O director do Jornal de Negócios, Pedro Santos Guerreiro, é um conhecido comentador de assuntos económicos mas, como colunista (e benfiquista!), escreve também sobre futebol, numa coluna publicada às quintas-feiras no jornal Record.
No dia 7 de Março de 2013, numa das suas crónicas no jornal desportivo do grupo Cofina, escreveu o seguinte:
«É difícil perceber como há bancos que emprestaram tanto dinheiro a clubes que ficariam falidos. Mas assim foi, o que demonstra também incompetência desses bancos. Há muitos casos perdidos, sendo o maior deles o Sporting. Por isso se fala há muito de uma reestruturação da dívida, que é uma forma educada de dizer “perdão”. E por isso Luís Filipe Vieira saiu a terreiro dizendo que se o Sporting tiver perdão de dívida, o Benfica também quer.
Vieira é esperto que nem um alho e, para mais, tem razão: se um clube (ou uma empresa) quebra e é perdoado, então a sua má gestão é compensada, em detrimento de quem geriu sem ajudas.
Mas a reclamação de Vieira também trará água no bico: ao Benfica não caía mal uma folga da banca. O clube da Luz, além de ter o maior passivo bancário, tem também sido forçado a reduzi-lo, o que tem feito através de receitas de jogadores vendidos e através de emissão de obrigações (cujo encaixe na prática serve para pagar dívida aos bancos).»
Na passada segunda-feira, dia 2 de Setembro, o Jornal de Negócios publicou uma notícia acerca do Plano de reestruturação do Banco Comercial Português (BCP), em que é dito o seguinte:
«A Direcção Geral da Concorrência da Comissão Europeia aprovou de forma final o plano de reestruturação do Banco Comercial Português (...)
Deste modo, o BCP vai desinvestir em várias das actividades que mais imparidades provocaram nos últimos trimestres nas contas do banco, tais como empréstimos para compra de títulos, crédito fortemente alavancado, crédito à habitação bonificado histórico e crédito a certos segmentos associados a construção, clubes de futebol e promoção imobiliária.»
Três dias depois, no dia 5 de Setembro, novamente na sua crónica semanal no jornal Record, Pedro Santos Guerreiro escreveu o seguinte:
«Já aqui escrevi que, como Portugal tem de obedecer à troika, o Sporting tem de cumprir as ordens dos bancos credores. Ora até as ordens são mais ou menos as mesmas: reduzir despesa permanente e vender ativos para baixar a dívida. (...)
Já na Luz dinheiro parece não ser problema. Não porque o tenham a rodos, mas porque o mesmo banco que aperta o Sporting dá largas ao Benfica: o Banco Espírito Santo.
Esta semana, o BCP confirmou oficialmente uma notícia do “Jornal de Negócios” de há uns meses, de que vai deixar de financiar o futebol, depois das perdas acumuladas em vários clubes. Um deles foi o Sporting, onde BCP e BES foram sucessivamente forçados a reestruturar a dívida, perdendo dinheiro.
Mas o BES é gato que não se escalda. E estará a amparar tanto Luís Filipe Vieira que este afirmou, sem medo, na entrevista de há duas semanas à Benfica TV que, se fosse preciso, aumentaria a sua dívida. Foi preciso. Este ano o Benfica comprou mais do que vendeu.»
Para além de ser diretor do Jornal de Negócios, Pedro Santos Guerreiro é também colunista da Sábado, do Record, da Rádio Renascença e da RTP e comentador convidado na CNN e na Aljazeera.
Por outro lado, é alguém que já deu provas de estar bem informado acerca da situação da Banca portuguesa e, particularmente, da relação entre alguns Bancos e os clubes de futebol.
Tudo isto para dizer que os textos que reproduzi em cima são altamente preocupantes, porque são indiciadores de que pode estar em curso uma operação de perdão de dívidas selectiva, envolvendo dois dos maiores bancos portugueses e os clubes da 2ª circular. E, como é óbvio, isso é algo que tem consequências na capacidade desses dois clubes em investirem, no presente e no futuro, nas respectivas equipas de futebol. A confirmar-se, não tenho dúvidas que isto se traduzirá na maior viciação de sempre da competição futebolística em Portugal.
Isto é de outra dimensão, envolve a alta finança que circula nos corredores do poder e muitos, muitos milhões de euros (basta ter em conta o valor crescente dos passivos financeiros das SAD’s do sporting e benfica).
Segundo Pedro Santos Guerreiro, BCP e BES foram sucessivamente forçados a reestruturar a dívida do Sporting, perdendo dinheiro.
Quantos milhões de euros já foram perdoados?
Ou, se preferirem, estamos a falar de quantas contratações milionárias?
Sabe-se agora, através do benfiquista Pedro Santos Guerreiro, que o Banco Espírito Santo estará a “amparar o Benfica”.
O que significa este “amparar”?
Não se sabe ao certo mas, no imediato, permitiu que a slb SAD investisse cerca de 40 milhões de euros em 15 novas contratações para esta época, sem ter necessidade de fazer vendas significativas (encaixou menos de 15 milhões de euros em vendas e empréstimos), isto é, a slb SAD pôde investir fortemente em reforços, sem ter de se desfazer dos melhores jogadores que tinha (e tem) no seu plantel.
Mais. Graças a este “amparar” da banca, o benfica pode dar-se ao luxo de, após o fecho do mercado, ter ficado com um plantel de 31 elementos (Artur, Paulo Lopes, Oblak, Maxi Pereira, Sílvio, Luisão, Garay, Jardel, Steven Vitória, Mitrovic, Siqueira, Bruno Cortez, Matic, Enzo Pérez, Fejsa, Ruben Amorim, André Almeida, André Gomes, Gaitan, Djuricic, Sulejmani, Markovic, Salvio, Ola John, Lima, Rodrigo, Cardozo, Funes Mori, Carlos Martins, Djaló, Urreta), enquanto que o principal rival, o FC Porto, reduziu o seu para 24 elementos.
Numa altura em que há bancos a interferir na competição desportiva desta maneira, “amparando”, reestruturando pagamentos e até perdoando dívidas de milhões a uns clubes e não a outros, por onde andam os arautos da "verdade desportiva"?
Sim, eu sei que estes bancos são privados, mas recordo que a generalidade da banca portuguesa teve de recorrer a significativos apoios do Estado (12 mil milhões de euros do empréstimo da ‘Troika’ ao Estado português tinham como destino a recapitalização dos bancos) e, portanto, o próprio Estado deveria ter uma palavra a dizer.
Espero que os dirigentes do FC Porto estejam atentos e, se for caso disso, denunciem publicamente esta situação e intervenham junto das entidades competentes.
P.S. Em comunicado divulgado na CMVM, a Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD informou o mercado que registou
perdas 43,81 milhões de euros no ano fiscal compreendido entre 1 de Julho de 2012 e 30 de Junho de 2013, quando no período homólogo anterior os prejuízos tinham ascendido a
45,94 milhões de euros.
Eu sei que o Sporting tem sido governado por gente ligada aos bancos. E também sei que José Maria Ricciardi, presidente do BES Investimento, pertenceu durante muitos anos aos órgãos sociais do Sporting mas, mesmo assim, como é possível haver bancos que, ano após ano, continuam a suportar este tipo de perdas? Quem vai pagar estes sucessivos prejuízos brutais? Quando?
Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.