I. A trajectória da bola e as decisões da FPFII. A pouco inocente nomeação de CalaboteIII. Os estágios das selecções em... LisboaIV. Treinador-adjunto do SLB no banco do TorreenseV. Deus deu o campeonato à melhor equipaVI. Um Gama avermelhado na baliza da CUFVII. Treinador do FC Porto comprometido com o SLB----------
VIII. Jornalistas de ‘A Bola’ lamentam título ganho pelo FC Porto
O jornal ‘A Bola’ foi fundado em Lisboa, em 29 de Janeiro de 1945, por Cândido de Oliveira, Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo. Os dois primeiros foram os mentores deste projecto jornalístico, enquanto que o médico Vicente de Melo suportou os custos, com um investimento inicial de cinco mil escudos.
Álvaro de Andrade, redactor do Diário de Lisboa, foi o primeiro director, dada a impossibilidade de Cândido de Oliveira, por ter estado preso no Tarrafal, e de Ribeiro dos Reis, por ser oficial do Exército.
Cândido de Oliveira é uma figura conhecida do futebol português e, inclusivamente, a Supertaça tem o seu nome mas, quem era Ribeiro dos Reis?
António Ribeiro dos Reis era natural de Lisboa, onde nasceu a 10 de Julho de 1896. Foi jogador de futebol, seleccionador nacional, treinador, Secretário Geral da FPF, dirigente da FIFA para o Sector da Arbitragem e jornalista desportivo. Seguiu também a carreira militar, passando à reserva em 1950 com a patente de tenente-coronel.

A 2 de Novembro de 1913, com 17 anos, disputou o seu primeiro jogo com a camisola do Benfica, onde permaneceu até terminar a carreira de futebolista em 18 de Janeiro de 1925.
Ribeiro dos Reis haveria de continuar ligado ao SLB, quer como treinador (o Benfica foi o único clube que aceitou treinar), quer como dirigente ocupando diversos cargos, entre os quais vice-presidente, capitão-geral e presidente da Assembleia Geral. É no desempenho deste último cargo que apoia a ascensão de Joaquim Ferreira Bogalho à presidência do clube, em 1952, e impulsiona o processo de recolha de fundos para a construção do Estádio da Luz.
«Em 9 de Janeiro de 1943 o Benfica homenageou António Ribeiro dos Reis. (...) O dr. Magalhães Godinho, em nome da comissão organizadora, abriu a série dos brindes, para fazer o elogio de Ribeiro dos Reis, oferecendo-lhe uma linda salva de prata, com a seguinte dedicatória: “O Sport Lisboa e Benfica ao capitão Ribeiro dos Reis, comemorando os seus 30 anos de actividade desportiva, orgulho e honra da colectividade e do desporto nacional, aos quais tem servido com lealdade e nobreza.”»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes'
Paralelamente à dedicação e empenhamento com que servia o SLB, o que lhe valeria a atribuição da Águia de Ouro em reconhecimento pelos serviços prestados, Ribeiro dos Reis era também um dos redactores principais de ‘A Bola’, jornal de que assumiu formalmente a direcção mal passou à reserva, tendo sido director durante 10 anos, entre 1951 e 1961.
O director de 'A Bola', Ribeiro dos Reis, entrega a Bola de Prata a Matateu
«A segunda jornada da Taça dos Campeões só se realizou em Fevereiro (1 e 26). O coronel Ribeiro dos Reis, director de ‘A Bola’ já não chegou a vê-la, nem assistiu ao segundo grande êxito do clube pelo qual tanto fizera, durante dezenas de anos. Faleceu em 3 de Dezembro de 1962 e o seu funeral saiu da Secretaria do Benfica para o cemitério dos Prazeres.»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A Bola
Estes factos dão o enquadramento e ajudam a perceber porque razão ‘A Bola’ é, desde a sua criação, uma espécie de jornal semioficial do SLB. A proximidade e ligação (inclusive afectiva) ao SLB é algo que está no ADN do jornal da Travessa da Queimada.
Ora, apesar de se saber por quem foi criado e qual é a linha editorial que ‘A Bola’ sempre adoptou, há “pérolas” que ainda nos conseguem surpreender, como é o caso da crónica do Benfica – CUF, escrita por Alfredo Farinha há quase 50 anos atrás.
Título de primeira página: “Jogo empolgante e dramático de um campeão malogrado”
Título no interior: “A equipa cufista queimou muito tempo!”
Excertos da crónica de Alfredo Farinha:

