitner observa passivamente o austríaco Bruno Pezzey)

E, infelizmente, estes “arranjos” não acontecem só no futebol:

«O FC Porto venceu hoje o Genéve por 10-4, na sexta e última jornada do Grupo C, mas foi afastado da “final a 8” da Liga Europeia, passando os dois primeiros do grupo, Valdagno e Liceo da Corunha. Os portistas foram vítimas do triunfo por um golo dos espanhóis no reduto dos italianos, que era precisamente o único resultado que afastava os “dragões”, vítimas de desvantagem no confronto a três (-1, contra zero do italianos e +1 dos espanhóis).»
in SAPO Desporto, 14/04/2012


Esperemos que Portugal consiga "espremer" esta laranja, que neste EURO 2012 tem estado pouco mecânica e, já agora, que a Dinamarca derrote a Alemanha, mas apenas por 1-0 ou 2-1.

P.S. Se a Dinamarca vencer hoje por uns inesperados 3-2, 4-3, 5-4, ..., nem tudo se perde. Eu, por exemplo, ganho um jantar de borla oferecido por um companheiro do ‘Reflexão Portista’...

domingo, 10 de junho de 2012

As chagas das Quinas


Finalizar, a nossa cruz

A derrota de Portugal com a Alemanha deixou no ar um vislumbre de sentimentos diversos. A organização lusitana superou largamente a dislexia patenteada nos encontros de preparação. Mas fatalmente a Seleção voltou a vacilar nos momentos decisivos e contra um adversário poderoso. Porventura haverá mais esperança no seio da pátria numa exibição que não deslustrou. Mas os sintomas da doença continuam lá morar e provavelmente vão abafar Portugal bem antes que a sua esperança acabe.

A eventual falta de ousadia de Paulo Bento até ao minuto 72 pode muito bem ser explicada na tração mais dianteira do seu conjunto diante da Turquia. O sistema e os protagonistas eram os mesmos em ambas as contendas, mas a assunção do risco no controlo do jogo e no passe pôs em xeque o seu sucesso no último particular. Antevendo esse desacerto com os alemães o selecionador apostou numa construção sem riscos, com os seus jogadores a não se permitirem a exposições desnecessárias, limitando-se a fazer circular a bola por caminhos óbvios.

E a verdade é que a coisa decorreu quase sempre de forma organizada e planeada. Miguel Veloso não se perdeu nos seus habituais passes transviados e o grupo foi bastante solidário entre si. Claro que tamanha preocupação em deixar tudo tão aprumado desviou a atenção aos jogadores lusos em agarrar-se ao jogo de quando em vez, não apenas quando o prejuízo já lá morava. Isso, e a eterna nulidade na finalização da raia lusitana.

Paulo Bento não foi pouco ousado com uma Alemanha que se revelou ser um pequeno monstro. O selecionador legitimamente preocupou-se em disfarçar as diversas lacunas que Portugal ostenta. Do trinco, ao puro 10. Do ponta-de-lança ao lateral direito.

Algumas dessas chagas ficaram remetidas ao esquecimento durante os 90 minutos, mas seria impossível escamoteá-las todas de uma só assentada. Aqui não dita a regra do mercado global dos clubes. Cada Seleção tenta sobreviver com aquilo que a sua terra lhe dá. E nossa, para além de ter desperdiçado bom fruto em colheitas recentes, poucas vezes deu uma “máquina de golos” como a que resolveu o jogo da noite passada.

Para se ganhar uma competição como esta não basta muita ambição e cagança de todo um povo. Só com um conjunto homogéneo e equilibrado é possível reverter as adversidades com outras opções tão ou mais válidas. Portugal é uma equipa sem resposta a algumas necessidades, não por culpa de Paulo Bento, mas sim por inépcia do seu campo de recrutamento.

sábado, 9 de junho de 2012

As “tribos” do futebol europeu

Ontem começou o EURO 2012 e hoje entra em campo a seleção das quinas. Parece-me uma boa altura para recordar alguns extratos de uma entrevista do engenheiro do Penta e atual selecionador da Grécia, feita numa esplanada de Atenas há cerca de um mês atrás.

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A entrada da Troika no país mudou a atitude das pessoas?

[Fernando Santos]: Na primeira fase as pessoas foram surpreendidas. De repente, as contas estavam mascaradas. Estou cá desde 2000 e, até 2006, a Grécia era um dos países com melhor crescimento e de repente dizem que foi tudo uma grande aldrabice. As pessoas pensaram: onde está o dinheiro? Foi a fase da indignação. Depois esperava-se que a Troika viesse pôr tudo em ordem, resolver o problema, mandar prender estes tipos todos e pôr aqui o dinheiro outra vez. Nada disso aconteceu, antes pelo contrário. Foi muito pior e passou-se então por uma fase muito conflituosa e nos últimos cinco meses entrámos numa fase de apatia geral. Antigamente, discutia-se continuar no euro ou sair. Agora parece que é igual. Faz lembrar o que se vivia em Portugal antes do 25 de Abril.

Pode descambar numa revolta social?

[Fernando Santos]: Alguma coisa vai ter de acontecer. Aqui nasceu a civilização e depois estiveram 500 anos dominados pelos turcos. O grego reage muito mal quando alguém o quer controlar. Por isso reagem muito mal aos alemães, sobretudo à senhora Merkel.

É só a Alemanha ou também a toda a Europa?

[Fernando Santos]: Em relação à Europa há uma desilusão. Face à Alemanha há uma crispação, para não dizer raiva. Em Fevereiro íamos fazer lá um jogo particular e a federação alemã não deixou. As pessoas na rua diziam-me: "quando jogares com os alemães, tens de os comer". Há muito ressentimento por causa da questão histórica. Não só pelas vidas que tiraram aos gregos [na II guerra mundial], aquilo que levaram do país, sobretudo da Acrópole para os museus deles, e depois o que tinham ficado de pagar [as compensações do pós-guerra] e não pagaram. Tudo isto está muito presente. E depois os casos mais recentes com os submarinos. Em Portugal foram só dois, aqui foram muito mais.

Isso vai-se sentir no Europeu de futebol?

[Fernando Santos]: Se a Grécia jogar com a Alemanha era bom sinal, porque significava que tinha passado a primeira fase do europeu. Para os gregos vai ser um jogo muito importante. Vai puxar ao sentimento.

No futebol também se sente a crise?

[Fernando Santos]: Pela paixão que se sente pelo país, sim. Aumentou a obsessão pela soberania. Os gregos preferem morrer do que abdicar de uma ilha que seja. Isso vê-se na relação com a Turquia, por isso é que o orçamento de defesa é o maior da Europa. Jogar pela seleção já é motivador, nesta fase basta dar aqui um cheirinho...

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Nota: A entrevista completa, feita pelo jornalista Luís Rego, foi publicada no Diário Económico (na edição de 4 de Maio) e pode ser lida aqui.


O futebol atual, que de desporto já tem muito pouco, está cada vez mais distante do espírito dos jogos olímpicos da antiga Grécia (interrompiam-se guerras para disputar os jogos!) e está a transformar-se num instrumento de “guerras” entre diferentes “tribos”.
Durante décadas, as principais “guerras” foram entre “tribos” da mesma cidade ou país, mas estas declarações de Fernando Santos que, acredito, traduzem o sentimento generalizado do povo grego, mostram que chegamos à era das “guerras” entre “tribos” de uma eurolândia esfrangalhada e a cair de podre.

Já agora, um árbitro grego estará em condições de arbitrar um jogo da seleção alemã?