Depois dos rumores, a realidade. Há vários meses que se especulava com a saída - voluntária - de Antero Henriques do organograma da SAD e da direcção desportiva do clube. A saída está agora, no final do mais lamentável mercado de transferências de que há memória, oficializada. Antero sai e quem acompanhou os seus anos como Director Desportivo sabe que, na prática, a perda é relativa mas também que a sua saída é um mal menor tendo em conta um problema mais grave e que se vai, progressivamente alastrando desde o clube.
Antero era um Director Desportivo ausente. Alguém ouviu Antero falar nestes três anos de desgraças? Pois não. Nos anos das vacas gordas, Antero era um homem com o ego inchado que dava entrevistas á Marca a gabar-se do modelo do Porto como algo seu e deixando cair, aqui e ali, que era alvo da cobiça de grandes clubes europeus. Curioso que sempre se tenha resistido a uma oferta milionária, caso tenham realmente existido. Nesses anos Antero falava no final do ano para colher os louros. Nos anos das derrotas, nem pio. O papel de Director Desportivo no FC Porto de Pinto da Costa sempre foi ingrato porque o clube nunca teve um maior Director Desportivo do que o actual Presidente, na etapa de Américo de Sá. O que veio depois foi, simplesmente, uma extensão da sua liderança brilhante e activa, sobretudo até meados dos anos 2000. Parecia que o Porto tinha um Presidente-Director Desportivo e que não fazia falta mais ninguém. Talvez por isso não se exigisse muito a Antero. Mas Pinto da Costa envelheceu, silenciou-se, perdeu a noção do mundo que o rodeava, o novo mundo do futebol, e cada vez mais, no mercado actual, ter um grande Director Desportivo tornou-se fundamental. Vejam os mais de dez anos de êxito de Monchi no Sevilla e comparem. Antero nunca foi um Monchi. Nunca foi um Director de comprar barato, desconhecido e bom e saber vende-lo caro. Não. Antero foi o responsável porque, ano sim, ano também, o Porto fosse comprando mais caro e salvando o modelo com negócios in extremis sempre com suspeitos parceiros no mercado. E quando se passou a pagar tanto como se vendia a principio do modelo, ficou claro que o "modelo" era treta e o negócio é que era importante. Sobretudo o negócio paralelo que foi envolvendo a SAD em manobras mil. Umas mais claras do que outras.
Alguém acredita que Antero, como Director Desportivo, está detrás das chegadas de jogadores chave dos últimos anos (Hulk, Moutinho, Falcao, Jackson), de jogadores relevantes no mercado (Casillas) ou de jovens promessas (James, Danilo)? Não. Antero foi recolhendo os louros de um trabalho alheio e procurando cimentar, á base de títulos, a sua posição internamente com um só objectivo, a sua particular cadeira de sonho. Não importava a sua afiliação clubística original nos seus tempos de jovem nem o seu trabalho na sombra, o que contava era fazer-se importante dentro da estrutura. E por isso o clube foi caminhando rumo a um abismo onde está actualmente. Antero presidiu a pior janela de transferências da história recente do clube. Mas também todas as anteriores. Foi incapaz de encontrar um central desde Abril que não o mesmo, referenciado originalmente pelo próprio Peseiro. Foi incapaz de colocar os excedentários com vendas tão necessárias que vão levar o clube a repetir uma operação que se disse ser de uma só vez. Foi responsável pelo cardápio de dezenas de empréstimos que são marca da casa da última década. Antero demitiu-se? Bolas, com o seu CV, o estranho é que Antero não tenha sido demitido.
Claro que Antero nunca seria demitido quando paralelamente a sua influência abraça personalidades do clube noutras áreas. São muitos anos, muitas histórias, muitas vivências para serem resolvidas com uma carta de despedimento. O que é certo é que Antero perdeu a sua guerra particular. Não é por casualidade que a decadência do seu modelo coincidiu com o regresso do filho pródigo, momento a partir do qual cada um dos dois se esforçou a convencer o timoneiro de que o seu modelo era o melhor para lhe suceder. Cada um por um lado foram cozendo negócios e negociatas, aliando-se a bancos, fundos, agentes, procurando impor os seus treinadores e jogadores, tudo para sair vencedor de algo que, para eles, é mais importante do que o Futebol Clube do Porto, o cargo máximo. E sob o olhar atento e, imagino, desesperado e desalentado, de quem devia ter antecipado há muitos anos que isto viria a suceder mas que não soube nem como o evitar nem como contornar. Antero já não está mas a sombra de Alexandre segue, mais presente do que nunca, ainda que a saída da SAD não é o fim de nada e sim o início de muito.
Ninguém espere uma rendição fácil de quem tanto lutou para chegar ao topo e mais num clube que está mais preocupado, por dentro, com tudo menos com o êxito em campo e o sentimento dos adeptos. Antero viu negócios seus abortados, viu vendas suas abortadas, viu como o seu trabalho era substituído pelo trabalho alheio mas com as consequências a pesar sobre o seu nome e saiu. Fez o que tinha a fazer e demorou um defeso em fazê-lo porque esta realidade já tem alguns anos. Mas a sua saída é um mal menor. O seu substituto é um homem ligado ao scouting mas sem peso político dentro do clube e portanto o cargo que oficialmente ocupa será controlado fora do seu escritório. Nunca valeu tão pouco ser Director do FC Porto quando as decisões, cada vez mais, se cozem desde fora do clube. Pinto da Costa entrou no clube e baniu os sócios de opinarem sobre os treinos e os directores das modalidades e de contas de opinar sobre o futebol. Está perto de sair deixando que as decisões sejam tomadas fora das portas do clube. Antero, pelo menos, tinha um cargo dentro do clube.