«Estava escrito! Estava escrito que o Benfica perderia o campeonato! Eram estas, no final do empolgante e dramático jogo da Luz, as duas frases que brotavam dos lábios de uma grande parte dos adeptos benfiquistas. Nem um grito de revolta, nem uma recriminação, nem um queixume. Apenas esta frase, dorida, magoada, impregnada de resignação e conformismo: "Estava escrito!".
Ela bastava, porém, para dizer tudo: para fazer justiça à grande e desafortunada exibição dos jogadores "encarnados"; para evocar as muitas oportunidades de golo perdidas por alguns dos seus avançados; para lastimar as atitudes de exacerbada hostilidade dos jogadores cufistas; para gritar o seu protesto contra a fatalidade de um campeonato perdido nos derradeiros instantes.
Mereceria o Benfica ter perdido este campeonato?
A pergunta talvez não tenha cabimento nas linhas desta crónica, que tem de cingir-se, apenas, aos acontecimentos do encontro da Luz. Calma e imparcialmente, porém, temos de convir que na medida em que a questão do título estava dependente do número de golos que o Benfica marcasse na Luz, os seus jogadores e adeptos têm razão para se sentirem injustamente despojados do triunfo final. É que, independentemente das circunstâncias em que decorreram os últimos minutos deste histórico domingo de futebol; independentemente mesmo do grande nível da exibição produzida pela equipa "encarnada", o Benfica poderia, deveria e merecia ter vencido a CUF por diferença superior a 6 golos.
(...) a CUF não jogou, exclusivamente para si, mas também para uma outra equipa (a do FC Porto) que estava á margem da luta travada na Luz. Se assim foi – e por legítima temos a presunção – cremos existir aqui um problema de ética, digno de, em melhor oportunidade, ser devidamente apreciado e analisado.
(...) Até que ponto é lícito a uma equipa defender, contra outra, de maneira ostensiva e contrária ás leis e espírito de jogo, os interesses de uma terceira? Não será esse procedimento tão incorrecto e anti desportivo como o inverso, isto é, o de facilitar, propositadamente, com o fim de prejudicar os interesses doutrem, a vitória do adversário? As perguntas aqui ficam, por ora sem resposta. Mas talvez valha a pena, em próxima oportunidade, tomá-las para tema de um artigo.»
A forma como esta crónica está escrita é de tal forma insidiosa que nem sequer é preciso dizer nada. A própria crónica fala por si e pelo “jornalista” que a escreveu.
As crónicas deste “jornalista” haveriam de encher as páginas de ‘A Bola’ durante décadas, mas a sua máscara iria cair em meados dos anos 90 quando, como representante do Benfica, participou no programa da SIC 'Os Donos da Bola' (ficou célebre uma emissão em que ia tendo uma apoplexia em directo, devido a uma das suas acaloradas discussões com o portista Manuel Serrão). Saliente-se que o responsável pelo programa ‘Os Donos da Bola’ era um outro ex-jornalista de ‘A Bola’ – Jorge Schnitzer.
Mas os lamentos devido ao título ganho pelo FC Porto não eram um exclusivo de Alfredo Farinha. Uns dias depois, outro dos históricos de ‘A Bola’ – Aurélio Márcio – assinava um artigo cujo título era: «O Benfica seria campeão em França e Inglaterra».

«O FCP conquistou o título por um golo, que tanto pode ser o de Teixeira como o da CUF. Em França e Inglaterra, porém, o SLB seria campeão, pois o seu quociente (3,9) é superior em relação ao do FCP (3,6) [o quociente corresponde ao total de golos marcados a dividir pelo total de golos sofridos].
Fazemos votos para que numa próxima reforma do regulamento geral da FPF se recorra todos os meios de desempate, menos aos jogos extra, que não condizem com o espírito da competição.»
É caso para dizer que é tudo farinha do mesmo saco...
Enfim, por mais que isso tenha custado ao director e aos jornalistas de ‘A Bola’, por mais que o Sistema da altura tenha tentado “fazer as coisas por outro lado”, o que é certo é que o FC Porto se sagrou campeão na época 1958/59.
A foto seguinte regista a imposição das faixas aos campeões nacionais, num jogo particular (de homenagem a Pedroto) contra o Futth EV da República Federal da Alemanha, disputado no antigo Estádio das Antas em 29/03/1959 (o FC Porto venceu por 4-1).
Campeões 1958/59 (clique para ampliar)
Em cima: Dr. Paulo Pombo (Presidente), Virgílio, Lito, C. Alberto, Américo, Carlos Duarte, Luis Roberto, Monteiro da Costa, Béla Guttmann (Treinador), Amaral (Director), A. Sarmento e Osvaldo Silva.
Em baixo: Teixeira, Morais, Gastão, Noé, Acúrcio, Perdigão e Pedroto.
Faltam, entre outros: Hernâni, Miguel Arcanjo, Osvaldo Cambalacho, Pinho e Barbosa.
(continua: Atraso inicial, penalties e descontos)
Fontes:
[1] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008
[2] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[3] 'Ribeiro dos Reis. Vida que Brilhou em Tempos Sombrios', Astregildo Silva, 2004
[4] '100 figuras do futebol português', A BOLA, 1996Fotos:
[1] '100 figuras do futebol português', A BOLA
[2] 'Sebastião Lucas da Fonseca (Matateu)', www.osbelenenses.com
[3] 'Paixão pelo Porto'