O FC Porto acaba de anunciar um negócio histórico, sem
dúvida um triunfo da SAD. Como diz Pinto da Costa, e bem, mais importante do
que ter superado os números do Benfica e Sporting – que, digam o que disserem, foram
efectivamente superados – o negócio colocou o FC Porto como primeira referencia
na venda de direitos televisivos em Portugal. Mais ainda, a forma como o
negócio foi estruturado – um pack com quatro variáveis: direitos de
transmissão, exclusividade PortoCanal, publicidade nas camisolas e na estática
do Dragão – permite evitar que o Benfica saque da NOS os 10% extra que tinham
acordado em caso de um negócio superior de um rival directo. O Porto pode
perfeitamente reclamar que o valor do seu negócio, no que diz respeito aos
direitos televisivos, é igual ou inferior que o do Benfica, compensando-o nos
outros campos (o Benfica negoceia, paralelamente, a questão do patrocinio e da
publicidade estática na Luz), deixando Vieira de mãos a abanar.
Sobre esse negócio o José Correia e o Tribunal do Dragão já
explicaram quase tudo o que se sabe – há muita coisa que ainda vive no segredo
dos Deuses - sobre o mesmo, não vale a
pena alongar-me. Os números são inquestionáveis ainda que, pessoalmente,
preocupa-me o periodo que abarca o
negócio. É extremamente raro que um clube se comprometa a vender os seus
direitos num prazo fixo tão largo (nesse capitulo, o Sporting foi ainda mais longe, sinal do seu desespero). Há contratos que permitem negociações
anuais, bienais ou trienais depois de um periodo minimo de quatro anos, mas
fechar as contas num lote de dez anos – que, na prática, por motivos do acordo vigente
com a Olivedesportos só arranca em 2018/19 – é um risco importante. Ou ausência
de risco, como quiserem. A SAD garante com esta jogada um rendimento garantido
por uma década tanto nos direitos da TV como na publicidade. Fá-lo com valores
nunca vistos em Portugal. Mas joga com um valor fixo sem calcular as variáveis
futuras.
O mundo de há dez anos era muito diferente do nosso e o de daqui a dez
anos será mais ainda.
Há dez anos ninguém via futebol em Pc´s, telemóveis ou
tablets. Hoje é uma realidade .Há dez anos era impensável que um clube pudesse
colocar uma camara de telemovel num lugar no estádio transmitindo o jogo
on-demand para adeptos em todo o planeta recriando a experiencia da “cadeira de
sonho”. Esse projecto embrião já está a ser posto em prática em alguns clubes e
para muitos analistas pode ser o futuro. A velocidade da internet vai aumentar,
a dinámica da TV por cabo vai ser diferente e a própria estrutura das
competições, sobretudo na Europa, poderá variar. O FC Porto, com este negocio,
afasta-se de ter qualquer poder de decisão nesse sentido até 2030. Em troca de
um excelente rendimento, diga-se, mas ninguém sabe se o que se paga hoje
pensando em 2025 será ou não suficiente nessa altura.
Há uns anos atrás para
muitos trabalhadores, se lhe dissessem que iam melhorar e depois congelar dez
anos o seu salário para números que nunca tiveram muitos talvez celebrassem mas
se calhar, dez anos depois, entre a inflação, as condições laborais e a dinámica
do mercado de trabalho muitos podem pensar que fizeram um mau negócio. O
dinheiro pago com vistas ao mundo de hoje pela Altice é fabuloso. Para o mundo
de 2020 é uma incógnita. Para 2025 ou 2028 é um ponto de interrogação ainda
maior.
Esperemos que a SAD tenha dado com o negócio perfeito e o mercado não se
altere (ou até piore) e com isso tenha salvaguardado o futuro financeiro do
Porto nesse sentido. Muitos indicadores apontam nessa direcção. Talvez não
fosse sequer possível convencer a Altice a pagar esses valores se o casamento
não fosse de longo prazo, o que é altamente provável. Mas fechar-se ao mercado
de forma definitiva por uma década é ainda uma questão que está por ver se é um
acerto, um erro ou apenas um pormenor sem relevancia na dinámica financeira do
clube.
Outro ponto importante que levanta este negócio diz respeito
à centralização dos direitos de transmissão em Portugal.
Era algo necessário,
quase fundamental para o futebol português. Algo que morreu com este negócio.
Sim, é verdade que foi o Benfica e não o Porto quem deu o primeiro passo nesse
sentido (que o Sporting imitou de imediato e entre os três sabiam perfeitamente que estes negócios levavam meses a ser tratados) mas o Benfica já era um player solitario com os jogos nas suas mãos e
quando se falava em centralizar direitos muitos temiam que o clube dos “6
milhões” seguisse sempre o seu caminho.
O Porto tinha duas vías possiveis a
seguir.
Imitar o Benfica procurando o melhor negócio possivel (neste caso,
superando-o) marcando a linha do rival ou liderar o processo de centralização a
nivel nacional, com os restantes 16 clubes a reboque (com ou sem Sporting) garantindo para si a fatia de leão dos direitos e
uma divida de gratidão e sobrevivência eterna com muitos clubes que votam nas
assembleias da liga e têm peso nas associações federativas onde a influência do
Porto tem vindo a minguar. Atrair para a MEO todos esses clubes - que se negociassem os seus direitos colectivos somariam a totalidade dos jogos que compõem os negócios dos "Grandes" - teria sido um feito sem precedentes. Com esse gesto, tanto económico como político, o FC
Porto dava um murro na mesa, isolava o Benfica (e eventualmente o Sporting) no mercado e mantinha uma boa
legião de clubes que iriam viver melhor na sua esfera de influência.
Inevitavelmente os números desse primeiro contrato seriam inferiores aos actuais
– tanto por ser um contrato sem um dos dois major players como pela natureza da
centralização de direitos, ainda que abrindo uma porta á venda ao exterior – mas também seria de menor duração e a médio prazo poderia ter sido uma jogada de mestre.
Além do mais parece-me evidente que o futebol português
precisa, cada vez mais, de uma classe média forte e que sem a centralização dos
direitos – e mais ainda com a fuga para a frente de Porto e Benfica que o
Sporting procura acompanhar mas em bastantes piores condições, vendam dois negócios como um como quiserem– essa realidade esfuma-se. Com ela
baixará, ainda mais, o nivel da Liga, o nivel da performance na Europa e,
inevitavelmente, o ranking de Portugal com as respectivas vagas na Champions
League. Na mudança do século viveu-se bem essa realidade e foi difícil dar-lhe
a volta e quando o ranking positivo dos anos 2010-14 desaparecer das contas,
haverá pouco a que Portugal se possa agarrar. Sem ter um Braga, um Maritimo, um
Guimarães, um Belenenses capazes de fazer boa figura na Europa League e um
Sporting preparado para competir, a sério, na Champions, esse cenário
complica-se. No final as fortunas embolsadas por Benfica e Porto podem, no
curto-médio prazo, ser extremamente importantes para a saúde financeira desses
dois clubes mas a centralização resolvería muitos mais problemas a longo prazo,
algo em que raramente alguém pensa em Portugal.
Negócio da China? Sem dúvida, com números espantosos.
Dúvidas sobre a longevidade do contrato? Inevitáveis, ninguém – nem o melhor
analista ou guru pode perspectivar se em cinco ou seis anos o contrato terá um
valor real de mercado.
Um golpe importante para a sustentabilidade do futebol
em Portugal, e por consequência do próprio papel do FC Porto? Incontestável.
Uma vez mais a Liga demonstrou que manda menos de pouco e que o seu papel é
cerimonial.
Os tubarões ganharam o primeiro golpe, o tubarão azul mais do que
qualquer outro!


